A Orquestra

11 Sexto sentido


Maria espetou a batata frita em seu pato e soltou um resmungo, apoiando o cotovelo sobre a mesa e apoiando o queixo sobre a mão que estava livre. Estava entediada, ainda faltavam vários dias para a apresentação que ela participaria, dessa vez tinha certeza disso, o pobre do maestro já deveria estar de saco cheio de ter a garota atrás de si perguntando a mesma coisa toda hora. Alba, que estava a sua frente, soltou uma risada baixa tapando a boca com as costas da mão direita, o que fez Maria olhar para ela com os olhos quase fechados de tédio.

– Você ri, né? – mal movia a boca para falar, pouca era a vontade de nem ao menos se mexer.

– Desculpe. É que você está fazendo uma tempestade em copo d’água, dias tranquilos são os mais bonitos. – pontuou Alba, tomando o resto de seu chá de depois do almoço.

– Isso é porque você é bem na sua, calminha e paciente. Esperar mais que uma semana é quase uma tortura pra mim, preciso de algo pra fazer. – resmungou, finalmente enfiando a batata dentro da boca, mastigando sem muita vontade.

– Porque não chama Albert ou Paola para passear um pouco? Não temos mais que ensaiar hoje. – Alba deu a ideia, começando já a se levantar da mesa.

Paola era uma das violinistas que sempre ficava ao seu lado, a pobre já tinha sofrido tanto com o desengonçamento de Maria e mesmo assim sempre a ajudara. Ela era cinco anos mais velha que Maria e tinha entrado na orquestra quase na mesma época que Albert, e depois de várias vezes batendo com o violino ou o cotovelo em Paola acabaram virando amigas de hematomas.

– É, boa ideia, vou ver se eles animam. – respondeu por fim, depois de pensar alguns instantes sobre o assunto, não percebendo que Alba já estava longe da mesa. – Sempre silenciosa. – comentou para si mesma, soltando um suspiro ao também levantar-se.

Depois de sair do restaurante do hotel, pegou o elevador e subiu até o andar do quarto de Albert, sabia que ele estava ali porque o vira sair do almoço antes que ela chegasse, ele sempre comia mais cedo. O garoto acabou por falar que não estava se sentindo bem, e na verdade parecia mesmo meio doente por estar bastante pálido, e que ficaria no quarto até que melhorasse. Maria ficou preocupada, se ofereceu para comprar remédio ou para medir a temperatura dele, já toda pra frente esticando a mão pra colocar na testa dele enquanto a outra ia para a própria. Só depois de várias desculpas e tentativas de se livrar de uma Maria preocupada que Albert finalmente conseguiu que ela o deixasse tranquilo no quarto, convencendo-a a chamar Paola para sair, porque era mesmo uma boa ideia para espairecer. O que foi o que fez depois dele fechar a porta.

– Oh, é você, Maria. – falou a moça, recebendo a outra em sua porta.

Ela estava com os cabelos escuros presos em uma trança que caía em seu ombro direito, era mais alta que Maria mesmo sem saltos, e vestia o que parecia a roupa mais confortável que tinha. Ajeitou os óculos e semicerrou os olhos ao olhar Maria ali parada em sua porta, outra vez animada para sair.

– Vamos dar uma saída? Tem uma loja de coisinhas lindas que Alba me indicou, e uma sorveteria que encontrei um dia quando me perdi caminhando e o sorvete é ótimo! – quase pulava em frente a outra, com um sorriso quase de orelha a orelha nos lábios. Mas então parou um pouco e torceu os lábios. – E também vou comprar um remédio pro Albert, ele tá doente e acha que vai melhorar só ficando enfurnado em um quarto. – revirou os olhos.

– Bem a cara dele fazer essas coisas, não sabia que estava doente. – Paola pensou um pouco, apoiando o braço no batente da porta. – Tá ok, se é pra ajudar o Albert eu saio sim, e por causa do sorvete, claro. – piscou para Maria, que abriu outro sorriso ao ver que teria companhia. – Espera só um pouco que vou me trocar, entra aí.

Paola conseguira se arrumar mais rápido do que Maria esperava, e depois de um tempo sentada no sofá, olhando um dos livros que estava lendo, as duas saíram em direção à rua a caminho da farmácia, para não esquecer o remédio no fim do passeio. Deixaram o local com uma sacolinha com dois remédios, um para febre e outro para gripe. Não sabiam o que ele tinha, mas remédio para gripe sempre era bom ter guardado.

– Por que decidiu sair hoje de repente? – perguntou Paola, ao passarem em frente a uma loja de ternos.

