A Pedra de Antaris
1 Capítulo 1
Capítulo 1 — Ethan
Há muito já passava da meia-noite quando cheguei à porta de sua casa. Confesso que demorei um pouco para encontrá-la no escuro da madrugada, mas o importante é que estava lá. Peguei uma pedrinha no chão e atirei às cegas, vai que eu acertava a janela do quarto dela (o que eu achava pouco provável, já que 1: estava com os braços doloridos; 2: as porras daquelas pedras eram muito leves; e 3: não faziam barulho quando caíam, se é que caíam).
Talvez seja coisa do coração – ou não –, só sei que ela abriu a porta da frente alguns instantes depois, estava de camisola (e tenho que dizer que não pude evitar ficar um pouco excitado), agarrava os próprios braços, foi então que percebi que a noite estava muito fria por ali. Deu alguns passos para fora de casa, e, pela luz da lua, pude perceber marcas de um choro de dias que perdurou até o momento. Ela estreitou os olhos, espantou-se quando viu minha figura e caminhou lenta e hesitantemente até mim. A uns dez metros de distância, seus belos olhos escuros como uma noite sem luar se arregalaram naquele olhar de diamante que eu tanto amo. Apressou o passo na minha direção, agora chorando, e me abraçou com força. Eu sabia que nem mesmo as sombras enganariam os sentidos do seu coraçãozinho. Após um longo abraço, que eu queria que durasse para sempre, ela se afastou, as mãos ainda em meus ombros. No entando, permanecia com cara de choro.
- Por onde você andou, vagabundo? Sua família tá louca atrás de você. Seus pais estão te procurando em todo lugar. Sua mãe tá muito mal, chegaram uns tios seus da capital e aquele seu tio policial tá mandando equipes pra todo canto da cidade. Depois desses três dias, minha mãe tava tentando me convencer que você tinha sido estuprado e morto, bem, a ordem não ficou muito clara... Eu saí de casa pra tomar um ar, ver a lua. Faz ideia de quantas pessoas ficaram preocupadas? Eu quase morri, vou te matar, seu maldito.
“Seus pais estão te procurando em todo lugar.” Até parece que aquele inútil do meu padrasto ia ao menos mover uma palha pra me procurar. É como se eu já tivesse visto isso, a minha mãe já deve estar esquisofrênica a essas horas e ele, estirado no sofá, morto por fora e festejando por dentro. Mas isso não me importava, quando estava com a Giulia nada mais importava e ela realmente não parava de falar, então eu a abracei com muita força e beijei a sua testa, afim de expurgar toda a saudade acumulada de três dias sem ver aquela tagarela.
- Own... Tão linda, sempre sendo a minha chatinha – Falei, enfatizando o “minha”. – Fica calma, anjo. Eu tô bem. Nunca estive melhor, estive em tantos lugares, nunca me senti tão vivo. Quanto à minha família, eu realmente não tô nem aí, eram eles ou eu. Eu voltei a esse inferno só por causa de você.
Ela ficou quieta por uns instantes, como se estivesse processando tudo, então começou a socar o meu peito:
- Como pôde me deixar tão preocupada? Eu te amo, seu retardado. E não me manda ficar calma – Seu choro agora se confundia entre alívio e aflição.
- Também te amo – Tornei a beijar sua testa e me desvencilhei de seus socos. – Eu poderia passar a noite toda aqui te falando aquelas viadagens do quanto eu te amo ou de como eu procurava seu sorriso em todos os lugares, em cada ruela de Veneza, em cada lago de Londres, em como eu procurava encontrar sua silhueta apreciando a Torre Eiffel ao meu lado depois das 4:00 da manhã, em como eu queria encontrar o seu olhar no brilho da lua ou me esperando nos trilhos do trem, mas hoje tenho algo melhor pra gente.
Ela ergueu a sobrancelha, como se não acreditasse em uma palavra do que eu dizia e complementou com um olhar de “você anda usando drogas?”
- É sério – Falei. – Qual é mesmo o caminho da praia?
