A Orquestra
8 Amizades
Já era a hora do almoço e hotel estava praticamente vazio, nem mesmo havia visto as pessoas habituais no lobby, conversando umas com as outras ou jogando um ou outro jogo de cartas. Deviam estar todos se preparando ou ensaiando. Maria soltou um suspiro ao pensar que ela podia também estar fazendo a mesma coisa, mas antes que pudesse começar a dramatizar outra vez, bateu as palmas das mãos nas bochechas para acordar e lembrar que não estava no fundo do poço pra ser tão desanimada.
Entrou para o local do jantar e reparou com tristeza o vazio que o local estava, apenas umas dez pessoas ocupavam as diversas mesas que havia ali, todas comendo em silêncio e cuidando da própria vida. Maria caminhou até uma das mesas vazias, depois de dar seu nome ao homem parado na porta para que ele pudesse avisar que ela estava ali para comer. Os pratos já eram feitos e tinha pouca escolha entre eles, mas era tudo saboroso o suficiente para que Maria não reclamasse, na verdade ficava feliz de não ter que comer a sopa de Joana.
Ao passar por uma das mesas viu o garoto da flauta comendo sozinho em uma das mesas, imaginava que, por ele ser alemão, tinha para onde ir quando estava ali e não precisava ficar no hotel. Mas então se lembrou de que nem todo mundo devia morar em Berlin ou em alguma cidade perto. Bateu na própria testa mentalmente antes de se aproximar da mesa dele com um sorriso. Odiava comer sozinha, e entre ele no silencio lendo o cardápio – que só estava ali de enfeite – e as outras pessoas focadas no celular que nunca tinha trocado mais que duas palavras, claro que preferiu falar com ele.
– Boa tarde! – cumprimentou, apoiando as duas mãos na cadeira em frente a Albert, que levantou os olhos lentamente para olhá-la. – Posso sentar? Acho triste comer sozinha. – segurou o sorriso, mesmo com ele parecendo não poder estar mais sem expressão.
– Pode. – depois de longos segundos, nos quais ele pareceu ponderar a pergunta, respondeu praticamente monossilábico.
– Obrigada. – Maria tentou ignorar a falta de animação dele ao puxar a cadeira e se sentar. – Também não vai participar hoje? – perguntou para puxar assunto, apoiando os cotovelos na mesa e deixando as mãos abertas sobre a mesa, se segurando para não começar a batucar para preencher o silêncio do lugar.
– Não, poucos foram chamados dessa vez.
Apesar da resposta curta e do fato de Albert estar com metade do rosto escondido pelos cabelos, por estar com a cabeça baixa olhando o cardápio outra vez, Maria percebeu que ele torcia os lábios e tremia um pouco os dedos ao falar aquilo.
– Hm, eu fiquei meio pra baixo ontem com a notícia. – “pra baixo” era um jeito meigo de dizer que se derramara em lágrimas e derretera de tristeza como uma vela, mas não tinha que contar detalhes pra todo mundo. – Mas parece que todos estão acostumados a não serem chamados às vezes, como a de hoje.
– É, é normal isso acontecer. – e mais uma vez parecia que estava falando com o vento.
Maria não entendia porque ele estava tão silencioso, no dia em que a encontrou tocando até fizera uma piada sobre como ela dançava por aí com o violino em mãos, e agora parecia ter engolido um limão inteiro de tão azedo que aparentava. Resmungou algo em concordância com ele, porque nem mesmo sua capacidade de puxar conversa ia sobreviver com quem não queria conversar. Apoiou o queixo na mão e começou a murmurar uma música qualquer que aparecera em sua cabeça observando o local com os olhos entediados.
– Você está bem tranquila, achei que ia ficar devastada por não conseguir tocar. – comentou Albert, de repente, dando um susto em Maria que estava distraída.
– Por que achou isso? – respondeu com uma pergunta, estranhando que ele voltara a falar normalmente, mas não ia reclamar.
– É o que acontece com todos os novos, chegam achando que vai ser um mar de rosas, e desabam na primeira semana.
