Arthur segurava o grosso e pesado livro com as duas mãos. Então o fechou. Olhou para o poço, alguns metros à sua frente. Imaginou o que mais poderia sair ou entrar naquele poço. Com a prova concreta de que tudo aquilo era real em suas mãos, ele já havia desistido de pensar que tudo aquilo fora meramente um sonho.

Será mesmo que aquilo era simplesmente um poço?

O que havia lá dentro?

Isso, ele não tentaria ver. Sabia que era muito arriscado. Ainda mais com aquela placa em vermelho e branco, alertando perigo. Que perigo era esse?

O garoto ainda tinha muitas coisas a saber, ele, nem ao menos sabia que um pouco atrás dele, seu pai o olhava cuidadosamente.

Darle Gooster desencostou da porta, virando e indo em direção à cozinha. Viu sua mulher ao lado do forno, retirando dele uma grande bandeja com um frango.

– Estou preocupado com nosso filho. — disse parado diante à mesa central. — Ele está sentado na varanda há horas.

– Deve estar se sentindo solitário, por estarmos longe da cidade — disse a Sra. Gooster indo em direção a geladeira.

– Eu sei... — Então o homem se lembrou da filha, que desde que acordou via televisão. — Mas tem que haver alguma coisa que o faça passar o tempo.

– Concordo. Mas falamos nisso depois. Agora está na hora do almoço.

ﻙﻙ

Arthur esperava pacientemente.

O horário já estava chegando. Era o início da noite.

Ele havia passado o dia todo lendo o livro e observando o poço. Agora estava em seu quarto. Sentado em sua cama. Tentando raciocinar tudo o que vira.

Ele chegara em uma parte do livro onde só se via símbolos estranhos e desenhos mau feitos. Não havia mais números, nem letras. E por isso encarava o livro, ao seu lado.

A única coisa que entendera fora o homem de patas e olhos reluzentes. O resto, parecia ser um conto de fadas, ou melhor, histórias bem elaboradas.

Ele ouviu um barulho. Então um frio lhe subiu a barriga. O abajur também estava ao seu lado. Mas a janela, aberta.

Passaram alguns segundos até que uma mão se apoiasse na janela. Lentamente, o ser estranho apareceu.

Arthur não segurou o abajur. Apenas observou o homem com patas atravessar a janela. Então olhou para sua mão, e encontrou o objeto brilhante.

A criatura parou ereta. Olhando para o menino que estava à frente. Dessa vez não parecia correr perigo. Começou a dar pequenos passos em direção ao garoto. Até que chegou aos pés da cama.

Arthur se contorceu de medo até ver a criatura estender as mãos, com o objeto que ele já conhecia.

Ele sabia o que devia fazer.

Esticou uma das mãos e pegou a pedra.

A criatura sorriu. E já dava meia-volta, quando sentiu algo lhe puxar de volta.

– Espere — falou Arthur.

A criatura olhou em seus olhos.

– O que você é?

A criatura sorriu novamente.

– Um sátiro.

– Então... — Arthur tentou prosseguir – você fala.

– Sim, aprendi a falar sua língua com... — a criatura hesitou.

– Com quem? — perguntou Arthur, seu braço aliviando a tensão.

A criatura respirou.

– Com Teelor Heetilor. — Quando olhou para o garoto sabia qual seria sua próxima pergunta. — Ainda não entenderá quem é. Antes, quem coisas mais importantes a saber.

Arthur sabia do que ele estava falando. Se o que a criatura à sua frente estava falando fosse verdade, então tudo o que ele lera também era... verdade?

O sátiro olhou para o livro ao lado do menino. Então se ajoelhou no chão, ao lado da cama.

– Sei que tem muitas respostas. Mas não posso demorar.

– Tudo bem. Mas só me responda mais uma pergunta. — Arthur sabia exatamente o que mais desejava descobrir. — Por que você sai daquele poço, todas as tardes? Para que preciso guardar isso?

O sátiro ficou paralisado. Sabia que o livro continha muita informações secretas e...

– Você é o novo guarda de Dôntila — resolveu falar. Não era orientado a confiar tão rapidamente em pessoas, mas já havia muitas coisas de que o garoto havia descoberto. — Só esteja aqui todas as tardes. Dôntila está em suas mãos e nós dependemos de você. Você é o destinado a nos... — O sátiro se interrompeu. Havia escutado algo a algum passos dali. — Preciso ir. — sussurrou, correndo de volta para o canto do quarto e saindo pela janela.

– Por que precisa ir? O que houve?

ﻙﻙ

A dois metros dali, o Sr. Gooster ouvia as vozes do filho, encostado na porta. ''O que houve?'', seu filho havia gritado.

Rapidamente ele desceu as escadas. Havia que tomar uma providência rapidamente.

Atravessando a sala, ele virou a cabeça para olhar a filha e a mulher.

– Perly, arrume a mala do seu filho.

A mulher o olhou indignada.

– O que houve?

O homem não retornou o olhar, e continuou seriamente:

– Ele vai ficar fora uns tempos.

ﻙﻙ

No dia seguinte, Arthur foi acordado bem de manhã.

– Levante Arthur — disse sua mãe.

O garoto se remexeu na cama.

– O que houve? — disse meio irritado.

– Seu pai já vai sair, se apresse e desça.

Arthur meio sem entender o que sua mãe falava, levantou cama e agarrado ao seu livro desceu as escadas. Não entendia o por quê de estar acordado àquela hora da manhã, se passara pelo quarto da irmã e vira ela dormindo.

A Sra. Gooster o esperava na sala. Ela lhe deu um beijo e lhe pôs um grosso casaco.

– Está frio — disse ela. — Agora vá. Siga seu pai. Ele já deve estar chegando no carro.

Arthur atravessou a extensa trilha no meio da floresta e chegou ao carro do pai na estrada. Abriu a porta e deitou no banco do carro.

Ele olhou para o pai no banco do motorista, que estava em silêncio.

– Para onde vamos.

O Sr. Gooster ligou o motor.

– Já, já você saberá.

ﻙﻙ

Arthur havia sonhado com o sátiro. Mas quando acordou, se lembrava parcialmente do sonho.

Seu pai chamava seu nome, e, assim que sentou no banco, ele lhe entregou uma mala.

– Saia rápido. Já estou atrasado para a Conferência de Astrologia.

Arthur abriu a porta do carro, e assim que pois os dois pés em solo, ouviu o barulho do motor do carro ficar cada vez mais distante.

Onde estou?, ele se perguntou. Então viu um garoto, do mesmo tamanho, vir em sua direção.

A sua visão se ajustou à alta claridade e ele percebeu que estava em uma larga calçada cheia de casas.

O outro menino que tinha um rosto familiar logo parou à sua frente. Arthur o reconhecia. Então olhou em volta. Do outro lado da rua, havia mais garotos do mesmo tamanho, parados, conversando.

Aquilo só podia ser um sonho.

Ele tentou se lembrar do que havia acontecido. Se lembrou do pai no banco do motorista, da mãe lhe dando um beijo, e do sátiro. Do sátiro que apareceu em seu sonho.

''Só esteja aqui todas as tardes. Dôntila está em suas mãos'', havia dito o sátiro.

Então Arthur segurou com mais força seu livro e olhou para a cara sorridente do garoto à sua frente. Então começou a entrar em pânico.

– Eu devia estar em casa.