A Palavra - Guerra e Morte
4 Capítulo 4 - Chama da Noite
Notas iniciais
Davi corria apressadamente para fugir de alguns Perversos que o encontraram no caminho para o Centro Comercial, que ficava no meio do Reino. O livro sagrado que Bills, o velho do Pântano dera era a chave para a cura de todo aquele desespero, e o garoto era o único que deveria levá-lo para o Reino e proferir as palavras dos anjos. Mas os Perversos também sabiam disso, e para qualquer lugar que o garoto fosse, havia centenas à espera dele. Perdera o cavalo, e gastava muito tempo correndo e parando para respirar, mesmo com o livro guardado, aqueles monstros ainda sentiam sua presença.
Enfim, numa noite, Davi havia finalmente achado sossego. Ainda estava longe do Centro Comercial. Levaria mais ou menos uns quatro ou cinco dias para lá á cavalo, já a pé... E o garoto não encontrara um mísero cavalo pelo caminho, correra tanto desde que se separara dos seus amigos que havia vários calos em seus pés. Ele acendera uma lanterna, pois uma fogueira chamaria muita atenção, e abriu o livro. Havia muitas escrituras nele, mas para a sorte de Davi, seus pais o ensinaram aquela linguagem, era mais um motivo para ele carregar aquele livro. Pelo o que o garoto se lembrava, algumas páginas eram o que pareciam ser encantamentos, como um reforço para as suas armas.
– Bem, vamos ver esta... – Davi traduzira um dos títulos de encantamentos no livro. – “Gladius Caelorum”...
Gladius caelorum
In sole benedicito gladio,
Tenet iter, quod radii tum illuminant,
Quod etiam omnes inimicos suos per viam,
Eius anima fuerit ferrum,
Quod tibi viam ad lucem.
Mas nada aconteceu.
Davi falara novamente, mas nada acontecera, nenhum brilho, nada. Ele fechara o livro, pensando se havia pronunciado as palavras errado. Quando se dera conta, estava dormindo.
No dia seguinte, o garoto acordara cedo e preparou suas coisas, prosseguindo para o seu rumo, aquela era a primeira vez em que Davi tinha uma direção para onde seguir, e aquilo fora por causa de Liz. Ele sempre pensava nela, se ela estivesse bem, mas Sir Rughes estava junto, então não teriam tantos problemas. Naquela ocasião, ele deveria pensar nele. Pois logo mais Perversos apareceram, e o cercaram. O quê?! Estão ficando mais inteligentes?!
Davi já não tinha escolha, deveria usar sua espada para se defender. Mas eram muitos, e ele sabia que isso não adiantaria muita coisa. Um dos Perversos se aproximou dele rapidamente, e no mesmo momento em que o garoto brandira sua espada, desejando que aquele encantamento funcionasse. O que veio a seguir o surpreendeu. Com apenas um corte da espada no peito, o Perverso se contorcia estranhamente, e o corte brilhava radiante, abrindo-se ainda mais na pele do monstro, fazendo os outros hesitarem de atacar. Davi também estava chocado, ele olhou para a sua espada, e a lâmina brilhava como o sol, em tons prateados, o garoto percebera que agora tinha uma arma mortal contra os Perversos.
– Parem, parem. – Soou uma voz feminina ao alto da colina onde os Perversos estavam. – Recuem.
Davi olhou mais atentamente para quem era, mas a mulher estava envolta de um manto e seu rosto estava num capuz.
– Quem é você? – Perguntara o garoto, escondendo a espada. Para a sua sorte, o monstro na qual a espada acertara já havia se decomposto, surpreendendo ainda mais ele, facilitando a camuflagem da arma agora sagrada.
– Hum. Eu é que pergunto. Para alguém ser perseguido por tantos Perversos...
– Você... Você é Daemon?! – Davi recuou um passo para trás, desconfiado.
A mulher soltou uma gargalhada.
