A Peça Que Faltava
4 Capítulo 3 - Segredos
Notas iniciais
Genste, só recebi um review... Fiquei triste :( Vai melhorar não vai?
Nos vemos lá em baixo.
Aviso: Tem palavrão *o*
Nos vemos lá em baixo.
Aviso: Tem palavrão *o*
-Kensie-
Inspirei sentindo o cheiro da maré. A praia estava como eu gosto. Me sentei na minha toalha preferida, já estendida na areia, observando o pôr-do-sol. O céu se encontrava em tons de rosa e roxo, com algumas faixas laranjas. Parecia mágico. E o sol, se ia escondendo atrás do mar com sua tonalidade azul, fazendo com que este brilhasse. Por momentos, o mundo parou e eu fiquei observando a beleza e a tranquilidade daquele momento. Meus pés se enterravam na areia lisa e macia de uma das minhas praias predilectas. No mar, com sorrisos bobos e brincadeiras mais bobas ainda se encontravam Juliana, Vicente e Thomas. Eu e Ju nos conhecemos desde minha oitava série. Ela é da minha idade e nos conhecemos através do emprego de meu pai. A mãe da Ju, Senhora Bastos, trabalha na firma como secretária. Sempre fomos muito chegadas. É difícil encontrar alguém como ela. Sempre com seu sorriso no rosto e fazendo todo mundo rir. Vicente é o namorado dela. Conheço-o bem e somos amigos. Penso que a relação deles está de pé há pouco mais de três meses. Encontrei esses dois andando de mãos dadas à beira-mar há cerca de uma hora, com sorrisos besta e olhares envergonhadas. Com o cabelo loiro de Juliana e os olhos castanhos de Vicente acho que eles são uma gracinha. Dois idiotas apaixonados. Mais são fofos. Ok, dois idiotas fofos apaixonados. Thomas é um amigo de Vicente. Ou talvez o melhor amigo, não sei. Já o conheço há algum tempo e inclusive já tive uma queda por ele. Mais é um idiota, e um canalha. Apesar de ser bonito. Caramba… Tenho que parar de o elogiar. Nesse momento, Tom virou e me viu encarando-o. Seus olhos verdes penetraram nos meus. Ele sorriu para mim, mostrando sua boca perfeita. Imbecil. Brinca com meus sentimentos e depois quer que eu sorria? Se liga. Desviei o olhar e voltei a fitar o casalinho feliz que agora estava aos beijinhos no meio no mar. Eu até poderia ter sorrido para ele de volta. Até podia ser simpática para ele. Poderia fazer tudo isso, se não tivesse medo. Medo de cair, novamente em seus braços e medo de ser enganada, de novo.Flasback (Uma semana antes) Eu estava sentada num sofá vermelho da sala de Nicole, com uma Coca-Cola light na mão, já a meio. A sala estava escura e pouco se via, no entanto isso fazia parte do clima. A pista de dança se encontrava mesmo há minha frente e estava abarrotando. Desde garotas com vestidos compridos a garotos com cabelo rapado. Todo o tipo de pessoas. Todo o tipo de adolescentes. Mais todos com o mesmo fim: se divertir e esquecer, durante umas horas, todas as batalhas e problemas que passamos no dia-a-dia. Uma música dos LMFAO que eu não lembrava o nome estava passando e deixando a galera louca. Todo mundo dançava e rebolava. Ria e gargalhava. Também já tinha estado naquela pista, até meus sapatos começarem a magoar. Era o aniversário de Nicole, o 16º, para ser mais precisa. Voltei a ingerir um gole da minha Coca-Cola, pondo uma madeixa de meu cabelo para trás da orelha. Ju e Vicente tinham ido para um quarto e eu sabia fazer o quê. Não que me interessasse. Sorri sozinha. Estava contente pela minha Amiguinha do Peito. Saí do sofá onde estava sentada e me dirigi ao bar, para deitar a garrafa, agora vazia ao lixo. As luzes de disco e a bolha de espelhos que se encontrava no meio da sala eram as únicas luzes que a iluminavam. Deitei a garrafa no saco de lixo preto e ajeitei meu vestido azul-turquesa, justo. Margaret tinha tratado do meu visual. Ela era louca por moda e tudo o que envolvesse imagem. Nisso somos parecidas. Ao passar por aquela multidão que pulava gritava ao som da música meu estômago deu uma cambalhota e me senti enjoada. Não era claustrofóbica mas, de repente, foi como se sufocasse. Saí do meio da pista, quase correndo – a única coisa que me impediu de o fazer foram os sapatos de salto alto que eu estava usando – me dirigindo à cozinha, que ficava na segunda porta da sala. Abri a porta com força e me senti melhor logo no instante seguinte. Ali, estava muito menos gente e o cheiro a suor e a tabaco – que eu odeio – já pouco se notavam. Me sentei numa das cadeiras de madeira em volta da pequena mesa quadrangular, olhando para o teto branco. A luz era forte, bastante. Pus a mão na barriga quando esta protestou de fome. Ué, um momento fico enjoada, outro quero comer? A refeição esperaria. Uma modelo não se pode dar ao luxo de comer doces e todas essas porcarias deliciosamente gostosas e cheias de açúcar que eu amo. Mas eu dava. E no instante seguinte me arrependia, procurando a casa de banho mais próxima para … Suspirei. Pensar em meus segredos não era bom. Não quando eu não conhecia metade das duzentas pessoas que se encontravam dentro da casa grande e luxuosa de Nicole, mais todas elas me conheciam a mim. Kensie Newton, a modelo da capa de revista “The People”. A filha de um dos grandes fotógrafos munidas. A garota perfeita, com uma vida perfeita. Enganam-se. Já me sentindo melhor, me levantei. Estava ali para me divertir e dançar – ou fazer outras coisas – não para ficar presa na cozinha de meus sonhos em tons azuis e brancos, com um frigorífico e todos outros utensílios que são necessários numa cozinha. Em vez de voltar para o meio daquele compartimento abafado, onde não conhecia ninguém, — meus amigos estavam todos ocupados, ou, simplesmente, não estavam — abri a porta das traseiras que dava a para o jardim e saí. A noite estava fria e fui recebida com uma rajada de vento em meus membros e face. Rapidamente me arrependi de não ter trazido um casaco. Me aproximei mais do meio do jardim, pisando a grama que abafava o barulho de meus sapatos, observando o céu. Fiquei ali durante algum tempo, sem fazer nada; sem ter nada que fazer. Se voltasse para dentro, o mais certo era acabar fazendo alguma besteira, ou novamente maldisposta e eu, certamente, não queria isso.
