Capítulo 3 – Ethan

Sem exagero, aquele cochilo de duas horas foi o melhor sono que eu tive na vida. Não lembro de já ter dormido tão bem assim. Unicamente porque eu estava ao lado dela, a pessoa mais especial do mundo.

Quando acordei, eram 16 horas e pouco, ela ainda dormia. Levantei da cama e fiquei lá parado diante dela, para parecer o cara sinistro que fica observando a mocinha indefesa dormir o tempo todo, como nos filmes. Confesso que já não estava mais aguentando ficar daquele jeito, era muito chato, ainda mais quando se tem hiperatividade. Meu consolo era contemplar a criatura de beleza mais nobre e pura que a existência já concebeu.

Não sei se ela tinha sono pesado ou estava apenas descontando as noites que passou em claro, provavelmente as duas coisas. Minha mente foi invadida por pensamentos totalmente aleatórios, e nem notei, de início, quando ela acordou. Parece que também não me viu de frente para sua cama, porque olhou para os lados como que procurando alguém. Quando finalmente me percebeu, assustou-se, mas logo se recompôs.

– Então você estava mesmo aqui, não é, seu pervertido? – Disse, fingindo estar zangada.

– Espero que isso te ensine a não deixar a janela aberta. Poderia ser outro a entrar aqui – Falei, isso realmente me preocupava, mesmo que eu não acredite muito que outra pessoa poderia entrar pela janela do segundo andar com a mesma facilidade que eu. – E fica quietinha que eu sei que você gosta de me ter no seu quarto. – Disse, num tom um tanto convencido, fazendo-a corar.

– Gosto mesmo – Rebateu. Pouco depois foi se tocar da besteira que falou.

– E depois eu que sou o pervertido, né? – Ela corou ainda mais. – Hey, o que me diz de a gente sair pra fazer um lanchinho?

Um enorme sorriso tomou conta de sua face, porém uma Giulia responsável assumiu o corpo dela.

– Tipo, sumir do nada essas horas, deixar minha família preocupada, e só aparecer algumas horas depois?

– A menos que você queira ir lá na sua mãe e dizer: “mamãe, eu estou saindo pra passear em algum lugar do mundo junto de um anjo”, é. Depois você diz que foi na casa de uma amiga ou sei lá o quê... É assim que eu faço as coisas. E você nunca saiu de casa nesse horário? – Sacudiu a cabeça negativamente.

Ela ponderou e, tão subitamente quanto surgiu, a Giulia responsável foi embora, dando lugar àquela Giulia jovem e vivedora, a minha Giulia. Então ela pareceu não se conter de alegria e se jogou sobre mim, me beijando. Correspondi aos beijos, estava muito feliz. O mundo era nosso.

Depois de um rápido banho, saímos. Já estava anoitecendo, nossas roupas pretas se confundindo com o céu. Fomos o mais alto e rápido possível, o que era estranho, pois lembro que nas aulas de Física, o professor uma vez disse que se um humano alcançasse uma altura e/ou velocidade muito elevada, a pressão poderia esmagá-lo ou desintegrá-lo, mas não era isso que acontecia, era como se o ar a nossa volta nos protegesse, não sei explicar como. Giulia estava bem segura nos meus braços, seu longo cabelo preto impedindo minha visão, não que fosse algo tão relevante, já que quando estava no céu tinha um senso de localização incomum, podia dar a volta ao mundo de olhos fechados. Descemos em um beco estreito e sem saída, formado por dois prédios enormes que atravessavam o quarteirão, ligados por um muro com cerca de 2,5 metros de altura.

Já devia passar das 19 horas em Nova Iorque, caminhávamos pelas ruas, as mãos dadas, éramos só mais um casal entre tantos que também estavam por lá. Em um determinado ponto, ela jogou meu braço em volta do seu ombro e descansou a cabeça no meu peito, isso tornava a caminhada mais complicada, além de ser um tanto incômodo, mas isso já não importava. Passamos por alguns monumentos e construções que possuíam ligações com a mitologia, como a própria estátua da liberdade (que, infelizmente, só pudemos ver de longe). E eu ia contando a ela a história de cada coisa e seus construtores como um guia turístico, e pensava em voz alta sobre como as religiões influenciam e regem o mundo, de maneiras muitas vezes humanamente imperceptíveis. Ela olhava para mim com a mesma expressão que todos fazem quando me vêem falando essas coisas, provavelmente impressionada.

