A Origem dos Guardiões – O Guardião Primordial
1 PRÓLOGO — NO LAR DE PITCH
Anos atrás, as sombras quase pereceram em forma de pesadelos e medos. As crianças, por pouco, quase perderam sua crença na magia e em seus seres mágicos para dar espaço ao terror. Se não tivesse sido pelos guardiões, o mundo hoje poderia estar perdido. Foi graças a Norte, Coelhão, Toothiana, Sandman e, até mesmo, ao novo integrante, Jack Frost, que o futuro estava garantido e a fé ainda permanecia de pé.
Norte se preparava o ano inteiro para a noite de Natal, fazendo presentes, atualizando a lista de bonzinhos e malvados (quem merecia e quem não merecia presente), supervisionando os yetis e os duendes, ajustando o trenó e treinando as renas, tudo no Polo Norte.
Coelhão preparava os ovos para a Páscoa, pintando-os em sua toca, para que, quando o grande dia chegasse, todos atravessassem os túneis que levavam a todas as partes do mundo.
Toothiana voava aqui e ali todas as noites com a ajuda das fadinhas, pegando os dentes de todas as crianças, escondidos embaixo do travesseiro, e deixando de presente uma moeda. Depois, voltava ao seu castelo, invisível para quem não acreditava, e guardava cada dente em uma caixinha própria de cada criança, caso, um dia, fossem necessários novamente.
Sandman, todas as noites, fazia o possível para dar bons sonhos a todos, garantindo que a noite fosse tranquila como deveria ser.
Enquanto Jack Frost... Bom, Jack fazia o que bem queria. Claro, cuidava das crianças, mas era mais independente que os outros. Afinal, quem sabe quando pode começar a nevar? Brincava e espalhava diversão entre as crianças.
Tudo estava calmo. O medo sempre estaria presente, querendo ou não, como parte da ordem natural das coisas, e cabia aos guardiões afastá-lo sempre que possível. Porém, sua personificação viva, o Bicho-Papão, ou Pitch, ainda existia. Pelo menos, era o que parecia.
O que sempre os relembrava de sua última revolta.
No dia em que Pitch declarou uma ameaça aos guardiões no domínio de Norte, uma nuvem preta cobriu o Globo das Crenças (um globo que mostrava todas as crianças que acreditavam). Uma risada se fez presente, e depois tudo sumiu. Foi então que Norte decidiu chamar todos os guardiões para uma reunião. E foi assim que Jack Frost foi escolhido como novo guardião. Mas aquilo havia acontecido há muito tempo; o que estava para acontecer agora seria diferente.
Certo dia, depois da Revolta do Bicho-Papão, como ficou conhecido o evento, todos estavam de visita ao Polo Norte. Serviam-se de biscoitos e leite trazidos pelos ajudantes de Norte e conversavam calmamente. Era só mais uma reunião para saber se havia alguma anormalidade. Aparentemente, não. Pitch estava trancafiado em seu próprio mundo e não podia mais afetar ninguém diretamente. Indiretamente, não havia muito o que ele pudesse fazer, além de causar medo. Ainda assim, Norte sentia que algo estava para acontecer.
Apesar da conversa agradável, todos estavam apreensivos. O trabalho nunca parava. Coelhão pintava alguns ovos e os colocava de volta à cesta enquanto comia cenouras em vez dos biscoitos. Toothiana, junto às fadinhas, contava os dentes que ia recebendo, analisando cada um deles com a mesma animação de sempre. Sandman dormia em pé, ou melhor, flutuando. Norte apenas os observava, enquanto Jack se perguntava o quão pior aquela visita poderia ficar.
— E então, Jack, como tem sido a vida de guardião? Difícil? — Norte perguntou.
— Nem um pouco. Tem até sido... Divertida. — Jack respondeu com entusiasmo.
— Realmente, deve ser muito divertido atrapalhar os assuntos dos outros. — Coelhão retrucou. Apesar de Frost ser um novo guardião, Jack ainda gostava de pregar peças em Coelhão, o que o irritava muito.
— O que posso fazer se você ainda não aprendeu a se divertir? — Jack sorriu, mostrando os dentes brancos que Tooth adorava.