Assim que terminou de falar os pratos chegaram, e enquanto Maria havia escolhido o com um grande pedaço de carne o garoto só tinha folhas no próprio prato. Não comentou nada, apenas achou graça da diferença, na verdade estava pensando no que ele havia dito. Devia ter sido por esse motivo que tinha ensinado como se sentar e tudo mais, fazer o baque da realidade ser menos duro a ela em um primeiro ensaio em grupo.
– Você também passou por isso? – a pergunta saiu enquanto cortava um pedaço do grande bife que tinha no prato, enfiando-o na boca para então olhar para Albert esperando uma resposta.
– Não, eu não queria tocar na frente de todos, então foi quase um alívio. Isso foi no ano passado e até hoje só toquei uma vez para o público, fujo disso na maioria das vezes. – fez um gesto com a mão tirando importância do que tinha dito, colocando os olhos no prato de comida que finalmente começava a comer.
– Como assim você foge? Não quer que as pessoas ouçam sua música?
Era quase uma ofensa ouvir isso de um músico, para Maria pelo menos. Como alguém podia tocar tão bem a ponto de entrar numa orquestra e não querer que os outros o ouçam? Sua expressão devia mostrar que estava consternada, porque ele começou a rir tapando a boca com a mão direita.
– Que foi? – perguntou Maria, ansiosa e sem entender mesmo porque ele ria. Mas teve que esperar que terminasse de mastigar para ter sua resposta.
– Eu não entrei pra tocar para os outros, entrei para aprender mais. Não precisa parecer tão desesperada, não é que eu não queira que as outras pessoas me ouçam, só que me sinto mais confortável tocando pra mim mesmo. – Albert tomou um gole de sua bebida, para então franzir as sobrancelhas olhando para Maria. – Achei que você sentia o mesmo, parecia se divertir sozinha enquanto tocava.
– Ah, eu me sinto ótima tocando só pra mim, até mesmo quando tem outros ouvindo parece que só existe a música e nada mais, e é maravilhoso. – seus olhos ficaram sonhadores sem que percebesse, voltou a realidade ao piscar algumas vezes. – E por isso quero tanto que me ouçam, quero passar essa sensação pras outras pessoas. – terminou, dando um sorriso sincero antes de enfiar outra garfada de comida dentro da boca.
– Faz sentido. – Albert se deu por vencido, sorrindo minimamente.
Continuaram a comer e a conversa se estendeu até depois da sobremesa, quando Maria já começava a confundir palavras em inglês e Albert puxava ainda mais o sotaque alemão. Saber como os dois estavam se entendendo era um mistério, mas pelo menos se divertiram falando sobre suas visões sobre as coisas e tudo mais, no final da tarde se separaram para fazer as próprias coisas e cuidas de seus instrumentos.
Mas Maria se sentia feliz dessa vez ao entrar no quarto do hotel, além de Alba, agora começava a ter outro amigo em meio a orquestra, um tão novo quanto ela naquilo tudo. Agora também tinha mais coisas a contar a Gabriel, a quem prometera que ligaria naquele dia para mostrar que ainda estava viva e não virara um mar de lágrimas. Não iria reclamar com ele naquele dia, ou melhor, claro que reclamaria de uma coisa ou outra – como o fato do suco de laranja não ter açúcar suficiente – mas estava melhor que no dia anterior. Ele ficaria feliz.
Só conseguiu que ele atendesse ao telefone bem mais tarde, quase na hora do jantar e teve que aguentar a quantidade de zoeiras que ele fazia com ela dando um treco por ser tão desesperada. Maria só conseguiu rir, feliz por poder falar em sua língua materna depois de um dia só falando em inglês, e também pelo fato de que o amigo escondia muito bem o quanto tinha ficado mesmo preocupado. Sorriu para si mesma ao pensar nisso, e só conseguiu arrancar um olhar estranho de Gabriel do outro lado do vídeo, não podia pedir um melhor amigo melhor que ele. Mas o que disse foi que ele tinha esquecido uma cueca em cima da cama, o que o fez olhar desesperado para trás enquanto Maria morria de rir do desespero alheio.
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