A Origem dos Guardiões – O Guardião Primordial
17 CAPITULO XVI – METAMORFOSE
Eu gostaria de dizer que chegamos a tempo de impedir que qualquer coisa acontecesse a ela, mas estaria mentindo. Tudo aconteceu tão rápido. Se eu tivesse prestado mais atenção aos sinais, poderia tê-la ajudado, mas estive tão distraído nos últimos dias e ainda mais conturbado no minuto em que conseguimos sair do mundo dos sonhos.
Minha cabeça estava em uma discussão acirrada com o coração. Enquanto um queria ajudar Toothiana e focar nos guardiões, o outro só conseguia pensar em Cupido e se era realmente verdade que tínhamos nos beijado naquele dia na Transilvânia, no meu único ato são. Ele tinha certeza de que aquilo de fato tinha acontecido. E por isso eu queria mais. Estive negando esse desejo por tanto tempo. Só me faltava saber se era recíproco, se Cupido sentia o mesmo por mim.
E era justamente por esse motivo que precisava falar com ele, mas alguém não parecia tão interessado em conversar comigo. Todas as minhas tentativas de aproximação terminaram em fracasso total.
— Jack, tudo bem? — Coelhão questionou, mas eu estava tão distraído que foi necessário algumas cutucadas para tirar meus olhos de Cupido .
— Sim… Do que estávamos discutindo mesmo?
— Sobre a sombra de Pitch ter se dado ao trabalho de vir até aqui para nos atormentar em pesadelos ao invés de levar o nosso convidado embora. Quero dizer, para que se dar ao trabalho de aparecer aqui então?
— Vocês sentem isso também? — Todos olharam confusos para Norte. — Estamos perto de alguma coisa, consigo sentir isso.
— De novo com essa história da pança? — Norte pareceu ofendido com o comentário.
— Até agora ela não errou em nenhum momento, meu caro Coelhão. Não se esqueça disso.
— Não esqueceria nem se pudesse. Você não deixaria de jeito nenhum. — Apenas os dois sorriram. O resto de nós estava muito ocupado com pensamentos próprios, até que se tornou desagradável para os dois continuar com aquilo. — Bom, e agora, o que devemos fazer?
— Seja qual for o plano da sombra de Pitch, ou de seu mestre, ou seja lá quem for, devemos seguir com o nosso. — Ele se voltou para Toothiana. — Vamos te ajudar da mesma forma como ajudamos da última vez. Seremos os seus guarda-costas, assim como das fadinhas também. Estaremos mais atentos dessa vez, certo, Frost? — Tive que novamente tirar o olhar de Cupido . Norte já começava a me encarar estranhamente.
— Com certeza. — Tooth, que parecia cabisbaixa até ali, forçou um pequeno sorriso.
— Obrigada, a todos vocês. — Mas não era um gesto tão sincero, e era até compreensível. Não conseguia imaginar como Tooth estaria se sentindo. Desde a nossa última batalha com Pitch, ela tem sido feita de alvo principal, como se tudo que fosse ruim tivesse que atingi-la antes de nos atingir primeiro. Só conseguia sentir sua frustração. — Se vocês não se importam, tenho que fazer uma reunião com as fadinhas. Elas precisam ficar mais atentas agora e tomar mais cuidado. Elas têm que saber o que está acontecendo. — Ninguém ousou discordar. Era nítido que ninguém conseguiria contradizê-la. Então, Tooth apenas se encaminhou para sair da casa de Norte, olhando para trás, ainda esforçando um sorriso, e sumiu.
— Eu vou até o meu palácio. Tem alguns dragões que podem nos ajudar a proteger as fadinhas, talvez até o próprio Toothless. — Cupido disse em disparada, saindo logo atrás de Tooth. Não tive tempo de reagir, porém Norte, Coelhão e Sandy me encaravam com certa suspeita.
— O que?
— E você vai ficar aí parado? — Coelhão disparou.
— Como assim?
— Qual é, Jack? Não precisa se fazer de desentendido agora. Você ficou encarando Cupido o tempo inteiro. Está escrito na sua cara que você precisa... Não. Desculpa. Tem que falar alguma coisa com ele. Só nos faça um favor: não desapareçam e tentem não ir tão longe.
