A Origem dos Guardiões – O Guardião Primordial
20 CAPITULO XIX — LIMIAR DO CONTROLE
O ar na casa de Norte estava pesado, carregado de uma tensão que ninguém parecia disposto a admitir em voz alta. Skreeklavick, o lobisomem, permanecia de pé, imóvel como uma estátua, seus olhos dourados varrendo o ambiente com um olhar calculista. Cada movimento nosso, cada palavra trocada, parecia ser pesada e analisada por ele. Eu me encostei na parede, cruzando os braços.
Realmente não gosto desse cara.
Cupido foi o primeiro a quebrar o silêncio, sua voz firme, mas com uma urgência que não dava espaço para hesitação.
— Norte, — ele começou, segurando o arco com uma das mãos. — Precisamos que você nos empreste alguns globos de neve.
Norte ergueu as sobrancelhas espessas, claramente surpreso. Ele olhou para Cupido como se estivesse decifrando um código secreto, os dedos tamborilando em sua própria barriga.
— Os globos? — ele repetiu, cruzando os braços. — É claro, ainda devo ter alguns aqui comigo.
Ele começou a revirar os bolsos do casaco vermelho, cada movimento mais frenético que o anterior. Seu rosto se contorceu em uma expressão de frustração.
— Que estranho... — murmurou, franzindo o cenho. — Jurava que tinha pelo menos mais um aqui.
Coelhão, sentado no canto com suas orelhas caídas de preocupação, esfregou o queixo.
— Será que aquele que usamos para escapar não foi o último? — sugeriu, voz baixa.
Norte parou, os olhos se arregalando por um segundo antes de soltar um resmungo.
— Verdade... Talvez tenha sido isso. — Ele suspirou, esfregando a nuca. — Enfim, vou buscar mais alguns. Se vão seguir com o plano, o transporte rápido é necessário. Já volto.
Sem mais explicações, ele saiu pela porta, deixando um silêncio desconfortável no ambiente. Skreeklavick continuava ali, imóvel, os olhos fixos no espaço onde Norte estava. Eu me aproximei de Cupido, baixando a voz.
— Você confia mesmo nele? — perguntei, inclinando a cabeça na direção do lobisomem.
Cupido não respondeu, mas o aperto em seu arco ficou mais forte, era claro que não. Skreek parecia ser alguém ardiloso que só agia por benefício próprio. Felizmente, Norte não demorou. Ele voltou com uma bolsa de couro batido, balançando-a com um sorriso satisfeito.
— Aqui estão.
No momento em que ele esticou o braço para entregar a bolsa, Skreeklavick se moveu como uma sombra, aproximando-se com passos silenciosos. Seus olhos negros pareciam brilhar ao ver os globos, e ele esticou uma garra hesitante.
— Interessante... — ele murmurou, mais para si mesmo. — Algo tão pequeno, capaz de transportar alguém para qualquer lugar do mundo...
Cupido reagiu na hora, puxando a bolsa para perto de si, seu olhar desconfiado fixo no lobisomem. Skreeklavick sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos, e recuou levemente.
— Vamos logo, — Cupido disse, a voz rouca como o vento cortante do inverno. — antes que eu mude de ideia sobre esse "treinamento".
Cupido não cedeu, mantendo a postura firme.
— Cuidado com esses globos, — Norte alertou, cruzando os braços novamente. — Eles são mais perigosos do que parecem.
Eu me inclinei para frente, curioso, e estiquei a mão em direção a um dos globos.
— São tão frágeis assim?
Norte soltou uma risada curta, mas havia um tom sério por trás.
— Frágil o suficiente para quebrar, mas poderoso o suficiente para mudar o curso de uma batalha. — Ele me encarou, um brilho de nostalgia nos olhos. — Esqueceu do problema que tivemos com aquela criança quando você ainda não havia aceitado ser um guardião?
Como poderia esquecer?
Skreeklavick observava tudo em silêncio, mas eu percebia a centelha de interesse em seus olhos. Cupido também notou, e nossos olhares se cruzaram por um segundo—uma mensagem clara: não vamos baixar a guarda.
— Bem, para onde vamos? — perguntei, me aproximando de Cupido enquanto puxava Skreeklavick para perto de nós. O lobisomem não resistiu, mas sua postura estava tensa, como um animal prestes a atacar.