Após certo tempo caminhando, nossas pernas começaram a doer, então achamos melhor dar uma parada no McDonald’s. Fizemos o pedido e ficamos conversando. Em algum ponto da conversa, a comida chegou.

– Agora dá pra me explicar o que você é? – Perguntou, enquanto eu olhava para um balcão de doces.

– Eu sou humano, como você, pelo menos eu era. Agora não sei bem o que sou.

– Você é um anjo, é óbvio. Não vê as suas asas?

– Nem tudo que tem asas é anjo e nem todo anjo tem asas, alguns têm apenas a capacidade de transmitir paz e nos fazer bem – Respondi, acusando-a com o olhar. Ela deu um sorrisinho, meio sem jeito.

– Tá, se você nasceu humano, o que aconteceu para você “se transformar”?

Abri a boca para falar e ainda cheguei a emitir som, quando um sujeito armado entrou no estabelecimento anunciando assalto. Parecia que ele não tinha muito problema em mostrar o rosto. De início eu não entendi o que estava havendo, todo mundo gritando em inglês. A ficha caiu quando eu percebi o revólver na mão dele.

Senti um fogo colérico arder em mim, o ambiente ao meu redor começou a girar, minha visão escureceu, fui tomado pelo ódio. Tudo que eu via eram apenas flashes do que estava acontecendo: eu correndo com toda velocidade, as asas à mostra, uma bala disparada contra mim, as minhas asas se solidificando e me defendendo. Chutei a mão do elemento, fazendo-o derrubar a arma, bati nele para saborear, espanquei, tirei sangue, uma descarga de adrenalina. Eu ia arrancar-lhe fora o coração, se o meu braço não tivesse sido segurado por aquela mão, nada que a minha força não superasse, mas não era uma mão qualquer, Giulia me pedia para ter piedade daquele verme. Ele já estava inconsciente, levantei-o do chão com o polegar e o dedo médio comprimindo sua face e dei um último soco. Eu não sei o que me deu para poupá-lo, ele merecia morrer. Não importa, se ele sair vivo, provavelmente não vai poder roubar nem um biscoito.

Peguei Giulia nos braços e saí voando dali, minhas asas destruíram a porta. Quando voltei a mim e me dei conta do que acabara de fazer, desci naquele mesmo beco de antes e guardei minhas asas, para absorver os fatos. Sobre aquele chão sujo e molhado, onde jazia o lixo de ambos os prédios comecei a andar de um lado para outro até que senti um soco no ombro.

– Que porra foi aquela? Você nunca perde esse maldito hábito, não é mesmo? Sempre querendo bancar o herói, sempre fazendo merda – Gritou, irritada. – Ah, eu sou o Ethan e sou o Batman – Debochou, numa tentativa de imitar a minha voz.

– O que você queria que eu fizesse? Deixasse todas aquelas pessoas serem roubadas? Eu não fiz aquilo só pra ser herói, você sabe que eu odeio injustiça, e eu podendo fazer algo e não fizesse, eu que mereceria tudo aquilo – Respondi, no mesmo tom de voz que ela, embora não estivesse tão zangado.

– Ninguém merece aquilo, foi cruel. Bater naquele pobre coitado assim não te fez melhor que ele.

– A questão não é ser melhor que ninguém, nesse quesito todos os seres humanos são iguais, o mesmo lixo, eu só estava ajudando a limpar o mundo.

– Como você consegue ser tão egoísta? Você nunca parou pra pensar que aquele homem podia ter uma família, talvez estar desempregado e foi obrigado a roubar para que os filhos não morressem de fome? Pensa bem, se fosse unicamente por ambição, ele não iria assaltar o McDonald’s, mas um banco.

Aquilo me perturbou um pouco, lá no fundo, mas não podia deixar transparecer. Ela podia ter razão, mas aquilo estava errado, havia algo errado, eu só não sabia apontar onde. Mas será que eu, mesmo tendo capacidades sobre-humanas, tinha o direito de apontar o certo e o errado? Será que eu ao menos tinha noção do que é isso? Será que alguém tem?