— E, pela Lua, tentem não brigar, por favor. — Norte finalizou. Entretanto, continuei ali, parado, congelado, absorvendo a gama de informações que tinha sido atirada em minha direção. — Jack, por favor, vai logo.
— Eu posso mesmo? — Sim. Eu perguntei isso. Vi Sandy bater a mão no próprio rosto.
— Já era para você ter alcançado ele, mas não saiu do lugar até agora.
Não esperei outra confirmação. Antes que eles mudassem de opinião, saí correndo. Eles estavam certos: eu tinha que falar com Cupido . Só não poderia prometer que não brigaríamos. Afinal, mais uma vez estaria ali insistindo no mesmo assunto com ele, me perguntando até quando ele finalmente me jogaria de comida para os dragões. E talvez eu estivesse bem perto disso. Quem sabe.
— Cupido ! — Gritei seu nome antes que ele pudesse desaparecer completamente do meu campo de visão. Tooth deve ter pegado algum outro caminho para seu castelo, enquanto Cupido provavelmente fazia seu caminho para a sala dos feriados, o jeito mais rápido de voltar ao palácio. Assim que ele me ouviu, ficou parado, congelado, tenso. — Precisamos conversar. — Tentei soar sério.
— Sempre precisamos. — Ele se virou para me encarar, e pude perceber o rubor em sua face. Ele sabia o que estava por vir. — Sobre o que vai ser dessa vez? — Engoli seco.
— Nightlight apareceu em meu sonho. — Consegui captar sua atenção.
— Como?
— Nightlight. Ele apareceu e conversou comigo em meu sonho. — Por um segundo, ele pareceu parar de respirar.
— Como sabe que era ele?
— Ele se apresentou para mim. De início, eu não acreditei. Ele pediu para que seguíssemos com o nosso plano e que prestássemos atenção aos pesadelos. Durante o tempo todo, imaginei que pudesse ser alguma jogada da sombra de Pitch, mas... — Parei de falar. Não queria entrar em muitos detalhes. Não queria relembrá-lo do horror que acabara de passar: o próprio pesadelo.
— Mas o que? Pode dizer.
— Quando entramos no seu sonho, a pessoa com quem você conversava era ele, não era? — Cupido assentiu. — Reconheci como a pessoa que conversou comigo.
— Quer dizer que você viu o rosto dele?
— Não. Por algum motivo, tudo dele estava borrado. Só sua silhueta era mais visível, mas ao mesmo tempo ele me pareceu tão familiar, quase como se já tivéssemos nos encontrado alguma vez, sabe? — Ainda que meio confuso, Cupido assentiu.
— E o que mais ele falou? — Parecia desconfiado.
— Muitas coisas. Uma delas era que a segunda profecia era sobre nós quatro. — Saiu mais como uma pergunta do que como uma afirmação. Estava tentando lembrar o que ele tinha falado comigo. — E que não devia esconder nada de você. — Senti um calafrio. Se não era para esconder nada dele, eu deveria então falar sobre os meus sentimentos? Enquanto debatia isso em minha mente, Cupido estava com aquela expressão novamente, prestes a chorar. — Alguma coisa te parece familiar?
— Não... — Negou, passando as mãos nos olhos, tentando impedir que alguma lágrima caísse. Talvez fosse mais alguma coisa que ele não conseguia lembrar, não importasse o quanto ele tentasse. Meu coração apertou. Vê-lo assim me machucava todas as vezes. — Ele disse mais alguma coisa?
Mas não o respondi. Ao invés disso, corri para abraçá-lo. Nosso tempo estava se encurtando cada vez mais. Cupido estava esquecendo o grande amor de sua vida, pouco a pouco, e ele era nossa melhor chance de encontrar o guardião primordial um dia.
— Desculpa. — Sussurrei à altura da sua orelha. Demorou um pouco, mas logo ele retribuiu o abraço. Senti os soluços de seu corpo.
— Por que você está se desculpando? — Murmurou de volta, com a voz meio chorosa. Cheguei a uma simples conclusão: Cupido definitivamente era um dos guardiões mais fortes. Quando levamos em conta o tanto de tempo que ele está entre nós, a sua história, todas as coisas que já viu e sentiu, ele não pareceu ter derramado uma lágrima ao longo desses anos. Aguentando muitas coisas sozinho. E agora, por alguma razão, sempre que estou perto, ele se desmancha.
