A Orquestra
6 Pequenas formalidades
Acordou com o sol batendo no seu rosto e, em meio a um grande numero de resmungos desconexos, lembrou-se que ela era a culpada, e não Joana. Quando não a abria pela manhã normalmente a fechava pela tarde, porque Maria era lerda o suficiente para sempre esquecê-la aberta antes de dormir e ainda reclamava pela manhã. Virou-se de costas para a janela do hotel e colocou os lençóis sobre a cabeça, mal havia chegado ali e já começava a reparar o quão despreparada estava para cuidar de si mesma. Não precisou respirar mais do que duas vezes antes que o barulho do despertador a desse um susto enorme, que fez com que tremesse debaixo dos lençóis pelo barulho repentino em um local tão silencioso.
Teria revirado mais na cama se não fosse pelo fato de estar animada para seu primeiro dia como membro da orquestra. Sabia pouco de como era aquilo tudo, sempre tinha treinado sozinha ou com uma pequena plateia de no máximo três pessoas, mas nunca tivera alguém no seu pé para ajeitar as notas, ou a postura, além dela mesma. Arrastou-se para fora da cama, demorando mais ou menos meia hora para ter tudo ajeitado para parecer apresentável, e então finalmente saiu do quarto de hotel com seu violino em mãos.
Sabia que o local para ensaios era a poucas quadras de onde estava, então pegou as direções certas com o homem prestativo da recepção e saiu para a rua para respirar o ar fresco e caminhar um pouco. Deveria andar por duas quadras e virar à direita, o local deveria ser fácil de distinguir, e o fora, uma entrada humilde, porém chamativa, anunciava o teatro. Não era o maior da cidade, obviamente, mas era o bastante grande para que Maria abrisse um grande sorriso ao entrar, admirando cada canto pelo que passava em direção a entrada para local de ensaio, atrás do palco.
A área era grande o bastante para caber cinco pessoas tocando sem que uma atrapalhasse demais a outra, Maria apressou-se atrás de uma partitura e colocou-se em frente a ela. Não era bem pela partitura em si, mas por ter um lugar certo em que ficar enquanto tocava. Retirou o violino de seu estojo, passando vários minutos, sentada, afinando o instrumento, para então se colocar de pé, ajeitar o corpo e colocar o violino sobre o ombro esquerdo.
– Pronto? – perguntou para o violino, já que naquele momento era o único acompanhante que tinha e sorriu.
No instante seguinte as notas começaram a encher seus ouvidos e não pensou em mais nada. Fechou os olhos, lembrava-se das notas de sua música favorita de cabeça e seus dedos dançavam sobre as cordas ao mesmo tempo em que seu braço direito movia o arco no ritmo praticamente perfeito. Não sorria, a felicidade estava dentro de sua cabeça e expressada em sua face de modo que a deixava leve e tranquila. Apreciou cada nota como se fosse a última, sentindo todos seus problemas desaparecerem, até que finalmente a última nota realmente chegou e voltou ao mundo real.
Abriu os olhos pouco antes de ouvir um bater de palmas.
– Nunca vi alguém se mexer tanto por aí enquanto toca. – falou uma voz masculina, que deu lugar a um jovem que se aproximava com as mãos nos bolsos da calça enquanto suas costas escondiam a capa de uma flauta.
– Eu já, aquela garota que tem um vídeo tocando no gelo, ela se mexe bastante. – comentou, lembrava-se da primeira vez que vira aquela violinista. Tinha ficado maravilhada e estranhada ao mesmo tempo, sabia que não se mexia tanto assim, eram apenas alguns passos e círculos que dava de vez em quando.
– Mas ela não estava com os olhos fechados e com perigo de tropeçar em alguma coisa, tipo aquela harpa atrás de você. – ele comentou, abrindo um sorriso, que deixava claro que segurava uma risada, ao apontar para a harpa a poucos passos atrás de Maria.
– Oh! – exclamou ao olhar o instrumento, já pensando no desastre que teria causado se trombasse contra ele. – Graças a Deus não trombei com ele, não tenho dinheiro pra pagar outra harpa dessas, é linda. – e em dois segundos passara de assustada a maravilhada, observando a harpa mais de perto.
– Você é a garota nova, não é? Maria?
– Sou sim, prazer. – percebia que diminuía o tanto que falava em inglês, por não ser muito boa nele, mas parou de olhar a harpa e voltou os olhos para a pessoa ao seu lado, esticando a mão em cumprimento.
