A Orquestra
3 Preparativos
A festa havia sido mais animada do que esperava. Depois de tocar, desceu do palco e as músicas próprias de festa começaram, com todos aqueles adolescentes dançando para todos os lados como se não houvesse amanhã. Maria não ficou de fora, até porque Gabriel não a deixava em paz, e no final voltaram cada um pra sua casa bem mais tarde do que haviam programado.
Depois que deixou o amigo em casa, Maria dirigiu pela cidade – descalça, seus pés a estavam matando depois de tanto tempo naqueles saltos – passando pelos lugares que mais gostava em uma velocidade que deixava os carros atrás dela mais do que irritados. Porém, não ligava para essas coisas, mesmo aparentando a mesma felicidade de sempre, ainda sim sabia que sentiria falta daquele lugar.
Soltou um longo suspiro antes de decidir finalmente girar o volante de volta ao edifício onde morava, não pensando muito enquanto colocava o carro na garagem e pegava a caixa do violino outra vez, subindo pelas escadas com os sapatos sendo segurados pela mão livre. Resmungava a última música que tinha ouvido na festa enquanto abria a porta do apartamento, agradecendo mentalmente por Joana não estar ali pra reclamar da quantidade de barulho que fazia sempre que chegava em casa. Caminhou até o próprio quarto, jogando os sapatos atrás da porta pouco depois de fechá-la, deixando cuidadosamente o violino sobre a penteadeira antes de se jogar de uma vez na cama.
Não estava necessariamente com sono, era mais um cansaço de pensar demais nas coisas. Ainda jogada na cama, de barriga para baixo, virou o rosto para olhar a confusão que era seu quarto. Praticamente todas as roupas do guarda roupa estavam para fora dele, algumas jogadas dentro de duas malas – uma grande e uma de mão –, numa desorganização de dar inveja, e outras simplesmente espalhadas pelo chão afora. Tinha dias que tentava arrumar de verdade tudo aquilo, agora que tinha menos de um dia para terminar sentia o estômago revirar só de olhar para elas. Levou a mão direita até o brinco de clave de sol que caía sobre sua bochecha e fechou os olhos com força. Ao mesmo tempo em que estava feliz por estar na orquestra, não tinha vontade de ir embora.
Mas tinha que dar logo um jeito na própria vida. Então apoiou as mãos na cama e se levantou de uma vez, espreguiçando o próprio corpo ao ficar de pé.
– Vamos lá, Maria. Arrumar as malas e pedir uma pizza, ou primeiro a pizza. É, primeiro a pizza. – começou a falar consigo mesma, lembrando que o que tinha na geladeira era mais da sopa do almoço. Sentiu um calafrio só de lembrar o gosto daquilo.
Tinha o número da pizzaria no celular, mas quando o pegou para ligar viu que havia uma mensagem não lida de Gabriel.
“Quando chegar em casa, me avisa.” Dizia a mensagem, era quase automático fazer isso sempre que chegava em casa, fazia tempo que ele não pedia expressamente para que ela o fizesse. Gabriel provavelmente tinha notado algo que ela só sentira ao finalmente olhar aquela bagunça de malas.
“Cheguei, mãe. Vou pedir uma pizza, bastante calabresa pra aumentar a coragem de arrumar as malas.” Mandou de volta, não esperando a resposta dele para finalmente ligar para a pizzaria, que por sinal já conhecia Maria de nome, nem ao menos precisava pedir qual bebida ela gostaria, era sempre a mesma. Jogou o celular na cama depois de ver que Gabriel nem ao menos tinha lido sua mensagem, ele devia ter chegado e se jogado na cama pra dormir. Ainda tinha dó de ele ter sido acordado para ir ao supermercado mais cedo, devia estar mais do que cansado.
Começou a dobrar, finalmente, as roupas dentro da mala maior. Colocando as blusas, alguns vestidos, calças e tudo que precisava para passar quase um mês fora de casa. Que era o que ocorreria, passaria pelo menos umas duas semanas sem voltar ao apartamento. Precisava estar preparada pra qualquer emergência, como dizia sua mãe. Ao pensar nisso lembrou que deveria ligar para seus pais antes de viajar, eles viviam longe, mas sempre dava um jeito de mandar notícias. Anotou mentalmente que deveria fazer isso antes de sair pro aeroporto.
Já estava com mais da metade da grande mala arrumada quando o interfone tocou informando que a pizza já tinha chegado, fazendo Maria praticamente ir pulando até a porta ao mesmo tempo em que seu estômago começava a ficar insuportável de tão barulhento. Comeu a pizza saboreando ainda mais cada pedaço sempre que se lembrava de que, se não fosse por ela, teria que se sustentar com o que tinha em casa. Voltou a arrumar a mala assim que terminou de comer, deixando um copo de refrigerante ao seu lado enquanto o fazia e, antes que se desse conta, já passavam das três da madrugada e estava dormindo sobre as roupas que ainda estavam espalhadas no chão.
