A Pátria.

7 Arco e Flecha — Blair


O barulho de gritos e tiros vai se intensificando na medida em que eu vou correndo de volta para o palco em busca de Clarice. Por que diabos ela ficou ali parada? Quando avisto ela, meus pulmões já estão queimando de tal forma que tenho dificuldade de respirar. Clarice está parada, observando silenciosamente o corpo de um garoto morto com um tiro, imagino que ela esteja chocada por dentro, e por isso, não tem reação. No meio de toda essa guerra, não entendo como ela ainda não tomou ação alguma. Corro até ela e a puxo, o que provavelmente a fez acordar de seu transe, agora ela está correndo comigo e percebo que com seus saltos, isso só dificulta. Paro por um momento para tentar recuperar a minha respiração, então sinto uma dor alucinante em meu joelho e caio para o lado, Clarice escuta o meu grito e volta, preocupada. No momento não identifico o que é exatamente, mas me seguro para não chorar. Não posso chorar, não agora. Clarice faz um ato que me surpreende, ela rasga o tecido de sua blusa provavelmente cara e envolve em meu joelho fazendo um curativo mal feito, porém eficaz. Me levanto, com dificuldade, mas continuo a correr, o que é um corte no joelho quando posso levar um tiro por ficar choramingando? Corro, não tão rápido quanto antes, mas corro.

Não demora muito para que Clarice ache uma sala aparentemente segura e escura, quando estamos prestes a entrar, uma voz nos chama e nos viramos quase ao mesmo tempo. Percebo que há um grupo de pessoas atrás de alguém que não reconheço, é um homem bonito, porém está em uma situação decadente com pequenos cortes em seu rosto. Atrás dele, o grupo também está acabado, as pessoas tem dificuldade para respirar como eu, algumas param para vomitar e outras se sentam de tão cansadas que estão, todos estão com suas roupas encharcadas de suor e sangue. O homem olha para mim e para Clarice, agora sua feição está um tanto tranquila e imagino que seja por ter encontrado nós duas.

— Vamos! — Ele da a volta e todo o grupo faz o mesmo, inclusive Clarice e eu.

Caminhamos por todo um percurso escuro e sombrio que me faz pensar na vez em que eu e meu pai fomos caminhar ao redor do riacho próximo de casa e então achamos uma caverna a qual entramos e ficamos contando histórias de terror, eu tinha oito anos e não me assustei. Quando o homem que eu não lembro o nome empurra uma porta, acordo de meus devaneios e então percebo que estamos em um galpão com os outros guerreiros, fico feliz em saber que todos, aparentemente, estão vivos e bem. Entro em uma espécie de fila, eu sou a última, mas quando entro todos olham para mim e para Clarice, alguns soltam piadinhas e escuto risinhos, por um momento sinto dó dela, mas depois esqueço, ninguém merece a minha dó, muito menos Clarice. Me sento perto de algumas caixas e cumprimento algumas pessoas que vejo, então Clarice me segue e senta ao meu lado, insistindo cuidar do meu ferimento. Por um momento cochilo, mas logo acordo quando outro homem que não reconheço entra na sala.

— Sou o coordenador Jones... — E o resto eu não escuto, pois estou cansada e desinteressada demais em ouvir apresentações. Fecho os meus olhos, mas no momento em que eu estou quase caindo no sono, Clarice me cutuca.

— Vem, Blair. Vamos ter uma transferência emergencial, não é legal? — Clarice se levanta e eu a sigo, me arrependendo de não ter ouvido as palavras do coordenador Jones.

Sigo junto com todos os guerreiros até um flutuador, ele é diferente de todos os quais eu já estive para ir até as outras nações. Normalmente, ficamos na Carolina do Norte, em nosso centro de treinamento até o dia da guerra, porém, em uma guerra, tudo mudou e nós tivemos de ir para Connecticut, não me recordo o motivo, mas não era uma transferência emergencial. Puxo Clarice e ela se assusta, então, com dificuldade a pergunto para onde nós estamos indo.

— Nova York, Blair. — Clarice fala de uma forma calma, como quando está nervosa e prestes a surtar, sei disso pois já a presenciei surtando uma vez. Prevejo que daqui a poucas horas ela vai começar a quebrar tudo. — Você não está achando isso tudo muito estranho? — Não a respondo, sigo em frente e entro no flutuador, me sento afastada para evitar mais perguntas tanto de Clarice, quanto de outras pessoas. Uma mulher aparece na porta, seu nome é Deborah, e quando ela começa a falar, fecho os meus olhos e esqueço de tudo.