— Porque eu gosto de você. — Não era o melhor momento para dizer aquilo, mas saiu tão naturalmente. Era a única coisa com a qual eu não conseguia mais lidar escondido, por mais que ele pudesse me rejeitar. — E dói tanto trazer todo esse sofrimento para você. Não quero te machucar mais. — Ele apertou o abraço um pouco mais.
— Eu estava errado sobre você, garoto da neve... Você não tem um coração de gelo... — Ele se afastou para que pudéssemos nos encarar. — Há uma chama que você protege por trás de uma linda e delicada escultura de gelo. — Ele encostou uma mão em meu peito, e acompanhei o movimento. — E eu a vejo queimar mais toda vez que você me abraça. — Voltei a encarar seus olhos verdes. Havia algo que não tinha visto antes.
Dessa vez, não fui eu quem deu o primeiro passo. Cupido foi quem me surpreendeu ao encostar os lábios nos meus de maneira tão gentil. E antes que ele pudesse se afastar novamente, o envolvi em meus braços e continuei a beijá-lo, sentindo o calor de seu corpo no meu, emprestando parte da sua temperatura, descongelando a suposta escultura de gelo que ele tinha acabado de mencionar.
Foi durante esse beijo que cheguei a uma conclusão. Talvez a mais perversa que já tive esse tempo todo.
— Mas... — Quando paramos o beijo, Cupido sussurrou para mim. — Meu coração ainda pertence a Nightlight... Desculpe, não posso entregá-lo inteiro para você... — E, pela primeira vez, estava tudo bem ouvir aquilo. — Mas eu prometo que vou tentar não ficar tão triste quando o assunto for ele daqui para frente.
Agora tinha certeza de que o nosso beijo tinha acontecido, mas não na Transilvânia, e sim ali mesmo, em meio a um dos corredores da casa de Norte. Aquela era uma lembrança real e que com certeza ficaria guardada para sempre comigo. O dia em que o guardião do amor beijou o guardião da diversão.
Eu iria ajudar Cupido a encontrar o seu grande amor de novo, mas faria o guardião do amor se apaixonar por mim mil vezes mais. E assim, Nightlight aprenderia a nunca mais desaparecer de novo sem deixar um recado, principalmente se for por mais de mil anos. Portanto, ele que se cuide, pois Jack Frost estava na área e trazia consigo uma tempestade.
❄❅❆❆❅❄
— Você não terminou de me dizer o que Nightlight falou no sonho. — Depois do nosso pequeno momento, voltamos a caminhar em direção às portas. Cupido parecia conhecer a casa de Norte melhor do que eu.
— E onde foi que eu parei? — Mas a minha cabeça estava nas nuvens. Honestamente, beijá-lo foi muito melhor do que imaginei que seria.
— Que não deveria esconder nada de mim... Mais alguma coisa além disso?
— Na verdade, sim. — Cupido era todo ouvidos, só que tinha que tomar cuidado. As coisas estavam acontecendo muito rápido para ele. — Ele quem deu a ideia de prestar atenção nos pesadelos. Por algum motivo, o que acontecia neles era importante.
— Chegou a comentar sobre isso com os outros?
— Ainda não... Precisava ter uma conversa a sós com você primeiro. — Ele virou o rosto. — Depois, iria acabar contando tudo para todo mundo.
— E o que aconteceu nos sonhos dos outros? Fui o último que vocês visitaram. Não participei de nada, só fiquei revivendo meus pesadelos dezenas e dezenas de vezes.
— Bom... Sandy, creio eu, foi o único a não ter tido pesadelos. Ele quem me tirou do meu depois da conversa com Nightlight. Em seguida, entramos no sonho de Norte.
Expliquei todo o nosso trajeto: sobre a captura de algum tipo de criatura, o desaparecimento de crianças e aquela figura medonha que apareceu no pesadelo de Norte; sobre o corredor de espelhos mostrando várias imagens, possivelmente de Toothiana, e como seu reflexo perverso a insultava várias vezes — até mesmo que ela era parecida com o que eu tinha visto em Paris. O pior, fora o do próprio Cupido , talvez, fora o de Coelhão: aquela floresta cercada de espinhos e uma música horripilante que parecia estar drenando toda a vida da floresta. E, por último, o sonho do ratinho sendo perseguido por aquela versão grotesca de Toothiana e como ela mesma nos levou a Cupido .