— Jack, quando vai me dar um desses seus floquinhos de neve lindos? — Tooth perguntou, piscando os olhos. Ela simplesmente adorava ver os dentes dele, o que aumentava um pouco seu ego.
— Para que quer esses, Tooth? Você já tem meus dentes antigos com você.
— Ah, Jack, quero como presente. Estou fazendo um colar com pelo menos um dente de cada um de vocês. — Tooth disse, mostrando o colar em seu pescoço. — É o primeiro dente caído de vocês como guardiões. — Observava os dentes com amor nos olhos. — Faltam o seu e o do Sandman.
Todos olharam para Sandy, que flutuava por cima dos duendes, quase babando neles. Todos começaram a rir, o que acabou acordando Sandman, que deixou um respingo de baba cair nos pequenos seres. Irritados, os duendes começaram a falar coisas embaralhadas, o que gerou ainda mais gargalhadas. Realmente, estava tudo em paz. Até que...
De repente, um barulho ecoou por toda a casa de Norte. Um barulho, não, um grito. Um grito horrível, tão terrível que fez Sandman cair no chão. Não era de um yeti, nem de um duende, muito menos de uma fadinha. Todos taparam os ouvidos com as mãos. Era um grito agudo, parecia vir de um homem em profunda dor. Quando o grito cessou, do canto da sala onde estavam, uma sombra surgiu. O que pareciam ser mãos estavam em sua suposta boca, quase forçando-a a se abrir mais.
— Pitch. — Afirmou Norte, já se preparando com suas espadas. Coelhão segurava firme o boomerangue, Tooth levantava os punhos, Sandman também se preparava, e Jack segurou firme seu cajado. Todos fitaram a sombra com dor nos ouvidos. Foi quando ela atravessou a sala gritando mais uma vez, forçando todos ao chão, colidindo contra uma parede. Daquele encontro, surgiu uma fenda.
Quando recobraram a consciência e se levantaram, encararam a fenda com desconfiança.
— O que fazemos? — Jack perguntou. — Devemos ir atrás dele?
— Claro que sim. — Tooth replicou. — Não podemos deixá-lo nos assustar assim. Já o derrotamos uma vez; podemos derrotá-lo de novo. — Coelhão acenou com a cabeça.
— Mas o que ele pode fazer contra nós? Ele já foi expulso daqui. Está preso lá. Não pode sair. Se formos atrás dele agora, ele pode escapar. — Norte concluiu.
Começaram a discutir. Jack e Sandman ainda observavam a fenda, até que Sandy resolveu liberar um pouco de areia no ar. Como se houvesse uma corrente ali, a areia foi completamente sugada para dentro da fenda.
— Gente. — Eles ainda discutiam. — Gente? — Ninguém o ouvia. — Gente! — Jack finalmente gritou, chamando a atenção de todos. — Olhem. — Jack assoprou e pequenos flocos de neve se formaram. Assim como a areia de Sandman, eles foram sugados para dentro da fenda.
Todos ficaram em choque. Jack resolveu se aproximar mais, mas ouviu um "Cuidado!" de Norte. Ele esticou o braço em direção à escuridão e tentou tocá-la. Sua mão passou completamente.
— Acho que devemos ir logo. — Assim que disse isso, correu para dentro.
— Jack! — Ouviu os outros gritarem, mas já era tarde.
❄❅❆❆❅❄
Quando Jack se deu conta, estava no escuro. À sua frente via um pequeno ponto de luz. Tentou retornar, mas só encontrou uma parede. Não era possível voltar. Sem alternativa, segurou o cajado frente ao corpo e seguiu para o ponto de luz.
Haviam algumas pedras no caminho. Ele pôde perceber que o lugar onde estava era estreito e extenso, assim como um corredor, que por acaso parecia familiar. Quanto mais caminhava, mais o ponto de luz se abria, até que por fim Frost pôde ver o lugar em que se encontrava. Lembrava muito um castelo em ruínas, mas ele se recordava bem daquele lugar: o lar do Bicho-Papão.
