A Passageira
1 Capítulo I
12 de julho de 1994 — Pittsburgh/Pensilvânia
– Molly, eu lamento que tenhamos que fazer isso, ainda mais num dia como esse, sei que está sendo duro para você mas ..
– Tudo bem senhora Gerritsen, eu compreendo que todo esse tumulto seja por minha causa e lamento pela má escolha de me adotar.
– Não repita isso Molly, eu jamais me arrependeria de tentar lhe dar uma nova vida, mas preciso que entenda o que está acontecendo e que me ajude a ajudá-la.
Lyra se sentou na cama ao lado da mala. Os olhos estavam marejados e a voz trêmula entregava o choro iminente. Ela parecia me adorar, e suportava bem o meu jeito mandão, determinado e tempestuoso. Batalhara por meses na justiça por minha guarda e adoção, e agora estava mais uma vez tentando me salvar. Era uma espécie de carma.
– Para onde vamos mesmo? — indaguei tentando não demonstrar a emoção do momento.
– Anson, no Maine. Seu pai conseguiu um bom apartamento e você vai ter um quarto só seu, sem precisar dividir o banheiro com o Jimmy.
– Ótimo — conclui grosseiramente.
Ela suspirou fundo, me deu um beijo na testa e saiu. Quando a porta bateu eu desabei. O que estava acontecendo com a minha vida? Cinco anos antes eu estava perdendo meus pais num acidente de avião. Eu nem ao menos pude enterrá-los pois não haviam corpo para por em um caixão. Eu tive que comparecer á uma cerimônia simbólica e tensa, com pouco mais de cinco pessoas. Nós não tínhamos amigos, portanto estiveram naquele fim de tarde na igreja, eu, minha babá, o namorado dela, uma mulher que eu jamais soube quem era e o pastor. Só havíamos nós para lamentar a morte prematura dos meus pais. Tudo na minha vida sempre foi fora do lugar. Eu, por exemplo, nasci de um namoro breve, de seis meses, de uma menina de dezoito anos e um cara de vinte. Minha mãe se chamava Trisha Kitter, e meu pai se chamava Abraham Lewis. Pouco sei sobre eles. Mamãe era estudante, e amava literatura. Meu pai era fotógrafo, e eles tinham alugado um quarto nos fundos de uma senhorinha de idade quando eu nasci. Não me lembro de como foram os primeiros anos, mas depois de um tempo mudamos para a casa da frente e eu nunca mais vi a dona do lugar. Acho que ela morreu. Quando fiz nove anos, nós mudamos para um rancho no outro lado da cidade, e mamãe ficou grávida. Nasci e vivi até os dez anos em Falls Creek, na Pensilvânia. Quando meus pais morreram, minha mãe estava grávida de seis meses, e meu irmão teria nascido no mesmo mês que eu, outubro. Eu fui enviada então para um abrigo de crianças em Pittsburgh, e permaneci lá por um bom tempo. Até que um casal me adotou.
Durante os anos que estive lá, me tornei o mais fechada possível, e minhas notas sempre foram péssimas. Quando Lyra e Joey me levaram para casa, me trataram com todo amor e carinho e eu dividia tudo com o filho deles, Jimmy. Nunca consegui chamá-los de mãe, pai, ou irmão. Não sei ser carinhosa ou boa com eles, apesar de amá-los. Sou completamente grata por ela ter tido compaixão de mim, e queria demonstrar isso, mas ao invés, eu estava fazendo com que ela mudasse totalmente a vida da família, me levando para o lado mais abrupto do país na esperança de melhora. Jimmy é quieto, é parecido com a mãe, ruivos de olhos claros. Joey é loiro de olhos claros e todos acham que eu sou filha deles. Eles compraram um apartamento, arrumaram novos empregos e já matricularam nós dois na escola mais próxima. Tudo estava pronto.
Guardei meu último jeans na mala e me deitei na cama. As malas de Jimmy estavam encostadas na porta do banheiro junto com um vestido de festa e um terno. Eram para o baile da escola no fim do ano, no qual não iríamos. As vezes penso que estraguei toda a adolescência dele.
– Molly, estamos descendo, mamãe disse que você estava aqui, e que não estava bem, eu queria saber como você é .. está — balbuciou Jimmy.
– Estou bem, eu só estou cansada — sorri fraco — Vamos levar essas malas?