– Prazer, Albert. – ele também tinha um sotaque que deixava claro que inglês não era sua língua nativa, além de que os cabelos loiros e os olhos azuis jogavam na cara de Maria que ele devia ser alemão.
Assim que soltaram as mãos, Maria deu um sorriso para o conhecido e voltou a colocar o violino no ombro, pronta para começar a tocar outra vez quando ouviu um pigarro ao seu lado. Franziu as sobrancelhas, achava que tinha deixado claro que estava ali para ensaiar, mas ao olhar Albert viu que ele apontava para algo em sua postura.
– Você sabe que não vai poder tocar de pé, não é? Tem que se acostumar a ficar sentada, não se pode sair dançando por aí no meio da orquestra.
Ele não parecia querer ser chato, na verdade aparentava ser um aviso amigável, então Maria apenas assentiu, sentando-se no banco que havia usado quando afinava o instrumento musical. Voltou a se preparar para tocar quando ele voltou a falar, dessa vez arrancando um suspiro injuriado dela, que o olhou impaciente.
– Não. Não segure muito pra esquerda, se te colocarem do lado de alguém vai acabar dando com o arco na cabeça dele ao tocar notas longas. – então ele se aproximou, começando a ajeitar toda a postura de Maria.
Depois de algum tempo nem mais sabia como se aguentava sentada daquele jeito, parecia ter que ficar como uma estátua que só se movia para frente uns pequenos milímetros. Não estava acostumada a ficar tão parada enquanto tocava, parecia que não estava certo. Mas, apesar de tudo, agradeceu a Albert com um sorriso um pouco mais forçado do que esperava, ele estava mesmo dando todas aquelas dicas para o bem dela, sabia disso. O problema era que parecia mais que tinha entrado numa aula de balé, com todas aquelas regras de posturas e com o fato de não poder se mover livremente.
Tentou tocar algumas notas, mas parecia tão errado que sentia seus ouvidos doendo a cada som que saía.
– Você não veio aqui tocar? – perguntou Maria ao perceber que ele dava meia volta para sair, parando sua tentativa de tocar naquela posição incômoda.
– Vim sim, mas vou deixar o espaço pra você. Posso vir outra hora. – Albert respondeu, mas Maria percebeu que ele estava se forçando a ser simpático.
– Não, pode ficar. Acho que já toquei o suficiente por hoje e minha coluna tá meio doída. – resmungou, levantando-se do banco e esticando o corpo todo de uma forma pouco majestosa.
Albert pareceu aliviado por poder ficar sozinho ali e, enquanto Maria guardava o violino em seu estojo, ele se ajeitou em um dos bancos com a flauta de sopro já nos lábios para tocar. Apenas acenou em despedida, ao que ele respondeu com um sorriso de agradecimento antes de finalmente começar a tocar. Maria ouviu pouco de sua música antes de sair da sala de ensaios, mas foi o suficiente para perceber que todos ali tinham um grande talento, afinal não era qualquer um que conseguia tocar naquela orquestra.
Deixou o teatro para trás e voltou para o hotel, menos animada do que esperava. A sensação que a música lhe havia dado, que a fazia pensar que podia fazer qualquer coisa sem nem mesmo sair de uma sala, tinha acabado num piscar de olhos ao ver que toda a graça de tocar era transformada em um bando de regras de como se sentar e colocar o corpo.
Passou as mãos no rosto ao passar pela recepção, entrando no elevador sem nem ao menos notar que faltavam menos de trinta minutos para que o almoço começasse a ser servido. O desanimo tinha batido forte, tirando-a de suas nuvens fofas de algodão que tinha preparado ao chegar ali. Bateu nas próprias bochechas para tirar aqueles pensamentos negativos da cabeça, só então notando que não estava sozinha no elevador.
– Oi. – abriu um sorriso amarelo de vergonha para o homem ao seu lado e agradeceu mentalmente quando finalmente chegou em seu andar.
Passou o resto do dia indo do lobby do hotel para o quarto, comendo e levando comida para todos os lados, depois daquela lição de manhã não tivera mais vontade de tocar. Acabou indo dormir mandando apenas uma mensagem rápida para Gabriel avisando que estava tudo bem, ligou rapidamente para seus pais para dar notícias, mas também desligou com a desculpa de que tinha se cansado durante o dia e estava exausta.
No fim das contas, só queria poder dormir e esquecer aquele desânimo repentino. Sabia no que estava se metendo quando entrara para a orquestra, que não poderia se mover tão livremente por aí enquanto tocava como fazia normalmente, só não esperava que a realidade batesse tão forte em sua face dessa maneira.
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