Tenho medo de que minhas memórias também se alterem dentro de mim, em um fugaz sonho transitório. Para além da aceitação, agora estava sofrendo.

Minha mente estava a me atormentar. Eu via coisas e pensava em coisas incertas, sem nexo. Coisas que não se completavam no fim do raciocínio. Comecei a sentir uma tristeza profunda. Fui até bares e lanchonetes, na esperança de ser reconhecido, mas isso não acontecia. Não me importava nem mesmo se aquele assassino me reconhecesse e voltasse para terminar o serviço. Assim, ao menos eu teria alguma resposta. Mas ninguém veio. Não havia ninguém ali que pudesse me notar. Eu era apenas mais um. Um que não sabia quem era; um que sofria em silêncio, com medo de esquecer a si próprio. Porque por mais que tentasse morrer, eu não teria medo disso. Meu maior medo é esquecer quem eu sou. "Quando você descobre quem você é, já virou outra pessoa." Não é mesmo? E o que dizer de mim, que não sei quem sou, e nem quem estou me tornando?

Fui em todas as lojas próximas, atrás dos jornais e revistas semanais, para ver se encontrava algo sobre esse rosto, mas não havia nada. Caminhei então até o bairro onde presenciei o assassinato, e entrei naquela viela. Tive um arrepio. Ainda me lembrava daquela noite, do vulto correndo… será que se eu fosse atrás dele, poderia ter feito algo? Eu devia ter chamado a polícia. Tenho medo, mas não tenho uma resposta. Fiz o que pensei ser o necessário, mas não foi. Aquele homem já estava morto, ou agora está vivo, dentro de mim.

Na viela não havia demarcações da polícia. Faixas, nem nada do tipo. Não havia nada. Era como se aquilo não tivesse acontecido. Andei pelos estabelecimentos que havia ali perto. Tomei um café, na esperança de ouvir algo sobre, mas nada. Nem entre as pessoas, nem no noticiário.

Não sabia mais onde poderia buscar, até que recebi uma ligação de número desconhecido. Era do homem, ou melhor, do médico, e me chamava para voltar ao seu consultório.

— Como conseguiu o meu número?

— Na ficha cadastral, está esquecido?

— O que quer?

— Olhe… acredito em você.

— Acredita? Mas como?! E por que isso de repente?

— Sim, eu acredito. Acredito porque, devo confiar em meus pacientes. Seu caso pode ser apenas invenção, mas também pode ser algo raro, quem sabe... E seu rosto, confesso, não me é estranho. Se não for uma anomalia real, pode ser um problema em sua mente. Eu gostaria de saber.

— Agora está me taxando como louco! Ora, doutor, apenas gostaria de saber. Me sinto dentro de uma escuridão mil vezes mais profunda do que a que costumava sentir antigamente. Algo ambíguo, entende? Sinto uma tristeza, e sinto que não pertence a mim. Ao mesmo tempo sinto raiva e remorso. Passei os últimos dias buscando saber mais sobre essa pessoa. Saber mais sobre quem sou agora, mas não obtive respostas. Até mesmo caminhei pelas ruas, com o rosto ao vento, na esperança de ser reconhecido. Mas isso não aconteceu. Agora não sei o que poderei fazer. Não sei como posso explicar isso para minha irmã, em casa, ou como posso ir até meu trabalho. Não sei o que poderei fazer.

— Você sente que esse novo rosto está mudando você?

— Sinto que ele está me fazendo esquecer quem realmente sou. Sinto que sempre que estou na rua devo escondê-lo, e me vejo no pior estado de decadência possível, como se eu caminhasse sem um rosto, ou sem uma boca, um nariz. Sinto que algo está faltando e sinto agonia pelas pessoas não enxergarem isso. Também me sinto como um fantasma, pois passo por todas as pessoas, mas elas não podem olhar para mim; não podem ver o verdadeiro eu.

— E quem você realmente é?

— Eu gostaria de saber. Gostaria de saber quem é essa pessoa. Você sabe qual a sensação de se olhar no espelho e não se reconhecer? O que te encara quando olha no espelho, doutor? Um rosto cansado, feliz? Eu não reconheço o que me olha, mas me causa arrepios. Veja meus olhos caídos. Meus olhos sem vida. Veja a raiva que há em meu rosto! Outro dia caminhava descuidado pelo apartamento que aluguei, e quando vi meu reflexo, tomei um susto! Como sinto vontade de arrancar esse rosto de mim e jogá-lo fora.

