A Passageira
2 Capítulo II
15 de julho de 1994 — Anson/Maine
O som da chaleira apitando me obrigou a abrir os olhos. O relógio marcava oito e meia da manhã, e ainda havia gente em casa. O quarto estava escuro, embora houvessem feches de luz que entravam pelas frestas da pequena janela acima da escrivaninha. Tirei as meias dos pés e caminhei até a porta. O barulho lá fora era grande, o que me deixava certa de que as paredes eram grossas o bastante para evitar sons desagradáveis. Jimmy estava carregando caixas grandes e as empilhando em frente a cozinha. Lyra terminava de por a mesa do café sobre uma toalha bordada que ela usava em ocasiões muitos especiais, como minha chegada, por exemplo. Ela abriu aquele grande sorriso quando me viu. Tentei retribuí-lo.
– Bom dia Molly, eu fiz torradas, tem geleia e chá. Se quiser posso fazer panquecas.
– Não, eu gosto de torradas, e o chá parece bom — disse com um breve sorriso. Me sentei na cadeira ao lado dela e tentei evitar contato visual. Ela então começou a conversar comigo.
– Sabe querida, a escola de vocês é linda. Passei lá hoje pela manhã, quando voltava do mercado — disse ela — Tem uma quadra muito grande na lateral, não é quadra, como chama mesmo Jimmy?
– Arena — respondeu ele com a boca cheia de geleia.
– Isso mesmo, arena — ela limpou o canto da boca dele — Eu começo meu trabalho na sexta. Farei os plantões noturnos no hospital do condado, portanto terão que aprender a dormir sozinhos.
– Tudo bem, eu sei me virar sozinha.
– Não Molly, não sabe. Joey conseguiu a transferência, e vai continuar trabalhando com o Sr. Raymond na empreiteira, mas na cidade vizinha. Ele já foi trabalhar, voltará na hora do almoço e vamos terminar de arrumar a casa. — ela deu um último gole no chá e um leve tapinha nas minhas costas — E eu vou ao banco. Vocês dois, terminem de arrumar suas coisas. Volto antes do meio dia — deu um último beijo em nós dois, pegou a bolsa e as chaves e saiu.
Naquele dia eu me dediquei á arrumar as coisas. Abri os armários e deixei que o ar da manhã entrasse no cômodo. Era bom ter um quarto só para mim. A sala era muito bonita, a cozinha também. Os três quartos tinham banheiros, e o meu tinha uma banheira rosa de louça, muito bonita. Guardei minhas roupas, sapatos e coisas pessoais. No meio das minhas roupas, um papel quadradinho caiu no chão. Quando o apanhei de volta notei que era uma foto dos meus pais. Faziam meses que eu não à via. Mamãe era muito bonita. Tinha grandes cabelos cacheados, castanhos como os olhos. E ela tinha muitas sardas, como eu. Papai era bem alto, cabelos loiros e olhos azuis. Uma barba por fazer enfeitava o rosto branco, pálido. Eu estava no colo dele. Um cisquinho de cabelos loiros e rosto repleto de pintas. Questionei se eles me amavam. Guardei a foto novamente dentro do bolso de uma camiseta polo. Com certeza eu esqueceria que ela estava lá. Alguém bateu na porta. Na segunda batida, decidi ir ver, já que Jimmy não deu sinal de vida. Na terceira batida eu abri a porta abruptamente. Era um casal e algumas meninas.
– Bom dia nova vizinha — disse a mulher empolgada — Viemos dar-lhes boas vindas.
Pensei um pouco antes de falar mas acabei respondendo o que me veio em mente.
– Quem são vocês?
Ela escondeu o sorriso.
– Somos a família Fletcher, e vocês devem ser o Gerritsen.
– Sim, somos — respondi à um passo de fechar a porta.
– Bem, trouxemos esse bolo como sinal de boa vizinhança.
Ri internamente. Como uma mulher podia ser tão estúpida ao ponto de trazer a família toda para encher o saco na porta dos outros. Jimmy tomou a dianteira.