— Se os boatos da cidade do Halloween forem certos, então esses sonhos podem ser previsões do futuro, de uma forma muito estranha. Nightlight queria que você prestasse atenção neles por algum motivo, então podemos descartar que eram apenas pesadelos para nos manter distantes da cidade. — E ele estava certo. Talvez realmente fosse algum tipo de previsão do futuro, a parte mais assustadora dele. E se fosse verdade, qual daquelas versões estaria mais próxima de acontecer? — Teve mais alguma coisa que ele disse? Mais alguma dica?
— Ele disse mais algumas coisas, sim. Espera... — Tentei puxar pela memória, mas a mesma estava falhando muito comigo recentemente. — Além da dica dos pesadelos... Ele disse que... Deveríamos priorizar a proteção das crianças. Algo que o dono da sombra de Pitch está fazendo é muito mais do que apenas assustar as crianças, e que deveríamos pará-lo a todo custo. E, antes que você pergunte, sim, ele falou de um jeito de pará-lo, mas você não vai gostar.
— Como?
— Seu arco, a magia que ele oferece. Tenho que aprender a controlá-la, ou então não conseguiremos seguir em frente.
— Você já tomou o arco para si uma vez, e o que aconteceu foi catastrófico. Quase fomos expulsos da Transilvânia.
— Vamos pedir ajuda aos guardiões. Como eu tenho dito desde o início, talvez eles possam ajudar em alguma coisa do tipo. — Vi Cupido morder o lábio. Ele estava nervoso? — A não ser que você tenha encontrado algo... — Ele evitou meu olhar.
— Espera. — Ele parou de andar.
— Você descobriu alguma coisa na sua biblioteca nos dias em que ficou trancado? — Nervosismo passou pelo meu corpo. Será que ele tinha encontrado os fantasmas? Não queria continuar a esconder isso dele, mas tinha que ir devagar.
— Não, não é isso. Estou pensando aqui... Quando acordamos, descobrimos que a sombra de Pitch não tinha vindo pegar o ratinho, mas ele citou uma frase estranha: “Meu trabalho aqui está feito. A semente já foi plantada. Agora é apenas esperar para que ela desperte”.
— Aonde você quer chegar com isso?
— Você quem me dirá. Qual era a ideia de Pitch nessa última batalha que você participou?
— Fazer o medo reinar. — Recordei dos passos de Pitch alguns anos atrás. — Ele queria apagar a luz do mundo, fazer com que as crianças não acreditassem mais nos guardiões. Por quê?
— O dono da sombra de Pitch... Ele não está fazendo com que as crianças desacreditem em nós. Pelo contrário, ele está fazendo com que elas tenham medo. — De repente, a linha de raciocínio de Cupido fez sentido.
— Em Paris... A ideia era fazer com que aquela criança sentisse medo de Toothiana. Os ratos também, já que a chamavam de "Falsa Fada do Dente".
— Quando as crianças não acreditam em nós, nos tornamos invisíveis, como se nem existíssemos. Mas o que acontece quando elas têm medo de nós? — E, de repente, era aquilo. Todo o esquema do dono da sombra de Pitch parecia clarear. — Precisamos encontrar Toothiana urgentemente. — Mas já parecia tarde. Coelhão já aparecia correndo pelo corredor.
— Pessoal, temos um problema. Reunião de emergência. — Não houve nem tempo para pensar. Nos juntamos a Coelhão, correndo de volta para os outros. Se o que temos for certo, então Tooth está realmente em perigo. E, enquanto corríamos, continuei a pensar sobre uma peça desse quebra-cabeça que não fazia tanto sentido: o que a sombra de Pitch quis dizer com "semente plantada"?
Quando chegamos à sala onde estavam Norte e Sandy, o horror parecia se alastrar na expressão de cada um. Será que o que tinha para acontecer já aconteceu? Perdemos Tooth?
— O que aconteceu? — Quebrei o silêncio.
— Temos que ir para o castelo das Fadas. — Eles pareciam mais nervosos que o normal.
