A Pedra de Antaris
2 Capítulo 2
Capítulo 2 – Giulia
Ele me deixou em casa em tempo de deitar na cama e fingir que estava dormindo, esperando minha mãe me chamar. Na volta, me dei conta que tinha deixado o portão aberto, mas pelo visto ninguém percebera. A cidade já estava acordando, quando entrei, o céu ainda mudava de cor: a passagem da tonalidade escura noturna para a pigmentação clara do dia compreendida em uma espécie de tom de roxo.
Se não fosse por esse casaco de couro preto que trazia o cheiro dele e o calor agradável na minha boca e testa, não teria como acreditar que foi real. Meu coração palpitava com tamanha intensidade que temi que ele me escapasse pela garganta. Deitei-me na cama e me enrolei dos pés à cabeça, pouco depois minha mãe apareceu na porta do meu quarto mandando eu levantar, ainda com voz de sono, algumas mechas de seu cabelo loiro caindo sobre sua face. Levantei com entusiasmo, estava aliviada pelo meu amor estar vivo, corri pro banheiro, escovei os dentes, tomei um banho e me vesti rápido, não comi nada, estava cheia, corri para o ponto de ônibus, onde Jefferson, meu namorado, me esperava.
Eu não gostava dele de verdade, acho que nem como amigo, mas de alguma forma, ele lembrava o homem que eu realmente amo, o meu anjo, talvez seja por eles terem gostos semelhantes, ou porque eles eram tão próximos, não faço ideia. Sempre me pego pensando no porquê de eu não terminar com ele e confessar abertamente meu amor por Ethan, penso que é porque ele nunca me pareceu (definitivamente não é) humano, nunca mostrou sentimentos, receio não ter meu afeto correspondido, mesmo depois daquele beijo (até porque fui eu que beijei ele, tecnicamente), é mais seguro manter nossa amizade certa do que um amor duvidoso. O Jeffinho é mais controlável, modelável, mas eu não sinto com ele a mesma segurança que sinto com Ethan. Com ele parece que estou com outra garota, e isso não é nada reconfortante. Ethan é meu porto seguro, sinto-me inabalável, invencível quando ele me abraça. Outro motivo para eu não terminar com o Jefferson é porque ele é um cara meio deprimido, tenho medo de como ele pode ficar se rompermos, se pode fazer alguma besteira.
Ele me deu um sorriso desajeitado e um “bom dia”. Pronto, esse era o nosso relacionamento. O ônibus chegou, nós entramos. Sentamos na mesma poltrona, eu com a cabeça apoiada na janela, observando a paisagem que passava e mudava rapidamente e imaginando onde Ethan estaria nesse momento. À nossa volta, alunos de outras escolas ouviam Funk sem fone (isso devia ser pleonasmo), o que deixava minha cabeça bastante perturbada, e foi aí que comecei a sentir falta das belas canções que tocavam nas ruas de Veneza, suspirei.
Chegamos a escola e fomos direto para nossas carteiras, calados e sem trocar olhares. Sentamos no lugar de sempre, separados por uma cadeira vazia, onde outrora ficava Ethan, nenhum outro ousava assumir aquele lugar. O clima ainda estava tenso, todo mundo quieto, tentando imaginar o paradeiro de um dos alunos mais conhecidos e respeitados da escola.
Depois que o professor de Geografia encerrou sua aula, saí de onde estava e fui sentar perto da minha melhor amiga, Alice. Ela olhou pra mim com pena, sabia que eu estava sofrendo, ela era a única que sabia sobre o meu amor platônico. Queria tanto poder contar pra ela o que aconteceu, mas sinto que seria como se eu estivesse traindo o meu amor, então só deitei a cabeça no ombro dela, aquele mesmo ombro sobre o qual eu chorara nos últimos três dias, mas dessa vez eu não chorei, não tinha por que, apenas deitei e, inevitavelmente, cochilei, até que o maldito do professor de Trigonometria entrou na sala e me despertou com a voz enjoativa dele.