O doutor me deu um copo de água, dizendo que eu estava alterado, e me pediu para realizar novos exames de raio-x. Pensei em até mesmo acender um cigarro, mas eu não queria incomodá-lo com isso.

— Se esse for você agora. Um você diferente, você pode viver de outra forma. Enquanto não encontramos uma solução, você pode e terá que viver da forma que esse rosto novo lhe proporciona. Mas terá que ser assim até encontrarmos uma solução para o seu problema. Você disse que até mesmo alugou um apartamento, estou certo?

— Sim. Deixei um bilhete para minha irmã dizendo que logo voltaria, e liguei em meu serviço dizendo que estava doente. Não há como eu voltar para aquela antiga vida antes de saber o que está acontecendo.

— Você pode viver a vida deste homem enquanto não conseguimos recuperar a sua? Sei que é um pedido absurdo, e apenas posso imaginar o quão difícil está sendo, mas tentarei lhe ajudar. Como não sabemos nada sobre esse homem, então fantasie como seria a sua vida! Sei que parece que estou brincando, mas estou falando sério. E a pergunta que quero fazer mesmo é: Você acha que pode viver uma nova vida sem esquecer quem você era?

— Não há como me esquecer, pois aonde eu for, eu estarei lá.

Quando o resultado do raio-x saiu, novamente não havia nenhuma anomalia; nada de incerto. O resultado estava perfeitamente normal, e idêntico ao antigo, que ele havia guardado. Meu crânio e todos os ossos do meu rosto estavam exatamente coerentes com a face que estava em meu rosto.

Entrei em um acordo com o doutor, onde ele iria buscar por uma resposta de forma discreta, para não me expor, e eu iria viver uma nova vida de forma discreta, para também não chamar atenção de alguém que reconheça essa pessoa. Ele me disse que ninguém foi até o hospital atrás do falecido, e o mesmo foi incinerado como indigente, assim eu poderia viver, pois talvez sua família seja do interior ou algo do tipo. Eu poderia ser ele, enquanto não pudesse ser eu.

Eu continuaria no apartamento novo e talvez até mesmo arrumaria um emprego, tudo em prol dessa nova vida. Apenas não poderia ficar parado, pois isso me consumia de uma forma que eu não poderia aguentar.

Pelos próximos dias saí de casa o mínimo possível durante o dia, preferindo tornar minhas caminhadas noturnas, pois sentia como se a dona do apartamento estivesse pelo corredor a todo momento, pois se eu aparecesse fora deste quarto, ela então me abordava. Imagino que ela tenha gostado de mim, mas não posso dizer o mesmo. Tudo que sinto, quando olho para o seu rosto, é nojo, pois sempre me lembro da forma que ela me olhou na primeira vez que me viu. A forma que ela olhou quando viu meu verdadeiro eu. Talvez eu esteja exagerando e deva ser mais contundente com ela, que está tentando me ajudar na adaptação neste local. Mas e se ela soubesse quem eu sou de verdade? Faria o mesmo por mim? Eu não consigo parar de pensar nisso.

Então às vezes saio de dia, e às vezes saio de noite, mas evito conversar ao máximo.

Já faz três dias que estou nesse estado. Saio para comprar jornal, e ler as notícias. Quanto a emprego, não estava pensando em procurar, mas agora pode ser uma boa ideia, visto que o isolamento não está me ajudando em nada. Não é como se eu precisasse de um emprego por ora, mas poderia ajudar em minha recuperação mental, que não estava muito bem.

Confesso que havia mudado minha opinião perante a essa nova vida. Via tudo isso de outra forma agora; de uma forma mais dinâmica, que até mesmo me atraía um pouco. Eu poderia me ver como um ator, interpretando algo, e as pessoas se interessariam por isso. Talvez assim como a síndica do prédio já me preludiou com suas ações, eu posso ser uma pessoa interessante, e assim um mundo novo se abriria para mim.

Passei a semana seguinte inteira frequentando bares próximos do local onde presenciei o assassinato. Não era como se eu ainda buscasse por respostas – na verdade, acho que temia que elas chegassem até mim –, mas se houvesse mesmo uma resposta – coisa que eu não conseguia mais acreditar –, então eu devia correr esse risco. Afinal, este não sou "eu" de verdade. Ao menos não costumava ser.