No entanto, meu transe pessoal foi quebrado quando ouvi a porta ser fechada. Olhei por cima do ombro e vi Tom, com sua camisa social branca e suas calças jeans. Logo nesse momento e ao reconhecer como ele estava bonito, um sorriso surgiu em meus lábios. Ele se virou para me encarar e seus olhos se fundiram nos meus. --O que você está fazendo aqui? – perguntei. Ele se aproximou mais de mim, até ficar do meu lado. Eu e Tom tínhamos “algo” embora eu não soubesse dizer o que era verdadeiramente. E esse algo implicava beijos. Muito, muito bons. --O que você está fazendo aqui? – ele perguntou com sobrolho franzido. --Eu perguntei primeiro. – disse. Ele fez careta e eu sorri. Ele suspirou e depois perguntou: --Quer meu casaco? Deve estar com frio. Eu ia dizer que ele nem tinha casaco vestido até que vi um de cabedal preto que ele segurava na mão direita. Acenei com a cabeça. Ele pôs o casaco sobre meus ombros, sorri. Me aconcheguei mais dentro dele. Me ficava enorme, mais que se danasse. --Vim te procurar. – fez uma pausa, mexendo no cabelo castanho. Já disse que ele é bonito? – Como não vi você lá dentro, imaginei que estivesse aqui. Olhei para o chã. Não sabia se tal coisa era boa ou ruim. Apenas sabia que meu estômago estava cheio de borboletas voando de um lado para o outro. E que o céu estava lindo. Não, mentira. Ele estava lindo. Voltei a fitá-lo e me assustei com nossa proximidade. O rosto dele estava tão perto que pude sentir sua respiração na minha cara. Os olhos dele me acorrentaram, novamente. E isso estava acontecendo com frequência. Lembra dos beijos que eu referi acima? Mais um estava por vir. E eu sabia disso. Sem esperar pela minha reacção, Tom pousou a mão fria na minha cintura, o que me fez arrepiar por inteiro, e nos juntou, sem desfazer o contacto visual. E a cada segundo, sua boca ia-se aproximando da minha, enquanto minhas mãos subiam e o agarravam pelo pescoço. Quando seus lábios tocaram nos meus, eu me deixei ir. Deixei que meus dedos se embrenhassem no seu cabelo. Deixei que ele fizesse pressão sob minha cintura unindo mais os nossos corpos. Deixei que meus olhos se fechassem. Aí, me deixei levar. Não pensava em nada. As coisas estavam bem e eu me sentia bem. Bem, penso que é isso. Penso que é assim que eu me sentia. Um pouco incerta, talvez. Estávamos os dois “entretidos” naquele beijo calmo até que meu celular, que estava na minha bolsa – não sei como continuei a segurá-la – tocou. Rapidamente nos afastámos um do outro, com sorrisos cúmplices e olhares envergonhados. Abri a bolsa preta e peguei no meu celular. --Alô? --K, sou eu, o pai. Filha, vou falar muito rápido ok? Era só para avisar que daqui a meia hora pego você. Beijinhos. Ergui o sobrolho. Meia hora? Só?! Eu ia reclamar, mas ele nem deu tempo, desligou logo o celular. Suspirei e arrumei-o de novo na bolsa preta, fechando-a. Quando voltei a olhar para Tom ele já estava novamente olhando para mim. --Era meu pai. – Expliquei, sorrindo. Ele sorriu também e depois, perguntou, muito calmamente. --Então… Aonde é nós íamos? Eu sorri quase caindo no encanto dele. Era assim que eu me sentia quando estava com Tom. Encantada. Ele me prometera coisas como o fato de não fumar – isso era importante para mim – entre outros aspectos. Ele cativou minha confiança. Não que isso seja difícil. Porque quando eu confio, eu me entrego. * * * * * Abri a porta do banheiro aonde tinha ido e voltei lá para baixo, descendo as escadas. Eu e Tom tínhamos trocado mais alguns beijos até que a gente parou e foi comer qualquer coisa. Comida boa e saborosa. Muita. Como uma modelo, eu devia ser perfeita. Tinha que ser perfeita. E ficar gorda não estava na minha lista de “coisas a fazer”. Eu faço exercício – bastante – para acabar com as calorias que como. É preciso mais. Fazer mais. Apesar de dizerem que o que faço, me faz mal, eu não ligo. Afinal, essas pessoas não querem ser bonitas. Ou não precisam de ser tanto como eu sou. E por isso não me compreendem. No entanto ao descer as escadas, algo fez com que dos meus olhos caísse uma lágrima. Num dos sofás do outro lado da pista de dança, estava uma garota ruiva e um garoto de cabelo castanho se