A Orquestra
7 Um pouco exagerada
Maria acabou por conseguir se recuperar no outro dia, acordando com menos pena de si mesma e até um pouco mais de animação para aprender mais coisas sobre a orquestra. Tentou não colocar a culpa de seu drama anterior no garoto que mal conhecia, e que aparentara querer mesmo ajudá-la com a coisa toda, mas de qualquer forma preferia não vê-lo ainda para não se lembrar dos pensamentos tristes que tivera antes. Não era difícil não encontrar alguém no hotel, principalmente alguém que já tinha uma casa para onde ir quando estivesse na Alemanha.
De qualquer forma, acabou por passar o dia posterior e o resto da semana passando pelo itinerário de ensaios de toda a orquestra, agradecida por fazer parte dos segundos violinos a cada vez que dava uma falta por não conseguir se segurar parada no mesmo lugar. No sábado nem mais conseguia contar quantas vezes tinha batido o arco na pessoa ao seu lado, mas tentava ser positiva, acreditando que aprender a tocar sentada era mais fácil que aprender a tocar de início.
Tudo continuou tranquilo, não às mil maravilhas, mas Maria continuava tentando ser otimista com tudo que acontecia. Isso até o dia antes de sua primeira verdadeira apresentação da orquestra.
Estava mais do que animada por tocar pela primeira vez em algo que sempre sonhara desde que tivera seu primeiro violino nas mãos, o sorriso mal saíra de seus lábios durante todo o sábado e maior parte do domingo. E então, naquele mesmo dia, depois do jantar e um dia antes da performance, Maria fora chamada pelo Maestro quando subia para seu quarto, para conversarem.
– Maria, revisei os nomes para amanhã e você não vai participar. – disse o homem, assim que chegaram à bancada do andar do quarto de Maria, com o sotaque alemão tão puxado que ela mal conseguia dizer se ele estava fazendo algum esforço para disfarçar.
O sorriso sumiu dos lábios da jovem no mesmo instante, suas sobrancelhas se franziram sem que tivesse noção disso e teve que piscar várias vezes para ter certeza que o Maestro estava falando sério. Ele não parecia perceber que essa notícia era algo que não se devia dar desse jeito a uma violinista sonhadora como Maria, na verdade, parecia ser algo que fazia sempre, afinal nem sempre todos tocavam em uma apresentação pequena como aquela primeira.
Ficara tanto tempo chocada que o homem teve que pigarrear baixo para chamar sua atenção.
– Ah, sim. Tudo bem, entendido. – respondeu meio grogue, abrindo um sorriso que achou ser tranquilizador, ao que ele respondeu com um aceno de cabeça antes de sair da sacada.
Maria ficou ali por alguns segundos antes que seus pés a guiassem para o quarto sem que notasse, e repassava em sua cabeça todos os erros que tinha cometido durante os ensaios. Tinha que ter sido esse o motivo para que não entrasse, era certeza – em sua cabeça pouco entendedora das coisas – que escolhiam os mais novos para apresentações não tão importantes, para que os outros pudessem se preparar melhor para as outras. Então o problema era ela, não era boa o suficiente se não sabia nem ao menos tocar uma obra inteira sem bater com o instrumento musical na pessoa ao lado. Só percebera que tinha chegado ao quarto quando a porta se fechou atrás de si e foi recebida pela escuridão.
Olhou a escuridão e sentiu-se extremamente solitária pela primeira vez desde que chegara ali. Tudo bem que várias vezes quisera ter um amigo ao seu lado, mas nunca sentira que essa vontade apertava seu peito e a fazia querer chorar por ajuda de repente. Não era assim grande coisa não poder tocar na primeira apresentação, era realmente nova ali e sabia ser sensato não colocá-la assim de prontidão. Mas não conseguia tirar o sentimento de que tinha fracassado da cabeça, não era algo razoável, mas não estava para essas coisas no momento. Só queria poder pular nos braços do melhor amigo e chorar até não poder mais, como fizera quando uma garota cortou seus cabelos na altura dos ombros numa aula de educação física.
