Notas iniciais
Por favor, me deixe saber sua opinião através de um comentário. Espero que gostem desse capítulo.

— Eu preciso lhe perguntar: você fez algum tipo de pacto? Não quero que se sinta ofendido, me perdoe pela pergunta, mas já é o terceiro raio-x que tiro do seu rosto e os três estão exatamente iguais. Não vejo anomalias, não vejo sinais de adulteração e nem algum tipo de vírus em seu sangue. Tudo que vejo nos exames é essa pessoa que está bem na minha frente, este você. Estou testando todas as possibilidades, então me pergunto sobre o sobrenatural, pois, dado o seu caso, essa pode ser uma opção.

— Não. Eu não o fiz. Nunca acreditei muito nesse tipo de coisa. Quero dizer, não consigo acreditar nisso de dar a alma, ou parte do corpo, para um retorno imediato. Eu possuía um emprego bom, vivia numa boa casa, com minha irmã. Tudo que eu queria era uma liberdade, agora que a tenho, me sinto mais sozinho do que nunca. Mas não é como se tivesse desejado isso para o céu ou falado com alguém sobre isso. Apenas aconteceu o que lhe relatei anteriormente. Foi apenas isso, não houve pacto algum.

— Entendo.

— Se já caminha para o lado sobrenatural, então desistiu de buscar uma resposta concreta na ciência?

— Oh, não, não. Eu não disse isso. Como te disse, estou olhando para todas as possibilidades. Essa ideia veio a minha mente, então resolvi te perguntar agora, já que está aqui. Não se preocupe quanto a isso. Estou muito interessado no seu caso, então estarei com você até darmos um fim nisso.

— E se não houver um fim?

— Sempre que há um início, há de haver um fim. Você verá. Vamos resolver tudo isso.

— Assim espero. Obrigado por todo o apoio que tem me dado nesses dias, doutor. É tudo que tenho tido.

— Ora, não me venha com essas! Estou aqui para lhe ajudar, então fique em paz. Vai dar tudo certo, apenas aguente mais um pouco.

Neste terceiro encontro que tive com o doutor, ele me pediu dois exames novos. Primeiro, fez uma máscara do meu rosto, usando um material que parecia argila. Primeiro o deixou sobre meu rosto durante alguns minutos, para que o material secasse e tomasse a forma exata de meu rosto, fazendo como que se fosse uma máscara. Disse que se houver uma anomalia mínima que seja em nosso próximo encontro, poderá detectar fazendo uma comparação entre uma e a outra. Além disso, usando uma ferramenta estranha, fez um pequeno corte em minha bochecha, onde tirou um resquício pequeno de minha pele, para conseguir meu DNA. Foi o que ele disse.

Resolvi não contar para ele sobre o vulto para que não pense que estou ficando louco. Estou tentando ignorá-lo para que talvez ele possa desaparecer. Confesso aqui que, a cada dia que passa, me sinto mais sozinho e longe da realidade de um indivíduo comum. Talvez eu seja incomum, e este é o problema. Não quero ser incomum; não quero ser diferente. Ser diferente é muito assustador. Mas existe uma grande diferença entre não ser notado e ser invisível. Por mais que olhem para mim, sinto que não me enxergam. Algumas pessoas até mesmo olham em minha direção, mas sinto como se estivessem olhando para trás de mim; como se eu não estivesse aqui.

Depois do encontro com o doutor, tive uma grande febre, ficando de cama por três dias inteiros. Três dias sem sair de casa, alucinando. Mas ao menos aquele vulto não me atormentou. Acredito que ele só apareça fora de casa. Aqui dentro, estou protegido.

Durante o período de alucinação, meu “eu” teve um sonho. Em meu sonho, eu caminhava pelas ruas, sem saber para onde estava indo, apenas caminhava. Caminhava entre um mar de pessoas, sem rumo, apenas mais um transeunte rente a multidão, até que caminhei por ruas mais vazias, entre um número menor de pessoas. Caminhei até que escutei um som, e me vi voltando, em direção a uma viela — eu me lembro deste dia. Me lembro da sensação -. Quando olhei em direção a viela, vi um vulto fugindo, e um homem caído. Mas diferente da realidade, quando me aproximei, aquele homem não estava só esfaqueado. Ele estava sem um rosto. No lugar do rosto restara apenas a carne, grudada nos ossos, e não consigo descrever o pavor que senti quando aqueles olhos se arregalaram, olhando para mim; olhando para o próprio rosto. Então acordei, a febre já havia passado.

Não sei ao certo por qual motivo, mas voltei a me sentir da mesma forma dos primeiros dias em que virei esse novo "eu". Tive dores de cabeça constantes e até mesmo febre, além de alucinar um pouco sobre certas coisas.