beijando. Um garoto com uma camisa social branca e calças jeans. Thomas. Meu coração bateu forte e voltei correndo para o banheiro, agora chorando. Eu sabia que não ele não era nada meu. Não tínhamos nada em concreto. Apenas pensava que podia confiar nele! Porque eu confio tanto nas pessoas? Porquê?! Tranquei a porta e me sentei no banheiro. Queria lá saber se o chão estava frio, ou se o vestido ia ficar sujo. Solucei, limpando as lágrimas que teimavam escorrer. Babaca! Idiota! Cafageste! Fiquei ali, sentada pensando no quanto eu era iludida, e na facilidade que as pessoas tinham em me magoar, em me criticar, em me deitar abaixo. Fraca. É assim que eu sou. Deixo que todos me magoem. Até eu mesma. Funguei e continuei soluçando. Mulherengo! Covarde! Canalha! Meu coração ameaçava se separar do meu corpo. Depois de algum tempo decidi que não iria falar com ele. Ia exclui-lo da minha lista de amigos. Talvez ela o tenha obrigado; talvez ele estivesse bêbado, dizia a parte do meu cérebro que não se queria afastar dele. No entanto a parte racional discordava. --Que se foda o Thomas. – murmurei baixinho. Abri a porta e saí do banheiro me controlando para não olhar para a direita. Só tinha um rumo: a porta da frente. Porque o mais certo se eu olhasse para a cara dele agora, era fazer algo que daqui a mil e quinhentos anos me viesse a arrepender. Mais vontade não me faltava. Zangada comigo, zangada com ele, zangada com o mundo, saí para abraçar a noite fria. O Honda já me esperava. Ainda bem. Não queria ficar naquela porra de festa nem mais um minuto. Falaria com Nicole depois. Ela provavelmente nem daria pela minha ausência. Abri a porta entrando no lugar do passageiro. Ignorei o olhar do meu pai. Pelo meu silêncio ele deve ter percebido que algo não corria bem, mas não perguntou. Sabia que aquela hora, eu só deveria querer uma cama quentinha e meu pijama. Não estava enganado. Porém ao olhar pelo vidro, e para a casa em tons de cinza, a última coisa que vi, fez com que me sentisse ainda pior. Thomas estava encostado à ombreira da porta de madeira. Com um cigarro. Fumando. Idiota. Naquele momento, não via a hora de chegar a casa e ir para o meu quarto. Mais em vez de me deitar em minha cama, ia abrir a segunda gaveta de minha secretária branca. E de lá, tirar um objecto que ando usando com muita frequência: o meu x-acto. Flashback off--Você não vem no mar? – alguém perguntou. Olhei para cima e me deparei com os olhos verdes, me encarando. Meu estômago se embrulhou enquanto minha boca se transformava numa linha fina. Eu não tinha a mínima vontade de falar com aquele imbecil. Tinha vindo para a praia com o objectivo de relaxar e descontrair e tê-lo ali, me encarando, com seus olhos verdes hipnotizantes e o cabelo pingando água salgada – já para não falar que ele estava sem camisa – não estava ajudando. Ignorei Tom e encarei o mar. Não tencionava dizer uma palavra. As ondas vinham e iam, arrebentando de uma forma graciosa e simultaneamente brusca. Ele não merecia minha atenção, não depois do que me tinha feito. Ele reparou que eu não respondi e que fiz de propósito para isso, e disse: --Olha aqui K – ele falou, me obrigando a olhá-lo – Eu sei que eu agi mal naquela noite, e também sei que devia ter dito a você que fumava, quando me perguntou. Mas porra, tem que me ignorar e me deixar falando para a areia?! Ainda bem que você sabe que o que fez não é correcto. E sim, vou continuar te ignorando. Talvez porque você me magoou demais, ou por seu discurso ter soado falso aos meus ouvidos. Continuei fitando as ondas. Ok, eu estava agindo que nem uma criancinha amuada e daí? Quem ia ligar? Ele fez uma pausa e depois gritou, após ver que eu não estava dando a mínima atenção para o que ele dizia ou deixava de dizer: --Quer saber?! Eu nem me arrependo nada de ter beijado aquela garota ruiva gostosa, nem de te ter mentido. E só andei com você porque você era a Kensie Newton, aquela que todos falavam. Aquela que todos queriam ter. Estou me cagando se te magoei ou não, se te menti ou não! Você não passou de um brinquedo que eu pude manipular nas minhas mãos! Foi só mais uma das minhas conquistas, só mais uma da minha lista!
