A Pátria.
8 Um estranho que me dá esperança — Clarice
Minha cabeça pulsa a cada passo que eu dou pelo extenso e escuro saguão para onde fui levada. Não sei bem aonde este lugar leva, mas sei que este lugar exigirá o que eu não posso oferecer. Fui designada ao estágio 2, aonde jovens inexperientes porém com um bom conhecimento de estratégia e de armas foram encaminhados. Mas eu não tenho a absoluta certeza de que sou o que eles pensam. Sou insegura quanto ao que posso fazer em batalha. Talvez, eu não me dê bem nos treinamentos e seja aniquilada na guerra, ou eu seja expulsa ainda no treinamento, quando perceberem o quão eu sou inútil. Eu voltaria pra casa, totalmente humilhada, e todos veriam o meu fracasso.
O medo se transforma em pânico e eu me vejo totalmente cercada. Estou cercada por paredes, por pessoas, estou cercada até mesmo por mim mesma, e pelo meu medo de ser tão sem valor quanto meus colegas de batalha pensam. Meu coração acelera a medida que eu ouço o som da minha própria respiração desregular.
Eu preciso sair daqui.
Eu não posso, mas preciso.
Olho para os lados e vejo uma pequena saída pela esquerda, que aparentemente, dá para um corredor vazio. Paro, e espero todos os meus companheiros de estágio passarem pela minha frente. Tento parecer calma, e ninguém ao menos nota o meu pânico. É só uma questão de minutos até que eu esteja em outro lugar, longe de toda essa pressão.
Sou a ultima da fila agora. Finjo que estou amarrando meus sapatos para que nenhum guarda me impeça.
— Está tudo bem aí, Srta. Parker? — Sou chamada por um guarda.
“Como você sabe meu nome?” eu queria perguntar, mas me parece melhor apenas seguir com o meu plano.
— Sim, claro. Só estou amarrando o cadarço do meu sapato para que eu possa andar firme e sem problemas! — Soa tão falso que meu coração para durante um segundo.
E então acelera outra vez quando vejo o guarda levantar uma de suas sobrancelhas. Mas ele balança a cabeça positivamente e segue com os guerreiros até uma porta.
Um problema já foi resolvido, estou sozinha. Só me resta despistar todas as câmeras que estão me monitorando agora.
Um, dois... finjo que estou amarrando o outro cadarço do meu sapato.
Três, quatro... Me preparo para correr.
Ouço o som das câmeras se mexendo. Eu não estou mais no foco delas. Corro rápido em direção ao meu esconderijo, e quando as câmeras voltarem a focar no meu antigo posto, todos pensarão que eu corri até a porta aonde todos os outros guerreiros entraram.
Fico ofegante por um momento, mas não posso me dar ao luxo de ficar muito tempo ali. Tenho que seguir pelo corredor vazio e achar algum lugar em que nenhuma câmera esteja por perto, me observando.
— Belo plano, hein?
Viro rapidamente e vejo a figura de um garoto com aproximadamente a minha idade, com cabelos pretos perfeitamente aparados, olhos azuis e covinhas profundas nas bochechas. Bonito, mas era como se ele não quisesse ser considerado assim. Ele tinha um sorriso sarcástico no rosto.
— O que você está fazendo aqui? — Sussuro.
— O que VOCÊ está fazendo aqui, garota? — ele me responde, rispidamente e em um tom de voz autoritário.
Droga, e se for algum deles? Na certa estou encrencada.
— Quem é você? — Tento parecer confiante. Se for alguém que possa me encrencar, não quero que pareça que estou fazendo algo errado.
— Não interessa agora. Venha comigo; não quero ser punido, não por uma coisa tão estúpida.
Não é um deles. Parece que finalmente eu posso largar o peso que eu segurei nas minhas costas durante muito tempo.
O sigo pelo corredor que vi no saguão. É realmente bem deserto. Na verdade, a poeira nas paredes, comparada a total limpeza do prédio me diz que ninguém vem aqui, durante muito tempo.
— Foi um erro de construção. — Fala o garoto á minha frente. Quase pergunto do quê ele estava falando exatamente quando ele continua — Este corredor não leva a absolutamente lugar nenhum, por isso não tem câmeras por aqui.
Não posso negar que achei estranho um prédio que passou anos sendo arquitetado e planejado tenha um erro tão crítico, mas decido deixar pra lá.
Nos sentamos no chão, perto da parede que dava fim ao corredor, e eu finalmente tive um tempo para pensar no que eu estava fazendo. Passamos aproximadamente uma hora em silêncio, ponderando os nossos problemas e tentando achar alguma solução para eles. Me parecia ótimo ter um tempo para decidir oque iria fazer.
— E então... porque está fugindo do treinamento? — Uma pergunta interrompe meus pensamentos.
