A Outra Filha do Natal
5 Capítulo 5 — Além dos Mapas Mágicos
Nora seguiu Stevan pelos corredores em silêncio.
O escritório dele ficava afastado das áreas mais movimentadas da fábrica, um espaço amplo, aquecido por uma lareira constante, onde mapas antigos do mundo dividiam espaço com sistemas modernos de navegação. Era ali que decisões importantes eram tomadas, e Nora sentiu, ao entrar, que aquela conversa mudaria tudo.
Stevan fechou a porta atrás deles.
Não houve rodeios.
— Eu sei o que você está investigando — disse, de imediato.
Nora sentiu o rosto esquentar. Cruzou os braços, sem saber se negava ou se admitia. Acabou ficando em silêncio.
Stevan não parecia irritado. Havia cansaço em sua expressão. E algo mais profundo, uma espécie de alívio.
— O depósito. Os registros de envio — continuou ele. — Você foi cuidadosa, mas não o suficiente para passar despercebida.
Ela baixou os olhos.
— Eu não queria… — começou, mas parou. Não havia desculpa que fizesse sentido.
Stevan se aproximou da mesa, apoiando as mãos na madeira polida.
— Eu imaginei que esse dia chegaria — disse. — Só não pensei que seria agora.
Nora ergueu o olhar, o coração acelerado.
— Que dia? — perguntou.
Ele respirou fundo, como quem se prepara para atravessar uma memória longa demais.
O silêncio se estendeu entre eles.
— Eu acho — continuou Stevan — que você merece saber toda a verdade.
As palavras fizeram o estômago de Nora se contrair.
— Que verdade? — ela perguntou, quase num sussurro.
Stevan caminhou até uma prateleira lateral e tocou um pequeno globo antigo, diferente dos mapas mágicos. Um objeto simples, gasto pelo tempo.
— A verdade não cabe inteira em palavras — disse. — Não aqui. Não assim.
Ele se virou para ela, os olhos firmes.
— Você vai comigo até Karskaya.
Nora sentiu o ar faltar por um instante.
— O vilarejo? — confirmou.
Stevan assentiu.
O coração de Nora bateu forte. Não havia medo em seu peito, apenas uma estranha sensação.
— Quando? — perguntou.
Stevan deu um pequeno sorriso triste.
— Amanhã.
E, pela primeira vez desde que encontrara a carta, Nora teve a certeza de que a verdade não estava mais escondida, ela a esperava adiante, concreta, inevitável, pronta para ser descoberta.

O dia chegou mais rápido do que Nora esperava.
O trenó que os aguardava não era o grandioso símbolo do Natal, nem reluzia com magia visível. Era simples, funcional, feito para passar despercebido. Nada de renas enfeitadas, sinos ou luzes. Apenas madeira reforçada, couro escuro e um mecanismo antigo de voo silencioso.
Stevan subiu primeiro. Nora o seguiu.
Quando partiram, o vento gelado cortou o rosto dela, e, por um instante, ela fechou os olhos, deixando a brisa atravessá-la. Apesar de tudo o que sentia, havia algo libertador naquele voo discreto, longe das expectativas, longe dos olhares.
O mundo abaixo se transformou lentamente. O branco contínuo do Polo Norte deu lugar a extensões irregulares de gelo, florestas densas e montanhas duras. Quando pousaram, o impacto foi leve, mas o frio… o frio ali era diferente.
Era agressivo.
Nora puxou o ar com dificuldade, sentindo-o queimar os pulmões. Não era o frio conhecido, constante e quase acolhedor do Polo Norte. Era um frio cortante.
Antes que pudesse dizer algo, Stevan estalou os dedos.
O efeito foi imediato. O ar ainda era gelado, mas não a feria mais. Seu corpo se ajustou, como se envolvido por uma proteção invisível.
— O Polo Norte é frio — disse ele, enquanto descia do trenó — mas lá existe um certo encanto. Aqui não.
Nora assentiu, absorvendo aquelas palavras. Ela nunca esteve em um lugar assim antes.
Stevan agora vestia roupas comuns: um casaco escuro, botas simples, sem vermelho, sem símbolos. Pela primeira vez, ela o via não como Papai Noel, mas como um homem atravessando o mundo.
Eles caminharam pelas ruas estreitas do vilarejo. As casas eram baixas, feitas de madeira envelhecida, algumas com janelas cobertas por panos grossos. Havia poucas pessoas do lado de fora, todas apressadas, com os rostos marcados pelo vento e pelo tempo.
Nora observava tudo em silêncio.
— Para onde estamos indo? — perguntou, por fim.
Stevan não respondeu de imediato. Apenas seguiu adiante, os passos firmes, como quem conhecia cada curva daquele lugar.
Eles caminharam por alguns minutos sem trocar palavra alguma.
Nora observava tudo com atenção. O vilarejo era menor do que ela imaginava: poucas ruas, casas simples, algumas quase se confundindo com a paisagem cinzenta ao redor. As pessoas passavam apressadas, envoltas em camadas e mais camadas de roupas grossas, os rostos quase sempre escondidos por lenços e gorros. Não havia magia ali, apenas resistência.
Aquilo a impressionou mais do que qualquer encanto.
Stevan seguia à frente com passos seguros, como alguém que não precisava perguntar o caminho.
Por fim, ele parou diante de uma casinha de madeira simples, desgastada pelo tempo e pelo frio. Não havia marcas, nem placas, nem sinais de que alguém ainda morasse ali. As janelas estavam opacas, a porta marcada por rachaduras antigas.
Sem hesitar, Stevan empurrou a porta e entrou.
Nora ficou um instante parada, surpresa. Aquela naturalidade a desconcertou. Aquele lugar não parecia receber visitas, muito menos de alguém como ele.
Ela o seguiu.
O interior estava silencioso, vazio, quase intacto. Poucos móveis permaneciam: uma mesa simples, uma cadeira encostada na parede, uma lareira apagada havia muito tempo. Não havia sinal de vida recente. Nenhum objeto fora do lugar. Nenhum cheiro além de madeira velha e lembrança.
Stevan virou-se para ela.
O sorriso que ele trazia não era de alegria, mas de saudade profunda. Um sorriso que carregava mais passado do que presente.
— Foi aqui — disse, com voz baixa — que tudo começou.
Nora sentiu um arrepio que não vinha do frio.
Stevan respirou fundo antes de continuar, como se precisasse atravessar o tempo para falar.
— Muitos anos atrás… — começou.
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