Nós tínhamos retornado ao lago, onde Satrina ainda estava desacordada no chão. Não era correto simplesmente sair e deixá-la ali, por mais tentador que fosse. Era uma criança.

— E o que faremos em relação a ela?

— Não se preocupe. — Cupid respondeu com um sorriso, assobiando em seguida.

Continuei observando-o, intrigado. Por um instante, o silêncio reinou, mas logo um som grave ecoou pelo céu, como um trovão distante. Olhei para cima. O céu estava limpo, iluminado apenas pela lua e as estrelas. Ao longe, uma silhueta luminosa cortava a escuridão, vindo em nossa direção. A cada batida de asas, a criatura ficava mais nítida.

Quando finalmente pousou perto de nós, reconheci o dragão: menor que os do castelo de Cupid, mas igualmente impressionante. Ele possuía escamas que pareciam cintilar à luz da lua, como se estivessem vivas.

— Alguns dragões têm uma audição excelente. Eu os treinei para que, ao ouvirem meu assovio, venham até mim. — Cupid explicou, inflando o peito de orgulho. — Impressionante, não acha? — Resmunguei de lado, não tão impressionado quanto ele provavelmente queria.

— Ei! — Ele deu um soco no meu ombro. Tentei esconder o sorriso, mas falhei. — Vamos embora. Satrina estará em boa companhia.

— Tem certeza?

— Claro que sim.

Olhei para o dragão, ainda cético. Não conseguia imaginar como uma criatura dessas poderia cuidar de uma criança. Mas, pensando bem, também não fazia sentido que um dragão pudesse ajudar humanos a se apaixonarem, então fui obrigado a aceitar.

Cupid acenou para e o mesmo assentiu, como se compreendesse perfeitamente o pedido. E assoviou novamente, logo depois, outra sombra surgiu cortando o céu. Desta vez, a criatura era ainda mais impressionante. Era um dragão muito parecido com Toothless, mas suas escamas brilhavam em um tom perolado com grandes asas translúcidas com um tom de azul claro nas extremidades, que se assemelham a penas finas, permitindo-lhe voar com grande agilidade. E seus olhos eram grandes e expressivos, com uma tonalidade intensa de azul, e ela tinha uma postura imponente e graciosa.

— Imagino que você ainda não tenha conhecido a Fúria da Luz, a companheira de Toothless, certo?

— Ainda não. — Sorri, incapaz de esconder minha admiração. Ela era, sem dúvida, o dragão mais belo que já tinha visto.

— Toothless não consegue cuidar de todos os dragões sozinho. Enquanto ele cuida de uma parte, ela cuida da outra.

— Rei e rainha?

— Alfa e ômega, na verdade. — Cupid acariciou gentilmente a face da Fúria da Luz, que pareceu gostar do gesto.

— Vamos? — Ele montou nas costas dela e estendeu a mão para mim.

Hesitei, mas segui o exemplo dele. Repeti os movimentos com cuidado, tocando o rosto do dragão antes de alcançar a mão de Cupid. Assim que ele me puxou, segurei firme.

— Segure-se bem. — Cupid guiou minhas mãos até seus ombros. — Se sentir que vai cair, confie em mim.

Não respondi de imediato. O calor do corpo dele era inesperadamente reconfortante, embora a proximidade me deixasse desconfortável. Se caísse, poderia usar meu cajado para me salvar, mas, honestamente, preferia a situação do jeito que estava.

Quando a Fúria da Luz deu o primeiro impulso, agarrei Cupid com mais força, sentindo seu riso enquanto subíamos pelos céus. O vento acariciava meu rosto, e, por um breve momento, senti paz. Olhar para as luzes das cidades abaixo e saber que as crianças estavam seguras era um raro conforto.

Mas a paz era ilusória. Sem Toothiana, algo vital faltava. Precisávamos dela. Antes de me tornar um Guardião, não pensava muito nisso. Meu mundo girava em torno da diversão, de guerras de neve e dias nublados. Agora, a responsabilidade pesava mais. Sem Toothiana, as memórias das crianças estavam em risco, e isso era inaceitável.

Não se preocupe, Tooth. Vamos trazer você de volta, prometi a mim mesmo.

