A Outra Filha do Natal

4 Capítulo 4 — O Vilarejo Siberiano


Nora saiu da ala administrativa com o coração acelerado, mas a mente estranhamente clara. Se as pessoas se recusavam a falar, então ela faria do único jeito que conhecia desde criança.

Escutaria o que as coisas tinham a dizer.

A fábrica do Polo Norte era imensa, cheia de setores ativos, luminosos, barulhentos, mas também guardava lugares esquecidos, empurrados para as bordas do funcionamento moderno. Um deles era o Depósito de Itens Pessoais Desativados, um espaço ao qual poucos tinham motivos para ir. Nora, no entanto, tinha autorização para quase tudo. Sempre teve.

Os corredores que levavam até lá eram mais estreitos, com luzes amareladas e intermitentes. O chão rangia sob seus passos, como se aquele setor não estivesse acostumado a visitas. O ar tinha cheiro de madeira antiga, poeira fria e algo mais… humano.

Ela passou o crachá pelo leitor. A porta se abriu com um estalo seco.

Lá dentro, o tempo parecia parado.

Caixas empilhadas, ferramentas antigas penduradas nas paredes, trenós que não voavam mais, peças que haviam sido substituídas por versões mágicas e cintilantes. Tudo ali carregava marcas de uso real, riscos, lascas, ferrugem.

Nora caminhou devagar, passando os dedos pelas superfícies, sentindo uma estranha familiaridade.

Então viu o caixote.

Era de madeira bruta, mal polida, diferente de tudo ao redor. Não havia o selo oficial do Polo Norte gravado a fogo, algo impensável naquele lugar. Tudo, absolutamente tudo ali, mesmo o item mais antigo, carregava o símbolo. Aquele caixote não.

O coração de Nora disparou.

Ela se ajoelhou e puxou o caixote para mais perto. A tampa rangeu quando foi aberta.

Dentro, não havia nada que lembrasse os presentes sofisticados que Lizzie recebia. Nada mágico. Nada brilhante.

Apenas objetos simples.

O primeiro foi um machado de lenhador.

O cabo estava gasto, moldado pela mão de alguém que o usara por anos. A lâmina, embora bem cuidada, tinha marcas profundas. Próximo à base do cabo, quase apagada pelo tempo, havia uma inicial entalhada à mão:

S.

Nora engoliu em seco.

Ela conhecia aquela letra, era do seu pai. Já a vira em anotações antigas, em mapas desenhados por ele antes da era dos sistemas automatizados.

Remexendo mais fundo no caixote, encontrou algo que a fez prender a respiração.

Um pequeno par de sapatinhos de bebê.

Feito de lã grosseira, costurado à mão, simples demais para ter pertencido a qualquer criança do Polo Norte atual. Nada de seda encantada, nada de fios cintilantes. Era quente, funcional, humano.

Nora o segurou com cuidado, como se ele pudesse se desfazer em suas mãos.

O contraste atingiu-a com força.

Ela e Lizzie haviam crescido cercadas de tecidos finos, roupas que se ajustavam sozinhas, presentes pensados para durar gerações. Aquilo… aquilo vinha de outro mundo. De outra vida.

O silêncio do depósito parecia mais denso agora.

— Por que isso está aqui? — sussurrou para si mesma.

O machado. O sapatinho. A inicial.

Tudo apontava para uma história que não combinava com o que sempre lhe contaram.

Nora sentiu um aperto no peito, uma intuição incômoda se formando.


***


O caixote ficou para trás, mas não saiu da mente de Nora.

Ela saiu do depósito com a sensação de ter tocado algo proibido, mas, ainda assim, sabia que havia cruzado apenas a superfície. Objetos revelavam sentimentos; registros revelavam ações.

E ações deixavam rastros.

Nora seguiu para a ala de arquivos logísticos, um setor frio, organizado demais, onde quase tudo era automatizado. Ali ficavam os Registros de Envios Especiais, remessas que não passavam pelo sistema oficial de presentes de Natal. Eram exceções: ajudas emergenciais, missões humanitárias, acordos antigos mantidos por tradição.

Poucos tinham acesso. Nora tinha.

As telas se acenderam diante dela quando inseriu sua credencial. Linhas e mais linhas de dados começaram a desfilar, categorizadas por data, origem e destino. No início, nada parecia fora do comum.

Até que um padrão surgiu.

Envios anuais. Sempre no mesmo período. Sempre autorizados manualmente.