– Ah, agora você deu pra defender bandido? Eu nunca te conheci assim. Sabe, meu avô teve vinte filhos, foi um homem financeiramente pobre, mas conseguiu cuidar dignamente de cada um deles, que hoje são pessoas honestas. Talvez aquele cara tivesse uma família e estivesse sem emprego, mas uma situação ruim não justifica um erro, aquilo que ele ia fazer não o torna superior a um ladrão. Acho mais provável que ele precisasse de dinheiro para drogas, sabia que elas existem? A vida real não é um livro, onde no fim tudo faz sentido, tudo dá certo e tudo é justificado de uma maneira bonita – Falei, numa entonação situada entre o meu cinismo e a revolta de quem perdeu a paz, largou a família e está tentando se virar ao redor do mundo. Nesse instante eu percebi que os meus sentimentos humanos não tinham me abandonado, ainda estavam em algum lugar, intrínsecos a mim.

Ela recuou, a cabeça baixa. Eu não podia culpá-la, dado tudo que sucedeu os últimos dias, sua mente devia estar confusa sobre o que é vida real e o que não é. Eu não gostava de discutir com ela, mas não ia pedir desculpas primeiro, eu estava certo. Ela abriu a boca para falar, ainda foi possível ouvir um breve som emitido por ela, mas que logo silenciou-se quando eu senti – e penso que ela também – a escuridão tomando forma, e mãos gélidas saindo das sombras e tocando meu ombro. E o vento sussurrou ao nosso ouvido:

– Vocês vêm comigo.

Então a próxima coisa que vi foi um feixe de luz que nos envolveu em uma fração de segundo e momentaneamente me cegou. Ao recobrar parcialmente a visão, vi Giulia ainda esfregando os olhos, e entre nós um jovem com um longo cabelo branco e asas que diferiam das minhas em algum aspecto – acho que eram mais sólidas. Quando minha vista se livrou dos borrões pretos que limitavam seu alcance, vi que estávamos num salão que a névoa não me permitia ver o fim, fortemente iluminado por uma luz clara esverdeada cuja fonte eu não estava encontrando, e que estaria deserto, não fosse por duas filas contrapostas de várias estátuas de seres que tinham características de pessoas e animais que levava a uma enorme cápsula de vidro rodeada por caras alados de joelho a alguns metros de distância. O recipiente continha um líquido verde claro, onde descansava – me sobressaltei e percebi que Giulia também, penso que foi quando restabeleceu o olhar – um rapaz nu que jazia desacordado, aparentava ter pouco mais que a minha idade e ser um paciente terminal de leucemia: extremamente magro, pele doentiamente pálida, aparência cadavérica, porém uma longa cabeleira de um preto outrora brilhoso, que agora se encontrava apagado.

– Curvem-se diante do Senhor Ätknar, impuros – Disse o garoto de cabelo branco, pronunciando a última palavra como se fosse o pior insulto de todos, e bateu em nossas costas com tanta força que tivemos de ajoelhar.

– Senhor-quem? – Indagou Giulia, olhando hesitante para a urna.

– Você o conhece como “Deus”.

– Deus? Esse cara? – Duvidei.

– Sim. O que você vê? – Demandou o anjo ao meu lado, como se não conseguisse ver o que eu via.

– Como assim o que eu vejo? Vejo um cara com uns dezoito anos, pelado, dentro de uma espécie de incubadora. Você não enxerga?

Ele abafou um riso arrogante.

– É um truque interessante dele. Aparece para as pessoas na forma que elas melhor o aceitam.

Quando ele disse isso, fiquei imaginando o que Giulia teria visto, provavelmente o Papai Noel sem roupa, é mais ou menos assim que a maioria das pessoas imaginam seu deus. Lembro de uma vez, quando era mais novo, que a professora pediu que desenhássemos Deus. Eu fui o único na sala que não desenhou o Bom Velhinho, representei-o como aquele moço à minha frente. Nunca fui muito religioso, mas pensava em Deus como o irmão mais velho que eu nunca tive.

– Que lugar é esse? – Giulia interrompeu meus pensamentos com uma pergunta que também assolava minha consciência.

