A Origem dos Guardiões – O Guardião Primordial
18 CAPITULO XVII — HOLLOW
Notas iniciais
Sabia que algo estava errado no momento em que senti o chão debaixo de mim. Estava fofo demais. O chão da toca de Coelhão costumava ser mais duro, por ser justamente embaixo da terra. Então, quando tateei o chão e senti a grama, tive certeza de que não estávamos onde achávamos que estaríamos. E ao julgar pela cara de Cupido, imaginei que nem ele sabia. Enquanto Norte e Coelhão discutiam, ele me ajudava a levantar.
— Obrigado. — Agradeci depois que peguei meu cajado do chão. Observei o novo local em que estávamos. Era uma floresta e já estava bem tarde. Não era possível ver o sol, apenas a luz da Lua que iluminava lentamente a copa das árvores e quase encontrava um lago que estava a poucos passos de nós. Sabia disso por conta do reflexo da água. Era um lago bem grande e o relevo ali não era muito alto.
Não parecia ter mais nada em volta, a não ser as árvores. Nenhum sinal de civilização. Aparentemente, éramos apenas nós ali. Procurei por Sandman para encontrar alguma expressão que pudesse nos confortar, só que ele estava perdido no meio da discussão de Norte e Coelhão, tentando apartá-los sem sucesso.
— Onde estamos? — Perguntei, tentando puxar um assunto.
— Eu sabia que o plano era uma péssima ideia. Por que você não me ouviu, Norte? — Coelhão começou, porém foi ignorado com sucesso.
— Pelo menos nós tentamos alguma coisa, Coelhão. Não se preocupe, não perdemos Toothiana. — Não perdemos? — Coelhão encarou Norte fixamente. Senti um arrepio imaginando que a briga ficaria física a partir dali. Comecei a minha aproximação devagar. — Aquela por acaso parecia a nossa amiga, Norte?! Parecia alguém que você conhece a vida toda?!
— Não, mas... — Ele procurou pela resposta. Nunca o tinha visto daquele jeito. — Tenho certeza de que a nossa amiga está ali em algum lugar. Nós iremos achar um jeito de trazê-la de volta.
— Quando você vai entender que acabou, Norte?! — Coelhão deu as costas com as patas na cabeça. — Uma coisa é fazer as crianças acreditarem em nós de novo, outra coisa é fazer elas verem como realmente somos.
— E outra coisa é trazer o guardião dos sonhos de volta dos pesadelos. — A resposta veio logo atrás de mim, pouco antes que eu chegasse próximo dos dois, preparado para qualquer movimento. A atenção voltou toda para Cupido. — Não importa o que fizéssemos, Coelhão. O dono da sombra de Pitch já vinha manipulando a visão das crianças. Era questão de tempo até que Toothiana passasse por aquela transformação. O único jeito seria impedir o dono, não sabendo quem ele é.
Coelhão ficou em silêncio, ainda estava nervoso, mas a resposta de Cupido o faria mais pensativo a partir dali, porque era verdade. Tooth, aparentemente, vinha sendo atormentada não só pelos pesadelos, mas também pela própria sombra. Ela foi forte o suficiente para aguentar tudo, mas... Alguma coisa mudou. Tudo tinha acontecido muito rápido. Por que estava acontecendo tão depressa? Por algum motivo, me fixei em uma das frases que a própria guardiã havia dito: "Até o Halloween, tudo vai mudar...". Então, outra pergunta me ocorreu: por que o Halloween de repente ficou tão importante?
Afinal, até pouco tempo atrás, eu nem mesmo sabia que a cidade do Halloween existia.
Os pesadelos, o sequestro daquelas crianças, as profecias, os três fantasmas na biblioteca de Cupido, tudo começou ali, na cidade do Halloween. Espera. Os três fantasmas. Cripy, Spuky e Gaspar. Eles fugiram logo após o sequestro das crianças e ainda não queriam que ninguém mais soubesse que eles estavam ali. Era razoável fugir depois daquilo, mas por que agora uma pulga atrás da orelha insistia que havia mais um motivo oculto?
— Para onde foi que você nos trouxe, Coelhão?
— Não tenho certeza, Jack. Não estava pensando em nenhum lugar em especial... Apenas... Queria sair de lá. — Ele suspirou. — Com Toothiana, mas sei que isso não será possível agora.