Cupido não respondeu. Em vez disso, ele abriu a bolsa e retirou um dos globos de neve, segurando-o com cuidado. Todos nós o observamos enquanto ele balançava levemente a esfera, fazendo a neve mágica dentro dela dançar.
— Lago Hollow, — ele sussurrou.
O globo caiu de seus dedos, mas antes de tocar o chão, desapareceu em um clarão de luz. Um portal se abriu diante de nós, brilhante e convidativo.
Cupido olhou para mim, a pergunta não dita pairando no ar: "Está pronto?"
Eu apenas balancei a cabeça em confirmação antes de virar para os outros guardiões.
— Nos vemos depois.
Bastou um aceno coletivo deles antes que Cupido pulasse no feixe de luz, desaparecendo em um instante. Skreeklavick me lançou um último olhar inescrutável antes de seguir, e então, com um último suspiro, eu dei o passo adiante.
O mundo ao meu redor se dissolveu em branco.
❄❅❆❆❅❄
Assim que chegamos ao Lago Hollow, o vento cortante já nos recebeu com um assobio agudo, carregando flocos de neve que dançavam no ar. O local escolhido para o treinamento era uma clareira aberta nos arredores da floresta do lago, onde meu gelo poderia ser testado sem riscos. O céu pesado e acinzentado parecia refletir o clima entre nós — algo entre a expectativa e o desconforto.
Skreeklavick foi o primeiro a se mover, seus passos silenciosos afundando levemente na neve fresca. Ele se posicionou diante de mim, seus olhos dourados fixos nos meus como se pudesse ver algo que nem eu mesmo conhecia.
— Vamos começar com o básico, — disse ele, a voz calma, mas com uma firmeza que não deixava espaço para questionamentos. — Você precisa aprender a controlar seu poder, Jack. Não apenas usá-lo, mas dominá-lo.
Segurei meu cajado com mais força, sentindo a madeira gelada contra minha pele.
— E como eu faço isso? — perguntei, tentando disfarçar a hesitação na minha voz.
Skreeklavick sorriu, um gesto lento e calculado.
— Primeiro, você precisa entender que o poder já está dentro de você. — Ele ergueu uma garra, girando-a no ar como se desenhasse algo invisível. — O arco de Cupido, a Lua... eles apenas liberam o que já existe. Você não precisa de gatilhos externos. Só precisa aprender a acessar isso por conta própria.
Havia algo na maneira como ele falava que fazia meu estômago se contrair — um tom quase hipnótico, como se estivesse me puxando para mais perto de algo que eu não conseguia ver.
Cupido, que até então observava em silêncio, não gostou nem um pouco. Ele se interpôs entre nós, as asas semiabertas como uma barreira involuntária.
— Jack já tem controle sobre seus poderes, — disse ele, a voz mais áspera do que o normal. — Ele só precisa de tempo para se adaptar.
Skreeklavick não recuou. Em vez disso, inclinou a cabeça, o sorriso dele se tornando ligeiramente irônico.
— Tempo é algo que não temos, Cupido. — Seus olhos brilharam quando se voltaram para mim novamente. — E Jack tem um potencial que nem ele mesmo entende ainda. Um lado sombrio que pode ser sua maior força... se souber usá-lo.
A palavra "sombrio" ecoou no ar, e eu senti um frio que não tinha nada a ver com a neve.
Cupido apertou o punho em volta do arco, os músculos tensos.
— Jack não precisa de alguém para mostrar a ele como ser quem já é.
Skreeklavick riu — um som baixo, quase um rosnado.
— Talvez você devesse deixar Jack decidir por si mesmo. — Seu olhar desafiador encontrou o de Cupido. — A menos que tenha medo do que ele possa descobrir.
O ar entre eles ficou carregado, e eu me vi no meio de uma tensão que não sabia como dissipar. Cupido estava protetor, quase... ciumento? E Skreeklavick parecia se divertir com cada reação dele.
Respirei fundo, decidido.
— Vamos começar, — disse, firmando o cajado no chão. — eu quero aprender.
Cupido olhou para mim, seus olhos cheios de uma preocupação que ele não conseguia esconder. Deveria me sentir culpado por gostar desse Cupido?