– Ah, é verdade. Aqui é o Megicentrúcio, a morada da fé, o segundo reino – Respondeu o Cabeça Branca.

– E o que a gente tá fazendo aqui? – Continuou Giulia.

– O Senhor Ätknar precisa de vocês.

– E pra que o todo poderoso aí precisaria da ajuda da gente? – Questionei, num tom de deboche.

– Um homem de sua confiança roubou um artefato importantíssimo para seu poder.

– Você não está sendo claro – Uma voz calma ecoou pelo local, o garoto adormecido falou, não era como se a voz saísse da boca dele, ela estava em todo lugar. Havia algo diferente no seu jeito de falar, mas no momento não entendi o que era, vi que Giulia também notou. – Após a unificação dos deuses, passei a depender da fé das pessoas para me manter, e tenho atribuído a vários anjos o papel de professar os mais diversos tipos de fé, para conseguir a convicção de pessoas de todos os perfis. Outros, encarreguei de cuidar de responsabilidades maiores, como os elementos da natureza, os sentimentos, entre outras coisas pelas quais os antigos deuses eram responsáveis. Dentre todos esses encargos, dei os principais: a vida e a morte, aos meus anjos de maior confiança, Haishmael e Azhael, respectivamente, que foram os primeiros de sua espécie. Como sou constituído de fé, estou propenso a viver doente, porque a fé de todos se vê controversa, as pessoas não vivem o que seus deuses pregam, e adoram universalmente um único deus: a guerra. Sempre foi assim, na verdade. Não importa se são cristãos, ateus, muçulmanos ou Jedi, os humanos são praticantes assíduos da religião da ignorância, cuja doutrina é pautada pela intolerância, a falta de respeito e, consequentemente, a guerra – Falava sábia e articuladamente, como uma mente inimaginavelmente superior que tem observado a ação humana desde seus primórdios. Todos escutávamos calados, demonstrando um respeito que aquela voz gentil e convidativa em si impunha. Eu ainda não sei o que era mais impressionante: se era a forma como ele falava ou o fato de “Deus” conhecer Star Wars. – E praticamente todas as contendas de grande porte que entrecorrem são regidas pela fé em ideais políticos e religiosos. Já que sou formado por cada um deles, vivo em constante conflito interno. Em razão disso, regularmente sinto a necessidade de me isolar neste módulo preenchido por Ämpomo, um fuido produzido pela energia vital dos anjos, para me recuperar. Mas para isso, é necessário que eu esteja sem minha essência, ou os efeitos seriam devastadores para mim, podendo até ampliar meus problemas, então eu canalizo todo poder que a fé humana me confere para uma pedra retirada do Monte Antaris, no reino dos vivos.

– Com reino dos vivos você se refere ao nosso mundo? – Giulia o interrompeu (só ela pra fazer isso).

– Não – Falou com uma voz risonha. – Vocês não estão vivos nem mortos, o mundo de vocês, o Pelicentrúcio, serve como um mero teste, quando saírem de lá serão julgados e seus destinos ficarão definidos entre passar para o reino dos vivos, também conhecido como Heishma, que tem como principal líder Haishmael, é um lugar para os que sabem viver em paz e com amor, independente de religião; ou para o mundo dos mortos, Äzara, comandado por Azhael, lá o condenado convive com seu interior imundo, é o que mais se aproxima do inferno para algumas religiões, só que é muito mais aterrorizante, pois o condenado tem que enfrentar seu pior inimigo: ele mesmo. Mas como eu ia dizendo, é muito difícil, até mesmo para Haishmael, conseguir uma pedra de Antaris, elas são muito raras e geralmente são encontradas em uma pequena ilha de Heishma que é cheia de criaturas traiçoeiras. Elas têm um poder impressionante de armazenar energia, e depois, basta saber drená-la de volta. Sempre que entrava em estado de regeneração, confiava aos meu dois anjos de maior familiaridade a minha quarentena e a proteção da pedra. Mas na última vez que fiz isso, há pouco menos de dezessete anos humanos, Azhael estava diferente, algum tempo depois de me selar neste receptáculo, ele pegou a pedra, Haishmael tentou contê-lo, mas no fim a morte sempre consegue seduzir e vencer a vida. Ele sobrepujou o anjo que anteriormente fora seu companheiro.

