A Passageira
3 Capítulo III
15 de julho de 1994 — Anson/Maine
– Você tem ideia de quantos anos aquele cara pode ter Molly? Tem ideia de que você tem quinze, quinze anos, e não conhece a cidade, muito menos o prédio? Você entende isso? — gritava Joey tão próximo de mim que eu sentia calafrios. Lyra interveio.
– Joey, ela não fez nada de mais, só estava conversando e tamb ..
– Não Lyra, não — ele gritou com ela. Me senti mal por ser minha culpa e entrei no meio.
– Joey, não grite com ela, a culpa é minha, eu sei, mas eu só estava conversando com ele.
– Sabe o que caras como ele querem com garotas como você? Preciso dizer Molly?
– Eu não sou criança, sei o que devo ou não fazer — disse me levantando e indo para o quarto. Joey me segurou pelo braço, forte o suficiente para deixar marcas.
– Não quero pensar em vê-la novamente com um cara que não conhece quando não há ninguém por perto. Ouviu?
Me mantive em silêncio.
– Você me ouviu? — concluiu ele apertando ainda mais meus braços que já sentiam a falta de circulação sanguínea. Assenti com a cabeça e ele me deixou ir. Corri para o quarto e tranquei a porta, me jogando na cama sem qualquer intenção de voltar a sair de lá.
De dentro do meu quarto não era possível ouvir qualquer som vindo da cozinha ou da sala, o que me levou a crer que não houvessem mais discussões. Em todo aquele tempo que estive com os Gerritsen, Joey jamais havia gritado comigo, nem uma vez sequer, e a reação agressiva daquele dia me deixou certa de que ele gostava de mim e se preocupava com meu bem-estar. Afundei a cabeça nos travesseiros e deixei que minha mente vagasse por um tempo. Meus pensamentos correram rapidamente até as lembranças de Tate. Em minha adolescência eu nunca tive tempo de parar para gostar de alguém ou me apaixonar, portanto eu não sabia como era sentir borboletas no estômago ou sentir as penas bambearem, mas eu sabia que ele era especial de uma forma inexplicável. Ele tinha provavelmente a idade da minha mãe, dois anos mais novo que meu pai, e eu por um momento queria beijá-lo como se não houvesse amanhã. Apaguei a ideia tola e me concentrei em algo maior. Terrish. Quem era ela? Porque o telefone de uma jovem morta há anos estava naquela sala? Porque alguém ainda procurava por ela? Uma batida leve na porta me tirou a atenção e me levou de volta a realidade. Lyra me chamava. Levantei devagar e destranquei a porta, voltando para a cama em seguida.
– Eu queria saber como você está, e queria me desculpar pelo Joey, ele teve seus motivos querida.
– Motivos? Ele me machucou Lyra, olha — falei apontando para o braço com marcas roxas de dedos.
– Sinto muito, quer que eu passe um unguento e enfaixe? — sugeriu ela se sentando ao meu lado.
– Não, eu estou bem, só não entendi o porque de tudo isso, eu só estava conversando com o Tate, ele é legal, mora sozinho no andar de cima.
Lyra arregalou os olhos e segurou minhas mãos.
– Não diga isso de jeito nenhum ao seu pai, ele vai ficar ainda mais irritado e nervoso — amenizou a expressão — Querida vou te contar uma coisa, e ficará apenas entre nós duas, tudo bem?
Assenti.
– Molly, seu pai é filho de um militar e uma dona de casa. Ele teve uma única irmã, mais nova que ele. Ela se chamava Andy. As vezes, Andy saía com as amigas e voltava tarde da noite com Joey em se encalço. Ele tratava ela como uma filha, sempre aparando, cuidando e se dedicando ao máximo — ela deu um forte suspiro e prosseguiu — Quando ela fez quatorze anos, ela começou a namorar um cabo, subordinado ao pai deles, um moço que parecia bom, mas bem mais velho que ela. Eles namoraram por meses, e um dia saíram para a praia. Era quase noite e não haviam voltado, quando Joey foi atrás deles. Molly .. ele matou a Andy, com um rifle de caça. O seu pai ficou louco, desesperado. Ele só tinha dezessete anos — falou ela com os olhos cheios de lágrimas. Uma pontada de culpa atingiu meu peito — Por isso tanto cuidado com você querida. Ele já perdeu uma vez a garota da vida dele, e agora sente medo de perder uma outra vez.
– Acho que posso reconsiderar tudo isso — falei abraçando-a em seguida.
Durante uma semana, desci por várias vezes no térreo e passeei pelo prédio em busca de Tate. Tomei coragem inúmeras vezes para bater na porta de seu apartamento, mas no segundo decisivo eu desistia. Numa determinada tarde de sexta, eu bati na porta e ouvi passos se aproximando. O nervoso foi tão crítico que eu corri e me escondi atrás do enorme vaso de tulipas. Ele saiu, olhou dos lados e voltou para dentro. Como eu desejava falar com ele uma outra vez.