Senti as lágrimas me virem aos olhos, mais tratei de as engolir. Naquele momento minha raiva era superior. Senti meu maxilar se cerrar. Me levantei de um salto e o encarei com ódio. Naquele momento, não tinha controle sobre nada. O meu corpo fervilhava. Esqueci completamente da praia e das pessoas que nos rodeavam. Tudo o que existia era eu e aquele canalha imbecil. Quem ele pensava que era para brincar com meus sentimentos?! Ele pensava que eu não ia retribuir os gritos? Estava enganado. Poderia me vir a arrepender e ainda chorar por esta briga, mas devolvia na mesma moeda. Sempre. --Quer saber Tom?! – perguntei ainda a olhá-lo nos olhos – Quem você pensa que é para brincar comigo?! Você não passa de um falso, um cafageste, um idiota! – gritei – Vai lá ter com a ruiva gostosa. To cagando quem você beija ou deixa de beijar. – disse. Meu coração sabia que eu estava mentindo. Eu sabia que estava mentindo. Mais ele merecia ouvir umas boas verdades. Nada como baixar o ego de quem o tem inflamado de mais. Um pouco de humildade não faz mal a ninguém. Principalmente a quem não a tem. --Por isso é que você saiu chorando daquela festa. – ele disse, com um sorriso cínico nos lábios. Respirei fundo. Não sabia o que estava acontecendo comigo. Só sabia que eu não controlava mais as palavras que saiam da minha boca ou os gestos. A única coisa que eu ainda poderia controlar era as lágrimas que queriam sair de meus olhos. Pegava nessa dor e transformava-a em raiva, impedindo assim que caíssem e demonstrassem o quão mal eu estava me sentindo. --Aí você se engana – menti, pondo a mão na cintura e me aproximando mais dele, com um sorriso também malicioso nos lábios – Saí chorando porque beijei um escroto e um canalha como você – gritei. Ele me olhou mais furioso do que já estava. Que foi queridinho?! Te magoei, foi? --Vai se cuidar sua puta! – gritou – Você não vale nada! NADA! Aí, minha mão totalmente descontrolada acertou na cara daquele imbecil com bastante força. Ele cambaleou para trás e colocou a mão no local onde lhe acertei o chapa. Estava espantado com o meu acto. Pudera, até eu estava! --SUA VADIA! --SEU CAFAGESTE! Vadia é aquela para quem você “dá” todas as noites! Aí ele se aproximou rápido de mais e me agarrou no braço com força. Estava doendo, mais eu não me ia queixar. No way. --ME SOLTA! – gritei, um pouco assustada com o tamanho e a agressividade dele. --E agora, docinho, quem é o cafageste? – sussurrou no meu ouvido, com um sorriso cínico, zoando com a minha cara. – Hum? Ele apertou mais. No entanto eu não ia pedir para ele parar. Meu orgulho perante ele era superior a qualquer dor que eu estivesse sentindo. --Não vai responder, queridinha?! Fiquei ainda com mais raiva dele. Foi então, que meu joelho agiu por instinto, atingindo o amiguinho dele. Thomas ficou sem equilíbrio e com um gemido de dor me soltou. Quem mandou se meter comigo? Entretanto vi ele a ser agarrado por dois adolescentes – eu já os vira antes mas não lembrava de onde – e senti outros braços fortes me agarrarem pelos ombros. Não sabia quem era, mas quem quer que fosse, apenas estava preocupado com o que Thomas poderia fazer. Nesse instante, vi Ju, se metendo no meio de nós os dois, no espaço que nos separava e com os braços esticados e olhando que para um, quer para outro gritou: --Parem, vocês os dois! Provavelmente ela e Vicente tinham visto a cena no mar. Também, não era difícil não chamara-mos a atenção. Dois doidos gritando no meio da praia, quem não repararia? Respirei fundo. Já estava mais calma. Sabia que aquela discussão tinha sido uma tremenda falta de imaturidade da minha parte. Mais também, não me arrependia nada do que lhe tinha dito. Rigorosamente nada. Afinal, verdades são para serem ditas. No entanto as lágrimas queriam escapar. Ah, não. Você chora depois, Kensie. Acaba logo e humilha esse idiota. Quando estiver no seu quarto aí você vai poder chorar o que quiser. Mais espera. Espera um pouco. --Aquela cabra é que me atacou! – gritou Thomas, me fulminando com os olhos. --Cabra é a sua mãe! – gritei também. --Vai se fuder sua vaca. Fiz um sorriso malicioso. Não ia deixar que ele, naquele momento me abalasse. Quem ia ficar humilhado era ele, não eu. Pelo menos, não dessa vez. --Com você não seria de certeza, queridinho. – respondi com a voz mais falsamente clama que consegui – Uma vez que nem pinto tem. – sorri vitoriosa. Ouvi uma risada nasalada perto do meu ouvido e descobri que quem me agarrava era Vicente. Tom, deixou de me encarar mas sua boca se transformou numa linha fina. Estava humilhado, e foi afastado pelos outros dois garotos para longe. Não que me minha auto-estima estivesse no auge. Voltei a respirar fundo, me acalmado. --Pode me largar, Vicente – disse, voltando a ser a K