Ela hesitou, mas me deu a mão, e caminhamos silenciosamente até o braço de mar, enquanto isso, cobertos pelo manto da noite, cães reviravam o lixo, e as poucas casas da vizinhança quase não se deixavam ver, descansadas ao escuro da madrugada. Uma vantagem de morar perto da praia é que você pode ir até lá a pé em dez minutos. Lá, sobre a areia fria, ela tornou a erguer a sobrancelha, agora com um sorriso, que percebi que ela estava lutando para não dar.
Eu me concentrei, e de repente um par de asas tão brancas como nada já visto na terra, com uma envergadura de 4 metros surgiu atrás dos meus ombros, irradiando um brilho forte o suficiente apenas para ver o espanto em sua fisionomia.
- E eu sempre te chamei de anjo, né? – Disse num meio sorriso.
Ela deixou o queixo cair e recuou, incrédula.
- Eu venho querendo te mostrar isso há algum tempo – Menti.
- Espera, você é um anjo?
- Não quero que use esses termos para mim.
- Quer dizer que todo aquele papo de Veneza, Londres e Torre Eiffeil era sério?
- Sim, anjo. Eu estava finalmente vivendo a minha vida, andei por muitos lugares bonitos e...
- Mas, tipo – Cortou a minha fala – o que você é? De onde você veio? Mesmo depois de todos esses anos você não me falou nada... Calma, a preocupação deve estar me deixando louca, eu tô até sonhando contigo assim. Ai, meu Deus, ele deve ter morrido – E me encarou. – Você não é real.
- Ah, é? – Olhei para ela, desafiador. – Então me diz se isso não é real – E a peguei nos braços.
- Não, calma. Você não tá pensando nisso, né? – Ela tinha um certo nervosismo e empolgação na voz.
Eu apenas dei um sorriso “sem-vergonha” e alcei vôo com ela em meus braços. E num piscar de olhos, estávamos cortando a noite estrelada, falei para ela, embora não esperasse que me ouvisse:
- Não olhe para baixo.
Alguns minutos depois aterrissamos, novamente em areia fria, mas agora não se ouvia o som do mar, na verdade não se ouvia o som de nada, tudo estava muito silencioso. Não era possível ver muito ao nosso redor, já não havia os postes de luz, e nem as minhas asas, nem a deusa prateada argenteando a paisagem nos permitiam um alcance de visão abrangente.
- Cara, isso foi demais! – Ela gritou um pouco alto demais, ainda abraçada a mim. Nesse momento, ela tentou tocar a minha asa esquerda, e sua mão a atravessou.
- Elas estão intangíveis, anjo. São de energia, eu posso torná-las sólidas quando quiser, mas prefiro deixar assim.
Ela assentiu, como que para dizer que entendeu.
- Afinal, que lugar é esse? – Exigiu, tremendo de frio.
- Lembra de quando a gente se conheceu no fundamental, depois daquela nossa primeira discussão você me disse que tinha vontade de conhecer o deserto do Saara, né? Eu tava de passagem por aqui e descobri que a lua vista desse lugar é uma das mais lindas do mundo, e o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi você – Disse, enquanto tirava o casaco que estava vestindo, deixando À mostra a minha camisa do Legião Urbana, e envolvi seu corpo com ele, pra ela seria um problema estar no Saara à noite sem ao menos um casaco, mas pra mim não faria diferença. Não que eu tenha ganho uma super resistência ao frio, eu simplesmente perdi minha capacidade de sentir há muito tempo.
- Own, meu amor – E me deu um beijo na bochecha, ela com certeza estava preocupada, tanto é que ficou um pouco mais sensível. Segurei sua mão e insinuei me deitar, ela se deitou junto, e lá ficamos por mais ou menos meia hora, ela deitada sobre o meu peito, sob o pretexto de muito frio, não tinha muito o que fazer em um deserto apenas contemplar a beleza da lua, que, naquela noite, brilhava só pra nós dois.
Esvaziei minha mente, estava junto da pessoa que mais amo nesse mundo, quer dizer, a única pessoa por quem conservo o sentimento de afeição. Então lembrei que quando ela ficava preocupada não comia coisa alguma e perguntei:
- Está com fome?