Acordou com o sol no rosto e o barulho chato do toque de seu celular. Havia babado por todo o casaco que tinha debaixo da cabeça servindo de travesseiro, e foi se arrastando até a cama, onde havia deixado o celular, resmungando de dor nas costas por ter dormido no chão ainda com o vestido da festa.
– Alô. – tentou fazer sua voz não parecer tão sonolenta, mas estava rouca de sono ainda.
– Sabia que tava dormindo, to te ligando faz um milênio. Abre aí o portão que trouxe café da manhã... e tem coxinha. – ele fez suspense com as últimas palavras, e Maria saiu do quarto quase no instante seguinte.
O porque dele não ter tocado o interfone era por causa de Joana, ela teria chegado super de madrugada e eles tinham dó de acordá-la tão cedo no outro dia depois de uma noite de trabalho. Maria olhou para o relógio da cozinha enquanto ia em direção à porta, notando que ainda eram dez da manhã. Tinha ainda umas dez horas para terminar de arrumar suas coisas e chegar ao aeroporto a tempo. Estava tranquila pela primeira vez em três dias.
– Imaginei que você ia ter refrigerante por causa da pizza de ontem, então trouxe só a comida. – falou Gabriel em tom de voz baixo ao passar pala porta, balançando uma sacola de papel que exalava cheiro de salgadinhos.
– Senta aí que vou pegar ali na geladeira, a gente tem que acabar com isso antes da Joana acordar. – comentou, também mantendo a voz baixa enquanto caminhava até a geladeira, deixando Gabriel se acomodar no sofá.
Voltou com a garrafa e dois copos, jogando-se ao lado dele, que a olhou por alguns segundos antes de começar a rir, ao mesmo tempo em que enfiava uma bolinha de queijo dentro da boca.
– Nem trocou de roupa, maior porquenta você. – ganhou um olhar quase saindo faíscas de Maria pelo comentário, mas não conseguiu parar de rir. – Mas então, como vão os preparativos? Vim te dar apoio moral enquanto arruma as malas, está animada pra viagem?
– Acho que sim. – respondeu, mordendo um pedaço da coxinha para encher a boca e pensar em algo para falar. – E você? Cadê o momento em que você implora pra eu ficar e diz que vai morrer sem mim? – falou ao terminar de comer, tentando mudar o assunto para algo mais divertido que seus sentimentos quanto à viagem.
– Todo mundo sabe que esse momento é no último segundo antes de você entrar no portão de embarque do aeroporto. – disse ele, bebendo um grande gole do refrigerante antes de levar a mão direita ao peito e fazer uma expressão triste pouco convincente, imitando cara de choro e limpando uma lágrima imaginária enquanto começava a falar. – Mas já programei como vou me ajoelhar no chão em sofrimento, dizer que meu coração dói com sua partida, que não sei como vou viver sem você, que vou chorar todas as noites pensando em como você se dis...
Ele iria continuar pra sempre se Maria não começasse a rir desesperadamente do nada, fazendo refrigerante sair pelo nariz enquanto engasgava ao mesmo tempo. Metade do refrigerante foi para a roupa de Gabriel, a outra para o chão limpíssimo de Joana, mas nem por isso Maria conseguia parar de rir da tentativa de drama do melhor amigo.
– Que nojo, Maria! Se controla enquanto eu faço meu drama, li umas três páginas de um romance só pra isso e você arruinando com suas nojeiras. – ele resmungou, fazendo uma careta ao passar vários guardanapos pela blusa molhada.
Nem tinha tido tanta graça assim a representação dele, mas o que tinha mesmo feito graça era imaginar ele se ajoelhando no meio de um aeroporto lotado, gritando aquilo todo teatral. Era algo que conseguia imaginá-lo fazendo sem muita dificuldade, e por isso fora tão engraçado. Maria conseguiu se controlar pouco depois, sentindo que tinha quase morrido ao rir daquele jeito, enquanto Gabriel ainda reclamava da blusa suja.
–...toda limpa, lavei roupa anteontem, quase destruí a casa mexendo com aquela máquina de lavar, e você me suja depois de três minutos. – terminou ele por fim, desistindo de tirar o refrigerante da camisa.
– Desculpa, quer que eu lave? Tenho que colocar umas roupas minhas na máquina e taco sua blusa junto. Dá tempo de secar na secadora antes de a gente sair. – ofereceu, se sentindo realmente mal depois de tanta reclamação, apesar de ainda estar segurando a risada.