— Tudo bem, — ele murmurou, recuando um passo, mas sem se afastar completamente. — Mas eu vou ficar de olho.
Skreeklavick pareceu satisfeito com a vitória.
— Ótimo. — Ele estendeu uma garra, e o ar ao redor dela começou a ficar escuro, formando uma esfera que ele desfez em meros segundos. — Então vamos começar com algo simples. Mostre-me o que você consegue fazer sem o seu cajado.
Tentei. Concentrei-me no frio dentro de mim, naquela energia que sempre pulsou nas minhas veias. Mas sem o cajado, parecia distante, como tentar agarrar o vento.
— Está difícil… — admiti, frustrado.
Skreeklavick observou, impaciente.
— Dificuldade não é fracasso, Jack. O frio não pede permissão para congelar, ele simplesmente acontece. Seja como ele.
Cupido resmungou, cruzando os braços.
— Cuidado, Skreek. O frio pode queimar também.
O lobisomem ignorou o comentário, mantendo os olhos em mim.
— Você já sentiu raiva, Jack? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro tentador. — Já sentiu algo tão forte que fez o gelo responder antes mesmo de você pensar?
Eu me lembrei de momentos de brigas, de medo, de solidão. E, como se respondesse a isso, uma geada súbita se espalhou do meu pé, congelando o chão em padrões irregulares.
Skreeklavick sorriu, satisfeito.
— Veja só… — ele murmurou. — É interessante como o frio pode ser tão destrutivo quanto bonito, não acha?
Cupido não aguentou mais.
— Chega. — Ele avançou, colocando-se novamente entre nós. — Isso não é treinamento, é manipulação.
Skreeklavick ergueu as garras em um gesto de falsa inocência.
— Só estou ajudando ele a encontrar sua própria força.
— Ou você está tentando moldá-la para o que você quer que ela seja. — Cupido revidou, os olhos faiscando.
Eu olhei entre os dois, o coração batendo mais rápido. Parte de mim queria provar que podia ser mais forte. Outra parte… temia o que isso significaria. Pitch Black já havia sussurrado promessas semelhantes em meus ouvidos, ofertas tentadoras de poder que eu rejeitara com um golpe de meu cajado. Mas a verdade incômoda persistia — gelo e sombra eram primos distantes. Cupido, com seu coração de luz e calor, jamais entenderia essa dança perigosa entre luz e escuridão.
Não que eu considerasse seguir por aquele caminho. Mas controlar Jokul Frosti... isso exigiria mergulhar em partes de mim que nem mesmo considerei. Emoções que estavam enterradas sob camadas de brincadeiras e sorrisos despreocupados.
O vento uivou ao nosso redor, carregando o peso de palavras não ditas. O treinamento mal havia começado, e já sentia como se estivesse caminhando sobre gelo fino e em algum lugar, lá no fundo, algo começava a rachar.
— Cupido, se vamos fazer isso, precisamos tentar seguir o método dele. — Minha voz soou frágil contra a eletricidade no ar. Cupido não desviou o olhar de Skreek, seus dedos apertando o arco até as articulações ficarem brancas. O lobisomem, por sua vez, mantinha aquela expressão de quem assiste a um pavio queimar, paciente, quase entretido.
— Que método seria esse, exatamente? — Cupido rosnou. — Alimentar a escuridão até ela devorar quem você está treinando?
Skreek riu, um som áspero que ecoou entre as árvores geladas.
— Fala como se escuridão fosse sinônimo de perigo. — Ele deu um passo à frente, ignorando completamente a postura defensiva de Cupido. — Você que lida com corações deveria saber... Até a faísca mais pura queima antes de iluminar.
Seu olho dourado piscou para mim, conspiratório.
— Jack entende. Não é mesmo?
Cupido moveu-se antes que eu pudesse responder, colocando-se entre nós como um escudo humano.
— Isso não está certo. — Skreek ergueu as garras em rendição fingida, mas sua voz era melíflua demais para ser inocente.
— Ah, Cupido... Sempre tão protetor. Quase como se temesse o que ele possa se tornar sem sua... orientação. — Uma pausa calculada e um sorriso malicioso. — Ou será que teme que ele não precise mais de você depois?