— Pitch? — pronunciou-se. — Você está aí? Vamos, apareça logo. Está com medo? — Alguma coisa caiu. Ele parou, olhou ao seu redor sem encontrar ninguém e, por fim, ouviu uma voz sussurrando fracamente:
— Me ajude...
— O quê? — Jack continuou andando para frente, até que avistou, a poucos passos dali, algo parecido com um corpo deitado no chão. Ele observou mais um pouco e percebeu que, seja o que for, tentava se arrastar. Num salto só, Frost aterrissou mais próximo. Caminhando devagar, era possível ouvir o gemido de dor. Por fim, ele se aproximou mais, deixou o cajado no chão e ajudou o ser a se levantar. — Eu te ajudo, calma. — Jack sabia quem era, podia sentir, mas havia algo de diferente ali. Eles se aproximaram de uma escadaria de pedras e sentaram-se.
— Jack? — Ele ouviu seu nome ser chamado ao longe por Coelhão.
— Estou aqui! — gritou em resposta. Em segundos, foi possível ver a silhueta de todos vindo do mesmo lugar de onde Jack viera.
— Jack! Nunca mais faça isso, por favor. Você nos deu um susto. — Tooth se aproximou. — Quem é esse? — O ser virou o rosto, todo machucado, com alguns arranhões. Tooth ficou assustada, mas pronunciou o nome dele: — Pitch. — Um misto de raiva e preocupação logo a invadiu.
— O que aconteceu aqui? — Coelhão olhava em volta, e Jack se perguntava a mesma coisa. O lugar inteiro estava diferente, como se tivesse havido uma batalha ali.
— Não sei. Acabei de encontrá-lo e ele estava assim.
— Pitch, consegue falar? — Norte tentou se comunicar, mas não obteve resposta. — Ei. — Ainda sem resposta. — O que devemos fazer agora?
— Só sei que não vamos ajudá-lo. — Disparou Coelhão.
— Eu concordo. — Tooth disse.
— Pessoal, pessoal, vocês não estão sendo racionais. Devemos fazer o que é certo, não é mesmo, Sandy?
Norte tentou argumentar, mas Sandman mal prestou atenção. Ainda com uma expressão furiosa, ele se aproximou de Pitch, que continuava paralisado. Uma interrogação de areia se formou acima de sua cabeça. Ele esticou o braço e, com o dedo indicador, cutucou o outro. Sem reação nenhuma, Sandy continuou, até que Pitch caiu nas escadas e se desfez em areia negra.
— Ah! — Tooth gritou. Um tremor enorme tomou conta do lugar inteiro. Pedras começaram a cair do teto. — Sandy, o que você fez?! — Mas ele estava tão perplexo quanto ela.
Segundos depois, o terremoto parou. Um grito ecoou junto de um relinchar de cavalo. Eles ouviram os trotes no chão, e mais atrás deles, os cavalos de Pitch estavam indo embora. O trotar e o relinchar cessaram, restando somente o grito. Porém, este era mais suportável que o outro, mas ainda assim pavoroso.
— O que está acontecendo aqui?! — protestou Jack. O grito cessou no mesmo instante.
— "O que está acontecendo" você pergunta, Jack Frost. — Uma voz surgiu. — Este é o grito do meu sofrimento, da minha angústia. O grito do terror!
— Pitch? — perguntou-se. — Nós o derrotamos há muito tempo já.
— Derrotar? — Ele riu. — Vocês não me derrotaram, apenas me baniram para o meu próprio lar! Me obrigaram a viver aqui pela eternidade, sem poder ouvir os gritos de terror! — Ele suspirou. — Mas isso não importa agora.
— Então apareça, Pitch! Vamos terminar com isso agora! — Coelhão berrou.
— Terminar? Isso é só o começo! — Mais uma vez, riu escandalosamente.
— Cadê você, Pitch? — Norte se pronunciou.
— Vocês não entenderam o que acabou de acontecer? — Ninguém respondeu. — O medo se esvaiu de mim. Agora estou livre, e não graças a vocês. — Mais um riso. — Mas agora posso finalmente ter minha vingança e confinar vocês aqui junto das minhas últimas lamúrias, graças a ele. — Norte quis perguntar a quem ele se referia, mas não teve tempo.