– Eu? Por favor, assim você me mata. – Ela tirou o capuz, mostrando longos e escuros cabelos presos em um coque. Sua beleza quase fascinava Davi, mas ele não demonstrou sinais de estar impressionando, o que era verdade.
– Vou perguntar de novo, quem é você?
– Hum. Você é um garotinho bem sério, não? Senão já teria caído em minha linda beleza.
– Você é um deles. – Davi não poderia estar mais irritado. – Como diabos me acharam aqui?
– Tenho que agradecer os Perversos, é claro. – Ela acariciou um deles que estava ao seu lado. – São tão úteis, muito mais do que quando eram vivos, fazem tudo por mim agora.
– Uma serva de Daemon, então... – Murmurou o garoto, imaginando uma forma de escapar.
– Serva? Que mal-educado. Sou como uma sócia dele. Eu pego os homens mais bonitinhos. – Ela se deliciava em irritar Davi com aquelas palavras nojentas e sedutoras. – Mesmo você sendo assim, eu gostei de você. Vou levá-lo e torná-lo meu.
– Vai se ferrar! Nunca vou me juntar á um demônio! – Davi se pôs a correr, e o grande grupo de Perversos foi atrás, como um bando de animais. O garoto corria o mais rápido que podia, mas a mulher era estranhamente mais ágil, porque num segundo ela estava na frente dele, junto com inúmeros Perversos. Antes que Davi pudesse empunhar sua espada sagrada, os monstros imobilizaram seus membros rapidamente, e o fizeram cair no chão.
– Levem-no sem machucar. – Disse a mulher. Os Perversos levantaram o garoto. A mulher se aproximou da orelha de Davi. – Vou me divertir muito com você. Talvez não precise te transformar como um deles é só me obedecer.
Davi teve a vontade de cuspir na cara dela, mas não tinha escolha a não ser ficar quieto e deixar ser pego. Tinha que pensar numa tática de escapar das garras dos Perversos e brandir sua espada com poder de anjo, talvez pudesse matá-la quando tivesse a chance. A mulher e os Perversos seguiram para uma estrada escura na floresta. O garoto não enxergava nada, e teve de esperar até que ele soubesse para onde estava indo. Numa hora, a estrada escura da floresta se transformara num campo de gramas mortas e árvores podres, e Davi sabia que caminho era aquele, se recordava daquela estrada de algum lugar. Ah, lembrei! Esta estrada estava no mapa de Liz! Aquilo era um trecho que cortava a floresta e uma das direções dava para o Centro Comercial, ou seja, estava no caminho certo!
O garoto não parava e pensar em Liz. Queria estar com ela, e não com uma estranha que dominava parte do exército de Daemon.
A mulher e os Perversos chegaram num imenso casarão do meio do nada. O casarão era feio e velho, além de ter um odor pútrido de alguma coisa morta lá dentro. O garoto só sentia nojo dali, querendo fugir de qualquer maneira, e se contorcia para tentar escapar das garras dos Perversos, mas era inútil.
Ao entrarem, Davi teve vontade de vomitar. Havia vários homens, cavaleiros e fazendeiros mais precisamente, feridos e mortos. E alguns Perversos os arrastavam para o outro cômodo para então, devorá-los.
– Oh, acho que não me apresentei não é? – A mulher tirou o manto, mostrando um longo vestido negro, se não fosse uma tirana, seria uma das mulheres mais bonitas que Davi já havia visto. Ela segurou o queixo do garoto, para que ele prestasse atenção nela. – Eu sou Lillith, acompanho esta área com os meus Perversos. Já aqueles homens que você viu, eu brinquei com eles, mas não agüentaram.
