A Orquestra

4 Asas solitárias


Puxou a mala pela segunda vez do porta-malas do carro de Gabriel, fazendo uma careta quando ela saiu de uma vez, batendo contra sua perna com todo o peso de uma mala de trinta quilos.

Joana, ao ver a dificuldade dos dois em arrumar aquela bagunça, acabou por ajudar a colocar as coisas de um jeito que coubesse tudo e ainda sobrasse espaço. Ela era como uma mãe para eles, por mais que não fosse mais do que uns três anos mais velha que os dois, era dez anos mais responsável. No final das contas tinha uma mala mais organizada, porém também mais pesada.

Maria colocou a mala no chão, enquanto ao longe podia ouvir o barulho chato que o carrinho de malas que Gabriel estava trazendo fazia ao bater contra o chão do estacionamento do aeroporto. Ele estava com a roupa limpa do refrigerante de antes, e parecia cheio de energia, mesmo que já fossem sete da noite e não tivesse parado de arrumar coisas durante todo o dia, só parando para comer.

– Já tirou as malas? – ele fez uma cara confusa para ela, que sorriu tentando não mostrar que estava com os joelhos doendo com o baque da mala.

– Claro, só me ajuda a colocar no carrinho agora.

Gabriel deu de ombros, pegando a mala, com a ajuda de Maria, e colocando no carrinho de um jeito que não caísse se desse um arranque muito grande pelo chão desnivelado do estacionamento. O violino estava no banco da frente junto com a bolsa de mão, e enquanto Maria pegava o que faltava de suas coisas e as ajeitava, Gabriel fechava o porta-malas e trancava o carro.

– Que horas é seu voo mesmo? – perguntou ele, arrastando o carrinho em direção à entrada do aeroporto, sem tirar os olhos do caminho.

– Oito e meia, eu tinha que entrar duas horas antes, mas acho um exagero e só ficaria no tédio lá dentro por mais tempo. – respirou fundo ao falar aquilo, chutando o ar com os tênis confortáveis que estava usando.

Viagens de avião já eram desconfortáveis o suficiente, levar uma roupa com a qual pudesse se mexer livremente era o mínimo que podia fazer.

Ouviu o barulho das conversas de dentro do aeroporto antes mesmo de pisar lá dentro direito, sentindo o estômago revirar ao ver as filas de pessoas com malas e mais malas no check-in de cada companhia aérea.

Passar por essa parte era o mais chato, o nervosismo de ter a viagem tão perto e a possibilidade de sair correndo dali se quisesse porque ainda dava tempo de desistir eram terríveis. Não que quisesse desistir, mas tinha aquela parte dela que ficava remoendo se valia a pena ficar tanto tempo longe, a parte medrosa que não queria abandonar o que já tinha. Mas a maior parte quase lhe empurrava para dentro do portão de embarque, a jogava dentro do avião e dava um chute nele pra que fosse mais rápido. E essa parte tomava praticamente todos os seus pensamentos, porque continha a música, seu sonho de tocar na orquestra em Berlin e deixar que todos ouvissem o som de seu violino.

Mal havia aberto a boca desde que pisara na fila, falara duas palavras com o homem que pedira seu passaporte e continuara imersa em seus próprios pensamentos positivos e negativos. Gabriel não a atrapalhou, sabia que Maria estava mais do que nervosa e provavelmente ansiosa com a viagem, deixaria ela no próprio silencio pelo tempo que achasse necessário. O que foi pouco, já que assim que despacharam as malas e estavam olhando para a entrada para o embarque Maria finalmente abriu a boca, parando no meio co caminho.

– Não posso fazer isso. – sua voz era fraca, quase abafada o suficiente pelo barulho do aeroporto para que Gabriel ouvisse por pouco.

– Isso o que? É só entrar ali, não vão te tomar seu violino. Talvez mandem você tirar os sapatos, mas não deu tempo de estar fedendo, fica tranquila. – ele riu pelo nariz tentando aumentar os ânimos, enfiando as mãos no bolso do casaco ao virar para olhar Maria ao seu lado, apenas para encontrá-la com os olhos arregalados olhando o embarque.

