O pai de Arthur e Melissa procurava uma nova casa. Estava cansado da dura e velha rotina da cidade e queria uma casa no campo, longe de todas as complicações. Para ele era óbvio que a casa deveria ter um sótão, e com janela, para que pudesse olhar o céu mais nitidamente com seu telescópio, continuando a exercer seu trabalho de astrônomo.

Mesmo que esse trabalho fosse cansativo, o Sr. Gooster jamais deixaria de procurar a pedra – que ele acreditava ser mágica – que um dia viera do espaço parar em sua mão. Ela era brilhante como uma estrela e não seria tocada por ele até que acabassem os seus estudos, comprovando a ela algo de sobrenatural.

Só que um dia a pedra se perdeu, e mesmo que o homem tão esperançoso com a pedra virasse sua casa de ponta cabeça, não encontraria o objeto, ele realmente não estava mais lá.

Depois de alguns meses de procura, achou uma bela casa de madeira. Tinha uma pequena escada de três degraus que dava acesso à varanda, que ficava sob um telhado, e envolta por grades, também de madeira.

O Sr. Gooster havia ficado admirado com a casa e com o ambiente. O som da brisa que passava e chacoalhava as folhas verdes e amarelas das árvores era o melhor.

Numa sexta-feira, o Sr. Gooster iria acetar as papeladas com os antigos moradores da casa a qual iria comprar, e Arthur insistira para ir junto, queria conhecer a nova casa. Melissa queria ficar em casa, não aprovava a ideia de se mudarem do lugar onde nasceu e morou por toda sua ainda pequena vida.

No caminho Arthur também ficou encantado com tamanha beleza. Olhava para a água como um rato olha para um queijo.

­­— Esse é o Golfo de Bótnia — disse o Sr. Gooster — Não é magnífico?

Arthur assentiu, com vontade de tirar uma foto panorâmica do local.

O carro continuou seguindo o caminho, virou numa estrada por entre a floresta, fez algumas curvas, e em um certo momento parou. Estava na hora de descer.

Ambos desceram do carro, e seguindo o pai, Arthur entrou por uma trilha. Viu castores, pássaros e ao longo um guaxinim.

O caminho não era muito longo, levaram no máximo três minutos até acharem a casa. Tinha um carro estacionado ao lado com o porta-malas aberto e cheio de sacolas. À porta da casa, estava uma mulher, acenando para os dois.

O Sr. Gooster entrou e pediu para que Arthur ficasse ali fora, o esperando. O filho atendeu ao seu pedido e sentou na escada, nem chegando a pisar na varanda. Então ouviu alguns berros vindos da casa, e a curiosidade subiu pelo pescoço.

Olhou para trás. Não viu nada nem ninguém. Nem se quer um móvel. Com certeza aquela família estava de mudança. Olhou para os lados, e não conseguiu decifrar de onde vinha o barulho. Viu apenas um esquilo, na verdade, mais um esquilo, aquela região parecia ser infestada desses bichinhos. Os dois se olharam, e o esquilo correu para os fundos da casa.

Arthur ficou animado com o animal e correu atrás dele. Não sabia para onde estavam indo, mas aquilo não foi preocupação para ele naquele momento.

O menino parou, pensando que o esquilo fosse entrar floresta adentro, mas, ele nem sequer pensou nessa possibilidade. Empurrou uma de ferro, e subiu na borda de um poço. Então jogou a noz que estava em sua boca dentro do buraco, e depois, para a surpresa do garoto, também acabou se jogando. Arthur leu a placa presa na porta de ferro: CUIDADO, NÃO ENTRE!

Que perigo poderia ter um simples poço?, pensou. Mas essa não era a sua única dúvida, mas também o que havia acontecia com o pobre ou talvez maluco esquilo.

Nisso percebeu que os berros ficavam cada vez mais próximos:

— Não pai, por favor! Não quero ir! Não posso ir! — berrou alguém dentro da casa, provavelmente um menino.

— Já falei filho, esqueça! Amigos imaginários não existem de verdade! — gritou um homem, abrindo a porta dos fundos.

Quando Arthur percebeu, se escondeu do lado da casa.

— Mas ele é de verdade pai! Acredita em mim!

— Tá bom, acredito em você — falou o homem, indo para o outro lado da casa.

Arthur olhou de volta. O homem não estava mais lá, mas o garoto abria a porta de ferro. E agora, apoiava os braços na borda do poço, olhando para o fundo do buraco.

— Arthur! — o menino reconheceu aquela voz, era do seu pai.

Ele pode ver o garoto tirando os braços da borda e olhando para trás, mas quando olhou em sua direção, não estava mais lá. Corria em busca de encontrar seu pai enquanto pensava: Por favor, que aquele garoto também não se jogue no fundo do poço!

ﻙﻙ

No dia seguinte a antiga família que ali morava já havia desocupado a casa, e no mesmo dia a nova família já chegava para ocupá-la.

Agora a animação de Arthur se transformava em enjoo. A casa era um pouco assustadora – até mesmo porque estava sem móveis, o que o fazia se sentir sozinho ao subir as escadas. Não tinha o mesmo movimento da cidade e as mesmas companhias a não ser que fossem seus pais e sua velha e nova irmã, as pessoas que via todo dia.

Arthur rodava pela casa para conhecer os cômodos, e acabara de entrar em um quarto. Chegou até a janela e do segundo andar olhou para baixo, vendo seus pais arrastarem todas as coisas do carro estacionado até a sala.

Ele voltou ao corredor e reparou que uma corda balançava na sua frente, havia se despendido de um gancho na parede. Curioso, puxou a corda presa ao teto e uma escada foi descendo e se esticado aos poucos, até que ponta se encostasse em seus pés.