O ar congelou além do que meu próprio poder poderia alcançar. Vi as palavras atingirem Cupido como uma lâmina de gelo — seus ombros tensionaram de repente, as asas se expandindo num movimento brusco que fez a terra ao seus pés voar. E então, no lugar do frio que eu conhecia tão bem, surgiu algo estranhamente familiar: calor.
Não o calor aconchegante de uma lareira, mas aquele arrebatamento súbito de fogo contido. Uma aura dourada pulsou em torno dele por um instante, fazendo o ar vibrar. Eu nem precisava estar perto para sentir — era como se cada fio de cabelo em meu corpo tivesse se eriçado, alertando-me para a tempestade de emoções que se formava.
E no silêncio carregado que se seguiu, Skreek murmurou só para mim, baixo o suficiente para que Cupido quase não ouvisse:
— Todos carregamos uma centelha esperando o vento certo, Jack Frost. Você realmente vai deixar que decidam por você quando é hora de queimar?
— Cupido? — Chamei por ele, sua respiração pesada indicava o quão irritado estava, talvez isso realmente não tenha sido a melhor ideia. — Cupido, eu…
— Não. — Ele esticou a mão para mim, me impedindo de continuar. — Estou me deixando levar pelo que ele diz, controlar minhas emoções realmente não é o meu forte. — Mesmo sem me olhar, pude entender que estava tentando se acalmar, a aura flamejante começava a dissipar. — Eu só espero… Só espero que você não caia nesse abismo que ele está querendo te levar. É perigoso, Jack, mas acredito em você, sei que pode dominar isso.
Não contive o sorriso em meu rosto, muito menos a vontade que tive de abraçá-lo, e assim o fiz. Duvidar de mim já é algo frequente demais e ter alguém como o Guadião do amor, acreditando em mim, no meu potencial era algo extremamente grandioso, e admito que senti-lo em meus braços era uma sensação boa demais.
— Vamos continuar Skreeklavick. — Ele recebeu minha resposta com um sorriso, mostrando suas presas. — Mas vou direto ao ponto com você, se estiver tramando alguma coisa a mais do que o nosso combinado… A fúria de Cupido não será o maior dos seus problemas.
Ele continuou a nos encarar e então esfregou as mãos em seus braços, tremendo, como se sentisse frio.
— Que intrigante.
❄❅❆❆❅❄
O treinamento se estendeu até o crepúsculo. Cupido, após horas de observação tensa, finalmente recuou para a beira da floresta gelada — não o suficiente para nos perder de vista, mas a distância falava por si. Seus dedos tamborilavam no arco de forma irregular, traindo a inquietação que seu rosto tentava disfarçar.
Eu conseguia agora conjurar geadas menores sem o cajado, moldar cristais básicos no ar. Pequenas vitórias que me faziam sorrir, até que a voz de Shadowbent cortava como vento glacial:
— Progresso... mas insignificante para o que precisamos. — Seus passos circulavam-me como um lobo farejando fraqueza. — A raiva que você conhece é superficial, Jack Frost. Como neve pisoteada, dura por fora, mas vazia por dentro.
Meus punhos se cerraram involuntariamente.
— Eu estou tentando.
— Tentar não derrota inimigos. — Ele parou diante de mim, seu sopro formando uma névoa entre nós. — O que te fez tremer de ódio? O que te fez sentir tão impotente que congelou sua alma antes mesmo de ganhar seus poderes?
Memórias invadiram como uma avalanche — crianças atravessando meu corpo, memórias falsas, séculos de solidão gritando em meus ouvidos. O ar vibrou quando uma explosão de gelo irrompeu de minhas mãos, lançando estilhaços afiados em todas as direções.
Um barulho se fez, como algo sendo quebrado. Uma árvore próxima partiu-se ao meio com um grito de madeira agonizante.
Skreeklavick riu, um som rouco e admirativo. — Finalmente! Eis o poder que a Lua previa! — Seus olhos brilhavam como lunetas captando um cometa. — Imagine o que poderá fazer quando…
— PARE! — Cupido atravessou o campo em três batidas de asas, aterrissando entre nós com tanta força que a neve pulverizou. Seu rosto estava pálido, os olhos saltando entre os estilhaços de gelo e minha expressão atordoada. — Isso não é você, Jack!