– Você mesmo falou, eu vou acabar sendo sequestrada por ser irresponsável. – Maria deu um passo atrás, engolindo em seco.

Estava sendo mais do que fatalista e um tanto quanto exagerada, mas a realidade de que estaria sozinha a partir do momento em que pisasse lá dentro a atingiu mais forte do que esperava. Mas, antes que desse outro passo para trás, sentiu as mãos do garoto sobre seus ombros, piscando os olhos algumas vezes para conseguir focar no rosto dele diante do seu.

– Maria, respira. Ninguém vai te sequestrar, chegar lá vai ter gente te esperando. Vai dar tudo certo, esquece o que eu falei. – sua voz era calma, e abriu um sorriso tranquilizador antes de puxar a garota para um abraço esmagador. – São só algumas semanas, você vai sobreviver.

– É... – murmurou, abraçando-o de volta, também esmagando o pobre coitado.

Nunca tinha ficado tanto tempo longe do melhor amigo desde que se conheceram, fora quase a mesma coisa de quando se mudou de cidade para longe de seus pais. Chorou por uma semana igual um bebê. Era muito sentimental com despedidas.

– Ok, você tem que entrar logo, momento dramático passou. – brincou Gabriel, finalmente a soltando depois de um tempo, bagunçando os cabelos de Maria antes de dar um beijo na testa dela.

– Passou, passou. Quem é que vai abalar tocando música clássica?! – disse ela com o tom de voz mais alto e meio cantante, depois de respirar fundo para conter as lágrimas, levantando a mão direita no ar.

– Eu que não, com certeza! – respondeu Gabriel com o mesmo entusiasmo, batendo sua palma com a dela. – Agora sim, anda e me avise quando chegar lá.

– Pode deixar que aviso, mãe. – revirou os olhos, finalmente soltando uma risada, para então ser empurrada gentilmente pelos ombros na direção do embarque.

Até que finalmente passasse pelo detector de metais não parou de ficar virando para trás e fazendo caretas para Gabriel, que ficou ali até ela desaparecer por entre o corredor de lojas que tinha mais para dentro do aeroporto.

A alegria e entusiasmo passaram, apenas para deixar lugar à ansiedade, assim que se viu sozinha de vez. Segurou firme na alça do estojo do violino, ajeitou a bolsa de mão no ombro e saiu andando atrás do portão em que devia entrar. Com a demora toda de check-in e tudo mais, agora só tinha quarenta minutos para chegar lá, mas qualquer coisa era melhor do que ficar na agonia de esperar duas horas inteiras ali, sentada e sem fazer nada.

Não demorou a encontrar o portão certo, sentando-se em uma das muitas cadeiras vazias que havia ali, pouca gente devia viajar para aqueles cantos naquela época do ano. Começou a cantarolar uma das canções que ouvira na rádio na ida até o aeroporto enquanto esperava, e levou um susto quando de repente a voz que avisava dos voos chegou aos seus ouvidos dizendo que o embarque já iria começar. Mal havia notado antes que a aeromoça já estava na porta do embarque e uma fila começava a se formar para entrar.

Depois disso tudo passou muito como um borrão. Presa baixo uma quantidade enorme de pensamentos e perguntas que formava na própria cabeça, Maria mal notou o quanto andou até chegar a aeronave, tampouco lembrava se tinha dado o “boa noite” para a aeromoça que a recebera lá, toda sorridente e prestativa a ajudando a colocar seus pertences nos compartimentos, como o normal delas. Foi só quando finalmente se sentou na poltrona marcada, olhou pela janela e o avião começou a decolar que percebeu que não tinha mais volta. Não podia negar que seu coração gritava pela música, mas também sussurrava de uma saudade que nem deveria ter começado a sentir ainda.

Levou as mãos ao rosto, escondendo-o da pessoa que se sentara ao seu lado porque não queria que um desconhecido a visse chorar. Mas não conseguiu conter os ombros chacoalhantes e as lágrimas que vieram depois, e antes que o avião estivesse estabilizado no céu, Maria já tinha os olhos vermelhos, vários guardanapos – gentilmente oferecidos pela aeromoça – usados para secar as lágrimas e o nariz e uma dor de cabeça insuportável.