Como se pudesse ouvir meus pensamentos, a mão de Cupid tocou a minha. O gesto parecia casual, mas me deixou desconcertado. Ele então começou a cantarolar algo baixinho.

— Cupid, preciso te perguntar uma coisa.

— Pergunte.

— Como um viking se torna o Guardião do Amor?

Ele riu suavemente antes de responder:

— Essa é uma boa pergunta. Para ser sincero, nunca entendi bem o motivo pelo qual o Homem da Lua me escolheu. Meu passado não tinha nada de romântico. — Ele suspirou, o olhar perdido no horizonte. — Veja os outros Guardiões: imaginação, esperança, memórias, sonhos, diversão... Tudo conectado à infância. Mas o amor? O amor tem muitas formas e não é algo para se brincar.

— Talvez haja outro motivo.

— Talvez. — Ele riu de forma melancólica. — Ou talvez a Lua só não tivesse mais o que fazer.

— Qual seu problema com Manny, afinal?

— Não sabia que vocês eram tão íntimos assim.

Não pressionei mais. A tensão no corpo de Cupid era evidente, e decidi não insistir. A Fúria da Luz nos levaria ao destino, com ou sem respostas.

❄❅❆❆❅❄

Imagine a surpresa ao chegar à casa de North, uma grande mansão repleta de itens mágicos e lembranças de tempos passados. O lugar estava tranquilo, mas ao entrar, o clima logo se tornava tenso. No meio da sala, junto aos outros guardiões, estava uma figura que eu não esperava ver. Skreeklavic Shadowbent, subordinado da Lua, estava ali. Sua presença era imponente, quase como uma sombra em movimento, com seu sorriso sutilmente zombeteiro enquanto nos analisava, de cima a baixo. O contraste entre sua postura calma e a inquietação que ele causava no ar era palpável.

– O que ele faz aqui? – Perguntei, ainda sem conseguir disfarçar o desconforto que sua simples presença me causava.

Ele não respondeu imediatamente, apenas deixou o sorriso se alargar, como se estivesse se divertindo com a confusão no ar. O olhar de Skreeklavic parecia penetrar através de cada um de nós, como se estivesse analisando nossas reações antes de qualquer coisa. Finalmente, me dirigi ao resto do grupo.

– Pessoal, o que ele faz aqui?

North parecia incomodado, mas permaneceu calmo, respondendo após um longo silêncio.

– Não sabemos. Quando chegamos, ele já estava aqui, à nossa espera, pelo jeito. Quando perguntamos, ele disse que esperaria até que todos estivessem presentes. Queria ter certeza de algo.

Era difícil ignorar a tensão no ar, um misto de desconfiança e um pressentimento de algo maior, algo que não conseguíamos entender ainda. Skreeklavic parecia procurar algo... ou alguém. Seus olhos iam de um rosto a outro, até que, por um momento, pareciam parar sobre mim, antes de se desviarem rapidamente.

– Ela não está aqui. – Bunny proferiu, quase um sussurro, a voz carregada de uma grande tristeza.

Skreeklavic levantou o olhar, encarando Bunny diretamente. O ar ao redor parecia ter esfriado. Era como se algo invisível, mas ameaçador, pairasse sobre todos nós.

– Temia que dissesse isso. Os rumores são verdadeiros, então. – Ele falou, a tensão em sua voz fazendo a sala parecer ainda mais fechada, mais sufocante. — Toothiana... foi corrompida, e novamente o mundo enfrenta uma ameaça perigosa.

Os outros pareciam tão perdidos quanto eu. Nenhuma palavra se atrevia a escapar enquanto o peso da revelação se espalhava. Minha mente corria para tentar entender o que aquilo significava, mas tudo parecia uma bagunça de pensamentos desconexos.

– O que você quer dizer com isso? – Perguntei, tentando me agarrar a qualquer pista.

Skreeklavic, agora com uma expressão de espanto fingido, se virou para os outros guardiões.