Recuo, mas se eu não lhe der uma explicação agora, ele iria achar que sou uma invasora. Cerro os pulsos e meu coração acelera, mas no final, não posso evitar colocar todas as minhas dúvidas sobre mim mesma para fora.
Meus dois maiores medos: ir para a guerra, e ser uma inútil. Detalhe por detalhe, e ele parece estar interessado. Na maioria do tempo, pode parecer que tudo está sob controle, mas sou totalmente vulnerável.
Um silêncio longo e constrangedor nos engole. Me arrependo de ter desabafado instantaneamente. O garoto me fita fixamente, como se tentasse desvendar um segredo.
Mas o único segredo que eu guardava, eu já havia lhe contado.
— E eu, contando que você diria que estava passando mal. — Ele diz.
— Estamos em guerra, você não deveria esperar nada de ninguém. — Abro um sorriso.
— Não acho que você deveria ter medo de ir lutar. — Diz em um tom de voz baixo. Ele dá uma pausa na fala, e eu me sinto fraca novamente, como se ele dissesse que sou medrosa, ou algo do tipo. Mas então, ele continua. — Você é corajosa. Você se ofereceu pra vir aqui, sem nunca ter treinado, com medo de fracassar... mas você veio por que não quer ser mais uma. E sinceramente, eu admiro isso.
Enrubesço quase que instantaneamente. Ele parece perceber, pois abre um sorriso.
— Eu vi o que você fez lá fora. Pra escapar do treinamento e vir até aqui. Foi uma boa estratégia. Muito simples, mas boa. Você com certeza sabe se virar quando as coisas ficam difíceis. E olha que eu te conheço a apenas alguns minutos.
Uau. Eu nunca havia pensado nisso. São coisas que eu havia feito no piloto automático, na emoção do momento.
Talvez isso seja um bom começo para um treinamento.
Me levanto do chão e tiro a poeira que está nas minhas calças, para que ninguém perceba que eu estive aqui. Não me sinto mais pressionada. Me sinto capaz. Capaz de aprender a ser quem eu sempre quis ser.
Olho para o garoto e percebo o quão importante ele foi para que eu me sentisse assim.
— Preciso ir. Muito obrigada, de verdade.
— Não precisa agradecer. Talvez nos encontremos durante o treinamento. — Havia me esquecido que ele era apenas um integrante da guerra. Assim como eu. Ele era tão confiante, tão seguro de si. Completamente o oposto de mim. — Como você se chama?
— Clarice Parker. — Tento pronunciar o meu sobrenome de uma forma diferente. Ele já me trouxe pressão demais.
Não dá certo.
— Parker? A família guerreira?
— Preciso ir.
— Espere!
Saio correndo, sem ao menos saber o seu nome.
— Aonde você estava, mocinha? — Verônica Rose, nossa general, está me fitando com seus olhos verdes intensos. Era o mesmo de um crocodilo faminto estar me olhando, ou pior que isso. Haviam outras pessoas na sala. Guerreiros, Seguranças, Faxineiras. Mas tudo o que eu conseguia ouvir era a sua voz grave me ameaçando, e o som da minha própria respiração acelerada.
Após ter saído do corredor, acabei sendo vista por dois seguranças. Parece que sair correndo no meio de um saguão monitorado 24 horas não foi uma boa ideia. Tentei fugir e cobrir o meu rosto, mas eles ameaçaram atirar. Talvez tenham achado que eu era uma invasora, ou sei lá. Só sei que tive que esperar o treinamento acabar, para então dar as minhas satisfações. Três horas e meia de puro tédio.
— Eu... estava passando mal, senhora. Fui para as janelas para tomar um ar. — Tento explicar. Eu não queria parecer culpada, mas droga... era exatamente oque eu parecia.
A general ainda estava com sua postura perfeita e seu olhar amedrontador. Como se dissesse “Me conte a verdade! Talvez Deus te perdoe quando você morrer hoje!”.
Não era bem o que eu chamo de encorajador.
— Srta. Rose? Sua reunião com o departamento vai começar daqui a 5 minutos, se apresse. — O som de uma voz desconhecida soava como um canto de angelical para mim.
Meu coração volta a bater.
— Estou de olho em você. — Ela sussurra para mim. Depois, aumenta o tom da voz para se dirigir aos guerreiros presentes. — Esta é Helena — Ela aponta — ela irá ensinar a vocês o caminho para os dormitórios. Descansem bastante, pois amanhã teremos o dobro do trabalho que tivemos hoje.
Os guerreiros fazem sons de insatisfação. Parece que eu perdi realmente muita coisa hoje.
Dou ás costas a ela e respiro fundo. Ótimo. A mulher a quem eu deveria impressionar agora acha que eu sou uma rebelde descontrolada. Acompanho a guia junto com a minha turma até os dormitórios, aonde eu adormeço quase que imediatamente.
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