— Nós iremos trazê-la de volta a nós, meu amigo, não se preocupe. — Norte tentava confortar, mas não parecia que ele acreditava no que dizia. Perdemos Sandman uma vez e foi bem difícil, pois acreditávamos que ele havia morrido, mas agora era outra história. Era uma perda diferente. Tooth não estava morta, estava bem viva, porém não era mais nossa aliada, não era nossa amiga.
— Será que pode nos tirar daqui agora, por favor? Esse lugar está me dando arrepios. — Desviei meu olhar para Cupido que se mantinha desatento, olhando desconfiadamente ao redor. Ele realmente parecia meio assustado.
— Você está bem, Cupido?
— Sim, — Seus olhos encontraram o meu e automaticamente fitei seus lábios. — mas ficaria ainda melhor se pudéssemos sumir deste lugar, estou com uma sensação estranha. — Sorri em resposta, procurando por Coelhão que estava com a cabeça cabisbaixa, fitei Norte que apenas bufou enquanto mexia em seus bolsos. Coelhão não parecia centrado o suficiente para nos tirar dali, então nossa única saída mais rápida seria pelos seus globos de neve.
— Espera. — Cupido sussurrou, antes que Norte continuasse a sua procura, todos o olhamos confusos. — Ouvi alguma coisa. — Nos entreolhamos e resolvi focar mais na minha audição. Fora o barulho dos ventos, bem próximo de nós, Cupido estava certo, tinha um barulho, alguém caminhando por entre alguns arbustos. — Vamos, Norte, agora.
— E se for a Toothiana? — Coelhão já ressoava esperançoso.
— Se fosse Toothiana, seria um bater de asas, não ouço asas, ouço passos.
— O dono da sombra?
— Não estamos em condição de enfrentar ninguém agora, Coelhão. Norte pegue logo o globo e vamos sair daqui! — Mas não tivemos muito tempo para nos agrupar, seja quem fosse já estava bem próximo de nós e tínhamos percebido sua presença muito tarde. Então, quando Norte quebrou o globo de neve, abrindo o portal, ele, Coelhão e Sandman conseguiram pular, porém Cupido e eu ficamos para trás. Tudo aconteceu muito rápido, principalmente a parte em que o guardião do amor me empurrou para os arbustos enquanto ele continuava no mesmo lugar.
Porém, em uma versão jovem sua, aparentemente, tinha as mesmas características, até mesmo a perna que faltava, porém mais desajeitado, baixo, mais jovial, mais... Fofo. Meu coração disparou. Será que aquela aparência realmente foi sua um dia? Se tivesse sido, não acredito que eu suportaria ficar próximo sem querer beijar suas bochechas que eram ainda mais rechonchudas do que ultimamente eram.
— Quem está aí?
Assim que me recuperei do empurro do guardião, tratei de me esconder melhor entre as árvores. Seria melhor do que ficar jogado no chão. Não demorou muito e, caminhando bem próximo de nós, apareceu uma figura da mesma altura que Cupido, mas era uma criança, não um ser mágico como suspeitávamos.
— Oi. — Era uma menina e ela parecia surpresa em vê-lo ali, assim como ele que desajeitadamente levantou a mão, saudando-a. — Quem é você e o que está fazendo aqui? — Encolhi meu corpo para esconder-me melhor, usando a silhueta da árvore e arranjei um jeito discreto de subi-la a fim de ter uma visão melhor dos dois.
— Hum... — Cupido foi pego de surpresa. Ele coçou a cabeça antes de pensar em uma resposta. — Oi, — deu uma risada meio forçada e eu não sabia ainda se meu coração estava disparado com medo que ele pudesse dizer algo errado, ou porque ele simplesmente estava fofo demais! — eu sou, hum, Hic... Ricky! — Ele se corrigiu quase dizendo o verdadeiro nome.
— Hã... — Resmungou suspeita e eu só pude rezar para que ele soubesse sair daquela situação. — E o que você está fazendo por aqui? Veio para ver o espírito também?
— Espírito? Eu, hum... — Mas ela o ignorou enquanto ele continuava a coçar a cabeça. — Na verdade, estou perdido...
— E de onde você é? — Ela cruzou os braços, impedindo que ele conseguisse terminar de falar.
— Eu, hum... Sou de uma cidade aqui perto... — Ele não parecia tão confiante assim, o que aconteceu com ele? Só porque mudou sua aparência, perdeu o jeito de ser?!