– Ah, muito obrigado senhora?
– Kim, pode me chamar de Kim — ela sorriu — Esse é meu marido Steve, e nossos filhos, Karla, Cissa e Tony — ela disse dando abertura para as crianças atrás deles. Uma garota de uns dezoito anos, morena de olhos azuis, a outra devia ter a minha idade com a mesma aparência da outra, e o garoto podia ter seus dezesseis, dezessete anos, com enormes olhos azuis e um sorriso tímido, muito bonito — Moramos no apartamento seis, segundo andar.
– É um prazer, eu sou o Jimmy, e ela é minha irmã Molly. Nossos pais não estão agora, mas eu aviso a eles que passaram aqui, muito obrigado — Jimmy concluiu se despedindo e fechando a porta. Ele era igual a mãe, extremamente prestativo.
– Porque você é sempre tão grossa Molly?
– Porque eu não tenho obrigação de ser simpática — falei com um sorriso irônico — Gostou das garotas né — ri.
– Jimmy não respondeu, apenas deixou o bolo na mesa e saiu. Ele parecia tão distante as vezes, tão emotivo. Ele estudava muito, e queria ser médico igual a mãe. Ela era cardiologista, e o pai era engenheiro. Lyra me contou que se conheceram quando Joey foi fazer o orçamento da casa dela. Por volta de onze da manhã eu não tinha mais nada para fazer. Jimmy estava trancado no quarto, ouvindo música. Não daria por minha falta. Coloquei short e sapatos confortáveis. Deixei a porta da frente fechada, porém não trancada. O corredor era escuro, apesar das luzes e da própria luz do dia. O chão de madeira fazia um barulho chato e insistente. Os andares eram em formato de "T". Na ponta principal não tinham apartamentos, somente o elevador e vasos com flores dando cor ao azul morto do lugar. O nosso era do lado esquerdo, ao lado do doze e de frente para o quinze. Quem seriam os moradores atrás daquelas portas? O Sr. Clean morava no quarto andar, e a família buscapé morava no segundo. As escadas eram de mármore, mas eles pareciam soltos, o que me levou a optar pelo elevador. Ele dava direção ao térreo, e ao quarto andar. Quando chegou, não havia ninguém. Apertei o primeiro botão, que desceu sem paradas até abrir no corredor da recepção. O balcão estava vazio e o telefone tocava insistentemente. Quando ele parou de tocar, um outro começou a implorar para ser atendido. O som vinha da escada.
Caminhei devagar, evitando fazer barulho no chão de madeira. Ao fim do corredor toquei o interruptor, que, novamente, tremulou e acendeu, dando visão á um novo lance de escadas. Desci devagar os degraus de metal até que o som finalizou. Aquela altura eu estava no meio do escuro e tateei as paredes á procura de luz. Não encontrei nada. Quando dei um passo á frente, dei de encontro com uma porta. Uma porta no meio de uma escada? Um esbarrão e ela se abriu. Uma sala iluminada surgiu do meio do escuro. Haviam enormes prateleiras de metal, com muitas pastas, papéis empilhados. Uma mesa de metal no meio do espaço chamava a atenção com um telefone sobre ela. Ele tocou novamente. Olhei para trás em busca de alguém que estivesse vindo para onde eu estava mais não havia ninguém. Então mais uma vez o ímpeto tomou conta de mim e eu tirei o fone do gancho. Não consegui proferir nenhuma palavra, e a ligação chiada deu lugar á uma voz feminina do outro lado da linha:
– Alô? Tem alguém aí? Eu preciso falar com Terrish – por algum motivo minhas mãos tremiam — Terrish é você?
Desliguei o telefone rapidamente e saí. Bati a porta atrás de mim e me virei para subir as escadas quando senti uma mão tocar meus ombro. Uma corrente elétrica correu por todo meu sistema nervoso. Suprimi um grito e me virei tao devagar quanto uma preguiça.
– Você não deveria estar aqui — sussurrou uma voz bem próxima ao meu ouvido. Eu estava em sérios problemas.