– Vocês não se lembram? – Seu tom, debochado, fazia a cada palavra soar como uma provocação. – Realmente não suspeitaram de nada? Nada disso lhes parece familiar? Nem mesmo para você, francamente, estou um pouco decepcionado... – Ele levou uma das mãos ao rosto, um gesto exagerado, enquanto seu olhar passava por cada um de nós, até finalmente se fixar em Cupid, que se mantinha em silêncio, como se tentasse desaparecer da conversa. – Quando vi você com eles, pensei que qualquer que fosse o problema seria resolvido. A realidade é que você não parece em nada com o guardião de milênios atrás.

A palavra milênios ressoou no ar, e pude ver Cupid tenso, seus olhos desviando. Algo estava claramente acontecendo ali, algo que todos os outros pareciam finalmente compreender.

– Foi há muito, muito tempo atrás. Nightlight quem tinha dado um jeito nisso. – A resposta de Cupid foi curta e contida, mas o tom de desconforto era claro.

Skreeklavic gargalhou, um som seco e impiedoso, interrompendo qualquer tentativa de entender a situação. Ele parecia gostar da sensação que tinha causado em nós, como se estivesse alimentando sua própria diversão.

– Espera, espera, isso já tinha acontecido antes? Cupid... – Eu tentei entender, mas ele me impediu de falar, deixando o riso se arrastar como um eco desconcertante.

– Honestamente, parece que estou com um bando de amadores! Vocês, os famosos guardiões, não conseguiram resolver nenhum problema definitivo. Agora entendo por que a Lua me mandou até aqui. – A zombaria em sua voz era palpável, e ele não fazia questão de esconder a desdenhosa diversão em sua expressão.

North estava visivelmente abalado, sua postura rígida denunciando que ele também sentia o peso daquelas palavras.

– Manny falou com você? – Ele parecia preocupado, sua voz tremendo com a pressão da situação. Skreeklavic havia captado a atenção de todos ali, até daqueles que estavam tentando evitar me olhar nos olhos.

Eu estava perdido, a frustração se acumulando em minha mente. Não entendia o que estava acontecendo e queria uma explicação, agora.

– Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?! – Gritei, incapaz de conter a raiva e o desconforto. Por um momento, me senti como se estivesse sozinho em um mistério que não fazia sentido. O olhar de Cupid se desviou novamente, e pela primeira vez percebi a dor em sua expressão. Ele estava se afastando de nós.

– Cupid! – Gritei, mas ele não parou. Sem uma palavra, virou-se e caminhou até uma porta, desaparecendo da sala.

A sensação de desconexão foi quase palpável. Eu sabia que a menção de Nightlight sempre fazia Cupid se afastar, mas ver aquilo em público me deixou desconfortável. Não queria que os outros o vissem daquele jeito, mas a raiva tomou conta de mim. Eu não tinha respostas, ninguém parecia entender a gravidade da situação. O que estava acontecendo com ele? O que todo mundo sabia que eu não tinha conhecimento?

E então, sem mais, virei-me para Skreeklavic. A raiva se acumulava dentro de mim, e com o cajado em mãos, apontei diretamente para seu pescoço. O olhar dos outros guardiões era de choque, mas não conseguia mais me controlar. A situação estava fora de controle, e eu não sabia mais em quem confiar. A tensão na sala ficou quase insuportável enquanto esperava por uma reação sua.

Ele não se intimidou. Seu sorriso se manteve, implacável, quase como se ele estivesse esperando por aquilo.

– Lembre-se disso, – ele disse, sem perder o sorriso, a voz carregada de um tom quase filosófico. – Quando disserem para você que só existe luz dentro dos guardiões. Se quiser dominar sua nova magia, vai precisar aprender a encontrar um equilíbrio entre suas duas partes.

O silêncio foi cortante. Eu estava prestes a explodir, mas uma voz conhecida me interrompeu.

– Jack, abaixe isso. – Ouvi North, tentando me trazer de volta à realidade. Mesmo relutante, abaixei o cajado, sentindo a tensão se dissipar um pouco, mas ainda havia uma raiva ardente dentro de mim.

– Muito bem. Agora, porque você não vira um bom menino e vai atrás do seu novo namorado para que possamos conversar melhor sobre o assunto? Odeio admitir isso, mas preciso da presença dele aqui. – Skreeklavic voltava a se divertir ainda mais com a situação, seu tom carregado de uma malícia que me fazia querer explodir.