Quando me vi melhor, consegui um emprego.

Em minha antiga área, em uma empresa grande, eles me exigiriam todos os documentos possíveis, me fariam inúmeras perguntas e checariam todos os meus antecedentes, e é claro que o meu novo "eu" não possui nada disso. Ele nem mesmo possui um nome, pois não conhece ninguém para o chamar por um. Neste novo emprego, tudo que me pediram foi vontade de trabalhar e proatividade, então eu acho que irei conseguir. Estou trabalhando em uma loja de conveniência, próxima ao centro.

Talvez eu finalmente esteja acordando para a realidade, pois agora, sempre que me vejo no espelho, sinto um terror constante: Esse rosto não me pertence. Este não sou eu, e tenho muito medo de esquecer quem eu sou de verdade. Além de que não sei se consigo deixar transparecer o que estou sentindo.

Comecei a dividir meus dias entre o trabalho, andar pela cidade e a busca por um sonho. Pode parecer bobagem, mas continuo acreditando que poderei roubar o sonho das pessoas. Talvez isso tenha colocado novamente um sentido em minha vida, por isso busco tão avidamente por um. Acho isso mais viável do que recuperar meu antigo rosto, seja lá como o perdi.

Li algumas coisas sobre sonhos em um livro de um psicólogo famoso. Algo sobre a interpretação dos sonhos. De acordo com o livro, os sonhos são mensagens enviadas pelo nosso inconsciente, servindo de ponte entre os processos conscientes e não-conscientes e mantendo o equilíbrio da mente. Ele também usa o termo "imaginação ativa", onde basicamente podemos solucionar problemas, melhorar as características, aumentar a criatividade e o autoconhecimento apenas por entender os nossos sonhos. Além disso, seria possível saber quais são os desejos e realizações mais profundos de nosso verdadeiro eu.

Achei isso engraçado, pois não tenho certeza sobre quem é o meu verdadeiro eu. Tenho negligenciado minha própria vida desde que me tornei esse novo homem. Tudo que faço tem sido seguir a vida que criei para ele. Até mesmo os pensamentos, em alguns momentos, imagino ser fruto dele, e não de mim.

Já que não sonho, sinto vontade de tentar roubar o sonho de alguém. Estou me esforçando ao máximo para isso. Os observo sempre. Todos que entram aqui. Crianças, homens, mulheres. Os analiso e tento identificar traços de personalidades individuais, além de tentar imaginar com o que sonham.

Às vezes consigo ver algumas coisas, mas não sei se são frutos da minha imaginação para com aquela pessoa ou se realmente estou vendo os sonhos delas. Embora pareça loucura, acho uma opção muito viável: seria mais fácil roubar um sonho do que recuperar o meu próprio rosto.

Mesmo trabalhando, continuo frequentando os bares, em busca de mais um pouco dessa vida noturna. Alguns dias me sinto como se estivesse preso naquele apartamento, ou o novo “eu” gosta de frequentar esse tipo de lugar. Talvez seja isso. Às vezes me vejo em situações em que não estaria antigamente. Talvez esse novo "eu" esteja assumindo o controle de minha vida. Preciso fazer algo para mudar isso, antes que seja tarde demais.

No dia seguinte, fui até o consultório do doutor e expliquei toda a situação.

— Então você acha que está se tornando uma nova pessoa? Mas, e se em vez de você estar perdendo o controle, está apenas virando a mesa? Digo, ainda é a sua vida, mas agora você se sente tentado a fazer novas coisas, pois se vê de uma forma diferente de antes, escondendo a timidez nessa nova identidade.

— Não consigo acreditar nesse tipo de coisa, doutor. Sempre fui muito discreto e cuidadoso em todos os aspectos de minha vida. Acha mesmo que algo do tipo poderia acontecer?

— Você diria que um homem é capaz de mudar de rosto? Escute o que digo, seu subconsciente está lhe pregando peças. Você está se escondendo por baixo deste rosto, assumindo uma nova vida.

— Parando para pensar, doutor... talvez tenha razão. Se for pensar por este lado, esse novo rosto é como uma dádiva.

– Hm?

— Eu posso não fazer nada, ou fazer tudo. Posso ser quem eu quiser, ou até mesmo não ser ninguém. Ninguém saberá quem eu sou de verdade: ninguém jamais poderá conhecer o meu verdadeiro eu. A menos que o senhor encontre uma forma de me fazer voltar a ser aquela pessoa. Mas, doutor, tenho medo de que isso não aconteça.

— Confesso que é difícil, mas estou trabalhando nisso. E quanto a você, o que tem feito?