Sua primeira aula passou incrivelmente devagar. Não estávamos mais aguentando, quando chegou o intervalo, nós duas corremos para o banheiro e combinamos não retornar à sala para as últimas aulas, mais alguns instantes com aquele cara e eu morderia minha língua.
Tocou o sinal, ficamos esperando no banheiro do andar de cima até que o corredor esvaziasse. Depois que todos foram para suas respectivas salas, ficamos sentadas na escada que dava para o próximo andar. Alice começou a falar coisas sobre Ethan e o meu “namoro” com o Jeff, e eu apenas assentia, meu corpo estava ali com ela, mas minha mente estava na Itália com Ethan ou onde quer que ele estivesse agora, estava distraída, por um lado cansada, por outro em êxtase, ainda não acreditando no que aconteceu. Deitei-me no colo dela e ficamos ali, conversando, até o último sinal bater. Saímos às pressas, primeiro para que ninguém nos percebesse, depois porque fazia um calor desgraçado lá na escada. Despedi-me da Alice e fui esperar o ônibus.
Cerca de dez minutos depois, Jefferson chegou lá também, quis saber onde eu estava, e, como sempre, a minha resposta foi “pra que você tem que saber?” Ele nunca dava uma resposta satisfatória, algo como “porque eu sou seu namorado”, sempre ficava em silêncio. Depois que todos que estavam à espera do ônibus subiram e se acomodaram, um aluno da antiga escola do Jeff veio importuná-lo apelidando-o e questionando sua sexualidade, e, do mesmo modo como reagia a tudo, ele ficou calado, mas perceptivelmente não estava gostando daquilo.
O garoto já estava começando a me irritar também, não me agradou vê-lo perturbando o Jeff, senti uma chama ardendo forte dentro de mim, no próximo segundo, me vi socando a face do garoto, chutando sua barriga, e ele passou o resto da viagem deitado no chão do veículo, botando sangue pelo nariz. Aquela não era eu, pelo menos eu não conhecia esse meu lado, estava cheia de segurança e autoconfiança, estava cheia dele. Fiquei esperando o motorista vir e me expulsar, mas ele não o fez, provavelmente porque já conhecia o menino de outras encrencas e já deve até ter sentido vontade de fazer a mesma coisa com ele.
A viagem seguiu com todo mundo me encarando, meio incrédulos, meio receosos. Quando paramos, fui direto para casa, nem dei tempo para o Jeff tentar me beijar. Me doía na consciência nem mesmo poder contar a ele que eu tinha beijado outro cara. Se bem que eu não lhe devia satisfação, não éramos mesmo namorados, só dizíamos ser, era como se dizer ateu e acreditar em Deus. Ou como Ethan colocaria, um “namoro de papel”, porque não passava de uma ideia, não saía do papel.
Cheguei em casa, alheia a tudo e a todos, minha cabeça estava uma bagunça, e, pra não piorar as coisas, preferi ignorar as perguntas triviais que meus pais faziam só pra puxar conversa. Devorei rapidamente o almoço, não porque estava com fome – ainda estava satisfeita da farta refeição que fiz horas atrás –, era mais pra sair logo dali, estava feliz de verdade, e os meus pais não combinavam com essa minha nova realidade.
Já no meu quarto, deitada de barriga para cima, abri o livro que tinha que ler para a aula de Literatura: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. É uma obra extraordinária, mas não estava conseguindo me concentrar, muito sono, minha mente ainda estava em conflito. Pus o livro sobre minha cabeceira e adormeci.
Meu sono foi brevemente interrompido pela súbita visão de um cara entrando pela janela. Era bonito, muito bonito, encorpado, a face marcada pela vida – o que apenas acrescentava na sua beleza –, corte militar e... Belas asas brancas. Era ele, o meu anjo, e ao mesmo tempo não era. Eu não podia dizer, parecia mais maduro, no entando mais distante da realidade humana. Ele escondia suas asas e deitava ao meu lado, visivelmente fastigado. Aquilo me sobressaltou e eu acordei, e ele estava lá, ao meu lado, já desacordado. Estava cansada demais para fazer ou dizer alguma coisa, o que me restou de energia usei para estender meu braço direito sobre seu peito e retomei o sono.
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