– Jack. Vá. – Bunnymund interveio, sua voz firme, como sempre.

Irritado e sem entender nada do que estava acontecendo, saí de perto dos guardiões e fui atrás de Cupid.

Caminhei pelo corredor, cada passo parecendo mais pesado do que o anterior. O ar estava denso e tenso, como se eu estivesse adentrando um lugar que não deveria estar. O grupo ficou para trás, mas algo dentro de mim me dizia que não deveria deixar isso para lá. Algo estava errado, e eu precisava entender. Não sabia exatamente o que, mas tinha a sensação de que era mais do que apenas os rumores sobre Toothiana.

Quando finalmente o encontrei, Cupid estava ali, parado perto da janela, olhando para o céu escuro. A luz da lua refletia em sua pele pálida, mas não havia brilho em seus olhos como de costume. Ele estava distante, como se estivesse em outro mundo, com a cabeça cheia de pensamentos que eu não podia alcançar.

Hesitei por um momento. Não sabia o que esperar dessa conversa, mas uma coisa era certa: precisava falar. Eu precisava entender o que estava acontecendo, o que ele e os outros sabiam e que não haviam me contado até agora. Algo estava me escapando, e eu estava começando a me sentir um idiota por não ter percebido antes.

– Cupid... – Chamei, minha voz saindo mais fraca do que eu imaginava.

Ele virou lentamente para me encarar. Seus olhos, normalmente cheios de energia e vivacidade, estavam sombrios, quase cansados. Como se já soubesse o que eu iria dizer. E ele não sorriu, não fez nenhuma piada. Só me olhou com uma expressão que eu não conseguia decifrar.

– O que foi, Frost? – Sua voz estava calma, mas havia algo ali que não soava certo, algo pesado. Ele estava esperando por algo.

Eu dei um passo em sua direção, mas parecia que cada movimento era um desafio. Como se algo me segurasse, algo dentro de mim, uma mistura de confusão e culpa. Não queria cobrar dele algo que não era sua obrigação, mas queria que alguém pudesse me contar o que eu estava perdendo, o que eu não sabia, e como se tivesse lido meus pensamentos, ouvi Cupid suspirar antes de começar a falar.

– Não te contei toda a verdade... Você lembra que Pitch Black e Jack Skellington são irmãos, certo? – Assenti em afirmação, até agora era a única coisa que sabia. – Antes deles se tornarem o que são hoje, eles tinham uma vida normal como espiritos, – O All Hallow's Eve. – e acreditasse que um dia eles deram de cara com duas criaturas que mudaram suas vidas para sempre. Nighlight os chamou de Sussurros e era a primeira vez que os viamos na Terra, ninguém sabia nada sobre sua origem, mas tínhamos presenciado o efeito que eles tinham. – Parei um minuto para analisar o que ele me dizia.

– O que aconteceu com Pitch Black e Jack Skellington?

– Sabe eles não tinham a aparência que tem hoje... Os Sussurros os corromperam, trouxeram trevas para o seu cerne e aquilo os transformou. De amigos, eles viraram inimigos. – Cupid pausou e suspirou mais uma vez, parecia estar revivendo aqueles dias naquele exato momento. – A Lua ordenou para que Nightlight os eliminasse, sua presença e influência estava tendo um efeito negativo nas crianças... Elas estavam ficando com medo.

– A segunda profecia da Lua... – O interrompi para recitar o trecho da profecia da Lua. – "Aquele que uma vez o terror prendeu e o horror poupou, Guardião Primordial o Homem da Lua nomeou", ela fala sobre esse momento?

– Sim. Essa parte da profecia fala sobre a luta de Nighlight e Pitch Black e Jack Skellington, mas Nighlight conhecia os dois espiritos e não queria destruí-los, ele tentou salvá-los, mas apenas um ficou livre da corrupção implantada pelos sussurros...

– Jack.