– Tá bem, ainda tem aquela blusa minha aqui? – perguntou ele, ao que Maria respondeu assentindo com a cabeça.
– Tá lá no meu quarto, provavelmente pendurada junto com os casacos pra não amassar. Vai lá pegar e joga a blusa suja no cesto que coloco na máquina quando eu sair do banheiro, porque né, preciso de um banho. – começou a se levantar, terminando a coxinha e engolindo o resto do refrigerante antes de sair em direção ao banheiro.
– Isso se eu sobreviver a uma visita a esse quarto! – falou Gabriel, mais alto do que deveria, ao entrar no quarto de Maria, que apenas revirou os olhos e entrou no chuveiro.
A máquina estava lavando, Joana já tinha acordado e fazia sua ioga matinal no silêncio de seu quarto, Maria de banho tomado e Gabriel com uma nova blusa para esperar que a sua lavasse e secasse, isso e o celular de Maria na mão enquanto se mantinha jogado na cama desarrumada da garota.
– Mas e essas mensagens estranhas aqui? – perguntou, passando algumas mensagens de um numero desconhecido. – Adorei te ver tocar hoje. Por favor não me deixe, vou morrer sem sua música. Que merda é essa, Maria?! – a cada mensagem que lia, mais assustado Gabriel parecia.
– Ah, isso é velho, guardo só pra rir mesmo. Um garoto esquisito do ensino médio ficava me perseguindo e me mandando essas coisas, armei pra ele uns dias atrás e o assustei o bastante pra que não fosse mais atrás de mim. – ela pensou um pouco, parando de pentear os cabelos ao fazê-lo. – Foi aquele dia que saí mais cedo do ensaio e te pedi pra me esperar na lanchonete, me fiz o mais possível de maluca pro garoto, ele desistiu de me fazer musa dele depois de cinco minutos. – falou soltando uma risada, satisfeita consigo mesma, voltando a pentear os cabelos em frente à penteadeira.
Esperou uma risada de Gabriel, ou pelo menos um comentário sarcástico, mas o que conseguiu foi um silêncio esquisito pelo que pareceu durar vários minutos.
– Maria, como você vai sobreviver sozinha sendo irresponsável assim? – pela primeira vez naquele dia, mesmo contanto sua indignação pela blusa suja, a voz de Gabriel era séria.
Maria franziu as sobrancelhas e virou o corpo para olhá-lo, pendendo a cabeça para um lado ao ver que ele a olhava com os olhos arregalados e preocupados, dessa vez estava sentado todo tenso na cama. Mas, antes que ela pudesse falar qualquer coisa, ele a interrompeu.
– Essas coisas são perigosas, e você nem me falou nada. Toma mais cuidado da próxima vez que isso acontecer e me chama pra ajudar, com perigo de ser um sequestrador ou algo assim. – passou as mãos no rosto, largando o celular ao lado das pernas realmente preocupado. Podia não parecer, mas ele se preocupava com o quão descuidada a melhor amiga era.
Ela pensou em comentar algo zoeiro no momento, mas sabia diferenciar quando o amigo ia aceitar um comentário engraçado e quanto ele estava falando sério de verdade, e naquele momento ele parecia sério o suficiente pra ela. Passou a escova uma última vez pelos longos cabelos para dar tempo para ele e caminhou até a cama, pulando atrás de Gabriel para jogar os braços sobre seus ombros.
– Prometo te contar tudo de estranho que garotos do ensino médio fizerem a partir de hoje. – falou com voz séria, antes de inspirar profundamente como se buscasse algum cheiro em especial. – Hm, cheirinho de refrigerante.
– Ah, vai cagar. – reclamou ele, que até o momento estava parado ainda pensando nos diversos cenários perigosos dos quais ela tinha se livrado, empurrando Maria para trás ao se levantar da cama depois do que ela havia dito. A garota caiu sobre os lençóis enrolados com uma risada baixa. – Eu to falando sério.
– Eu sei, foi irresponsável da minha parte, prometo de verdade não te deixar de fora da próxima vez. – Maria sorriu para tranquilizá-lo, respirando fundo. – Agora, às malas.
Saiu da cama e caminhou até a mala mais ou menos arrumada, e com a ajuda de Gabriel voltou a tentar organizar tudo ali dentro, não sem que ele enchesse o saco dela toda vez que se lembrava de algo nada a ver que ela tinha feito. O brinco fora colocado dentro da caixinha de aniversário e dentro da bolsa de mão de Maria, ia levá-lo com tanto cuidado quanto seu violino.
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