— Sei... — Ela ainda o analisava dos pés à cabeça. Deveria ser estranho encontrar uma pessoa com uma perna de metal, ainda mais sendo uma criança.
— Mas e você, veio encontrar alguém? — Cupido tentou esconder a perna de metal atrás da outra. Ela ficou pensativa com sua pergunta e em seguida apenas negou com a cabeça.
— Na verdade não... — Ela mexeu a cabeça na direção do lago, desviando do olhar do outro.
— Então por que está aqui?
— Por conta do... — Ela mesma se interrompeu, parecia meio desconfortável. — Não... Você não vai querer saber... — Cupido olhou em volta, como se estivesse procurando por alguém. Pensei em sinalizar que estava ali também, mas antes que pudesse, sua atenção voltou para a garota.
— Não se preocupe, pode me contar. — Os dois ficaram em silêncio. A menina o analisou por alguns segundos, antes de finalmente voltar a falar.
— Contarei se você me disser o que houve com a sua perna. Um segredo por um segredo. — O guardião ficou pensativo e parecia incomodado com o assunto. Nem eu tive a coragem de perguntar o que aconteceu com sua perna, com receio de que ele pudesse recuar de mim, mas aquela menina não parecia ter notado. — Desculpa, esquece. — Ou talvez tivesse. — Eu...
— Foi um acidente. Estava brincando com o meu... Animal de estimação. Acabei... Prendendo a perna em algumas rochas e a quebrei. — Ele não parecia ter certeza do que estava falando, não soava como uma história real, mas deve ter sido o suficiente para ela.
— Mas e o espírito?
— Venho aqui quase toda noite, não dei a sorte de ver nada ainda, posso tentar outra noite ainda. Vamos, vou te mostrar Sleepy Hollow. — Ela pegou na mão dele e o puxou para longe do lago. — Aliás, meu nome é Satrina.
❄❅❆❆❅❄
Por um momento pensei que tínhamos sido flagrados. Não que seja uma coisa ruim as crianças poderem nos ver e, ainda melhor, acreditarem em nós, mas nos ver cria uma certa expectativa de que sempre apareceremos para elas. E se suas expectativas forem quebradas, pode levar a uma falta de fé, e não é isso que queremos. Então evitamos o quanto podemos. Essa foi a primeira coisa que aprendi com eles, logo após a nossa vitória contra Pitch.
E agora, de repente, conheço Cupido que, de certa forma, é o contrário do que me foi ensinado, mas ele também não era um guardião qualquer. Se fossemos pensar que ele foi um dos primeiros a existir... Porém, era incrível ver essa sua habilidade de mudar a sua aparência para qualquer um, não só para os humanos, mas até mesmo para nós.
Então, vê-lo interagir tão próximo das crianças era estranho, algo a que ainda não estava acostumado. Ele pareceu ter quebrado a barreira que Satrina tinha criado de algum jeito. Ela parecia um pouco mais confortável em conversar com ele, enquanto isso eu consegui manter uma distância segura e acompanhá-los. Não encontrei vestígios das árvores do meu sonho, mas era certeza que alguma coisa ia acontecer ali e, ao que tudo indicava, no Halloween.
— Então... A vila desaparecida?
— Sim, é uma lenda antiga de Sleepy Hollow que acreditam ter ligação com o Cavaleiro Sem Cabeça. — Ela começou. — Aquele lago nem sempre existiu. Antes, ali existia uma vila que desapareceu de um dia para o outro, assim como as pessoas, sabe? E o lago apareceu no lugar que ficou conhecido como Lago Hollow. — Ao longe já conseguia ver uma cidade. — A cidade inteira se comoveu com as pessoas desaparecidas e nasceu um tipo de evento na cidade, All Hallow's Eve, onde o pessoal ia até o Lago Hollow com velas e orava ou qualquer coisa do tipo.
— Espera, mas All Hallow's Eve, o Dia de Todos os Santos... — Hoje conhecido como Halloween, sim. Tem umas teorias meio malucas que falam que o culpado de tudo isso seria a Lua, já que algumas vezes ela paira acima do lago, sabe? Então, ele também é chamado de Lago da Lua ou Espelho da Lua. — Eles pararam mais um minuto. Voltei a me esconder atrás de uma árvore enquanto ainda podia. Cupido e Satrina não deram mais um passo.