No domingo, os Gerritsen saíram para tomar sorvete no parque. Escolhi um vestido fino, de algodão azul com pequenas patinhas de cachorro, uma sandália de fita muito bonita, presente de Lyra. Os cabelos presos num coque, deixavam á mostra as sardas que se dispunham até os ombros. Nós fomos a pé até o parque, o que foi bom, porque estava um dia muito bonito e o calor do verão estava fazendo o seu trabalho. Sentamos num banco grande de madeira, em frente uma bela fonte. Crianças corriam por todo o lugar, o que indicava ser um local bem familiar. Joey e Jimmy disputavam quem terminava o sorvete primeiro, e Lyra ria muito com aquilo. Eu, inevitavelmente ria junto com ela. Resolvi que queria tentar ser mais aberta com eles. Me ofereci para ir comprar para nós duas e ela aceitou. Caminhei até o outro lado do parque e parei na banca de doces.
– Dois de chocolate por favor — falei para a atendente. Enquanto esperava pelos sorvetes meus olhos correram para o outro lado do parque, e eu encontrei o que tanto procurava. Tate. Paguei e fui até ele, olhando para os lados á procura de Joey. Nada à vista.
Enquanto eu caminhava, pensava no que diria a ele, se é que havia algo para dizer. Parei ao lado do banco em que ele estava sentado e esperei que ele me visse. Durante o meio segundo que levou para que eu fosse notada, meu coração trabalhava a todo vapor. Em seguida ele abriu um belo sorriso.
– Molly, faz tempo que não te vejo — disse ele dando espaço para que eu me sentasse. Olhei em volta e julguei ter alguns minutos até que dessem por minha falta.
– Bem, eu ainda estou atarefada com a mudança. Pintamos o apartamento todo essa semana — disse oferecendo o sorvete para ele.
– Não obrigado. Pintando? Que legal, gosta de pintura também?
– Gosto, bem, na verdade eu nunca pintei nada, além de uma parede do meu quarto — rimos juntos.
– Você é sempre bonita assim ou é porquê está na luz? — ele riu.
– Eu não sei.
– Bem, eu sei.
Meus olhos se fixaram nos dele e me senti um pouco acuada.
– Tenho que ir agora, minha mãe vai se preocupar.
– Não a deixe esperando — ele sorriu — A propósito, espero não ter causado problemas aquele dia.
– Não causou, está tudo bem.
– Certo, apareça mais vezes, eu sempre estou precisando conversar com alguém.
– Ok.
E foi assim que meu domingo se tornou o mais belo possível.
Na segunda de manhã, Lyra me disse que Joey teria que viajar para Haikeri, cidade vizinha, e voltaria na quarta pela manhã. Era a última semana de férias, e naquela terça iríamos conhecer a escola antes do início das aulas. O meu uniforme era horrível. Uma calça de tecido mole, roxa, e uma camiseta de algodão branca com o emblema escolar bordado também em roxo. Eu seria obrigada a usar tênis de caminhada. Às nove da noite Jimmy já estava dormindo, e eu estava completamente sem sono. Decidi que era hora de fazer o que eu sentia vontade. Vesti uma blusa e saí apenas com meias nos pés. Tomei o elevador até o quarto andar. Os segundos foram imensos até que o fino apito deu abertura ao novo lugar. Caminhei devagar até a porta do apartamento dezoito e bati na porta. Esperei um tempo e ninguém veio abrir.
– Menina idiota, acha que ele está em casa esperando por você? — pensei comigo mesma enquanto me virava para ir embora. Após dois passos a porta se abriu. Me virei tentando esconder o sorriso de felicidade. Quando voltei-me para a porta, uma mulher estava lá. Foi um choque tremendo para mim quando ela perguntou o que eu queria. Os longos cabelos loiros beiravam a cintura, e ela usava um vestido curto, curto demais até para mim. Pensei muito rápido e criei a melhor e pior mentira do mundo.
– Eu queria falar com a Lisa — sussurrei. Ela arqueou uma sobrancelha.
– Lisa? Acho que bateu no apartamento errado queridinha.
– Ah, tudo bem, me desculpe, sou nova aqui.
– Eu entendo — ela me analisou de baixo á cima — Não deveria andar de meias por ai — sorriu e fechou a porta.
Eu estava devastada, mas era óbvio. Um cara como ele jamais se importaria em querer dar atenção para uma simples menina como eu. Ela era mulher para ele, eu não passava de uma criança. Voltei imediatamente para o elevador. Quando ele chegou haviam dois caras lá dentro. Entrei e me mantive quieta o suficiente para não me deixar aparecer. Eles sorriram para mim. O mais velho perguntou se estava tudo bem. Concordei com a cabeça.
– Eu sou o Klaus, e esse é o David, moramos no terceiro andar, apartamento quinze, se precisar de algo — o outro me disse.
