A Orquestra
9 Enganada
Em pela quarta-feira, o único dia que pegara para não ensaiar, Maria decidiu dar uma volta pela praça em frente ao hotel. Depois de tentar ajeitar suas coisas no quarto, prender os cabelos ruivos em um rabo de cavalo e sorrir satisfeita para si mesma no espelho do banheiro, enfiou o celular no bolso da calça e saiu em direção à rua. Tinha a intenção de passar a maior parte do dia ali, ou pelo menos até um pouco depois do almoço. Estava acordando cedo desde que chegara, nunca pensara que iria fazer tal coisa por livre e espontânea vontade, mas lá estava ela as nove da manhã andando entre as árvores da praça.
Depois de caminhar um pouco achou uma grande árvore com um banco de madeira embaixo e, sem pensar muito, caminhou até ele e se sentou respirando fundo. O cheiro da manhã parecia até melhor que o da tarde, até porque o silêncio era bem maior pela maioria das pessoas estarem dentro de casa ou dos escritórios. Poucos carros passavam e isso era tranquilizador.
Maria fechou os olhos, deixou a cabeça cair para trás respirando profunda e lentamente, aproveitando o momento. O que durou pouco, já que algo meio áspero passando por sua mão, que estava sobre o banco, a fez pular sentada e soltar um mini grito antes de realmente ver o que estava acontecendo. Percebeu que seu susto não havia assustado apenas ela, mas também o pequeno gato branco de listras pretas que estava ao seu lado no banco. Ele devia ter se afastado dela alguns passos porque naquela distancia tinha sido impossível para ele lamber sua mão. Ou seria ela? Não conseguia saber assim só de olhar uma vez.
– Ei você, não apareça assim do nada. – falou, e como falava com um animal só fez aquela voz engraçada, mas não falou em inglês. – Vem cá, desculpa te assustar.
Esticou a mão, que já tinha sido lambida pelo animalzinho, na direção dele esperando que se aproximasse outra vez. E para surpresa ele o fez, meio apreensivo no começo, mas logo já estava passando a cabeça pela mão esticada de Maria como se pedisse carinho.
– Ai que fofinho. – disse a si mesma ao começar a acariciá-lo, fazendo um bico porque achara o gatinho realmente muito meigo e porque ele não tinha saído correndo desconfiado, como era o normal de gatos.
Mas como alegria de pobre dura pouco, depois de alguns minutos de felizes momentos com a companhia do pequeno gatinho, quando Maria menos esperava, o bichano fez um barulho estranho e saiu correndo em direção à baixa grama que havia ali.
– Oh, porque você foi embora? Volta. – pediu inconsolável e, claro, fazendo mais drama do que o necessário.
Ficou ali parada olhando para o local em que ele tinha sumido, se perguntando o que tinha feito para que ele saísse assim de repente. Quando tentou segurá-lo não tivera nenhum problema, até tinha subido nas pernas da menina sem que ela esperasse, e então do nada saíra correndo. Realmente não entendia.
– Aconteceu alguma coisa? Você parece abatida. – uma voz veio próxima, fazendo Maria sair da própria solidão.
– Ahn? – perguntou bem lerda, piscando os olhos antes de reparar que quem estava a sua frente era Alba, com um olhar preocupado e um livro fechado na mão direita. – Ah não, é só que tinha um gatinho aqui e de repente saiu correndo. E eu nem fiz nada. – resmungou a última coisa, fazendo uma careta triste.
– Um gatinho? Você está abatida porque ele fugiu? – a mulher faltava pouco para começar a rir da cara de Maria, mas se limitou a andar elegantemente até o banco e se sentar ao lado da garota, colocando o livro sobre as pernas.
– Animais normalmente não são assim tão amigáveis comigo, principalmente gatos. É sério, o gato de uma amiga minha faltava pouco destruir tudo ao meu redor para me mandar embora. – arregalou os olhos dando ênfase ao que dizia. – Só fiquei animada, daí ele foi embora logo depois do nada e me deixou aqui.
– Não se preocupe, gatos são assim. Pode ser que ele esperava comida, viu que você não possuía nenhuma e foi embora. – Alba falou, abrindo um sorriso amigável para Maria.
– Então ele pode ter só me usado? Que gato safado. – deixou o queixo cair, indignada com o fato de que era possível que fosse isso mesmo. Ele a tinha rondado o tempo todo, e ela achando que tinha arrumado um amigo no parque.
Ouviu a risada calma de Alba enquanto pensava que até os gatos eram espertinhos o bastante para tirar vantagem de garotas desprevenidas no parque, virando-se para ela antes de começar a rir também. Percebera finalmente o quanto devia parecer estranha ali indignada com um animal que a natureza era viver livremente por aí apenas aproveitando quando tinha comida por perto.
– Você é uma garota divertida, isso vai fazer falta no inverno. – comentou a senhora, cruzando as pernas e abrindo o livro na primeira página.
– Por que no inverno? – perguntou sem entender, semicerrando os olhos para Alba que mal tirou os olhos do livro para responder sua pergunta.
– As pessoas são muito tristes no inverno daqui, mas tenho a sensação de que você não ia mudar nem no frio. – finalmente tirou os olhos da página que tentava ler e olhou para Maria, sempre sorrindo.
– Espero que tenha razão. – murmurou para si mesma, apoiando o cotovelo no joelho e o queixo na mão, olhando uma árvore a sua frente por um longo minuto, soltando um suspiro antes de se espreguiçar. – Bem, vou indo. Ainda estou deprimida com esse gato aproveitador, vou ver se como algum doce no hotel, boa leitura, Alba.
– Bons doces, Maria. – Alba respondeu com sua voz calma, fazendo Maria sorrir alegremente ao acenar em despedida, antes de sair em direção ao hotel.
A caminhada durou pouco, porque a praça era em frente mesmo ao hotel, e logo já estava no lobby outra vez, acenando para o cara entediado que sempre estava ali. Depois de mais de uma semana aprendera a ignorar o fato de que ele sempre parecia ranzinza, e agora sempre sorria alegremente quando o via, fazendo-o fazer uma cara engraçada ao tentar retribuir o sorriso.
Foi rindo disso até o local em que deveriam estar as comidas, e que nessa hora tinha apenas uns aperitivos sem graça. Passou por tudo que tinha ali e não encontrou um doce que fizesse jus a sua vontade de comer coisas cheia de açúcar, soltou um resmungo e deu meia volta para sair dali. No fim das contas teve que subir até o quarto de hotel, pegar um pouco de dinheiro e ir até uma vendinha que esperava encontrar por ali, acabou por passar pelo parque outra vez atrás de Alba para pedir direções. A mulher riu, apontando para o lado onde deveria ter um supermercado e voltou a ler enquanto Maria saía quase saltitando na direção dos possíveis doces.
Esquecera do gato, talvez tentasse chegar perto dele no outro dia com um doce, já que era tão fominha assim, ou com alguma coisa mais saudável para um gato. Mas por enquanto deixaria ele pra lá, tinha vários pacotes de puro açúcar a esperando e não tinha nenhuma Joana para falar em seu ouvido sempre que colocasse um dentro da boca.
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