Remetente: Stevan

Destino: Vilarejo de Karskaya, Sibéria


Nora sentiu o estômago revirar.

Ela abriu um dos registros com mais detalhes. O conteúdo listado não era composto por brinquedos, enfeites ou itens festivos.

Eram provisões.

Sacos de farinha. Grãos. Cobertores térmicos. Lenha cortada à mão. Remédios básicos. Ferramentas simples.

Ano após ano.

Sempre os mesmos tipos de itens. Sempre a mesma quantidade ajustada ao crescimento de uma população pequena.

— Isso não é caridade aleatória… — murmurou.

Nora recostou-se na cadeira, sentindo o peso da interpretação cair sobre ela com força.

“Ele sustenta outra família?”

“Será que Hila mora lá?”

“Ele envia ajuda para o lugar onde essa mulher vive?”

A imagem que se formava em sua mente era desconfortável. Um vilarejo isolado, fora do alcance do brilho do Polo Norte. Uma mulher esquecida. Talvez uma vida paralela que seu pai mantinha em silêncio.

Ou talvez… algo ainda mais complicado.

Nora respirou fundo e copiou o nome do vilarejo em um pequeno bloco de anotações físico, algo raro, propositalmente fora dos sistemas mágicos.

Karskaya.

O nome parecia frio, distante.

Ela fechou os registros, apagou os rastros de acesso e se levantou, decidida a descobrir mais.

Nora já estava prestes a sair da sala quando algo a fez hesitar.

Voltou alguns passos e reabriu o último registro, ampliando uma coluna que antes havia passado despercebida. Datas futuras. Agendamentos.

O próximo envio.

Leu com atenção, o coração acelerando aos poucos.

Próxima remessa programada: em dois dias.

As mesmas provisões. A mesma rota. A mesma autorização manual de Stevan.

Por um instante, Nora apenas encarou a tela. Era tempo suficiente para planejar, ou para fingir normalidade.

E foi exatamente isso que ela fez.

Nos dias seguintes, seguiu sua rotina como sempre. Ajudou na fábrica, organizou turnos, revisou listas. Riu com Matt e os outros elfos quando era esperado que risse. Em casa, jantou com Olivia e Lizzie, comentou banalidades, escutou sobre roupas novas e planos fúteis.

Stevan também estava de volta.

Ele caminhava pela fábrica com o mesmo olhar atento de sempre, conferindo detalhes, conversando com os elfos, colocando a mão no ombro de quem precisava. Passou por Nora algumas vezes, trocou palavras rápidas, um sorriso cúmplice. Nada em seu comportamento denunciava segredos.

Talvez fosse isso que mais a inquietasse.

Dois dias depois, Nora foi até a Central de Envios.

O local era amplo, com plataformas de carregamento e mapas flutuantes que indicavam rotas pelo mundo. Ali, quem coordenava tudo era um dos elfos mais antigos do Polo Norte, o Thalles, que estava ali antes mesmo da grande modernização. Seu rosto era impassível, as orelhas levemente caídas, os olhos atentos a tudo.

Nora se aproximou.

— Oi, Thalles! Posso te perguntar uma coisa? — disse, mantendo o tom casual.

Ele assentiu, sem interromper o que fazia.

— Sobre o vilarejo de Karskaya — continuou ela. — Na Sibéria. Você sabe por que enviamos mantimentos para lá todos os anos?

O elfo não demonstrou surpresa, nem curiosidade.

— Eu apenas organizo os envios — respondeu. — Só faço o que me mandam.

— Mas alguém deve ter explicado o motivo — insistiu Nora. — Não é comum. Não passa pelo circuito padrão.

Ele a encarou pela primeira vez com mais atenção, mas sua expressão permaneceu neutra.

— Algumas ordens não vêm com explicações — disse.

Nora abriu a boca para perguntar mais, quando ouviu seu nome atrás de si.

— Nora.

A voz era baixa, mas inconfundível.

Ela se virou devagar.

Stevan estava parado a poucos passos, o casaco vermelho contrastando com o aço frio da central. O olhar dele era sério, atento demais para ser casual.

— Venha comigo — disse, sem elevar o tom.

Não era um pedido.

Nora lançou um último olhar ao elfo, que já havia voltado ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Em seguida, voltou-se para o pai.

Sem dizer uma palavra, seguiu Stevan para fora da central, sentindo, com absoluta certeza, que havia ido longe demais.