Outro terremoto começou, e as sombras começaram a devorar tudo ao redor, seguindo na direção dos guardiões. Tooth, Sandy e Jack flutuaram.
— Mas eu não entendo o que aconteceu com ele. Por que não nos enfrenta? — Jack se indagava.
— Depois conversamos mais sobre isso. Temos que sair daqui. — Norte disse.
Mas, antes que pudessem se mexer, outra coisa aconteceu. Do topo da caverna, uma luz surgiu, atingindo um ponto específico: uma espécie de cristal negro. A voz de Pitch soou nervosa pela caverna. Os guardiões se entreolharam, e todos entenderam o que deviam fazer. Seguiram para o fecho de luz.
Com a luz direcionada no cristal, uma luz roxa era refletida. Norte, assim como os outros guardiões, entendeu exatamente o que estava acontecendo, com exceção de Jack. Mas ele se atentou ao que ocorria.
Enquanto as pedras caíam e quebravam o chão, as sombras dizimavam tudo. O cristal tentava formar uma imagem que, aos poucos, se tornava nítida.
Foi possível ver as pernas, sendo uma delas sem pé; no lugar, havia um mecanismo estranho. Depois, veio o tronco, um pouco parecido com o de Jack. Atrás, nas costas, possivelmente, asas amedrontadoras também se formavam. Não foi possível ver o rosto, apenas o formato do nariz e da boca.
— Hiccup?! — Frost ouviu Coelhão dizer mais abaixo de si, pulando entre o chão despedaçado. Todos pareciam concordar, menos ele, que nunca tinha ouvido falar no nome mencionado.
Assim que Norte se posicionou frente ao cristal negro, remexeu nos bolsos à procura de algo. Todos estavam reunidos ali, ao seu redor. Frost continuava a fitar a imagem, perguntando-se o que ou quem poderia ser, mas foi puxado de seus pensamentos quando Norte jogou um de seus globos de neve, e todos foram levados para dentro, para fora dali.
❄❅❆❆❅❄
Sãos e salvos, estavam todos um pouco confusos, como costumava acontecer quando viajavam pelos globos de neve do Norte. Enquanto pensavam sobre o que tinha acontecido no lar de Pitch, Jack se perguntava quem era aquela pessoa com asas que o cristal negro mostrara e por que Coelhão o havia chamado de Hiccup. Frost observou os outros e percebeu que eles cochichavam entre si.
— Não vão me contar o que está acontecendo? — Os cochichos continuaram. Sandman foi o primeiro a sair do grupo fechado e se dirigiu a Jack. Ele o fitou seriamente. Com gestos pelas mãos, movimentos pela cabeça e a areia mágica que formava símbolos e formas sobre sua cabeça, Sandy tentou, à sua maneira, explicar o que estava acontecendo, embora Jack não tivesse entendido nada. — Certo, obrigado, Sandy. — Ele se virou para os outros, esperando uma explicação melhor.
— Não sabemos direito o que aconteceu, Jack. — Norte começou.
— Ao que parece, o Homem na Lua escolheu um novo guardião. Aquele da imagem do cristal. Aconteceu a mesma coisa com você quando foi escolhido. — Tooth continuou.
— Um novo... Guardião? — Frost estava confuso.
— Quase isso. — Coelhão contradisse.
— O que quer dizer? Como assim?
— Não é exatamente um novo guardião. — Jack continuava sem entender, mas Coelhão seguiu: — Aquele cara mostrado no cristal — Hiccup, Jack pensou — já é um guardião.
— Mas se ele já é um guardião, por que a Lua o escolheria de novo?
— É exatamente isso que queremos saber também. — Norte finalizou.
Todos ficaram em silêncio absoluto. Eles haviam voltado para a sala de onde tinham saído, mas os yetis, duendes e as fadinhas não estavam ali. Só se ouvia o sibilar das asas de Tooth. Estavam muito inquietos e pensativos, principalmente Jack.
— Parece que, para obter nossas respostas, teremos de ir atrás dele. — Coelhão finalmente disse, mas com um pouco de desgosto.
— Dele quem?
— De Hiccup, Jack, o Cupido.
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