A Orquestra
12 Melhora curiosa
Antes que acabasse dormindo na poltrona do quarto de Albert esperando a hora passar, já que deveria ver se ele estava melhorando ou não depois de um tempo, começou a partir a cara em pequenos pedaços bem lentamente. Tinha que ter algo para distrair-se e acabou por ficar vários outros minutos, depois de ter um montinho de papel na mão esquerda, decidindo se era boa ideia fazer um foguinho e queimá-la. Acabou por decidir não fazer isso, afinal era um quarto fechado e com sua sorte algo sairia errado, além de que encheria o lugar de fumaça, decidiu então só jogar os papéis na lixeira do banheiro.
– Albert? – chamou ao garoto, colocando a mão em sua testa.
Depois de quase duas horas esperando que abaixasse a febre, o que graças aos céus estava acontecendo, queria dar a ele algo de comer. Havia pedido tanto seu jantar quanto o dele ali, tentando fazer o mínimo de ruído possível enquanto caminhava de um lado para o outro ajeitando as coisas na pequena mesa que havia perto da janela. Mas agora tinha que acordá-lo, não poderia dormir o dia inteiro e depois acordar estando tão fraco que mal podia se mover.
– Albert, você tem que comer, acorda. – tentou outra vez, dessa vez falando mais alto e finalmente tirando alguma reação dele.
– Hm, comer? – perguntou meio abobado, bocejando e levando a mão até os olhos para ver se acordava mais rápido.
– É, comer, você tá desde o almoço sem colocar nada nessa barriga. – Maria parou por um segundo de falar, percebendo que estaca começando a falar como Joana de repente. Chacoalhou esse pensamento para longe movendo a cabeça. – Vem, levanta.
Conseguiu tirá-lo da cama com um pouco de dificuldade, ou melhor, conseguiu fazer com que se sentasse, tendo que colocar a bandeja com a comida sobre suas pernas para que comesse. Albert olhou por bastante tempo para a comida sem mexer nenhum músculo, e então, quando pegou o garfo e fincou em um pedaço de tomate, Maria também se sentou para comer. Mas claro, ela comia na mesa.
– Tá se sentindo melhor? – perguntou ela depois de um tempo, tomando um grande gole de seu suco.
– Sim, só tenho o corpo um pouco dolorido e a cabeça meio pesada. – Albert levou a mão até a cabeça sem perceber, enquanto mastigava.
– É a febre, acho. Mas pelo menos isso abaixou, Paola tem mais jeito com essas coisas, depois vou chamar ela aqui.
– Hm... – ele pareceu querer comentar algo, mas deixou pra lá depois de pensar um pouco. – Ok. – falou por fim, voltando sua atenção à comida.
Maria se considerava bastante observadora para coisas que não tinha importância alguma, e por esse motivo notou que Albert parecia estranhar o fato de que Paola o estivesse ajudando a melhorar. Mas como só notava o que não importava, deixou pra lá pensando que talvez fosse porque ela acabara fazendo com que os dois conversassem mais do que conversavam antes, por falar demais com eles juntos. Albert não deveria era estar acostumado com a outra cuidando dele ou coisa assim.
Terminaram de comer quase na mesma hora, isso porque Maria tinha dado de contar praticamente todo seu dia para Albert, enquanto ele comia numa lentidão sonolenta. Ela pegou os pratos e saiu do quarto avisando que já voltava e que era para ele tomar um banho e levantar os ânimos antes que ela aparecesse ali outra vez.
Deixou os pratos sujos no restaurante, subiu rapidamente até seu quarto e foi até suas coisas. Ela também precisava de um banho, descansar o corpo por estar tanto tempo sentada naquela poltrona. Não que a poltrona fosse desconfortável, mas não deixava de ser uma poltrona. Durante todo o tempo deixou a memória da carta esquisita guardada num local que sua mente ocupada não conseguia ocupar, tratando de cantar todas as músicas que conhecia e que inventara na hora enquanto tomava banho. Era incrível como todos os pensamentos sobre a filosofia vinham enquanto tomava banho, e queria evitá-los naquele momento.
Até que estivesse pronta para ir checar em Albert outra vez já havia passado uma hora, já que tinha enrolado bastante para dar tempo ao garoto doente a se levantar, escolher uma roupa e tudo mais que se necessita para tomar um banho e aparecer apresentável.