— O que foi?
— Nada, é só que... — Sua voz falhou e esperei que não fosse pelo que eu pensava ser, pois não poderia confortá-lo enquanto estivesse com ela. A ouvi repetir suas últimas palavras. Ela estava esperando ele se recompor. — É que para uma criança você é bem informada. — Ouvi sua risada.
— E quantos anos você acha que eu tenho? — Ele ficou sem resposta. — Tenho onze anos, tá, não sou mais uma criança.
— Ainda é para mim. — Dessa vez os dois riram juntos. Ouvir a risada de Cupido foi reconfortante. Nem sabia que meu coração estava acelerado até ouvir aquele doce som e conseguir me acalmar.
— E você tem quantos anos? Dez? — Ela continuou a rir. Pegue essa idade e multiplique por alguns mil anos e terá a idade aproximada de Cupido. Não pude evitar o pensamento e muito menos rir com ele. Foi o suficiente para que eles ouvissem. — O que foi isso?
— Deve ter sido o vento.
— Não, não parecia o vento. — Droga, voltei a ficar entre as árvores, com cuidado para que não houvesse nenhum barulho, mas ainda conseguia ouvi-los. Pior do que imaginei, estavam correndo na minha direção.
— Satrina, aonde você está indo?! — Cupido falava quase gritando. — E a cidade?!
Continuei correndo, com a ajuda do vento, para o mais longe possível dos dois, e percebi meu erro. Estava tentando me afastar, mas acabei retornando ao lago de onde tínhamos acabado de sair.
E foi bem ali que tive minha segunda surpresa. Parecia um fantasma correndo à beira do lago, bem distante de mim. Me desliguei por um segundo, sendo invadido por uma familiaridade indescritível, e retornei ao ouvir a voz de Cupido ainda chamando a atenção de Satrina. E tive uma ideia ao sentir a temperatura do ambiente. Estava meio quente. Voltei meu olhar para o lago e comecei a trabalhar com a minha mágica.
Fiz os primeiros movimentos circulares com as mãos enquanto segurava meu cajado, sentindo a temperatura fria envolvendo minhas mãos. Concentrei-me no cajado e o finquei no chão, deixando que a onda fria se espalhasse pelo solo e pela superfície da água. Houve uma queda de temperatura e logo começou a se formar a neblina, como se estivesse saindo do meio das árvores e da própria água do lago, cobrindo o lugar pouco a pouco.
Quando eles chegaram, já conseguia me esconder melhor. Coloquei o capuz e fiquei ali. Até pensei em ficar escondido entre os arbustos, mas honestamente, estava cansado de tanto fugir e sumir. Então fiquei ali analisando aquela visão enquanto Cupido e Satrina se aproximavam cada vez mais.
E como era de se esperar, sua corrida não tinha sido em vão. Uma vez que o fantasma estava bem nítido apesar da neblina e dessa vez ele estava mais perto, assim pude ver melhor sua silhueta. Parecia com aquela visão em meus sonhos, segurando seu próprio cajado. Ele parecia caminhar e dançar ao mesmo tempo. Não ousei olhar para trás e nem prestei muita atenção em Cupido e Satrina, se é que eles estavam comentando alguma coisa, mas imagino que o tenham visto e ficado em estado de choque, assim como eu.
Alguém emitiu um som estranho, meio assustado, como se fosse uma risada presa. Naquela hora, imaginei que devesse ter sido a garota. O guardião do amor jamais emitiria tal som. E no instante seguinte, por algum motivo, parou. Quando finalmente resolvi olhar para trás, encontrei um Cupido criança com asas enormes de dragão, sendo que uma delas segurava a sua nova amiga.
— Ela está bem, apenas desmaiou. — Logo disse, mas seus olhos estavam fixos em outra coisa e bem sabia no que. — Não se preocupe, sei quem é, mas não é real. Parece um tipo de projeção. — Ele cuidadosamente colocou Satrina no chão e fez uso do cajado para retirar a neblina que nos cercava, nos dando uma visão mais clara da tal projeção. — Vamos segui-lo. — E guardou suas asas, caminhando normalmente em seguida.
De um momento para o outro, ele tinha se tornado novamente o guardião que eu conhecia.