– Se a pedra não for recuperada logo, o senhor Ätknar morrerá, sem sua essência que está nela, ele não é absolutamente nada e está propenso a ter um destino mortal. Com isso, Azhael tomará seu lugar – Comunicou, desesperado, o anjo de cabelo branco, quando Ätknar parou de falar.

– Já faz quase dezessete anos que essa pedra foi roubada e mesmo assim seu lugar não foi usurpado? – Tentei entender. Giulia me olhou estranhamente, como se o que eu estivesse falando fosse anormal.

– Ainda não, para que se retire o poder armazenado em uma pedra de Antaris, é preciso ser quem o colocou lá, ou que este esteja morto. Ou então que a pedra entre em contato com outra de seu tipo, dessa forma tudo que foi guardado dentro dela será expelido e transmitido para o condutor vivo mais próximo. Ainda não morri e pelo visto, Azhael não conseguiu encontrar outra pedra de Antaris, elas são de extrema raridade. Mas não posso suportar por mais tempo sem meu poder, e se o pior acontecer, ele ficará livre para assumir os dons que a rocha protege.

– Tá, e você quer que eu recupere essa rocha pra você? – Deduzi. Giulia continuava a me encarar, mas eu não compreendia o motivo.

– Exatamente, você junto de mais dois impuros – Isso que Ätknar falou me deixou pensativo, poderia haver mais pessoas como eu?

– Por que você não manda os seus anjos para fazer isso?

– Porque é uma missão homicida, e anjos puros simplesmente não podem ser mortos por anjos puros. Se bem que eu adoraria me vingar daquele verme – Falou o anjo ao meu lado e foi então que me dei conta de que aquele era o anjo da vida.

– Fora que os únicos que podem adentrar Äzara sem permissão são os impuros, assim como manda a profecia – Completou Ätknar.

– Que profecia? – Exigi.

– Eu certamente não devia tê-la mencionado, mas seria ridículo para mim depois de ter dito, ficar dando voltas e não falar, afinal, ela também diz respeito a você. Há muito, muito tempo, quando os deuses se unificaram, Pacihael, o anjo profeta veio a mim com esta profecia:

“Quando de descanso precisar

Quando nada puder fazer

Impossibilitado, não evitará

A batalha vital de acontecer

O senhor da vida se revelará

E teu artefato há de perder

Um exato septendáculo passará

O trio impuro para Äzara partirá

O leão, a águia e a coruja o destino apontará

O tesouro da águia para o lado errado cortará

No entanto este tesouro no infinito se perderá

E de uma forma ou de outra um deus ascenderá”

Nem mesmo eu pude entender o que ela dizia por completo até que começasse a se cumprir. No mesmo dia em que a pedra foi roubada, os três impuros da profecia nasceram, pudemos sentir três focos de energia distintos dos demais, no entanto, só conseguimos localizar um na época, alguns anos depois, outro, e bem em cima da hora, você. Falta pouco para que se complete o septendáculo.

– O que é isso, afinal? – Perguntei, minha cabeça nunca tinha ficado tão confusa.

– É como chamamos o período de dezessete anos, é também o tempo que dura um de nossos rituais mais intensos, a tuntändira, que é o que esses anjos à minha volta estão fazendo, utilizando de sua energia para me manter, se esse tempo exceder, não haverá salvação para mim, e os universos entrarão em desequilíbrio, não haverá como impedir a destruição de tudo que é real e do que não é. É impossível imaginar com clareza o que pode acontecer. Por isso conto com vocês, impuros, para trazerem a pedra de volta e não deixarem que isso ocorra.

– Você me chama de impuro, mas eu não sou nada disso, eu sou um adolescente normal – Gritei, tentando convencer a mim mesmo.

– Se não fosse não teria entendido as coisas que eu disse – Rebateu Ätknar, agora sem aquela peculiaridade no modo de falar, foi quando percebi que só agora ele falou em português. – Tudo o que eu falei desde que chegaram aqui e tudo que você disse para mim foi em Karhök, a língua dos anjos e dos antigos deuses. Quando você se transformou, seu cérebro passou a reagir a essa língua como idioma principal, mas eu vejo que você não tem total domínio sobre a linguagem. Faz quanto tempo desde que você adquiriu seus poderes?