— Bom dia pessoal! — Abro os meus olhos e rapidamente me endireito no acento do flutuador. Há uma mulher vestida de branco na porta, ela tem cabelos loiros longos e olhos azuis penetrantes, ela parece animada, como se tivesse bebido dez xícaras de café mais alguns remédios depressivos, ou talvez, tivesse feito tudo isso e bebido. Olho para ela, ela então arregala os seus olhos e olha para todos nós como uma desequilibrada. — Meu nome é Cassie, e eu vou ajudar vocês nessa jornada por Nova York. Venham! — Ela sai da porta, mas ninguém se mexe. Todos estão sonolentos e com medo do que essa maluca possa fazer. — Venham, pode vi... — Cassie olha para o lado e então se afasta mais uma vez da porta, em seu lugar, uma mulher aparentemente velha, porém bem cuidada, aparece. Sua feição é séria.

— Sou Verônica Rose, e eu irei treinar vocês nesse ano. Me acompanhem, por favor. — Sua voz é firme, o que me faz levantar do banco e sair do flutuador junto com os demais guerreiros que parecem assustados. Seguimos em uma fila organizada, em silêncio, por um corredor sem muita iluminação. Consigo ouvir risadas, mas não vem do nosso grupo, e sim de do grupo de guerreiros de Nova York. Um garoto forte olha para Verônica e bate continência, em seguida, ela sussurra para o grupo e se vira em nossa direção. — Bem-vindos ao centro de treinamento de Nova York. Eu tenho certeza que aqui, vocês terão uma estrutura diferenciada da que vocês costumavam ter na Carolina do Norte. Espero que tenham consciência de que aqui, as coisas mudam, as regras são mais rígidas e eu pretendo não dar mole para nenhum de vocês. Esse é o grupo que vai auxilia-los durante o treinamento. Em breve, vocês terão contato com os demais guerreiros. Boa estadia. — Verônica então se vira e sai da sala.

O garoto forte dá um passo a frente e abre um sorriso de deboche, a garota ao seu lado nos lança um olhar indiferente, e o resto do grupo se mantém parado. — Sou Rick, vocês provavelmente me conhecem de guerras passadas, todas em que eu estive, eu voltei. — Sinto um tom orgulhoso em sua voz que me faz revirar os olhos. Todos do grupo em que estou se entreolham, pois na verdade, ninguém ali conhece Rick. — Tudo bem. Essa é Victoria, ela também vai treinar vocês. — Victoria não fala nada, continua com seu olhar indiferente e com seus braços cruzados. Admito que ela é bonita, ela é alta, tem um longo cabelo ondulado de dar inveja e seus olhos são azuis, como quase todos da nação da Pensilvânia, me pergunto se ela realmente é nascida de Nova York. Rick percebe que ninguém se manifesta, e então pega um papel de seu bolso, então começa a lê-lo. — Andreas Jones, Alicia Harvey, Blair de La Court, Lana Wilson e Matt Winchester, por favor, acompanhem Victoria. — Rick deu um sorriso para o restante do imenso grupo e eu segui Victoria, deixando Clarice ali sozinha.

— Vocês são só alguns que eu considero de um nível elevado aos demais. Temos três níveis aqui, e vocês passaram direito para o número três. — Victoria fala enquanto guia o grupo para um corredor.

O corredor o qual estamos seguindo é gelado e não tem um piso. Imaginei que, estando em um centro de treinamento tão importante, pelo menos oferecia uma boa estrutura como Verônica observou. Quando Victoria empurra uma porta pesada, entramos em uma sala gigantesca lotada de equipamentos eletrônicos, um campo de arco e flecha, arremesso de facas e tiro ao alvo. Percebo imediatamente que estou enganada, pois aquilo é um sonho.

— Esse aqui é o centro de treinamento avançado. Avaliei atenciosamente a ficha de vocês enquanto estavam no caminho e achei vocês os mais capacitados para esse centro. Fiquem a vontade. — Victoria sai do centro balançando seu cabelo louro ondulado invejável e eu volto para a real, estou no meu paraíso.

Imediatamente caminho ao arco e flecha que é a arma que não possui tantas pessoas na fila, imagino que nem todo mundo aqui tem interesse, pois na verdade, o acha inofensivo. Eu que o diga, essa é uma das armas mais letais quando usadas com capacidade. Sorrio e me ajeito, em seguida, me concentro no alvo por exatamente cinco segundos e então, atiro. Um tiro certeiro, bem no centro. Os olhares se voltam para mim, os que atiram, pousam suas armas, os que digitam freneticamente nas máquinas que irei testas mais tarde, param. Sinto-me corar imediatamente, o que nunca acontece. Me viro e despreocupadamente, atiro novamente no alvo, todos voltam para suas funções e eu suspiro aliviada. Causei uma boa impressão.