– Ideia da Alba. Acho que ela cansou de me ver entediada na frente dela durante todo o almoço e sugeriu isso. – soltou uma risada pelo nariz, apontando para um terno azul estranho que fez Paola fazer uma careta.

– Que coisa horrível. – comentou sobre o terno. – Onde mesmo era a tal sorveteria?

– Algumas quadras a frente, a gente compra o sorvete e vai pra loja que te falei. – apontou para o caminho com a mão direita, quase batendo o braço em Paola ao fazer um movimento brusco. – Desculpa! – pediu, mesmo sem ter batido, era quase automático pedir desculpas a outra.

– Tá tudo bem, não acertou... dessa vez. – Paola riu, olhando-a de lado, o que fez Maria fazer um barulho como um gato injuriado.

No fim acabaram comprovando que comprar um sorvete e entrar numa loja de coisinhas pequenas e minuciosas não era uma boa ideia. Não podiam tocar nada e ficaram morrendo de medo de derrubar sorvete nas coisas, e acabaram saindo de lá mais rápido do que Maria havia programado, mas pelo menos haviam dado muitas risadas durante o passeio, o que valera a pena.

Voltaram para o hotel pouco antes do jantar, e quando passaram em frente ao homem com cara fechada de sempre, o mesmo chamou Maria.

– Tem uma carta pra você, chegou essa manhã com o correio, desculpe a demora a entregar. – ele falou sempre sério e preguiçoso, entregando um envelope branco para uma Maria com as sobrancelhas franzidas.

– Tudo bem, obrigada. – agradeceu.

Com o envelope em mãos voltou para o lado de Paola, que esperava por ela para subirem até o quarto de Albert com os remédios. Maria levantou o envelope no ar quando viu a expressão curiosa da outra, começando a abri-lo enquanto entravam no elevador. Não conseguiu tirar a carta de dentro do maldito envelope até que estavam já na frente do quarto de Albert, tocando na porta para chamá-lo.

– Você outra vez. – sua voz estava arrastada e horrível, assim como seu rosto que estava mais do que pálido e cansado.

– Também estou feliz em te ver, Albert. – Paola esticou o pescoço ao falar com ele, que moveu os olhos lentamente de Maria até ela, piscando várias vezes.

– Paola? – Albert parecia ter visto uma coisa de outro mundo.

– É, eu mesma, agora deixa a gente entrar e deita antes que você desmaie no meio do corredor. – começou a empurrá-lo para dentro do quarto.

Maria acabou ficando para trás, tinha ficado entretida com a carta enquanto os dois conversavam, ou melhor, Paola falava e Albert resmungava algumas coisas com pouco sentido. Entrou no quarto lendo as primeiras linhas, e quando chegou ao sofá perto da cama de Albert já tinha acabado a carta, mas ficou encarando-a por alguns segundos com uma expressão estranha que fez Paola voltar sua atenção à ela.

– O que foi? Aconteceu alguma coisa?

– Não, parece a carta de alguém que me acha linda e maravilhosa, me ama demais e, como diz aqui “deveria ser dele e de mais ninguém, porque nascemos pra ficar juntos”. – franziu as sobrancelhas outra vez ao ler essa parte, por algum motivo, aquela parte a fazia sentir um calafrio.

– Um fã? Que manda cartas? Mas esse aí ou é muito velho ou tem um jeito estranho de ser romântico. – disse Paola, enquanto obrigada um Albert meio grogue a tomar o remédio para febre.

– Pois é. – Maria estava meio avoada, mas balançou a cabeça e voltou sua atenção ao doente, levando a mão até a testa dele. – Caramba, Albert! Tem certeza que não quer ir ao médico? – perguntou alarmada ao perceber que ele estava fervendo de febre.

– Vamos ver se o remédio faz efeito primeiro, daí a gente o leva mesmo que seja pelos cabelos.

Paola não parecia disposta a receber negativas dele caso estivesse mesmo muito mal.

– Prometi à minha família que ligaria hoje a essa hora, tenho que ir agora. – disse ela, sentando-se ao lado de Albert, que tinha os olhos fechados e parecia dormido. – Qualquer coisa você me chama, Maria.

Maria assentiu com a cabeça, e logo Paola se levantou, deu um beijo na testa quente de Albert e saiu pela porta, falando outra vez para Maria chamá-la caso a febre não abaixasse em duas horas. A ruiva continuou ali, sentada na poltrona ao lado da cama, apenas ouvindo uns gemidos sofridos de Albert que parecia não estar passando nada bem com aquela febre.

– Vai ficar tudo bem. – falou, tanto para ela quanto para ele. Não gostava nada de ter alguém por aí com aquele tipo de pensamento na carta sobre ela, mas o principal naquele momento não era isso, mas sim a melhora do garoto.