Senti sua visão pesar, acho que ela tinha até esquecido da fome, passou uns momentos calada e assentiu. Segurei sua mão e levantei com ela.
- Vem, fiz um amigo muito gente boa que trabalha em um restaurante “vinte e quatro horas”.
- Espera! Onde? – Perguntou com certo desespero na voz. Não respondi, apenas segurei-a nos braços e arranquei para o céu.
Poucos minutos depois, aterrissamos em um cais veneziano, novamente o mar sussurrava em nossos ouvidos. Escondi minhas asas e a coloquei no chão.
- Bem-vinda a Veneza – Falei, a voz um tanto desinteressada, porém, os olhos cintilantes. Andamos de mãos dadas até um restaurantezinho à beira do cais, a pintura branca das paredes não estava em muito bom estado, mas pelas vozes que se ouvia ao longe, não tinha pouca gente, o dia já estava quase amanhecendo na Itália. Da porta do estabelecimento, gritei em bom italiano (se não gritasse, não adiantaria).
- Ei, Pablo. Sou eu e estou com uma amiga.
E uma voz grave e alegre respondeu de trás do balcão, também em italiano:
- Que bom que você está aqui! Ela é tão linda! Sentem-se, por favor.
E nos sentamos, encarados por alguns caras sorridentes, que pelo visto passaram a madrugada ali. A imagem por dentro era um pouco melhor que a exterior, havia vários enfeites nas paredes (talvez para suprir a carência de reboco) e a bandeira da Itália no balcão de Pablo. Giulia se concentrou nos meus olhos, provavelmente tentando não notar na aparência pouco agradável da taberna.
- Não sabia que você falava italiano.
- Você não sabe de quase nada sobre mim. Na verdade, acho que não sabe nada – Disse num tom provocante.
Ela levantou o dedo e abriu a boca, claramente procurando argumentos, mas se tocou que era verdade e não disse nada. Então percebi que essa foi a primeira vez que ela não tinha como me contestar.
- Você fala outras línguas?
- “E ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem o amor eu nada seria” – Cantei, citando Renato Russo, que citou Coríntios.
Ela semicerrou os olhos, como quem não gostasse da brincadeira. Nesse instante, Pablo apareceu com dois pratos de uma comida italiana que eu ainda descubro se é café da manhã, almoço ou janta, seja o que for, ela conseguia se redimir pela vsta pouco apresentável do lugar. Parecia que a comida já estava pronta, esperando pela gente, ele apenas esquentou e serviu. Não quisemos saber, estávamos famintos e em questão de segundos, limpamos os pratos. Despedimo-nos de Pablo, e eu fui mostrar a cidade para ela.
O sol surgindo no horizonte iluminava a cidade, permitindo que víssemos como a arquitetura de lá era bela. Em algum lugar estava tocando as mesmas canções italianas antigas que minha mãe colocava pra tocar lá em casa.
- É realmente muito bonito. Tudo aqui é lindo. – Ela exclamava a cada coisa que eu mostrava. Assistimos ao nascer do sol sobre uma pequena ponte que cortava um rio. Confesso que não me sinto bem à luz do sol. Na verdade, fico doente sob qualquer luz. Mas eu era imune a qualquer coisa se estava com ela. Então, ela acordou do transe.
- Ai, meu Deus! Já tá amanhecendo, a gente tem que voltar pra casa.
- Vai com calma, anjo. Lá no Brasil faltam algumas horas para amanhecer. A gente ainda tem algum tempo.
Ela suspirou, como que liberada de um desespero.
– Você vai voltar pra casa? – Perguntou, com medo da resposta.
- Com todas essas maravilhas para descobrir? É claro que não.
- Mas... – Ela já estava com um olhar choroso.
- Presta atenção – Levantei o queixo dela com o dedo indicador curvado. – Eu te amo, okay? De vez em quando eu volto pra te “raptar” novamente. E prometo que ainda volto pra te buscar de uma vez, cedo ou tarde.
Ela sorriu, resignada. Entendia como ninguém que nada me fazia mudar de ideia. Nem a cidade toda em alerta, nem a minha mãe passando mal, nem nada.