Acabara de sair do elevador no andar certo dele quando viu Paola parada em frente à porta, foi saltitando até ela com um sorriso no rosto. Não demorou em que a outra a notasse ali, rindo da alegria alheia, parecia bem melhor que de manhã, nisso Alba concordaria.
– Ele melhorou? – perguntou ela, preocupada.
– Aham, não chamou a porta ainda? Ele tem que ter acabado de se arrumar já. – franziu as sobrancelhas, batendo na porta. – Albert, morreu no banheiro?!
– Ah, eu não tinha chamado ainda. – falou Paola, meio desnorteada com a pra frenteza de Maria.
Poucos segundos depois Albert abria a porta, com cara de poucos amigos para Maria enquanto praticamente se pendurava na porta.
– Não, não morri no banheiro. – resmungou ele, deixando espaço para que ela passasse, notando então Paola. – Ah, oi.
– Oi, tá melhor?
Maria, que já caminhava em direção a janela para abri-la, agradecendo mentalmente por Albert já ter aberto as cortinas – porque ficar naquele quarto totalmente enclausurada tinha sido quase uma tortura antes –, parou no meio do caminho ao ver a troca de palavra dos dois. Virou no próprio eixo para parar de frente a eles, com as sobrancelhas franzidas.
Paola ainda estava na porta, e agora que Albert parecia consciente o suficiente para saber o que acontecia ao seu redor, ela parecia estar meio receosa de entrar no quarto do garoto. Abriu a boca para falar algo, chamar Paola para dentro ou coisa assim, com certeza seria alguma coisa pouco sensível, mas a conversa dos dois a cortou antes que o fizesse.
– Que bom, vou indo então. – Paola se despediu, dando meia volta e saindo do quarto.
Albert demorou a fechar a porta, e quando o fez foi bem lento.
– Ok... O que foi isso? – devia fazer uma cara estranha, porque conseguira arrancar um sorriso de Albert assim que ele a viu. Sorriso que morreu logo depois.
– Não foi nada, ela tava ocupada.
Não convenceria nem a mais lerda das pessoas com essa desculpa, mas Maria percebeu que não era hora de perguntar nem comentar sobre o relacionamento dos dois. Era verdade que quando saía com um normalmente o outro não estava junto, a menos que Alba estivesse no grupo, daí então um se focava em falar com Maria e o outro com a senhora. Teve a tentação de falar algo sobre isso, ou perguntar qualquer coisa que sua mente curiosa programava, mas conteve essa vontade porque tinha senso das coisas. Acabou por apenas sorrir, enfiando a mão nos bolsos traseiros da calça jeans.
– Então, diríamos que você está super disposto agora? Comeria um pote de sorvete? – perguntou animada.
– Diríamos que estou melhor, a cabeça ainda pesa, mas o banho foi bom pro corpo e não me sinto tão mal. Mas não, um sorvete agora não. – levantou a mão negando o convite, fazendo Maria rir ao pular para o lado do garoto, jogando um braço ao redor de seu pescoço.
– Então vamos pelo menos arejar um pouco no parque? – seu sorriso não saía de seus lábios.
– As ideias que você tem, sinceramente. – resmungou Albert, negando com a cabeça. – Mas tudo bem, acho que aguento andar um pouco.
O que Maria não sabia era que ele queria mesmo arejar, não estava assim com tanta febre para que não se lembrasse do que acontecera mais cedo, de como Paola cuidara dele depois de quase meio ano sem que trocassem uma palavra além do necessário para a orquestra ou para a boa educação. Mas também gostava da alegria que a ruiva exalava, ela era quase como uma daquelas velas de aniversário que vão para todos os lados e não se apagam nem se a pessoa soprar, enfiar o dedo ou tacar um copo de água em cima, ou quase isso.
Maria achava Albert bastante calado, mas gostava de ter um amigo já que tinha deixado o seu melhor amigo para trás. Odiava se sentir sozinha, e ali com ele passeando pelo parque de noite quase a fazia lembrar-se dos seus passeios noturnos alheios com Gabriel. Estava feliz, e por incrível que pareça Albert não tinha reclamado de nada ainda.
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