– Eu não sei ao certo, descobri que estava assim semana passada, quando eu acordei no meio da madrugada com asas.

Ele ponderou por um instante e perguntou:

– Você lembra de algo estranho que ocorreu recentemente? – As palavras “algo estranho” trouxeram uma única coisa à minha cabeça.

– Na verdade, sim – Comecei, hesitante. – Sexta passada Giulia saiu da escola depois de todo mundo, não tinha mais ninguém na rua, só eu que vinha saindo de uma lanhouse perto do colégio, foi quando vi um cara pegá-la à força, acho que queria roubá-la, não sei. Corri até lá e bati muito nele, mas o sorriso do miserável alargava a cada pancada que levava, parecia que estava gostando. Comecei a ficar frustrado, quanto mais eu batia, mais ele ria, até parecia um demônio. Estava pensando em sair dali correndo com a Giulia, mas um corvo com um papel na boca desceu no meu ombro e me entregou a folha, nela tinha umas palavras que eu nunca tinha visto antes, não parecia com nenhuma língua que eu conhecesse, mas eu estava entendendo tudo, o animal fez sinal para que eu lesse. Já estava com a cabeça atordoada, balbuciei aquilo em voz alta, e o infeliz à minha frente começou a pegar fogo e se desintegrar, até que só sobrou uma esfera transparente meio bege que se jogou contra mim. O pássaro foi embora e logo em seguida a gente também.

– Isso não pode ser possível... – Gaguejou Ätknar, numa voz preocupada.

– Cara, você deve estar ficando maluco mesmo – Giulia se dirigiu a mim, cortando a fala de Ätknar. – Não tinha corvo nenhum, você só espancou o cara feito um bruto, continuou batendo nele depois de desmaiado e só parou porque eu gritei, se não fosse, tava batendo nele até agora.

– Eu não acredito que você tá defendendo um vagabundo que provavelmente queria te assediar. Você que é maluca.

– Não estou defendendo ninguém, só sou contra a violência.

– Um momento – A voz pacífica de Ätknar nos fez engolir as palavras, e sinto como se tivesse nos acalmado. – Os dois dizem a verdade, só que do seu jeito. Mas aquilo que você viu não era um corvo, é possível que tenha sido um anjo, e o papel devia conter uma oração em Karhök, que é o suficiente para destruir um anjo bastardo, como esse que estava importunando-os, quando ele pereceu, sobrou sua energia vital, que pertence a quem o matou. Eu só me pergunto quem lhe entregou essa oração.

– Espera, eu sei o que eu vi, não estou louca.

– Sim, criança, isso comprova que se tratava de um anjo se passando por um pássaro. Esse é um efeito causado pelo bater das asas de um anjo, que liberam involuntariamente um pó chamado Flacio, ele distorce a realidade para seu alvo – Quando ele falou aquilo, algumas coisas se encaixaram melhor na minha cabeça, e suspirei de alívio, isso queria dizer que aquelas pessoas em Nova Iorque não devem ter visto o que realmente aconteceu. Eu só não conseguia entender uma coisa...

– Mas por que as minhas asas não tiveram esse efeito na Giulia?

– Provavelmente ela deve ter uma certa resistência, tanto é que ela só foi ceder à força do Flacio de um puro – Antecipou-se Haishmael.

– Entendi... – Disse, tentando parecer desinteressado. – Agora se os senhores nos dão licença, a gente precisa voltar pra casa, sabe?

– Você não vai a lugar algum até recuperar a pedra – Disse Haishmael, cinicamente.

– Ah, é claro... Mas o que os faz pensar que eu, que acabei de receber essas habilidades sensacionais, podendo ir a qualquer lugar do mundo com a garota que eu amo, vou pra terra dos mortos atrás de uma pedra, correndo o risco de ficar lá para sempre?

– Awn... Que fofo! – Sussurrou Giulia do outro lado, pensando que eu não tinha escutado.

– É... Eu sabia que não seria fácil – Refletiu Ätknar. – Haishmael!

