A Orquestra

5 Lindo e comum


Mal podia acreditar, quando seus pés finalmente pisaram terra firme, que já havia chegado a Berlin. A viagem fora longa o suficiente para ter uma conexão e tempo para chorar as próprias mágoas, tanto que acabou por achar que nem se quisesse ia tirar alguma lágrima mais de si mesma. Era um exagero, claro. Maria não havia chorado tanto assim, apenas o suficiente.

Não esperava que fosse plena tarde e que o sol estivesse chegando em seu pico, havia saído de noite de sua cidade, o dia tinha chegado rápido demais e ela nem ao menos havia notado de tanto nervoso pelo voo e pelo fato de que aqueles aeroportos nunca te deixavam tempo para olhar pela janela de um voo para o outro. Nunca tinha se cansado tanto em tão pouco tempo e precisava de uma boa noite de sono, e rápido.

Esticou os braços para cima, soltando um resmungo ao espreguiçar-se assim que chegou ao local de pegar as malas, depois de uma longa espera para conseguir sair do avião em meio a tanta gente desesperada. Entendia para onde tinha que ir graças ao pouco inglês que havia aprendido nem sabia ela como, já que alemão estava fora de seu alcance. Depois de espreguiçar o corpo inteiro, reparando que ninguém parecia ligar para ela, o que era bom, considerando que não queria se passar pela maluca se esticando no meio do caminho, esperou sua mala chegar e a colocou no carrinho com a ajuda de um homem que estava parado perto das esteiras. Agradeceu-o com um sorriso e um aceno de cabeça, já que ao tentar abrir a boca quase soltara um “obrigada” em sua língua nativa.

O processo de sair do aeroporto, depois de encontrar um cara carrancudo para levá-la até o hotel onde devia se hospedar, passar pelo check-in do hotel e finalmente entrar no quarto pareceu levar também quase um dia inteiro. Mas sabia que era um exagero, a coisa toda não tinha demorado nem duas horas. Tomou um banho e planejou deitar-se na cama e esperar o cansaço passar, mas desistiu da ideia ao abrir as janelas do quarto e dar de cara com um dia lindo e uma paisagem de tirar o fôlego.

– Caramba. – resmungou para si mesma, não havia notado que o hotel estava em frente a uma praça com tantas árvores que mal podia contar, todas meticulosamente podadas e cuidadas.

Desistiu de ficar no quarto no segundo seguinte.

Saiu do quarto depois de prender os cabelos em um rabo de cavalo, agradecer que tinha chegado ali no verão e pegar seu celular. Deveria avisar que já tinha chegado, tanto para seus pais quanto para Gabriel, então entrou no elevador com os olhos grudados na tela do aparelho.

“Chegueeeeeei, deu tudo certo e não fui sequestrada. Vou tirar umas fotos pra te mandar, e antes que fale alguma coisa eu to sim saindo do hotel pra isso.” Enviou, sabendo que ele não acreditaria que ela tinha levantado o corpo para dar um passeio, com certeza era a emoção de estar em um lugar novo. Enviou uma mensagem com muitos mais detalhes para seus pais, tranquilizando-os de que tinha comido bem e que estava tudo tranquilo.

Ao levantar os olhos da tela para sair do elevador quase deu de cara com uma senhora que pretendia entrar nele, ela tinha a aparência séria, uma roupa bem mais arrumada do que Maria jamais pensou poder estar e a postura tão correta que quase parecia ser uma ex-bailarina.

– Ai, desculpa. – forçou o inglês enferrujado, engolindo em seco ao perceber que quase soltava palavras em sua língua materna.

– Tudo bem, não se preocupe. – tranquilizou-a a mulher, com um sorriso amigável. E então pareceu surpreendida de repente. – Oh, você é a nova violinista? Maria? – parecia animada com a novidade.

– Sim, prazer. – Maria respondeu, quase saltitando por aí porque alguém sabia seu nome.

– Onde pretende ir a essas horas? Não deveria estar no ensaio? – de repente toda sua expressão mudou, franziu as sobrancelhas e transpareceu preocupação.

– Ensaio? Tem ensaio hoje? Eu não sabia que tinha ensaio hoje, acabei de chegar e não me falaram nada. – o terror de já parecer uma desleixada a atingiu em cheio, isso até ouvir uma risada fraca e baixa ao seu lado.

– Desculpe. – a mulher falou, levando a mão até a boca num gesto que Maria começava mesmo a duvidar se ela não tinha sido bailarina na vida. – Eu não deveria fazer essas brincadeiras, mas é o que normalmente fazem com os novatos e achei que podia tentar. Não se preocupe, não há ensaios hoje. Mas se não se importar com uma companhia, podia te mostrar alguns lugares bonitos perto daqui como desculpa. – o sotaque forte francês dela não atrapalhava a que Maria entendesse seu inglês, e parecia gentil o suficiente para que pudesse sequer pensar em dizer não à sua oferta.