normal, — Não se preocupa que não mato ninguém. Ele me soltou ainda um pouco curioso quando à minha reacção. Sorri amigavelmente para ele, como um sinal de que estava todo bem e fui arrumar minhas coisas. O clima da praia tinha ficado tenso. Só queria ir embora daquele lugar. As palavras dele ainda ecoavam na minha cabeça. “Você não vale nada!” Coloquei o celular e o protector solar para dentro da bolsa de praia e pus os óculos de sol. Caso alguma lágrima escorresse do meu rosto, inventaria uma desculpa qualquer. No entanto esperava mesmo que isso não acontecesse. --Vai já embora? – ouvi Ju perguntar atrás de mim. Ela parecia preocupada. Ter uma amiga totalmente passada não deve ser nada fácil. E ela ainda não sabia de meus segredos. Não que eu lhos fosse contar. Nem a ela nem a ninguém. --É... papai ligou e quer que eu jante em casa. – menti – fica mais fácil para ele depois me levar para a empresa. — olhei para ela. – Não esquece que ele nos quer dizer algo, às nove da noite. – informei, tentando relembrar que hoje nos voltaríamos a ver. --Você tem a mínima ideia do que ele quer falar? – ela perguntou, cruzando os braços. Eu agora estava de frente para ela, a encarando nos olhos. --Deve ser algo sobre um famoso que quer fazer uma sessão com a gente. – respondi – Ou então sobre o telefonema que ele recebeu hoje, não sei – admiti. Coloquei a bolsa no ombro e virei costas. --Tem certeza que não falar sobre o que se passou? – Ju perguntou. Aquela garota me conhecia melhor que ninguém. Ela sabia que quando eu estava com problemas eu lhe contava se me sentisse à vontade e pronta para tal . --Tenho. – disse, com um sorriso. – Falamos à noite. Ela acenou e eu comecei a andar, em direcção a casa, deixando algumas lágrimas escorrerem de meus olhos. * * * * * Fechei a porta com força. Pouco me importava quem, ou se alguém estava em casa. Suspirei. Tinha vindo todo o caminho a engolir lágrimas. Meu dia não estava correndo nada bem. Respirei fundo e passei pela sala, onde, para meu azar, Sindy estava sentada vendo TV. Usava um short que mais parecia uma calcinha e uma blusa justa com um grande decote. Passava os canais da tv procurando algo que a chamasse à atenção, enquanto os olhos verdes estavam fixados na mesma. Tentei passar despercebida, sem fazer barulho ou qualquer outro ruído, pois não lhe queria dar razão para começarmos uma briga. Então, me dirigi cautelosamente até às escadas de madeira, com o objectivo de subir e ir para o meu quarto. Não queria falar com ninguém, muito menos ela, aquela metida que só me arranjava encrencas propositadamente e que se achava dona do mundo. Tudo tinha que ser da maneira dela, ou estávamos ferrados. Seu sorriso sarcástico e a forma fria como me tratava também era um dos muitos motivos para a nossa relação se basear no necessário. Também não queria ver ninguém enquanto não tivesse total controlo sobre minhas emoções. Só desejava ir para meu quarto, trancar a porta e me livrar de todas as agonias e tristezas daquele dia. No entanto meus planos não deram certo, porque ouvi uma vozinha cheia de sarcasmo e falsa amizade, se dirigindo à minha pessoa: --Vê as pessoas e nem diz u “oi”? Suspirei fechando os olhos e as mãos em punhos, magoando minha pele, e me virei para Sindy voltando a caminhar até ela, o mais rápido que consegui. Quanto mais despachasse aquilo, melhor seria para mim e para todo o mundo. Encarei-a e no seu rosto estava estampado aquele típico sorrisinho cínico que eu odiava. --Oi. – disse, seca e sem emoção. Apenas exteriormente porque por dentro emoções e sentimentos não faltavam. Alguns deles não eram muito agradáveis, talvez a maioria. Como uma bomba, parecia que, em algum momento eu perderia todo o meu auto controle e tudo o que estava armazenado há tanto tempo, explodiria. Sem mais demoras, retornei meu caminho até à escada, mas aquela vozinha voltou a me incomodar. --Ah, e é você que vai levar a Cassie ao show do idolozinho-pateta dela, o Bieber. – avisou fria, como sempre. Assenti, sem saber se ela me estava ou não observando. Cassandra, ou Cassie, a minha meia-irmã fofinha, apesar de só ter três anos, é totalmente louquinha e apaixonadinha pela super estrela de cabelo loiro e olhos castanho-avelã. É uma autêntica fã. Tem desde posters a canetas com a cara dele. E, qual não foi a loucura, quando soube que o seu futuro namorado – consoante ela – vinha aqui, ao Rio, dar um concerto antes das férias dele. Obviamente que papai e Marg deixaram, desde que ela fosse acompanhada. Não deveria haver problema, afinal, ia só ajudar Cassie a cumprir o seu sonho. Seria minha boa acção do ano. Se não estava em erro, o concerto seria daqui a dois di… --Como é que é?! – gritei, descendo os degraus que tinha subido, pousando a carteira num quanto