– Exatamente... Nightlight conseguiu poupar Skellington, mas temia que os sussurros retornassem, então ele usou o poder que a Lua tinha emprestado para ele para que pudesse escondê-lo do mundo. E assim ele fez, junto da cidade que hoje conhecemos como Cidade do Halloween e para apaziguar a Lua, por não ter feito exatamente o que lhe foi pedido, ele a presenteou com um lago no lugar de onde a cidade ficava antes, o nomeando de Lago Hollow.. – Nightlight teria então feito tudo aquilo, realmente era um guardião poderoso. – Pitch no entanto foi um desafio, eu tentei ajudar Nightlight como pude, lutei ao seu lado o tempo todo, mas Black não era um espirito que desistia fácil, quando Nightlight conseguiu derrotá-lo, ele o prendeu para que seu medo não se espalhasse novamente, era pra ser uma prisão sem saída, mas como sabemos, Pitch conseguiu escapar.

As coisas então começaram a fazer mais sentido, se os sussurros teriam corrompido Pitch Black e Jack Skellington anos atrás, Skreeklavick deveria acreditar que o mesmo teria acontecido com Toothiana agora. E ele acabara de lembrar todos os guardiões disso...

A terceira frase da profecia da Lua que tinhamos dizia que deveriamos procurar pelo guardião primordial e o motivo poderia ser esse, somente ele poderia desfazer a corrupção de Toothiana. Encontrá-lo deveria ser nossa prioridade agora, mas ainda há algo que não se encaixava nisso tudo.

– Agora as coisas fazem mais sentido, mas o que ainda me confunde é porque a Lua mandaria Skreeklavick para nos ajudar? Se Manny entrou em contato com ele, já não teria dito onde o Guardião Primordial está? Ou será que nem ele mesmo sabe disso? – Cupid me encarou por um instante.

– A Lua não é de entrar em contato com ninguém, Frost. Não devemos confiar em Shadowbent, lembra-se de como ele nos recebeu na Transilvânia. – E me recordei dele sussurrando o recado em meu ouvido, "Diferente dos outros essa não é sua segunda vida. Suas memórias foram falsificadas, alguém o está manipulando e não quer que você se lembre de quem foi."

Quando ele me disse isso, o primeiro que me veio a mente foi o Homem na Lua, mas levando em conta o que aconteceu em Sleepy Hollow, com Nighlight deixando uma mensagem para nós, e se quem repassou a mensagem para Shadowbent na realidade teria sido ele mesmo? Então Nightlight já sabia que algo perigoso estava para acontecer no futuro?

– Mas também quero saber quais as reais intenções do subordinado da Lua. – Cupid me retirou dos devaneios. – Vamos retornar, mas lembre-se Jack, ele não é confiável. – Acenei em resposta.

Cupid já parecia melhor do confronto forçado de alguns minutos atrás e aquilo me alegrava, Skreeklavick Shadowbent não era flor que se cheire e, a cada palavra sua, ele parecia fazer questão de enfatizar isso, mas agora ele mais uma vez tinha algo que nós queríamos, informação.

❄❅❆❆❅❄

A tensão no ar era quase palpável. Cupid e eu nos reunimos aos outros guardiões em um cômodo maior da casa de North em um círculo de olhares desconfiados e suspeitos. Os outros guardiões, que de alguma forma pareciam mais distantes do que nunca, mantinham uma certa distância de Skreeklavick Shadowbent. O subordinado da Lua, com sua postura impassível, parecia atento à desconfiança que nos envolvia. E, parecia se divertir muito com nossas expressões, o sorriso nunca deixava seu rosto.

Olhava para ele, tentando decifrar o que estava por trás daqueles olhos sem vida, daquela expressão que não revelava absolutamente nada. Não era a primeira vez que Skreeklavick aparecia, mas agora ele estava diferente. Algo nele tinha mudado — ou talvez fosse a nossa visão sobre ele que tinha mudado, desde o último encontro.

– Frost, – Skreeklavick falou, sua voz baixa e quase sombria, mas com uma autoridade que ninguém ali poderia negar. Ele não parecia se importar com a tensão no ar, ou talvez fosse apenas parte do seu jogo. – Não estou aqui para falar do problema de Toothiana, – ele começou, os olhos de todos se voltando para ele. – esse problema é de vocês. A Lua me enviou para algo mais urgente.