Olhou para cima e viu que a escada dava a uma abertura quadrado no teto. Sótão, pensou.

Estava indeciso a subir, embora estivesse no final da tarde, o lugar estava escuro.

— Arthur — disse Melissa, do andar de baixo.

Após a chamada, ficou mais confiado de que nada poderia acontecer, havia pessoas por perto. Então subiu.

Aquele parecia ser o único lugar da casa com móveis, bem, móveis velhos e sujos, mas ainda móveis. Cadeiras, mesas, baú, tudo que se vê normalmente em sótãos ali jaziam.

A cada passo que Arthur dava o chão grunhia. Só havia uma fonte de luz, que entrada pela janela, do mesmo formato do quarto do andar de baixo, só que aquela janela, dava para os fundos da casa. Arthur a empurrou e se colocar a cabeça para fora, olhou para baixo.

Um homem andava na direção da casa. Um homem esquisito, seria um ladrão? Não, ali, se havia casas, eram muito poucas; não havia nem lugar para sair um ladrão. Arthur estranhou. A porta do poço estava aberta, e o homem parecia ter saído de lá. E o que seria aquilo, uma espécie de túnel?

O garoto aceitou a ideia de ser algum vizinho a fim de dar boas-vindas aos novos moradores. Virou e observou o lugar. Não era tão sombrio quanto imaginava. Aliás, tinha várias coisas de garoto. Bonecos, carrinhos e cadernos ao lado de vários lápis de cor.

Foi até uma das mesas, a menos empoeirada de todas. Sobre a mesa estava uma caneta e Arthur definiu o outro objeto como um caderno de anotações, por não ter a palavra DIÁRIO escrita na capa.

Ele abriu, e leu o que estava escrito na primeira página:

Tifs x Rudgers

Bons Maus

Para cada nome havia o desenho de uma criatura estranha.

Já iria virar a página quando as telhas fizeram um barulho. Então começaram a se mover, fazendo um espaço entre elas.

Em seguida o chão também começou a grunhir, como se alguém desse passos ali dentro.

Então Arthur fechou o caderno e se preparou para descer, mas antes que pudesse dar um passo algo extraordinário aconteceu. Bem, foi muito rápido, não sei se ele poderia explicar tudo direitinho como aconteceu.

Ele sentiu uma de suas mãos pesada, e olhou para baixo, agora estava segurando algo muito brilhante! Não entendeu o que havia acontecido, mas continuou andou, agora mais rápido. De alguma forma começou a escutar vozes e olhou para o lado.

— Ainda bem que te encontrei! — falou a imagem de uma criatura de outro mundo, que apareceu em um milésimo de segundo.

— Aaaa... — Arthur não conseguiu terminar de gritar, pois a mão da criatura tampou a sua boca, fazendo-o bater no que provavelmente seria o braço dela – a julgar que era metade homem – e sair correndo escada abaixo. Ele esbarrou na sua irmã e entrou no quarto em que minutos atrás estava, ignorando o chamado de Melissa.

Bateu a porta e aos poucos foi sentando no chão impedindo que ela se abrisse. Jogou a pedra luminosa no chão, e olhou para o livro em sua mão então se lembrou de já ter visto aquela criatura. Abriu o livro na primeira página e lá estava ela.

E de repente algum grito surgiu no corredor. Sua irmã. Ele havia fugido da criatura mas sabia lá o que poderia ter acontecido com ela. Uma garotinha indefesa. Arthur abriu a porta e saiu em disparada atrás da irmã. Chegou até o alçapão e nada viu, a não ser a sua irmã correndo escada abaixo, e nada de criatura.

— Ah! Um rato!

Então olhou para o livro em suas mãos e na primeira página viu a criatura em forma de desenho. Parecida com um homem, mas com patas e olhos verdes reluzentes. Então leu ao lado. Tifs. Bons.

ﻙﻙ

A casa já estava arrumada, quer dizer, com todos os móveis dentro dela, quando todos da casa acordaram. Arthur tinha escolhido para dormir o quarto que tinha sido seu refúgio no dia anterior. Mau conseguira dormir. Ainda pensava na criatura.

Já estava mais tranquilo com a situação. Tif, pensava ele, criatura boa. Mas se havia uma criatura boa, era mais que certo que havia uma criatura ruim. Pensou no que mais poderia sair daquele poço, mas tentou não pensar mais nisso. Pegou o livro do sótão e começou a ler, página por página.

Aquilo falava sobre várias coisas de outro mundo, mas nesse ponto, não deixava de acreditar em nada.

Continuou sentado na cama, com o livro aberto. Então a janela se abriu, e uma mão surgiu, uma grande mão. Ele pensou em se esconder, mas o que estava ali era muito rápido. A criatura pulou a janela e rapidamente correu para o meio do quarto. O garoto já ia levantar, quando percebeu que havia um abajur na cabeceira ao lado. Pegou o objeto, mas percebeu que o ser que estava à sua frente, não procurava por ele.

A criatura olhava para o chão, de um lado para o outro. Então olhou para debaixo da cama, e correu para perto de Arthur, que se preparou para jogar o abajur. Ele foi para debaixo da cama e voltou rapidamente, com algo brilhante nas mãos. Arthur se lembrou daquilo, a pedra que ele havia lhe entregue no dia anterior. Os olhos da criatura olharam para o abajur, esperando o impacto.

Arthur abaixou o braço, mudando de ideia.

— Tif? — disse ele. A criatura mexeu a cabeça, em afirmação. E logo em seguida, correu para o canto do quarto, e saiu pela janela.

Notas finais
Obrigado por ler até aqui! Comente e mande sugestões ou críticas, elas são muito importantes para a fic. Muito bom ver que vocês curtindo. s2