— O que vocês não estão nos contando? — E se entreolharam. Todo esse segredo estava acabando comigo. Cupido parecia tão perdido quanto.
— No caminho. — Coelhão já tinha batido as patas no chão, e o buraco se formou, onde nós começamos a descer rumo à escuridão, com um destino certo.
❄❅❆❆❅❄
A magia dentro dos túneis do Coelhão funcionava de maneira diferente. Por ser no subterrâneo, nós sempre acabávamos ziguezagueando para os lados, como em um escorregador. E não importava o lugar, nós sempre seríamos jogados para fora do buraco, mesmo que fosse do outro lado do mundo. Não tinham essas questões do mundo natural, diferente do transporte de Norte, onde apenas seguíamos uma linha reta através de um portal. Aqueles túneis podiam ser bem caóticos sem uma orientação do Coelhão.
Quando finalmente pude levantar, mal reconheci o lugar. A sensação era totalmente diferente do que quando se visita o castelo de Tooth. Todos os outros estavam com a mesma expressão. Aquele não parecia o lugar certo. Estava quieto.
— O que aconteceu aqui? — Cupido foi o primeiro a se pronunciar.
O castelo das fadas costumava ser um lugar "colorido". Seus tons variavam do azul, verde e rosa, combinando perfeitamente com as cores de Toothiana e das fadinhas. Ele trazia um ar de inocência misturado com uma obra-prima. Sua arquitetura era diferente de qualquer outra coisa que os humanos construíram.
E agora ele estava escuro, literalmente. Parecia ter acontecido uma reforma de última hora.
Suas cores haviam sido trocadas por preto, laranja e dourado. Para completar, ainda tinham fios e fios espalhados — ao menos pareciam fios — pelo lugar inteiro.
— Alguém pode nos contar o que está acontecendo agora? — Cupido parecia mais nervoso do que preocupado com o que estava vendo. Norte, Coelhão e Sandman se entreolharam. Sim, até Sandy estava nessa.
— Quando vocês compartilharam aquele pesadelo, Tooth nos contou que recebeu visitas particulares da sombra de Pitch. — Norte finalmente abriu a boca. — O dono da sombra a convidou para o seu lado... — Não consegui segurar o espanto. Cupido também não.
— Mas ela recusou. Só que a sombra não parou... As coisas ficaram mais pesadas para Tooth. Foram muitas ameaças. E, nos pesadelos, ela foi ameaçada de novo... — Coelhão completou.
— Por algum motivo, o dono da sombra quer que ela se junte ao time dele. A sombra inclusive disse que, na próxima visita, quem a veria seria seu dono em pessoa. Tooth não estava nada bem. Parecia cansada e irritada ao mesmo tempo.
— Então, combinamos que, quando o dono da sombra aparecesse, ela nos mandaria algum sinal para que aparecêssemos...
— Mas? — Pareceu incompleto. Algo aconteceu.
— Aparentemente, o sinal veio. Tooth deve ter mandado uma das fadinhas vir nos avisar, só que, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa... — Norte desviou o olhar. Foi então que percebi que ele carregava algo em suas mãos.
— O que houve? — Perguntei, já pensando no pior.
— Ela caiu dura no chão, e alguma coisa a envolveu, — Cupido e eu trocamos olhares. Talvez fosse realmente pior do que pensávamos. — a deixando dentro de uma espécie de casulo. — Ele nos mostrou o que segurava. Na palma da mão estava o tal casulo. Ao pegá-lo de suas mãos, não senti nada, quase como se não houvesse vida ali. Apenas senti os pequenos fios que o envolviam, sem calor, sem frio, sem nada. Repassei para Cupido para que pudesse ver com seus próprios olhos.
As palavras que o guardião do amor havia feito há poucos minutos atrás rodeavam a minha cabeça agora mais do que tudo. Seria isso o que aconteceria conosco quando as crianças sentissem medo de nós?
— Vamos encontrar Tooth, agora.
Todos pareceram concordar com o plano. Sandman ficou encarregado de nos levar diretamente para o castelo das fadas com suas invenções de areia. Ele criou uma espécie de balão de ar em nossa volta e simplesmente nos guiou diretamente para o nosso destino. Meu coração doía. Se estivéssemos certos quanto aos planos do dono da sombra de Pitch, então tínhamos entregado Toothiana de mão beijada para ele.