— Estou vivendo a vida deste novo eu. Estou trabalhando e... estou tentando roubar sonhos.

— Roubar sonhos? Como pretende fazer isso?

— Me concentrando, não sei. Imagino que, se consegui roubar um rosto, talvez possa roubar um sonho. Me sinto triste por este novo “eu” não sonhar, então, se porventura, conseguir roubar o sonho de alguém, eu poderia me entender um pouco mais. Estou pensando dessa forma, e tem sido tudo que tenho tentado fazer nos últimos dias.

— E conseguiu roubar algum?

— Não.

O doutor se pôs a rir.

— Me perdoe por isso. Realmente não sei se é algum tipo de poder, dádiva ou até mesmo uma maldição. Sendo o que for, não conhecemos a natureza disso. Talvez você realmente possa fazer mais do que roubar um rosto.

Saí do consultório prometendo manter contato com o doutor, para qualquer situação que fosse diferente do comum. O problema é que quase todo dia as situações são fora do comum.

A dois dias atrás, temia ver meu próprio reflexo. A três, tive febre. Ontem me sentia bem, hoje estou confuso.

Se tivesse que me explicar de alguma forma, diria que me sinto muito, muito vazio.

Enquanto caminhava pela cidade, passei frente uma livraria e, por alguma razão, me recordei do título de um livro famoso que conheci a muito tempo. Entrei na livraria e comecei a procurá-lo, na esperança de ter ao menos uma resposta.

“A Metamorfose”, de Franz Kafka.

Lembro deste livro de quando era mais novo. O autor me chamava a atenção, mas não conseguia me recordar se havia lido o livro inteiro, ou não. Agora irei lê-lo.

O rapaz do livro passava por um problema pouco parecido com o meu. Sinônimo, mas diferente. Na história, o rapaz se transforma em um inseto. Eu me transformei em outro ser humano.

Acho engraçado o fato dele levar tudo de uma maneira comum: aquilo aconteceu, então não há o que pensar sobre isso. Será que, assim como ele, eu devo aceitar esta minha nova condição e viver essa nova vida?

Tenho muito medo e indagações sobre essa situação. Indagações que não podem ser respondidas por ninguém, a não ser eu mesmo, embora não tenha a mínima ideia do que me transformou nisso.

Sendo sincero, às vezes sinto ódio de mim mesmo por passar por aquela viela naquele momento. Se eu não tivesse feito isso, poderia seguir com minha vida comum. Agora me livrei de tudo aquilo; me sinto livre. Mas também me sinto sozinho. Não há ninguém para conversar, não há mais minha irmã, quando chego em casa. Não existe mais nada para mim: agora que estou livre, me sinto mais sozinho do que nunca. O pior castigo para aqueles que vivenciam e se acostumam com as relações humanas, é ter de enfrentar a solidão novamente. Além de tudo isso, sei que mesmo que conheça uma pessoa nova, e a traga para minha vida, ela nunca irá me conhecer de verdade. Este não sou eu, é apenas a pessoa que está tomando conta de mim agora. Este “eu” não sou eu de verdade. Tenho medo de que olhem em meus olhos, mas não consigam me enxergar.

Me sinto como um hospedeiro.

Agora já faz um mês que me sinto assim, e cheguei a uma conclusão: Vivemos uma vida superficial. Cada um em sua própria maneira, somos falsos. Plastificados, quebrados, vazios. Somos todos artificiais. Agora que tenho contato muito mais contato com outros homens e mulheres, vejo muito isso.

Quando caminho entre eles, sinto não fazer parte de tudo isso. De toda essa bagunça.

Meio que já aceitei essa condição em que vivo. Não possuo mais esperanças de voltar ao meu antigo “eu”, seja ele quem for.

Na verdade, às vezes me pergunto se pelo mundo afora existe outra pessoa que passou pela mesma situação que eu, e como ela tem aguentado tudo isso. Talvez ela simplesmente tenha deixado para lá. Neste mundo em que vivemos, é muito mais fácil viver com esse novo rosto do que da forma que eu era antes. Mas talvez isso seja pedir demais.

Quase as noites, quando retorno do trabalho, caminho em direção a minha antiga casa, na esperança de ver se minha irmã está bem, mas tudo que vejo é uma janela. Eu poderia bater na porta, dizer algo. Talvez até mesmo enviar uma carta ou ligar, mas não tenho certeza se minha voz ainda é a mesma que costumava ser. Cada dia mais, esqueço como eu era. A única coisa que tenho 100% de certeza é em relação a minha cicatriz, mas não me recordo sua origem. Não sei se esqueci ou se já não me lembrava. Minha mente está confusa, principalmente quando tento me lembrar de coisas do passado.