Não foi uma caminhada longa, mas foi silenciosa o suficiente para parecer uma eternidade. Não chegamos a nos afastar muito do lago, apenas subimos um pouco o relevo pelo outro lado, enquanto a paisagem continuava a mesma.
— Cupido.
— Sim?
— Como viemos parar aqui? Sabe, depois de Tooth... Até mesmo Coelhão parecia não saber onde estávamos. — Ele parou de caminhar. — E por algum motivo você parece bem tranquilo quanto a isso.
— Somos guardiões, Jack... Garoto da neve. — Engasgou, virando-se para me encarar. — Não há muito que ficar assustado. Qualquer coisa, posso voar daqui e você também. Coelhão poderia entrar em seus túneis de novo, Norte usar seus globos de neve e Sandman...
— Não mude de assunto. — O cortei antes que continuasse a me enrolar, e ele sorriu. — Você parecia muito à vontade com a sua amiguinha nova, principalmente quando ela começou a contar sobre aquelas lendas bizarras.
— Ciúmes? — Desviei o olhar. Não era ciúmes. — Qual é, Jack, tenho mais de mil anos, ela é só uma garotinha e eu só queria lembrar.
— Acho que você esqueceu que não parece ter mil anos no momento. — Ele riu novamente. — E você está mudando de assunto outra vez, pode parar. O que você queria lembrar?
— Tá bom, tá bom. A verdade é que aquelas "lendas bizarras" — Levantou os dedos para indicar as aspas. Bufei, sem notar. — são verdade, em parte, assim como muitas coisas dos guardiões. — O guardião pareceu me analisar. Em parte, tinha entendido o que ele disse. — Existem muitas histórias, mas fora nós, quem sabe a verdadeira? Não é como se houvesse um livro da Mamãe Ganso contando contos de fadas sobre nós, ninguém escreveu sobre quem éramos antes disso, apenas contam o porquê chegamos a essa vida. É quase como um telefone sem fio, as verdades vão se distorcendo até que ninguém mais sabe se é ou não é.
— Chega de filosofia. — Ele definitivamente estava começando a me embaralhar e riu novamente. Já foram pelo menos umas quatro vezes, não é?
— O ponto é que a verdade está ali no meio, disfarçada, o que de certa forma acaba sendo divertido, nem sempre as coisas são tão poéticas. É o caso desse lago. — Cupido apontou para trás, me obrigando a acompanhar. — Há muitos anos, antes da existência dos guardiões, havia uma vila que foi o centro do primeiro conflito entre Luz e Trevas. Pitch e Noiteluz. Sabe, alguém aterrorizou tanto aquele lugar que muitos de seus habitantes chegaram a morrer.
— Pitch... Matou pessoas? Isso não... — Era confuso. — Como você sabe disso?
— Eu estava lá. Sei o que você ouviu e sei o que viveu, mas antes ele não se alimentava apenas do medo que causava, naquela época não parecia ser o suficiente. Pitch fazia seus corações parar e isso sim o tornava real. Real e perigoso. — Cupido abaixa a voz e olha para o lado, como se estivesse hesitando em revelar algo. — Noiteluz e eu o procuramos por muitos anos e pensei que tinha acabado quando seguimos seu último rastro naquela antiga vila, esperávamos encontrá-lo, mas acabamos encontrando seu irmão...
— Jack Esqueleto. — Deixei escapar. — Sim. Houve uma batalha contra ele, mas do mesmo jeito que eu vi uma pequena chama em você, garoto da neve, vi uma nele. Noiteluz me ouviu e assim o poupou, foi quando Pitch apareceu furioso, acreditando que seu irmão havia sido derrotado. Mais uma batalha se sucedeu, foi dificil, os dois estávamos cansados. Mas demos um jeito… Noiteluz deu um jeito.
— E hoje você não tem mais esse jeito? — Perguntei sorrindo.
— Faz muitos anos que não luto, mas enfim, a vila ficou destruída. Ainda lembro-me de Jack gritando para Pitch para que parasse, que ele tinha realmente escolhido o outro lado e seu irmão ficou tão furioso que simplesmente deu as costas e foi embora. Mesmo que poupado, Noiteluz sabia que não podia deixa-lo livre no mundo, as pessoas o confundiriam com seu irmão, então para a sua proteção ele sumiu com aquela vila destruída e reviveu seus habitantes, porém os colocou em uma dimensão isolada e paralela à nossa, trancada por uma única chave.