– Claro, eu ia acabar me perdendo, com a minha sorte. – comentou meio sem graça, era bem capaz mesmo de se perder depois de dar dois passos, não tinha bom senso de direção na primeira vez que ia aos lugares.

– Ótimo, vem comigo. Tem um parque aqui maravilhoso! – ela se animou rapidamente, com o sorriso gentil nos lábios enquanto apoiava ligeiramente a mão esquerda nas costas de Maria para levá-la na direção certa.

A mulher era do mesmo tamanho de Maria, quase maior que ela, seu nome era Alba, descobrira assim que pisara fora do hotel para dar de cara com um dia quente e ensolarado de verão, e tocava o violoncelo na orquestra. Parecia conhecer o lugar como a palma de sua mão, mostrou cada detalhe para a garota que saía tirando fotos de tudo que achava interessante. Um pássaro que construía o ninho no alto de um galho, dos pequenos peixes do laguinho que havia no meio do parque, do céu que parecia mais atraente do que jamais pareceu para ela.

Quase conseguiu se esquecer que estava longe de todos que conhecia, isso claro, com a ajuda de Alba que levantava os ânimos com uma naturalidade incrível sempre que via que Maria se perdia nos próprios pensamentos nada felizes. No fim da tarde á haviam entrado em três livrarias, dois cafés e visitado dois parques, e Maria não podia estar mais cansada. Mas tinha ganhado uma amiga muito gentil, e foi nisso que se focou quando entrou no quarto outra vez, depois de despedir-se de Alba, jogando-se finalmente na cama resmungando de cansaço.

Arrastou-se até a bolsa de mão e pegou o computador lá de dentro, aproveitando da internet do hotel para entrar no skype para falar com Gabriel, que havia deixado umas dez mensagens de uma vez no seu celular, pedindo mais detalhes e mais notícias.

– Yoooooooo! Mal chegou na Alemanha e já não lembra dos amigos. – Gabriel mal abrira a boca e já estava reclamando, Maria riu pelo nariz.

– Ê ciumento, passei o dia conhecendo o lugar com uma pessoa. – fez suspense.

Era claro que não teria graça falar na cara que era uma senhora que havia mostrado o lugar. E a expressão incrédula de Gabriel ao imaginar que Maria tinha conhecido o amor de sua vida no primeiro dia fora do país valeu a pena a brincadeira.

– Como assim uma pessoa?! Que pessoa?! Já tá enrolando esse seu violino com o de outra pessoa por aí? – ele levou as mãos à boca, fazendo uma expressão exagerada.

– Ah, ele é lindo, tem os olhos verdes, usa óculos redondos e tem os cabelos pretos como a noite. – tentou ser poética, soltando um suspiro apaixonado. – E chama Harry Potter.

Teve que esperar pouco menos de um segundo para que Gabriel começasse a reclamar do outro lado da tela, batendo contra a garrafa de água que tinha a sua frente, jogando água para todos os lados de pura raiva. Ele tinha ficado mesmo absorto no que ela estava dizendo antes, sem acreditar que Maria tinha se apaixonado assim tão fácil.

– Era uma senhora, Gabriel. Muito gentil ela, faz seu tipo. – conseguiu ajeitar, depois de rir do desespero do melhor amigo.

– Claro, porque depois de você encontrar com o Harry Potter falta pouco eu me apaixonar pela Minerva. – ele comentou, ainda parecendo indignado por ter sido enganado tão facilmente.

A conversa, a partir daí, seguiu tranquila sobre coisas da viagem, como ia a vida de artista anônimo de Gabriel e seu trabalho na lanchonete de sua mãe, o itinerário já pesado do outro dia para Maria e, claro, muitas coisas sem sentido e risadas que provavelmente acabariam incomodando o vizinho do quarto ao lado se as paredes não fossem tão grossas. Maria teve que desligar depois de um tempo, estava quase dormindo na frente da tela e Gabriel notou isso, dando tchau e fazendo com que ela prometesse que daria notícias no dia seguinte sobre o primeiro dia oficial na orquestra.

Trocou de roupa para seu pijama e enrolou-se na cama com um resmungo, o colchão mais parecia nuvens se comparado com a poltrona desconfortável do avião. Não demorou mais do que cinco minutos para que Maria entrasse em um sono profundo e cheio de sonhos. Sonhou com o super-homem indignado com a Terra, com um passarinho gigante a ensinando a tocar a flauta e com Gabriel finalmente vendendo um quadro para um alienígena. Seus sonhos nunca faziam muito sentido, mas se divertia com eles. No próximo dia tinha muito o que fazer, gente para conhecer e dedos para doerem tocando violino. Estaria finalmente de volta ao seu mundo.