– Me .. me desculpe — balbuciei evitando o choro que já enchia minhas pálpebras. Uma luz invadiu o espaço entre mim e meu suposto problema. Uma lanterna.
– Então vamos sair daqui antes que o velho Winter veja você.
Não falei nada, apenas segui o homem para fora. Quando estávamos no corredor da recepção eu pude ver com clareza quem era. Ele era alto, tinha lindos olhos claros, cabelos escuros e uma barba bonita. Usava uma camiseta dos Bulls e uma calça jeans. Não parecia tão assustador agora.
– Quem é você? — ele perguntou colocando a lanterna no balcão.
– Mo .. Molly — minha voz saiu falhada.
– Muito bem Molly, eu sou o Tate — ele sorriu — Você é nova aqui, com certeza.
– Sou, eu me mudei ontem, com a minha família — falei me sentando no degrau na escada. Céus como ele era lindo.
– Ah sim, sabe Molly, o Winter não gosta que desçam as escadas. Ele não diz porque, mas com certeza sua mãe ou pai assinaram uma clausula onde estão terminantemente proibidos de descer. Eu assinei.
– Mas porque, o que tem lá além de papéis?
– Eu não sei, prefiro ficar curioso — ele riu e se sentou ao meu lado — Você tem quantos anos Molly?
Pensei por alguns segundos. Se eu dissesse que tinha quinze ele jamais se aproximaria de mim, me veria como uma criança.
– Dezoito — menti
– Parece bem mais nova, é bom parecer mais novo.
– E você Tate? — forcei a situação — Tem quantos anos?
– Longos vinte e oito.
– Uau, mas você está bem para sua idade, muito bem — deixei escapar sem pensar — Quero dizer .. é .. você mora com sua família?
Ele riu e abaixou a cabeça.
– Não, eu moro sozinho. Você estuda?
– Sim, eu estou no último ano, e você?
– Sou fotógrafo, não estudo mais.
– Eu amo fotografia, eu comecei um curso, mas nunca terminei.
– Isso é muito legal, se quiser conversar um dia, ou ver fotos, tirar fotos, que seja, pode me procurar. Apartamento dezoito, quarto andar.
Meu coração disparou. Ele havia me convidado para ir no apartamento dele. Concordei timidamente com a cabeça. No momento seguinte a porta da frente se abriu e Lyra entrou junto com Joey. Me levantei rapidamente e corri na direção deles. Tate se levantou também e pareceu meio confuso.
– Mamãe, papai, esse é o Tate — falei completamente sem graça, tentando quebrar o gelo da situação — Tate, esses são meus pais — completei. Lyra pareceu não ouvir nada do que eu disse. Ela permanecia perplexa, olhando nos meus olhos. Então notei que pela primeira vez em dois anos, eu os havia chamado de pais.
– É um prazer conhecê-lo — disse Joey com um aperto de mão. Eles teriam quase a mesma idade.
– Eu digo o mesmo. Bem, eu só estava conversando com ela, sobre o lugar, a cidade e tudo mais.
Joey assentiu e me olhou como se esperasse uma confirmação. Eu apenas sorri. Eles se despediram e subiram as escadas. Lyra me deu duas sacolas do mercado e acompanhou o marido, dizendo como estava feliz, e perguntando se ele tinha ouvido o mesmo que ela. Ele estava mais preocupado em me ver conversando com um cara tão mais velho. Voltei alguns degraus e acenei para Tate.
– Obrigada por me salvar — ri — A propósito, quem é Terrish?
– Terrish? — perguntou ele com um ar confuso — Como conhece esse nome?
– Eu não sei, eu devo ter visto por ai — menti — porque?
– Não nada — ele tossiu um pouco — Terrish era uma moça, que morou aqui uns anos. Ela morou no apartamento treze até .. até morrer. É só o que eu sei.
Estremeci. Alguém havia morrido no meu apartamento. A voz de Joey gritando meu nome me chamou a realidade e eu dei um último adeus e subi as escadas correndo o mais rápido possível. Eu precisava saber mais sobre tudo aquilo.
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