- Então... Qual é o nome que você está usando por aqui? – Perguntou, já ciente da minha ardilosidade.
- Luigi Di Angelo.
- Nossa, quanta criatividade, senhor Di Angelo. – Zombou ela, num perceptível ar de ironia. Caminhamos pelas ruas da cidade por mais um tempo, até que eu resolvi levá-la de volta para casa.
- Não – Contestou. – Me leva com você, vamos viajar juntos pelo mundo, aprontar bem muito.
Suspirei:
- Eu prometo que ainda vamos fazer isso. Não agora, mas ainda vamos. Tenho que ajeitar umas coisas e bem... É complicado de explicar, mas você sabe que quando eu prometo uma coisa, eu cumpro, nem que eu tenha que destruir o planeta para isso.
Ela baixou a cabeça, procurando resignar-se. Fomos até a extremidade do cais, segurei-a nos braços e voamos de volta para o nosso nem tão querido Brasil. Os primeiros raios de sol ameaçavam se revelar quando, por fim, pisamos no solo da nossa cidade.
- É melhor você se apressar, se eu bem conheço a sua rotina, daqui a pouco você tem que levantar, certo? – Ela assentiu, e eu continuei. – Eu só peço pra você não contar a ninguém que me viu, deixe que eu morra na concepção deles todos.
Ela me olhou fixamente como que perguntando “como você sabe da minha rotina?”, mas balançou a cabeça e disse:
- Tá, mas e a escola? E todo o pessoal? Não era você que vivia dizendo que queria ser médico e tudo?
- Agora eu sou o que eu quiser, anjo. A escola é cheia de regras, você sabe que eu não gosto disso. E aquelas pessoas de papel não estão preocupados comigo de verdade, logo nem vão lembrar quem sou eu, na verdade nunca souberam. Estão ocupados demais com suas festas e namoros – Então eu parei de falar, já tinha esquecido que Giulia também tinha namorado, e que não era eu. Okay que o namorado dela era um débil mental tarado que não dá a mínima pra ela, e que ela só não termina com ele por pena, que talvez eu fosse mais namorado dela que ele, mas ainda assim não me sentia bem tendo que dividi-la com outro, mesmo sendo, no meio de todo aquele circo escolar, o meu melhor amigo.
- Já decidi, não vou pra escola hoje. Vamos passar a manhã juntos em algum lugar do mundo, depois você me traz de volta, estou precisando de você – Pois é, o jeito que a gente se fala é meio supositivo, qualquer um que nos visse juntos diria que somos um casal super apaixonado.
- Você não pensa mesmo, né? – Repreendi. – Você não pode sumir misteriosamente e reaparecer, você não teria mais paz enquanto estivesse por aqui. E você vai pra escola sim, e vai agir como se nada tivesse acontecido.
- E depois eu que sou a chata... Mas aonde você vai?
- “Não procure saber aonde vou, se o meu jeito te surpreende” – Cantei. Ela inflou as bochechas, ficava puta quando eu usava uma música pra responder. – Mas saiba que aonde quer que eu vá, eu te levo comigo aqui dentro – Bati no peito esquerdo. Não era que eu realmente acreditasse que o coração é responsável por lembranças e sentimentos bons, mas ficaria um tanto estranho se eu apontasse pra cabeça. – E nunca se esqueça que agora eu sou seu anjo guardião.
Ela ficou na ponta dos pés (minha baixinha) e, pela primeira vez nessa vida, nossos lábios se tocaram em um beijo caloroso e pautado do mais puro amor. Agora era eu que tinha minhas dúvidas se aquilo era um sonho. Queria que aquele momento durasse para sempre. Então ela deslisou a face até o meu ouvido e sussurrou:
- Se cuida, te amo.
- Também te amo – Foi a única coisa que conveio responder, embora eu acredite que o que eu disse não tenha passado de um murmúrio ininteligível, mas sei que ela entendeu o que eu quis dizer, e mesmo que não entendesse, ela sabia disso.
Dei mais um beijo em sua testa e subi, voei sem rumo, enquanto lá embaixo, a pessoa que tinha o que restou dos meus sentimentos guardados consigo ainda acenava para mim.
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