Não conseguia tirar os olhos do nosso objetivo.
E estávamos ali, naquele ponto onde eu desejava ter prestado mais atenção ao que vinha acontecendo. Estava tudo na nossa cara, e ninguém tinha percebido nada. E ali estava o resultado: provavelmente perdendo uma amiga.
Começava a me sentir inútil. Nem ao menos ouvi quando Cupido contou os detalhes sobre a nossa teoria, como os últimos pequenos acontecimentos estavam conectados de alguma maneira, tudo para chegar a este momento presente. Apenas repassava tudo paralelamente comigo mesmo. Alguma coisa ainda parecia estranha.
O dono da sombra de Pitch deveria estar bem desesperado para isso acontecer. Uma vez que o plano de sequestrar um rato e entrar em seus sonhos foi arquitetado de última hora, ele até mesmo nos separou no mundo dos sonhos. Mas como sabiam de tudo isso?
— Jack, tudo bem? — Senti uma mão em meu ombro, tirando-me dos devaneios. — Parece distante...
— Está tudo bem, Norte. Só quero ter certeza de que está tudo bem com Tooth.
— Não se preocupe. Seja o que for, vai ficar tudo bem no final. Tenha fé. Já estamos chegando.
E ele estava certo. Já estávamos na torre mais alta do castelo, lugar onde ficavam os aposentos de Tooth e onde ela provavelmente estaria. A sensação estranha de antes ainda nos perseguia. Tudo parecia tão diferente, mas ao mesmo tempo tão familiar.
Assim que aterrissamos, a criação de Sandman se desfez em areia.
Caminhamos devagar, procurando por sinais de Tooth e das fadinhas, mas tudo o que achamos pelo caminho foram mais casulos. Alguns estavam grudados às pilastras do castelo, outros estavam no chão, e poucos pelo teto. Ali, bem próximo aos aposentos da guardiã, havia mais, e um em particular era enorme.
Estava bem próximo ao que seria uma mesa com algumas caixas com dentes de crianças, os dentes que guardavam suas memórias.
— Será que esta é Toothiana? — Queria dizer a Coelhão que não, não era ela, mas, em comparação aos outros, aquele era o maior casulo, o tamanho perfeito da guardiã.
— Chegamos tarde?
Parecia que sim, mas mal sabíamos que tudo iria piorar um pouco mais. Só que uma coisa dentro de mim sabia no momento em que o enorme casulo se mexeu e as rachaduras começaram a se formar. Alguma coisa estava para sair dali.
Entramos em estado de alerta, com um pouco de esperança de que fosse Tooth lutando para sair dali, mas minha intuição gritava dizendo que não era bem assim. As rachaduras tornaram a se alargar do meio para as pontas, abrindo uma fenda no casulo. Quando chegou às extremidades, simplesmente parou. Entretanto, ainda não tinha acabado. Duas formas enormes se empurraram para fora. Eram asas. Enormes asas de borboleta, as mesmas asas que vimos nos sonhos, naquela falsa Tooth.
Elas começaram a bater com mais força, como se estivessem puxando algo para fora do casulo. E, depois de muita insistência, conseguiram. Nossa imagem seguinte parecia estar sendo retirada de outro mundo. Era realmente ela, bem ali, ainda de olhos fechados. Restava saber se era nossa Toothiana ou a falsa.
— Tooth? — A chamei enquanto ainda flutuava na nossa frente, de olhos fechados. Norte, Coelhão, Sandman e Cupido pareciam assustados demais com o que viam. Aproximei-me um pouco mais dela. — Tooth, é você mesma? — De repente, um sorriso se formou em seu rosto calmo, e seus olhos se abriram, revelando os olhos que antes eram rosa, agora, alaranjados, bem ameaçadores. — Tooth...
— Olá, Jack. — Respondeu firme, até mesmo sua voz parecia diferente, dando um pequeno riso em seguida. Ela começou a se analisar, inspecionando, desde os pés até os braços.
— É você mesma, Tooth?
— Claro que sou eu, Coelhão. Quem mais seria?
— E você está bem?
— Estou ótima. — Voltou a olhar para nós. — Muito melhor do que sempre fui, com certeza.