Aquelas palavras, como uma lâmina afiada, cortaram o silêncio pesado. Eu sentia o olhar de todos sobre mim, como se estivessem esperando algo. Fiquei parado ali, sem saber o que fazer, o que dizer, ou o que pensar. Meu estômago revirava, mas algo dentro de mim também estava curioso. O que Skreeklavick tinha para dizer? Algo me dizia que eu não ia gostar nem um pouco.

– Eu fui instruído a ajudar. – Ele continuou, as palavras saindo lentamente, como se pesassem mais do que o normal. – Ajudar com os novos poderes de Jack Frost.

Eu senti o sangue gelar. Por que a Lua o teria enviado para me ajudar?!

O som das batidas do meu coração parecia ecoar dentro de mim, mas eu me forcei a manter a calma. Shadowbent não parecia muito feliz com que tinha acabado de dizer, porém ao olhar para todos os guardiões novamente sua expressão mudou, nossa confusão e desconfiança, era motivo para sua felicidade.

Skreeklavick me encarou com aqueles olhos vazios e frios, como se estivesse esperando que eu me desesperasse, ou talvez apenas jogando mais lenha na fogueira que já estava queimando dentro de mim.

E a verdade era que eu não sabia como reagir. Cada pedaço de mim queria fugir dali, desaparecer na neve, longe de todos eles. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que não podia. Eu não podia mais correr. E uma pergunta ecoava em minha mente: o que exatamente o Homem na Lua queria de mim agora?

– E você espera que nós acreditemos no que você diz? – Bunnymund parecia tão irritado quanto qualquer um de nós.

– Não estou esperando nada de vocês. Estou aqui apenas cumprindo uma ordem. – Eu podia ver a arrogância em seus olhos enquanto ele se afastava, indo até uma janela próxima, como se estivesse se desinteressando completamente do que acontecia ali. Ele observava a paisagem coberta de neve, como se fosse o único a estar em paz naquele ambiente de tensão. – Como o humilde servo que sou. – Finalizou com ironia.

– Vamos dizer que o que você acabou de nos contar seja verdade, senhor Shadowbent. – North foi quem continuou, com uma calma tensa, mas firme. – Como exatamente você seria mais útil em ajudar Jack Frost, do que nós que somos guardiões?

– Vocês guardiões são cheios de si, achando que só porque trazem alegria e esperança para as criancinhas, – Skreek fez questão de tirar sarro. – que vocês são cheios de luz, que não tem uma gota de maldade dentro de vocês. – Ele voltou a nos encarar. – Se isso fosse realmente verdade, vocês não teriam perdido a preciosa amiga de vocês para os sussurros. Não se esqueçam que eles apenas sussurram aquilo que está dentro do coração de vocês. – Gargalhou.

– E como você ajudaria Jack Frost?! – Cupid estava impaciente, ele estava preocupado com o fato de eu estar ali, prestes a ser manipulado por alguém como Skreeklavick.

– Jack Frost precisa de alguém que saiba explorar melhor esse seu outro lado, que saiba ser o equilibrio entre as duas forças, e não existe um ser nesse mundo mais equilibrado do que eu, se não a própria Lua já teria pedido para algum de vocês, não é mesmo? – Nos entreolhamos, aquilo só podia ser uma brincadeira de mal gosto, não tinha como ser verdade.

– Precisamos discutir sobre isso, senhor. – Skreek reverenciou com um sorriso malicioso, tudo isso não passava de um grande divertimento para ele no final.

Todos nos aproximamos de North para discutir o assunto, mas foi Cupid quem começou.

– De maneira alguma podemos acreditar em cada palavra que sai da boca desse mal feitor.

– Cupid, precisamos explorar as opções. Até agora não sabemos o que estamos fazendo, estamos andando e não chegando a lugar nenhum.

– Mas concordo com Cupid, North. Skreekalvick não é honesto com suas intenções, não creio que a Lua tenha realmente entrado em contato com ele, muito menos ordenado que ele nos ajudasse de alguma forma.

Embora todos tenham argumentos válidos sobre o subordinado da Lua, uma coisa dentro de mim dizia que eu deveria ao menos tentar um método diferente. A ideia de ser guiado por alguém como ele me causava um desconforto profundo, mas ao mesmo tempo, uma parte de mim questionava se ele não poderia ser a chave para o que estava acontecendo comigo. Além disso, Cupid e eu nem tinhamos ainda comunicado aos outros sobre o que tinha acontecido em Sleepy Hollow.