Davi foi obrigado a subir as escadas atrás de Lillith. Empurrado pelos Perversos. Até agora ninguém havia visto sua espada. Se ele ficasse sozinho com ela, poderia acabar com Lillith de uma vez, mas isso também era o seu medo. E realmente isso aconteceu. O quarto onde Lillith e o garoto estavam era enorme, e muito bagunçado. Pelo menos isso poderia ajudá-lo. Havia armários revirados, guarda-roupas derrubados, além de roupas espalhadas aqui e ali. O garoto logo se escondeu por entre um imenso guarda-roupa sem Lillith perceber, e permanecendo quieto, ele ouviu os murmúrios da mulher-demônio.
– Ah, já quer brincar? O seu erro é que odeio brincar com crianças, preferia o seu jeito sério...
Ele abriu o livro rapidamente e procurou um encantamento que o protegesse. Não queria ser possuído pela própria perversidade humana, e odiava aquele lugar. Achando o encantamento que procurara, ele o proferiu murmuramente.
Pallium vota
Corpus meum est plenum bonis,
Integer ut animus meus,
Quid sensus mei me ducere,
Ubi natus est, ubi semper bonum,
Et lux, et in corde meo sentio, sine ulla remorço.
Dessa vez, Davi sentiu o encantamento.
Seu corpo foi envolto de seus desejos mais sinceros e profundos. Sua mente estava limpa de tudo o que havia se mal e o que Lillith representava. Tudo o que ele pensava era fugir dali. Ele saiu do guarda-roupa e avistou a mulher-demônio o procurando, quando ela o viu, soltou um berro de horror.
– O- O QUE É ISSO?!
– Isso... É o que sempre devo ser... Não posso e não quero ficar perto de um demônio como você.
Agora a expressão de Lillith era de pura raiva.
– PERVERSOS! VENHAM AQUI!
Antes que Lillith pudesse fazer algo para tentar prendê-lo, Davi desembainhou sua espada, e com toda a sua agilidade, ele a acertou com um golpe preciso na perna, que foi como cortar pergaminho. Lillith soltou um berro de dor e caiu pra trás, segurando sua perna amputada. O garoto ouviu passos subindo as escadas, em poucos segundos os Perversos estariam ali. Ele olhou para o quarto, e não via outra rota de fuga senão a janela, Davi soltou um suspiro e pulou da janela, caindo de mais de três metros de altura. Mas ao chegar ao chão, ele não sofrera nenhum arranhão, sendo um dos efeitos do encantamento do Manto dos Bons Desejos. Foi preciso apenas um segundo para Davi saber para qual direção seguir, ele apenas pensava em se encontrar com Liz, e o encantamento o indicara onde ela estava. O garoto se pôs a correr, com todo o fervor que tinha, porque segundos depois, milhares e milhares de Perversos corriam atrás dele, o número era equivalente a um exército inteiro, todos correndo atrás de um garoto de 14 anos que havia ferido um demônio.
Mas Davi percebera que os Perversos eram muito mais rápidos que ele, e precisava fazer alguma coisa. Não dava para se esconder porque o próprio ambiente não ajudava, o campo era cheio de grama morta, e com poucas árvores podres. O garoto abrira o seu livro, procurando um encantamento de velocidade, achando-o.
Volo Angelorum
Curram per auras,
Volare, ambulabant pedibus suis,
De viis, quæ relicta est creatio,
Mihi flatum venti,
Oculi mei avium movens nubes
Et nihil ad nos.
De repente, a visão de Davi via a direção em extrema velocidade.
Quando dera conta de si, ele corria tão rápido que nem os Perversos via mais. O campo passava tão rápido quanto uma história sendo contada. Ele sentia os ventos em seus cabelos e era como se estivesse voando. Não sentia mais nada, nem cansaço, só em apenas se sentir livre naquele mundo preso nas trevas.
Mas ele percebeu que mais Perversos vinham pelos lados. Outros grupos numerosos de monstros seguiam agora na direção de Davi, e provavelmente fora Lillith que mandara reforços. O pior era que havia alguns que voavam, e sua velocidade eram impressionantes. Davi agora sentia medo, mas não deveria fraquejar, deveria acreditar que iria conseguir chegar até onde Liz estava. Ele se concentrou ainda mais, e correu mais rápido. De repente, era que o encantamento começava a cessar o que era um problema. Os Perversos começavam a se aproximar, e Davi percebeu que um deles estava bem atrás era a própria Lillith, nervosa.