Ele assentiu, pegou minhas malas e desceu. Eu apanhei uma jaqueta jeans e uma bolsa de couro, branca. Dei uma última olhada no quarto, apenas com as duas camas e o enorme armário. O carpete manchado de tinta, o papel de parede riscado. Afastei os pensamentos e desci. As escadas em formato de caracol, desvendavam uma sala vazia, onde o som dos sapatos de Lyra batendo na madeira reproduzia um eco forte. Ela me olhou e sorriu. Os olhos dela transmitiam uma paz que eu jamais havia sentido. Fui para o carro e me acomodei no banco de trás. O utilitário preto era bem espaçoso e o ar condicionado ajudava a amenizar o calor das férias de junho.
Foram dois dias de viagem, com um parada em um pequeno hotel na ponte Pilks, no estado de Vermont. Era cerca de onze da noite quando avistamos a placa de 'Bem Vindos ao Maine' e logo depois o pequeno aviso da cidade de Anson, com pouco mais de quinze mil habitantes. Rodamos. No caminho Lyra havia dito que o apartamento fora sido comprado com mobília, portanto levaríamos somente as coisas pequenas e pertences pessoais. O lugar era um tanto, estranho quanto peculiar. O edifício parecia ter três, quatro andares no máximo. Tinha uma pintura fosca, um azul celeste com manchas de limo nas laterais, que era iluminadas por lâmpadas brancas incandescentes. As luzes vermelhas e amarelas indicavam a garagem e uma porta de duas aberturas estava bem á minha frente. Tomei a dianteira e entrei. Um sino tocou assim que empurrei a porta, dando vista a um corredor enorme, com dois elevadores, e uma escadaria escura que dava para baixo. Alguém pigarreou e eu me dirigi para um balcão antigo, de madeira fina e cobertura de fuligem de sal.
– Boa noite, eu e minha família chegamos — falei em tom baixo, mas imperativo. O homem me analisou por algum tempo. Devia ter seus cinquenta anos, olhos claros, usava um boné e um macacão sujo de graxa.
– Qual o nome da sua família? — ele retrucou
– Gerritsen!
O sorriso dele era angular, meio forçado, como se quisesse ser simpático, sem saber como. Lyra entrou no momento seguinte. Eu me atentei em observar o lugar, enquanto ela falava com o homem e os rapazes traziam meia duzia de caixas e as malas. As paredes cinzas apresentavam algumas trincas, e a tapeçaria que recobria metade do chão estava manchada. Haviam dois elevadores, dispostos frente a frente. Um deles ia do um ao dois, o outro do dois ao quatro. Nós éramos donos do apartamento 13, no terceiro andar. Caminhei até o quase fim do corredor que apresentava uma escada escura em sua extremidade. Toquei o interruptor que tremulou e depois acendeu, dando ponte a um novo lance de escadas. Um som estranho, de água pingando em água, ecoou pelo corredor. Me assustei e apaguei a luz. Voltei para a recepção, onde Jimmy me esperava na ponta da escada que levava para o andar de cima.
– Mamãe mandou eu te esperar, para irmos de escada — ele tossiu um pouco — Ela não quer que usemos o elevador sem supervisão dela.
Ri. Não disse uma única palavra e me voltei para o elevador. Apertei o número três na placa ao lado das porta e esperei que chegasse.
– Molly por favor, estamos cansados, ela vai brigar comigo — disse ele.
– Venha comigo então — conclui assim que as portas se abriram. Entrei e não vi sinal de Jimmy atrás de mim, então, deixei fechar a porta. No segundo andar houve uma parada. Eu estava olhando para o espelho quando a porta se abriu e um homem entrou. Ele arqueou a sobrancelha mas não questionou nada. Depois de uns dois ou três segundos, ele me perguntou se eu estava visitando alguém.
– Não, eu me mudei hoje com a minha .. família. Na verdade chegamos agora, sou a Molly — respondi normalmente. Ele se mostrou um pouco surpreso, como se não acreditasse que alguém mais quisesse morar ali.
– Molly .. Eu sou o Clean, moro com a minha filha, Aubrey, vocês devem ter a mesma idade — disse ele. O elevador deu um pequeno tranco e parou. Era meu andar.
– Não se assuste, ele sempre faz isso — concluiu ele. Virei-me uma última vez e ele continuava me olhando. Virei o corredor e avistei Jimmy.
– Onde você estava? — indagou ela assim que me aproximei.
– Testando o elevador — falei e entrei imediatamente. O apartamento era grande. A sala era maior que a nossa e naquele dia foi a única coisa que eu vi, antes de abrir uma porta que estava com a minha mala em frente e me jogar na cama, deixando todos os pensamentos do lado de fora.
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