— Tooth, o que aconteceu com você? — Ela passou as mãos pelo rosto.
— O que quer dizer, Jack? — A olhei no fundo dos olhos para que entendesse perfeitamente. — Ah, sim. Gostou da minha transformação? Presente de... — Ela esperou um pouco antes de completar. — Do dono da sombra de Pitch. — Ela voou para o espelho mais próximo. — E tenho que dizer, ficou ótima.
— Espera, você se encontrou realmente com ele? — Tooth não respondeu, apenas voltou a fixar os olhos em mim. — Chegou a vê-lo?
— Hum... Sim. — Todos tivemos a mesma reação.
— E quem é?
— Não posso dizer. — Respondeu, passando os dedos suavemente em meu rosto. De repente, não estava mais com os olhos fixos em mim.
— Como assim, Tooth?! — Segurei seus dedos, procurando por seu olhar distraído. Tinham feito algum tipo de lavagem cerebral nela?!
— Não importa mais, Jack. — Ela voltou a flutuar, mais do que dispersa. Tooth parecia não se importar com nada. — Tudo vai acontecer conforme planejado. Não podemos mudar um futuro que já está escrito. Vocês viram, eu vi, tudo em nossos sonhos, tão claro quanto água.
— Está dizendo que desistiu, Tooth? Isso não está parecendo nada com você.
— O que estou dizendo, Norte, é que não importa o que fazemos, não damos um passo para frente. Estamos sempre atrás. Olhem para mim, — Ela pareceu se irritar um pouco. Ao mesmo tempo, notei uma pequena movimentação nos outros casulos espalhados. — tentamos de tudo para impedir que isso ocorresse, mas não adiantou de nada. As crianças estão ameaçadas, os guardiões estão fracos, eu me transformei, e você, — Toothiana se virou para Cupido . — não importa o que faça, você irá esquecê-lo completamente. Até o Halloween, tudo vai mudar. Então, me diga, — Elevou sua mão direita na direção dele. — por que eu não deveria retirar essas lembranças de você agora?
— Tooth. O que está fazendo? — Coelhão parecia tão perdido quanto eu.
— Quero mostrar que sou melhor do que ele. Ele não me ajudou quando pedi, então eu irei ajudá-lo assim. — A palma da sua mão brilhou. Cupido demonstrou seu espanto, e não pude me conter mais. No instante seguinte, estava entre os dois. — Jack? — Novamente, a movimentação nos casulos. Agora, eles pareciam rachar.
— Não posso deixar você fazer isso. Não é assim que fazemos as coisas. Nunca foi assim. — Tooth pareceu se irritar.
— Tooth, o dono da sombra do Breu fez alguma coisa com você. Vamos para a casa de Norte. Lá, podemos descobrir como reverter essa situação. — Coelhão tentou apaziguar a situação, se aproximando lentamente da guardiã, tocando em seu braço levemente.
— O problema, Coelhão, é que eu — Ela cortou seu gesto. — não quero reverter essa situação. Pela primeira vez em anos, me sinto livre, e não vou deixar vocês tirarem isso de mim. — Os casulos terminaram de rachar, e de dentro deles saíram as fadinhas. Até mesmo daquele que Coelhão segurava. Todas estavam como Toothiana, haviam trocado suas cores para o preto e o dourado, assim como suas asas de fada, substituídas por asas de borboleta. Não muito longe dali, vi algumas fadinhas trazendo dois objetos em suas mãos. — Sabe de uma coisa, Norte? Fazia muito tempo que eu não empunhava espadas. — Assim que elas chegaram, Toothiana segurou os dois objetos, revelando serem duas espadas. — Quero ver se ainda me lembro de como usá-las... — Ela fazia movimentos leves, enquanto Norte e Sandy procuravam se reunir a nós. — Pode me ajudar a recordar? — Tooth o encarou sombriamente. Aquela realmente não parecia ela.
— Eu até poderia, Tooth, mas me desculpe. Não vou lutar contra você.
— É o que veremos.
Mas antes que ela pudesse fazer qualquer movimento, ouvi duas batidas, e o chão tremeu, abrindo um buraco enorme que nos sugou para dentro. No minuto seguinte, estávamos caindo para a escuridão, deixando uma Toothiana que não parecia ser nossa aliada para trás.
Fale com o autor