– Não há como escapar da Perversidade Humana, garoto! Você é meu! – Ela agora mostrara sua face de demônio. Seus olhos ficaram vermelhos e ela mostrava dentes pontudos e várias línguas na sua boca.
– Droga, sai pra lá! – O garoto estava uns metros na frente, mas o efeito do encantamento havia se esgotado. E o pior: havia um penhasco bem a sua frente, provavelmente para prevenir dos Perversos se aproximarem do Reino. Mas assim, Davi não conseguiria passar. Ele sentia pânico, mas não parava de correr, não queria aquilo. Não queria ser mais um alvo da Perversidade Humana, ele finalmente achara a cura, e não seria aquela hora que iria desistir.
Ao se aproximar do penhasco, ele pulou com toda a força que tinha nas pernas. E Lillith e outros Perversos também pularam. Ele sentiu que já estava caindo, e Lillith se aproximava ainda mais dele. No fundo do penhasco, além de ser muito fundo, havia estacas de madeira lá no fundo, ele morreria à queda. Ele estendeu as mãos para os céus, e pediu, implorou. Por favor, alguém me salve. Não quero ser ruim, não quero ser um dos impuros, quero proteger as pessoas que lutam até o fim para serem boas a qualquer custo. Davi fechara os olhos, sentia as lágrimas chegarem aos olhos para o fundo que o alcançava.
– EU NÃO QUERO A PERVESIDADE! QUERO... QUERO ESTAR JUNTO AOS ANJOS!
Lillith dera uma gargalhada.
– Eles não irão te ouvir, garoto. Eles abandonaram os humanos! Por isso foi tão fácil dominá-los!
Davi achou que tudo estaria perdido, mas sentiu que algo o puxara para cima, e abriu os olhos, e ficou surpreso ao ver que um anjo o segurara até o outro lado com suas asas brilhantes e douradas. Lillith soltou mais um berro de raiva, e ela mais algumas centenas de Perversos caíram do penhasco, morrendo para as estacas.
O anjo dourado o deixou do outro lado e seguiu para os céus, sumindo por entre as nuvens escuras. Davi não acreditara no que vira, e sentiu que algo sacudia nas suas costas. E lembrou-se do ovo de dragão negro que o carregara até agora. Mas porque ele se mexia tanto? Será que iria chocar? Ao menos era uma boa hora. O ovo não parava de se mexer, até que finalmente a casca se quebrou. E o filhote finalmente aparecera. Um pequeno dragãozinho preto com pequenas asas, que se mexiam tentando voar. Davi não se segurava se tanta alegria, e abraçara o pequeno filhote.
– Q- Que nome eu darei a ti, pequeno? – Ele chorava, chorava de alegria e alívio. Mas sentiu que alguém se aproximava dele, e era verdade. Do penhasco, uma mão surgiu, escalando, e era Lillith que ainda estava viva, tentando se vingar.
– Seu... Verme baixinho... Vou te ensinar... –
Davi estava chocado e não sabia o que fazer. O filhote por outro lado, se aproximou um pouco mais da mulher-demônio.
– Ei, pequeno! Não se aproxime!
Mas antes que qualquer coisa acontecesse, o filhote de dragão abrira sua boca, onde nem tinhas dentes, e uma fumaça se envolveu em torno da boca, formando uma pequena bola de fogo azul. Graciosamente, o dragãozinho soltou a bola de fogo azulada contra Lillith, que atordoada, caíra novamente no buraco, dessa vez, para a morte certa.
Davi apanhou o filhote de Dragão em seu colo.
– Acho que já sei um belo nome para você. Que tal Chama da Noite?
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