Esses dias, quando voltava para casa, de noite, recebi uma visita inesperada. Quando abri a porta, a síndica estava a minha porta, alegre:

— Olá. — Ela disse.

— Boa noite.

— Sabe, você está aqui a quase um mês, mas não é de falar muito, não é? Eu o vejo passando, pelo corredor. Eu tento vê-lo o máximo possível, tento falar com você, demonstrar interesse, mas você não me dá uma única abertura.

— Ora, eu sou apenas ocupado e recluso, apenas isso.

— Mas pra quê tanta timidez, com um rosto lindo como esse...

Disse que estava cansado e tentei fechar a porta, mas ela a segurou com o pé esquerdo.

— Eu estou aqui agora. Por que não me deixa entrar?

— Isso não é muito adequado.

— Não me venha com essas! Vamos, idiota, abra essa porta. Eu sou a dona deste prédio, sabe disso, não sabe?

— Você faz isso com todos os locatários?

Seu rosto ficou vermelho como um tomate. Decerto ela não estava em sã consciência do que estava fazendo. Estava muito bêbada.

— Por favor, me deixe descansar. Tive um dia agitado.

Ela nada disse, apenas retirou o pé e me deixou fechar a porta, mas assim que a fechei, ela deu batidas fortes:

— Sabe que posso expulsá-lo daqui, não sabe?! Contarei ao meu marido, você irá ver!

Depois dessa ameaça, e de mais uma ou duas batidas na porta, ela me deixou em paz. Respirei fundo, tomei um banho e logo tentei dormir, mas demorei um pouco para pegar no sono, pois senti medo de que ela tivesse uma cópia da chave, e invadisse meu apartamento. Nunca havia visto ela nesse estado, mas sabia da forma como ela me olhava. Agora tive a certeza, mas... nunca vi um homem com ela, por aqui.

Naquela noite, tive um sonho. Na verdade, uma fantasia, com a síndica. Fiquei realmente muito tentado a deixá-la entrar naquele momento. Não me importava com mais nada, ignoraria todos os meus julgamentos sobre ela e seu estado. Eu apenas a seguraria em meus braços e faria tudo que me desse vontade, sem compromisso algum. Ainda me lembrava da forma que ela me olhou na primeira vez em que estive aqui, como negligenciou minha presença apenas por minha aparência, e isso me deixava com ainda mais raiva dela, de forma que eu gostaria de descontar tudo isso nela, assim como fiz em meu sonho.

Eu tive um sonho. Meu novo “eu” teve um sonho. Mas, um sonho tão carnal como esse não merece ser comentado. Mesmo assim estou feliz: eu tive um sonho.

Nessa minha nova vida, não tenho mais sentido febre como costumava sentir. Meu novo chefe é um senhor de idade, que quase nunca aparece, mas me designou tarefas maiores, me subindo de cargo. Graças a ele, agora sou o responsável por essa loja. Até mesmo contratei um rapaz para revezar turno comigo. É um bom rapaz, que estuda alguma coisa, e parece ser mais tímido do que eu costumava ser.

Pelas noites, ainda me sinto perseguido, mas já aceitei isso. Esse ser que me persegue nunca vem ao meu encontro. Apenas segue, de longe, e lá mesmo fica. Um dia até mesmo parei de caminhar e olhei em sua direção, mas ele se dissipou em uma sombra. Talvez seja o diabo tentando me pregar uma peça, ou até mesmo um simples demônio, mas não me lembro de ter feito pacto algum, e é necessário total consciência neste tipo de coisa — pesquisei sobre isso -, então sei que não o fiz.

Amanhã irei me encontrar com o doutor novamente. Eu estou vendo-o alguns dias, fora do escritório. Talvez ele tenha se cansado de buscar uma resposta para minha condição, mas não se cansou de minha pessoa. Somos amigos, eu diria.

Acho que ele é a única pessoa que consegue ver através de mim, e me sinto agradecido por isso.

Na última vez em que nos encontramos, ele me recomendou tentar viver dessa forma. Viver como esse novo “eu”, mas ainda sinto que, com isso, estaria negligenciando minha própria situação, e aceitando essa condição que me foi imposta. Embora viva deste jeito, gostaria de voltar a ser eu mesmo, ou de me acostumar com esse novo “eu”.

Em alguns dias me sinto bem, em outros me sinto muito mal. Acho que existem muitos “eus”, mais do que consigo controlar.

Agora me sinto bem, amanhã posso não me sentir. Minha vida continua uma grande confusão, mas temo que aos poucos eu consiga me acostumar com isso: me acostumar a não ser ninguém.