– Sim, senhor – Em uma fração insignificante de segundo, ele segurou Giulia pela cintura e a levou até onde Ätknar estava, então posicionou as duas mãos para frente, uma ao lado da outra, e uma gaiola se projetou ao redor de Giulia, prendendo-a. – Bem, se não vai fazer isso por nós, faça pela “garota que você ama”.

– Ethan! – Gritou.

– Grr... Desgraçado!

– Traga os outros, Haishmael.

– Sim, senhor – Uma fenda se abriu em um branco infinito e o engoliu, alguns segundos depois o fendimento tornou a abrir-se e de lá saiu Haishmael, uma garota com a pele de um claro tão vivo, um longo e liso cabelo áureo e olhos incrivelmente azuis, não devia ter muito mais que 1,60 de altura, ao seu lado um garoto com mais ou menos o meu tamanho, pardo, negros olhos profundos, protegidos por lentes grossas e cabelo ondulado, combinando com os olhos. Mas a maior discrepância entre eles era a quantidade de roupas, enquanto ela usava um short com suspensórios que ia até a metade das coxas bem torneadas, ele se vestia com uma calça de ginástica e um moleton, que, porém, permitia perceber um corpo musculoso por baixo.

– Ethan Markinson, esses são Isabela Gutierrez e Tomás Cardoso, eles são impuros como você, e vão te acompanhar na busca pela pedra de Antaris.

– Oi... – Os dois disseram meio desanimados em uníssono. Levantei o braço e acenei para eles, com um meio sorriso neutro, a garota sorriu largamente, e o cara manteve um ar arrogante, como se ele fosse superior.

– Vocês devem partir imediatamente, não temos tempo para desperdiçar – Precipitou Haishmael.

– Espera, você não vai nos dar nenhuma arma ou algo assim? – Indaguei.

– Vocês são suas próprias armas – Devolveu Ätknar prontamente.

– Mas como a gente vai matar um anjo? – Persisti.

– O momento certo dará sua resposta – Aquele cara já estava me irritando com aquelas respostas que não diziam coisa com coisa.

– E você vai mandar a gente sem a menor preparação, correndo o risco de morrer e você ficar de vez sem a sua pedrinha? Tô começando a pensar que isso é uma pegadinha, você não pode estar falando sério.

– O acaso vai protegê-los, a profecia dará seu veredito.

– Você fala demais, não acha? – Sussurrou ao meu pescoço com uma voz aveludada demais a mocinha, que já estava parada ao meu lado sem que eu percebesse, então notei que ela tinha um sotaque latino.

Soltei um suspiro, que poderia ser interpretado como um “tanto faz”.

– Agora vão, apressem-se, se tardarem, coisas terríveis acontecerão – Disse Haishmael, apontando para um lugar naquela sala infinita, onde se situava uma escadaria (que tenho quase certeza de não estar lá antes), cujo topo a névoa alva não me deixava enxergar.

Me dirigi às grades atrás das quais estava minha amada, ela atravessou o braço por um espaço formado por duas barras e eu segurei sua mão, preenchendo o hiato entre seus dedos com os meus.

– Eu vou te salvar, meu anjo, eu prometo, nem que eu tenha que perder os olhos pra isso – Ela sorriu, aliviada. Sabia do que eu sou capaz para manter um juramento. Uma promessa minha é como uma sentença. – E não importa que eu vá ao inferno ou o que seja, eu levo você no pensamento, e é de lá que eu vou arranjar forças para encontrar essa pedra maldita.

– Trate de voltar vivo, pra mim não fará sentido viver sem uma razão, eu nem mesmo estaria viva. Meu coração estaria batendo, meus órgão vitais funcionando, mas é você que me mantém viva. Eu te amo – Fiquei sem palavras diante disso, fora a coisa mais linda que eu já ouvi. Olhei em seus olhos tão fundo quanto nunca antes, ela aproximou a face e eu a beijei.

– Okay, vamos parar de melação e ir logo – Cortou-nos Isabela com aquele sotaque latino que me chamava a atenção, sempre tive um fraco pelo idioma hispânico.

– Você é muito barulhenta, sabia? – Tomás falou pela primeira vez desde que chegou ali, seu timbre de voz era grave, porém incrivelmente agradável.

Com muito pesar, soltei a mão de Giulia. E segui os outros dois até os degraus que pareciam infindáveis.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.