qualquer e encarando Sindy seriamente. Ela sorriu maliciosa para mim. --Isso mesmo, queridinha. – falou irónica, enquanto mexia naquele cabelo loiro comprido, ainda sentada no sofá. – É você que vai acompanhar nossa querida maninha ao concerto Bieber daqui a dois dias. Minha boca se abriu. Não! Eu não podia ir! Não depois de amnhã! Logo no mesmo dia que a competição. --Mas, mas… Mas eu não posso! – disse, frustrada. – É no mesmo dia que a competição a solo de ginástica! – gritei, me justificando. Ela encarou as unhas e encolheu os ombros numa falta de interesse perante o assunto. Aquela louca não via que a competição era importante para mim? Que eu tinha treinado meses para aquilo? --E o que eu tenho a ver com isso? – ela perguntou – O problema é seu, não meu. Agora pára de gritar feita histérica e vai lá para cima fazer o que quer que seja que você faz quando está no seu quarto. Bati o pé com força no chão. Ao pé de Sindy, eu parecia apenas uma criança. Não por ela ser madura, mais numa discussão, geralmente, quem perde as tripas primeiro sou eu. E depois, ela está sempre se marinbando para tudo e todos. Só pensa nela e nela mesma. --Você tem que levá-la! Eu já estou ocupada com a competição e você sabe que é importante para mim. Será que custa tanto assim me fazer um favor? Você tem que ir! – disse, encarando-a mesmo fundo nos seus olhos verdes. Ela também olhou para mim, e por um segundo, eu pensei que Sindy fosse ser simpática comigo, nem que fosse por uma vez. Afinal, eu nunca tinha feito nada que a magoasse verdadeiramente, ou tinha? A única coisa que fazia com que nós não nos déssemos bem era simplesmente a nossa personalidade diferente. Ela era fria e arrogante, sempre mandando bocas e esperando que eu nunca retribuísse. Também se acha a dona no mundo e é tão egocêntrica que enjoa. É simplesmente por causa das nossas diferenças que nós não nos damos, certo? Mais estamos falando de Sindy, alguém sem um pingo de compaixão e que se sente bem consigo mesma, quando inferioriza os outros, quando os humilha. Ela se levantou de um pulo e me olhou nos olhos gritando: --Eu não vou levá-la coisa nenhuma! Tenho vida e assuntos muito mais importantes para tratar do que levar a Cassie a um showzinho bizarro que ela vai esquecer. --Tais como o quê? – perguntei irritada – Porque você não pode fazer isso por ela? Porque você não pode fazer isso por mim? Você sabe que a competição é importante para mim e que eu me esforcei muito para lá chegar, porque não cede, pelo menos uma vez?! Ela se afastou de mim um outro passo e me encarou. --Não, eu não posso ser simpática com você! Não depois do que você me fez! – gritou. Carmba eu não estava percebendo nadinha daquela discussão. E isso estava fazendo com que eu ficasse mais estressada ainda. --Então o que eu te fiz, caralho?! – perguntei, gritando – Me explica porque eu não sei! Não sei porque você me odeia tanto, porque me responde mal quando eu tento ser simpática, porque me ignora e age como se eu não existisse! Me explica de uma vez!
Após os gritos, me calei e a encarei. Estava com raiva, mas estava ansiosa para saber a resposta dela. Respirei fundo e me afastei, dando-lhe espaço. Ela não ia ficar calada. Seu orgulho era demasiado grande. Talvez me mandasse ir à merda ou tomar no cú. Era o mais certo. No entanto, pela primeira vez, Sindy me surpreendeu. Falou com voz fria e cuspia as palavras tão rápido que algumas eu não percebi. --Quer mesmo saber? Quer mesmo saber porque eu te trato como uma inútil? Como uma falhada? Porque e isso que você é. Uma fraca. E as fracas devem ser tratadas como tal. Eu sou a única que sei quem você é realmente, Kensie Newton. Sou a única que consegue ver por trás dessa cara de anjinho e desse coração bondoso. Dessa sua máscara. E ao contrário dos outros que te adoram e que pensam que você é perfeita, eu sei exactamente onde tocar para desfazer esse seu mundinho. O que dizer, ou o que mostrar, para eles deixarem de te tratar como uma princesa . – as palavras dela estavam arrepiando todo o meu corpo. Senti os pêlos se eriçarem, e a respiração faltar. Ela não podia saber. Ninguém podia saber! Ninguém! – Te odeio por voc~e ser uma falsa, que mente para todo o mundo. Mais te odeio por ter estragado minha vida. Foi você a causadora disso tudo, desse inferno em que eu vivo. Eu tinha uma vida perfeita antes de minha mãe se voltar a casar. Gosto do Peter, apesar de nunca lho ter dito. Só não gosto de você. Porque a partir do momento em que você entrou na minha vida, tudo ficou fora do sítio. – ela chorava enquanto falava, mas a voz continuava fria e repleta de ódio – Minha mãe começou a me tratar de maneira diferente, assim como minhas amigas. Todo o mundo se revoltou contra mim. E você roubou meu lugar. Eu é que