Eu olhei para minhas mãos tremendo. O padrão de geada em minha pele pulsava em tons azuis profundos, quase negros nas veias.
— Eu... não foi intencional. — Cupido estendeu a mão, mas hesitou ao ver o vapor subindo de minha pele.
— Você está se machucando. — Skreeklavick interceptou, sua sombra envolvendo-nos ambos.
— Machucar? Ou renascer? — Seu dedo ossudo apontou para os destroços congelados. — Até quando fingirá que sua natureza é apenas brincadeiras e neve fofa?
O vento uivou como um coro de fantasmas entre nós três. Minhas mãos ainda tremiam, o padrão de geada nas minhas veias pulsando em ritmo irregular. Cupido me puxou para o lado, suas mãos quentes envolvendo as minhas num contraste quase doloroso.
— Jack... — Sua voz vinha de longe, como se eu estivesse sob um lago congelado. Só quando ele pressionou nossas mãos unidas contra meu peito é que voltei a focar. — Garoto da neve. — Seus olhos refletiam a luz do crepúsculo, quase dourados de preocupação. — Isso está indo além do que imaginamos. Você realmente quer pagar esse preço?
Olhei para os estilhaços de gelo negro espalhados pelo campo de treinamento. A árvore partida ao meio parecia gritar minha contradição.
— Pitch, as crianças, a Tooth... — Minha voz saiu rouca, como se tivesse engolido neve. — Se isso é só um fragmento do que Jokul Frosti pode fazer, como posso parar agora?
Cupido inspirou fundo, seu hálito quente formando uma nuvem entre nós. Seus dedos apertaram os meus com uma urgência que me fez piscar.
— Você não precisa provar nada para ele. — Um olhar rápido para Skreeklavick, que observava como um abutre à distância. — Temo que esse poder possa mudar você e não quero te perder para algo que você não é. — Ele apontou para a árvore partida. — Aquilo não é você.
Skreeklavick avançou, suas garras cintilando no ar vespertino.
— Sentimentalismos não preparam ninguém para a guerra. — Seu olhar desafiou Cupido. — Jack entende a necessidade. Ou vai deixar que outros decidam por ele como um garoto assustado?
Cupido girou tão rápido que suas penas soltaram faíscas douradas no ar.
— CALE-SE! — O estrondo fez o chão tremer. Nunca o tinha visto perder o controle assim. — Você não tem ideia do que está brincando!
— Estou aqui apenas porque a Lua ordenou que eu estivesse aqui. Se não fosse por isso…
Skreeklavick parou no meio da frase, seus olhos negros fixos em Cupido, desafiando-o a completar o pensamento.
— Se não fosse por isso, o quê? — Cupido encarou-o, as asas semiabertas, prontas para agir.
O lobisomem sorriu, afiado como uma lâmina.
— Talvez você não queira saber a resposta, Cupido.
E então, a briga explodiu. Insultos voavam como flechas envenenadas, cada palavra mais cortante que a última. Eu via Cupido, sempre tão controlado, perder a compostura, suas asas tremendo de raiva. Skreeklavick, por sua vez, parecia se alimentar do conflito, como se cada palavra fosse um passo a mais em seu jogo.
E aquilo começou a me abater.
É isso que eu quero?
Mas outra voz dentro de mim sussurrou: Se você puder controlar, não precisará temer. Ninguém precisará. Eu o reconheci.
E então, ouvi um crack.
Não.
Não ouvi.
Senti.
A centelha que Skreeklavick mencionara horas antes não acendeu, ao invés disso senti o gelo quebrar, uma rachadura em meio ao iceberg. A magia brotou de um lugar que eu nem sabia existir dentro de mim, fluindo pelas minhas veias, envolvendo-me como um segundo manto de frio. Os flocos de neve ao meu redor pararam no ar, suspensos, como se o tempo tivesse hesitado.
Fechei os olhos.
O mundo exterior desapareceu.
Não havia mais brigas, nem vozes, nem sequer o som do vento. Só eu, o gelo e aquela pulsação estranha.
Passei as mãos pelos meus braços, num gesto quase reconfortante, como se estivesse tentando me segurar, me conter.
Talvez eu deva parar.
Mas então, a outra voz, mais profunda, mais fria, respondeu:
Por quê?
E eu…
Eu o libertei.
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