– Tudo bem, eu sou a Molly — disse com uma voz meio chorosa. Deixei que saíssem e fui atrás. No meio do corredor eles entrelaçaram os dedos e eu entendi que não devia temê-los. Em casa, dediquei minha noite ao choro e o lamento da perda de minha primeira paixão.
Na terça de manhã, fomos para a escola conhecer o ambiente. Para variar, eu odiei o lugar. Os presidentes de turma e membros do conselho estudantil nos receberam bem, mas eles pareciam disputar quem nos agarraria para seu clube primeiro. Na minha lista de treinamento assinalei as opções que desejava: Atletismo na área de Educação Física, Teatro na área de Escolha Vocacional, e Química na área de Estudos Adicionais. Lyra queria que eu escolhesse matemática, mas eu preferi mexer com coisas que pudessem explodir. Jimmy optou por Estudos Avançados de Inglês, entrou para os Matletas e para o Ping-Pong. Achei bem idiota, mas o tipo dele. Voltamos pouco depois do almoço, mas preferi não comer. Me deitei e dormi a tarde toda, acordando somente às sete com Lyra me chamando para dizer que estava indo trabalhar. Era nossa última noite sozinhos, e Joey voltaria na quarta pela manhã. Por voltas das dez eu estava sem um pingo de sono e fui para a sala ver televisão.
O canal da CBS exibia uma série da década de oitenta chamada The Cleveland's, que tratava de três irmãos vivendo em Vegas com a herança dos pais, até que o dinheiro acaba. Era uma espécie de comédia dramática bem chata e eu optei por ver um filme. O único interessante era um thriller francês, chamado "La Mariée de Vamp". Eu o peguei do meio para o final, e pouco entendi, mas se tratava de uma menina que se apaixona por um cara e descobre que ele é um vampiro. No fim os dois morrem. Era em torno de meia noite quando decidi que deveria ir dormir. Me deitei na cama mas não encontrava modo de me acomodar. Resolvi virar a cama de lugar e deixá-la na transversal. Longos minutos depois eu acordei com um barulho irritante que parecia vir de dentro da parede. Me levantei e acendi a luz. O papel de parede estava com uma trinca na altura da cabeceira da cama. Toquei o lugar e parecia úmido. Puxei uma pequena ponta dele e logo pude notar que haviam escritos por trás dele e da antiga parede amarela. Logos algumas letras surgiram e formaram algo que rapidamente assimilei.
– Terrish — sussurrei — "Terrish 011080"- estremeci no momento em que algo tombou do outro lado da porta. Suprimi o grito e corri para fora do quarto. Caí nos braços de Jimmy em pânico total.
– Jimmy, me ajude, tem alguém lá, tem alguém aqui Jimmy — sussurrei.
– Calma Molly, calma — disse brutalmente. Ele caminhou até o quarto e empurrou a porta — Molly, não há nada aqui, porque virou sua cama?
– O que? — perguntei incrédula. Arrisquei uma olhada para dentro do quarto e não havia nada. O papel de parede estava intacto, e a não existia umidade ou qualquer barulho. Minha cabeça girava e eu mal podia pensar — Jimmy, eu não quero ficar aqui sozinha.
– Não fique. O quarto da mamãe está vazio.
Naquela noite não preguei os olhos um minuto sequer. Pela manhã meus olhos estavam pesados e as olheiras entregavam a noite mal dormida. Joey chegou as dez em ponto e nos levou para almoçar enquanto Lyra dormia. Na volta, ele seguiu para o trabalho com Jimmy e me deixou em casa. No corredor da recepção perdi um tempo observando a escada e deixando os pensamentos tomarem conta da minha mente. Uma voz conhecida e suave me chamou da terra dos sonhos, de volta ao Maine.
– Alguém aí? — brincou Tate estalando os dedos em frente aos meus olhos.
– Hã, ah sim, olá — disse voltando meu olhar para longe do dele.
– Tudo bem?
– Sim, e com você? — falei seguindo para o elevador.
– Acho que sim, só estou cansado.
– Oh, então sua namorada fez bem o serviço.
– Namorada? — respondeu ele confuso — Ah não, ela .. bem, ela não é minha namorada.
– Tudo bem Tate, sem explicações, não devemos nada um ao outro.
– Espere, o que houve Molly?
– O que houve? Nada, deveria haver algo? — sorri ironicamente e entre no elevador — Se me der licença.
Quando a porta se fechou me senti uma idiota. Que besteira, falar uma coisa totalmente sem sentido como aquela. Patética. Durante a tarde Lyra foi caminhar e eu resolvi limpar meu quarto e lavar meu banheiro. O som alto me distraiu e levou meus pensamentos ruins embora. A quarta se estendeu normalmente, a quinta, a sexta e o sábado foram comuns e não houve nada de especial. No domingo almoçamos fora e o jantar foi pizza. Jimmy estava muito empolgado com o início das aulas e falava nisso o tempo todo. Por volta das nove todos estavam dormindo, e Lyra foi me dar um beijo de boa noite. Por fim estava tudo bem, bem do meu jeito. Ótimo por fora e um caos por dentro.
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