devia ser perfeita! Eu é que devia ser querida, bonita e inteligente! Eu é que devia ser tratada de uma forma especial e não você! – ela estava passada. Como tinha contido tudo isso dentro dela durante todos esses anos? Porque ela nunca falou comigo? Porque nunca percebeu que eu não era perfeita e que bastava ela mudar, para o mundo mudar? – Até os meus namorados diziam que você era linda, quando eu era a namorada deles. Minhas amigas começaram a falar de você com inveja, dizendo que gostavam de ser suas amigas. Até os tabloids e as revistas fofoqueiras te preferem! Você é a Kensie Newton, a famosa modelo linda, mais era eu que devia estar no seu lugar! Você me roubou tudo, você esmagou e pisou e vomitou por cima do meu orgulho. Tudo o que eu fazia bem, você fazia melhor. Ninguém me dava o valor que eu merecia. E foi por isso que me tornei nessa puta vadia, que você também me odeia. E agora, eu quero mudar? Não. Não vou mudar. Vou continuando a ser a mesma pessoa fria e miserável. Mas sei que isso um dia vai mudar. Que, um dia, seu coração vai ficar tão fraco emocionalmente que ninguém te quererá. E eu vou estar aqui para te relembrar tudo isso. Para te esfregar na cara o quão cabra você é! O QUÃO VADIA! O QÃO ESTÚPIDA E IMPERFEITA. O QUÃO FRACA E INÚTIL! – ela gritou, com força, se aproximando de mim. Eu chorava. Finalmente sabia a causa de tanto ódio, mas não sabia se isso era bom ou mau. Talvez fosse péssimo. Sindy me odiava por eu ser aquela que ela queria ser. Uma parte de mim quis gritar contra aquelas palavras e dizer que eu não era nada daquilo que ela tinha dito que era, nem tinha feito nada daquilo que ela tinha dito que fiz. Mais outra parte queria sofrer. Queria se conformar e aceitar aquela tortura. Queria admitir que eu realmente era assim. Uma fraca e inútil. Respirei fundo e buscando o fundo do meu orgulho, menti mais uma vez, quer para mim mesma, que para a garota que estava na minha frente: --Eu não sou nada disso! Nem sei do que você está falando! A única estúpida e imbecil que eu vejo aqui É VOCÊ! --Cala essa boca sua vadia! – ela também gritou, limpando as lágrimas. --Vadia é você! --Sua puta! Estávamos tão embrenhada na nossa discussão, que nem vimos que alguém tinha entrado em casa. Que nem vimos que esse alguém se tinha agora posto no nosso meio. E que esse alguém estava farto de nossas discussões sem nexo, cheias de palavrões e ofensas horrorosas. --PAREM AS DUAS COM ISSO! – Marg gritou. Nós as duas fitámos a adulta com cabelo castanho claro que nos fulminava com o olhar. Ela estava no meio com os braços abertos, como que para evitar que nos comêssemos e começássemos uma discussão a nível físico. Bem que éramos capazes disso. As duas parámos no mesmo instante, olhando para o chão. – Estou farta dessas vossas discussões. Estou farta de chegar todo o dia cansada do trabalho e ainda ter que vos aturar! Estou farta de todos os nomes que chama uma à outra. Podem não se dar bem, mais pelo amor de Deus, isto era suposto ser uma família! Ainda bem que sabe que não é Marg. Ainda mesmo. --Qual é a causa agora?! --A Sindy/Kensie não que levar a Cassie ao show do Justin Bieber. – dissemos eu e a Sindy ao mesmo tempo. Vi Marg respirar fundo e levar a mão às têmporas. Ela devia ter tido um dia bastante complicando. Volteou a respirar fundo outra vez, até que disse, mais calma. --Querem saber? Estou farta de vos deixar impunes por tirarem a tranquilidade desse lar. Vão as duas levar a Cassie ao concerto. A Kensie fica no carro, esperando pela Sindy e pela Cassie. – ela disse, olhando para nós as duas, que a encarávamos de boca aberta. Íamos protestar, quando Marg, disse com voz ríspida. Aquela voz a que temos que obedecer ou os problemas irão ser bastante maiores. – E não se fala mais nisso. Simplesmente não quero saber o que têm ou deixam te ter para fazer. Que isso fique como lição para essas estúpidas discussões! Agora, subam imediatamente para os vossos quartos antes que eu me passe de vez e vos dê um castigo sério. Eu continuava chocada. Como? Não vou à competição? Porquê?! Como?! Isso não pode estar acontecendo. --Agora! – disse Margaret. Trinquei o lábio e me esforcei para não chorar. Andei em passo rápido, pegando a carteira e subindo as escadas até ao meu quarto. Abri a porta e rapidamente a tranquei, jogando a bolsa em qualquer lado. Estava a salvo, finalmente. No meu mundo. No único sítio onde não precisava me esconder. No único sítio em que podia ser eu. Em que pudia fazer o que quisesse. Escorreguei pela porta e envolvi os meus joelhos com os braços. Não aguentava mais. Estava no meu auge emocional.3,2,1,… A bomba de emoção explodiu. Deixei de ter controle sobre qualquer coisa que me rodeasse. As lágrimas escorriam como queriam, por onde queriam, à