Por necessidade, comprei um novo aparelho celular. Minha irmã estava me ligando muitas vezes, coisa que eu não conseguia suportar. Além de meu chefe, que também me importunava. Não respondi a nenhum destes chamados, nem mesmo enviei um SMS. Não queria que soubessem de nada, e, mesmo que soubessem, agora, o "eu" antigo não existia mais. Em suas mentes pequenas, eles não poderiam entender tamanha circunstância. Afinal, nem mesmo eu entendo. Durante esse tempo desenvolvi um novo hábito: o fumo. Cheguei em um ponto em que não conseguia mais ignorar essa vontade que sentia. Não sei bem quando comecei com isso, mas tenho a certeza de que foi depois que virei essa nova pessoa, então aceitei sem pestanejar, já que cada homem possui hábitos diferentes do outro. Alguns se contradizem, mas nunca em 100%. Esse novo "eu" fuma, e isso lhe era agradável, então não devo obstruí-lo disso. Não há do que reclamar.

O novo "eu" também não costuma sonhar, e esse talvez fosse, para mim, o pior de seus hábitos. Embora nunca tenha tido sonhos muito mirabolantes, sempre acreditei que sonhar é o que transforma a vida dos homens e o faz continuar vivendo. Se você não sonha, não vive. Um homem uma vez disse que "o sonho é uma expressão das vontades reprimidas do indivíduo.", mas se eu não sonho, então não possuo vontade alguma?

Então iniciei uma busca por um sonho. Uma busca difícil, duradoura. Talvez pareça bobagem, mas se consegui roubar um rosto e torná-lo meu, não posso fazer o mesmo quanto a um sonho? Um rosto é algo mais delicado, pois é único. Já um sonho, embora possa ser algo duradouro, também vale como algo fugaz, efêmero. Principalmente pela noite escura, onde muitos imaginam e clamam, mas também sonham, principalmente sobre um dia melhor. Não me importa sua natureza, eu apenas quero sonhar novamente.

Então passei noites em claro – pois me parecia o período mais fácil de encontrar o que busco -, em vários bares, em busca de um sonho, regado ao álcool e ao tabaco, mas tudo que encontrei foram pessoas vazias, e um pesadelo. Comecei a ser perseguido por minha própria imaginação.

Não sei se o roubei de alguém ou se surgiu em minha mente, mas ele veio, tomando lugar do que eu ansiava. Em meu pesadelo – ou talvez em minha loucura -, comecei a ver algo; na verdade, alguém. Não consigo explicar ao certo com o que se parecia, pois enxergava apenas um vulto, idêntico ao que vi no fatídico dia em que mudei de rosto. Não posso dizer se realmente era alguém, mas posso dizer que aquilo me seguia. Sempre que aparecia, eu estava em um bar, e essa imagem me desencadeava um frio na espinha, que me impossibilitava de continuar ali, então seguia até o próximo, onde o mesmo ressurgia, me fazendo ir para outro, e assim sucessivamente. Até mesmo evitava caminhar por ruas desertas, como costumava fazer, pois temia ter que confrontá-lo.

Talvez fosse um trauma do meu novo “eu”, já que o vulto que vi naquela noite o matou. Imagino que as perspectivas diferentes daquele evento tenham se sincronizado dentro de mim, desencadeando essa sensação, ou talvez ele tenha me reconhecido em algum lugar e voltou, para finalizar o serviço. Comecei a me sentir ansioso, trêmulo e desconfiado. Em todo lugar que ia, seja de dia, ou de noite, temia estar sendo seguido, e ficava olhando para todos os lados, como um maluco.

Comprei algumas roupas novas e até mesmo consegui um documento falso, com meu novo rosto. Assim eu estaria dentro da lei, embora me sinta como um indigente, desta forma. Confesso que já estou me acostumando com essa nova vida, mas às vezes começo a me questionar sobre toda essa situação, e, embora confie na medicina e na transparência que o doutor me passou, temo nunca conseguir voltar ao que era antes. Não sei se reestabelecerei minha relação com minha irmã sem uma boa desculpa, tão pouco conseguirei meu emprego de volta. Já se passaram duas semanas, me pergunto se minha irmã se sente preocupada.

Até mesmo caminhei pelas redondezas de meu antigo endereço, e tentei olhar pela janela, na esperança de a ver nem que seja por um único segundo. Eu apenas queria ver o seu rosto, saber se está bem. Mas as janelas permanecem fechadas, assim como minha alma. Esse é o novo “eu”, e devo me acostumar com isso.

Se o doutor conseguir uma cura – e se eu tiver coragem -, a chamarei até seu consultório, onde ele explicará para ela toda a situação que passei durante todos esses dias em que estive fora. Espero que ela entenda.