– Pessoal, antes de continuarmos discutindo sobre isso, Cupid e eu temos que explicar a vocês o que mais aconteceu naquela floresta.

E todos ficaram atentos as minhas palavras e nas de Cupid. Explicamos sobre o nosso encontro com a pequena Satrina, sobre a imagem dançando no Lago Hollow, as mensagens que foram deixadas para nós e o que tinhamos discutido sobre o que fazer depois.

Eles ainda pareciam confusos com o que fazer e resolvi compartilhar meus pensamentos sobre tudo estar realmente levando ao guardião primordial e todas essas mensagens deixadas para trás para nós.

– Mais do que todos aqui, eu realmente não gostaria de passar muito tempo com aquele cara, mas se isso for me ajudar a ter controle sobre os meus novos poderes, acho que vale a pena tentar, assim também podemos ficar de olho nele. – Todos pareceram ponderar sobre o assunto por um momento.

– Posso acompanhar esse tal "treinamento" de vocês dois... Enquanto os outros procuram por mais informações sobre Nightlight, talvez ele realmente seja uma peça fundamental para quando salvarmos Toothiana. Acredito que precisamos da profecia da Lua completa, ela também pode ser uma grande chave para encontramos o guardião primordial. – Sei o quanto foi dificil para Cupid proferir aquelas palavras, ele passou tantos anos procurando pelo seu grande amor e agora estava passando a tarefa para outras pessoas, apenas para não me deixar sozinho com o subordinado da Lua. – Alguma objeção quanto a isso?

– Acredito que não, mas não podemos esquecer que temos de ficar de olho em Tooth e na sombra de Pitch, ainda não sabemos quem é seu mestre... Sandy, você poderia vasculhar nos sonhos e ver se encontra mais alguma pista. Bunny e eu, já que é mais fácil para nos transportarmos, podemos localizar Toothiana, quem sabe se acharmos ela não achemos o responsável por tudo isso.

– Parece um plano. – Concordei por fim. Finalmente pareciamos ter um plano coeso, não tinhamos mais nenhuma outra alternativa também. Assim que todos estavam de acordo, nos separamos para poder falar com Skreeklavick.

– Ah! Finalmente, chegaram a um acordo enfim? – Seu tom como sempre continuava debochado. Respirei fundo.

– Sim. Vamos aceitar sua ajuda, porém será nos nossos termos. – Skreek deu uma gargalhada baixinha.

– Sim, claro, não me importo com nada disso, se negassem minha ajuda ou não. Só preciso verdadeiramente de você e seu arco, – Apontou para Cupid, e pude sentir o seu incômodo com esse gesto. – e de você, Jack Frost, é claro.

A risada baixa dele me fez sentir uma ponta de raiva. Mas, ao mesmo tempo, a única coisa que eu queria naquele momento era descobrir a verdade e tentar, de alguma forma, controlar esse poder dentro de mim antes que ele me consumisse por completo.


Notas finais
Fala galerinha linda do meu coração! Feliz 2025! Quem é vivo sempre aparece não é mesmo? Primeiramente 4 f*cking anos desde minha última atualização nessa fanfic, foram 4 anos estagnado passando por um bloqueio criativo nesse capitulo, mas finalmente ele saiu, porém ainda vou precisar rever a história porque tem muita coisa que nem lembro mais, então esperem alterações nos capítulos anteriores nos próximos dias, vou deixar avisado no primeiro capitulo da história e vou atualizando conforme finalize a reedição dos mesmos. Peço mil perdões pela demora, nesse meio tempo eu vi que a fanfic ganhou vários leitores novos, muita gente preocupada comigo, que deu jeitinho de vir atrás e fico muito feliz por esse feedback, de ter trazido vocês pra esse universo louco que criei, espero conseguir trazer a finalização que vocês merecem pra essa história! Aos leitores velhos e aos futuros leitores novos, um beijo e um abraço do tio Vini, espero que a gente se encontre aqui mais vezes esse ano! Até o próximo galerinha! <3