velocidade que queriam. Os soluços saiam sem que eu tentasse impedi-los. Sem que alguém os travasse. Ali, no chão do meu quarto em tons de branco e lilás, com uma cama perfeita, um armário, uma secretária e mas outros móveis, deitei tudo para fora. Chorei por tudo. Pela minha mãe, que me obrigava a ser assim, perfeita, fabulosa, e que me confrontava com meus defeitos de cada vez que me via; pelo meu pai que raramente estava em casa e não me dava o carinho necessário; por Margaret que me castigava; por Sindy que me odiava com o mais fundo do seu ser; por mentir aos meus amigos sobre quem e como sou e às pessoas que amo e por todo o resto. Por não ter alguém que me compreendesse verdadeiramente. Por não ter uns braços fortes que me rodeassem, dizendo que tudo ia ficar bem, que tudo se resolveria. Por não ter alguém que me fizesse rir. Por não ter alguém me amasse. Me amasse com todos os meus defeitos e virtudes, medos e euforias. Que me amasse por aquilo que e sou e não por aquilo que eu demonstro ser. Mas eu sabia que isso não seria possível. Que eu nunca contaria meus segredos a ninguém, os segredos. Chorei e continuei chorando até não ter mais lágrimas. Até meus braços e pernas ficaram doridos, por estar naquela posição há algum tempo. Me levantei, acendi a luz, e passei a mão pelo rosto, para afugentar as lágrimas ou qualquer marca que indicasse que tinha estado a chorar. Arrastei meu corpo até à secretária branca, e com a chave que estava guardada num fundo falso, abri a segunda gaveta. Rápido demais, retirei de lá o meu x-acto. Simplesmente precisava daquilo. De me libertar de toda aquela frustração. De toda aquela dor. Estava de t-shirt o que facilitava o trabalho. Peguei na lâmina com cuidado e encostei-a na parte inferior do meu pulso esquerdo, agora sobre a mesa. Sabia que não era a melhor maneira, mas era a minha maneira. A minha maneira de escapar a todo aquele sofrimento, àquela vida. Respirei fundo e tomei a coragem necessária para perfurar a minha pele com o objecto afiado. Então, cortei. Não foi muito fundo, mas o suficiente para sentir dor e uma pressão ardente naquele locar. Enquanto o fazia, palavras, emoções e imagens daquele dia passavam por minha mente. Desilusão.Você foi só mais uma da minha lista. Não passou de um brinquedo que eu pude manipular em minhas mãos. Cortei mais fundo e fui arrastando o x-acto para cada vez mais perto de mim. Devagarinho, sentia a lâmina me cortar. Tristeza.Vai se cuidar sua puta! Você não vale nada! NADA! Rejeição.Vai se foder sua vaca! Ninguém te quer! Ninguém gosta de você! Medo.Me solta! Inveja.E você roubou meu lugar. Eu é que devia ser perfeita! Eu! Solidão.E no meio de tantas pessoas, como me poderia sentir sozinha? Arfava com a dor. O corte estava profundo e sangrava. Também estava longo. As lágrimas tinham voltado. Ninguém me entendia. Ninguém sabia aquilo porque eu passava. Ninguém sabia que aquela competição era tudo porque eu tinha lutado e que para mim, era de uma importância incrível, conseguir o primeiro lugar. Ninguém sabia o que era ser rejeitada, mal tratada e não ter ninguém para te apoiar. Passei para outro corte, desta vez horizontal. Este ainda doía mais. Raiva.Fiquei ainda com mais raiva dele. Humilhação.Um dia, seu coração vai ficar tão fraco emocionalmente que ninguém te quererá. E eu vou estar aqui para te relembrar tudo isso. Para te esfregar na cara o quão cabra você é! O QUÃO VADIA! O QÃO ESTÚPIDA E IMPERFEITA. O QUÃO FRACA E INÚTIL! Continuava cortando. Sentia tudo se dissipar, me sentindo melhor. Me sentindo normal. Quase. Precisava de mais um corte. Decidi fazer uma curva. O sangue vermelho saía do furo calmamente, sem pressa. Depois teria que limpar aquilo tudo. Incompreensão.Ninguém me entende! Ninguém me entende! Dor.Perfurei a pele. Aceitação.Você não passa de uma fraca. E eu conheço a verdadeira Kensie Newton. Fraca, quebrável, sem força para lutar. Atirei a lâmina para cima da mesa. Minha mão tremia, as duas. Meu coração batia rápido e minha respiração falhava. Estava nervosa, suando. Olhei para o meu pulso, observando o que tinha feito. Poderia ter doido e custado, mas era a única maneira de me livrar disso. Dessa vida de merda. As lágrimas continuavam descendo e flutuando pelo meu rosto. Estava trémula, e precisava de um banho. Estava perdida em mim mesma, sem saber quem era ou o que fazer. Ali, me rendi a todo esse mundo miserável e injusto.
Notas finais
ESpero que tenham gostado desse capítulo. Como virão a Kensie não é perfeita e nunca será. Próxima semana deve estar publicado o próximo.
Reviews, pode ser?
Não te caem os dedos e deixam meu coração feliz.
Bieberkisses
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Bieberkisses
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