Seus dedos buscaram o celular no bolso da calça e chamaram ao garoto – por um aplicativo que era de graça, não era burra de gastar um dinheirão ligando pra outro país. Não havia saído da frente da porta ainda, e escorregou até o chão enquanto o telefone tocava. E tocou, tocou várias vezes antes que Maria desistisse que Gabriel atendesse. As lágrimas começaram a cair involuntariamente assim que encerrou a chamada. Em poucos segundos seu corpo todo tremia e, abraçada aos próprios joelhos, soluçava como uma criança de dois anos que perde o brinquedo preferido no circo.
Era ruidosa quando chorava, por isso agradeceria depois pelas paredes grossas do hotel, e por culpa dos próprios barulhos quase não notou quando o celular começou a tocar ao seu lado, onde o havia deixado antes. Não tentou, até porque não conseguiria, olhar quem a chamava, apenas atendeu e fez um resmungo anunciando que estava desse lado da linha.
– Como vai essa violinista do meu coração? Animada pra amanhã? – a voz de Gabriel era tão animada que fez Maria chorar mais ainda, como se fosse possível. – Você tá chorando? Maria, o que aconteceu? – com facilidade e rapidez a voz do garoto se transformou, deixando toda a animação pra trás.
– Eu não quero mais. – disse entre soluços, soltando um resmungo ao tentar segurá-los. – Quero ir pra casa! – reclamou, batendo a mão aberta no chão.
– Pelo amor de Deus, o que foi que te fizeram aí? O que te aconteceu? – do outro lado da linha faltava pouco para Gabriel ter um ataque do coração pensando nos possíveis cenários que deixaria Maria naquele estado.
– Não vou tocar amanhã, eu sei que vão acabar desistindo dessa ideia maluca de terem me aceitado tão nova. – jogou tudo de uma vez, tentando limpar as lágrimas com as costas da mão livre.
Gabriel soltou um suspiro de alívio antes de voltar a falar.
– Duvido que façam isso, você sabe que isso não vai acontecer. Não devem ter te escolhido porque só tem uma semana que está aí, você é uma ótima violinista, sabe disso. – tentou tranquilizá-la, sentia-se tão impotente quanto a garota por não poder fazer mais nada além de falar.
Maria não respondeu, apenas segurou o celular contra o ouvido e tentou acalmar a si mesma com o pensamento de que não estava sozinha, mesmo que a outra pessoa estivesse do outro lado do oceano. E Gabriel não desligou o telefone, ficar em silêncio durante uma ligação era o mínimo que podia fazer se era isso que ela precisava, esperando que a amiga se recuperasse sozinha. Só depois de alguns longos minutos, quando os soluços pararam e as lágrimas secaram foi que Maria abriu a boca outra vez.
– Sinto sua falta. – resmungou com a voz ainda um pouco de choro, fungando.
– E eu a sua, rainha do drama. – respondeu ele, soltando uma risada baixa que ela retribuiu com uma risada mais baixa. Estava começando a perceber como seu desespero havia sido desnecessário aos poucos.
– Te ligo amanhã, agora tenho que assoar o nariz e tudo mais, não tá bonito aqui.
– Até de longe consegue ser um nojo, desnecessária essa informação. – Gabriel reclamou, mas sorriu do outro lado da linha e os dois se despediram.
A jovem se levantou, encerrou a chamada e foi em direção ao banheiro para ver em que situação se encontrava, fazendo uma careta ao olhar a si mesma. Olhos inchados, cabelo por toda parte que a fazia se parecer com o curupira, nariz também mais do que vermelho. Ficou alguns segundos olhando a si mesma antes de começar a rir, gargalhar realmente da própria pena e do tanto que deveria ter parecido ridícula por alguém de fora. Permaneceu algum tempo ali no banheiro, rindo de si mesma, para então resolver tomar um banho e deixar tudo aquilo para trás. Iria jogar um pouco no celular, ver algum seriado de zumbis no computador e ir para a cama. Chorar cansava.
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