— Nossa... Noiteluz tinha poder para fazer tudo isso? Como um cara desse desaparece então?
— Sim... E no lugar da vila ele colocou um lago. Quando as pessoas da cidade mais próxima descobriram que não havia mais nada naquele lugar, começaram com os rituais aos espíritos dos desaparecidos, todo dia 31 de outubro. O dia ficou conhecido como Dia de Todos os Santos ou All Hallow's Eve, o que veio a se tornar Halloween muito tempo depois.
— Espera. Então quer dizer que aqui, esse lugar... Aqui é o berço do Halloween? Aonde o feriado nasceu? — Sim. Foi como uma explosão de pensamentos dentro da minha cabeça. Tinha tantas coisas que eu ainda não sabia sobre esse nosso universo que me perguntava se algum dia por acaso saberia tudo o que precisava, pois nada parecia ser o suficiente, desde que Cupido entrou na minha vida, cada dia tem sido um conhecimento novo.
Então notei um pouco mais à frente, galhos se formando e pareciam bem secos, salvos por algumas folhas, pois sem elas, as árvores certamente estariam mortas. Resolvi olhar para trás para ter uma noção da nossa perspectiva e, quanto mais andávamos, mais familiarizado me sentia com o ambiente.
— O que foi? — Cupido perguntou, a Lua estava bem no alto, não exatamente sendo refletida no lago, mas sua luz com certeza o atravessava, dando uma beleza aterrorizante ao local.
Foi quando retornei a acompanhar Cupido que realmente entendi onde estávamos. Ali estavam as duas árvores do meu sonho, só que mais vivas. Estava claro: meu sonho se passava ali. E se aquela projeção era Noiteluz, então sabia o que ele me diria.
— O que ele está fazendo? Parece estar escrevendo alguma coisa ali. — Apontei para as árvores, dei outro salto para ficar do mesmo lado, Cupido fez o mesmo, virou-se para observar e se aproximou das mesmas, esticando a mão para encostá-la. — Isso é... — Ele tocou o tronco, fazendo alguns gestos com os dedos, como se analisasse algo. — Parece areia e — Chegou mais perto e cheirou. — saliva de dragão.
— Por que essa mistura? O que é isso?
— É platina em pó, é como alimento o fogo interno dos meus dragões, é bem fácil de conseguir, principalmente num lugar como esse, a areia do lago provavelmente estará cheia disso. E a saliva é só para garantir que a mensagem permanecesse, faça chuva ou faça sol, pois a saliva de dragão tem propriedades muito potentes.
— Mas para quê isso?
— Para deixar uma mensagem. Era assim que fazíamos, de vez em quando deixávamos mensagens escondidas um para outro, era divertido procurar por elas. — Ele se afastou sorrindo, me distanciando junto dele das árvores. — E como sabemos o que está... — Ouvi um estalo e quando olhei para o lado uma chama flutuava em suas mãos, ele não hesitou nem um pouco, simplesmente lançou a chama como um jato de fogo para as duas árvores, me assustando completamente. — Você está louco?!
Mas todos ficaríamos loucos depois do que ele fez. Assim que apagou suas chamas, vimos apenas brasas no tronco das árvores que tinham sofrido muito com o ataque súbito, mas ainda era possível ler o que tinha ali. Sim, ler. Realmente tinha uma mensagem naquele tronco queimado e ela não poderia ser o mais assustadora possível, como se tivesse sido tirado dos meus pesadelos: "Ele estará esperando por você aqui, Jack".
❄❅❆❆❅❄
— Acredita em mim agora? — Cupido parecia ainda não levar muito a sério a história dos sonhos serem algum tipo de premonição.
A projeção de Noiteluz já tinha desaparecido e nós ainda estávamos ali encarando a mensagem deixada por ele naquelas árvores. Eu já tinha contado a Cupido o que tinha acontecido quando todos nós entramos no mundo dos sonhos, inclusive o que eu tinha sonhado, mas ele ainda parecia meio cético em relação a isso, porém ver aquela mensagem mudava completamente a nossa situação.
Mas talvez o pior fosse a minha curiosidade. Apareci muito tempo depois que o grande amor de Cupido desapareceu, e por algum motivo ele já sabia da minha existência e deixou tudo preparado para os dias de hoje: meus pesadelos, o encontro com o subordinado da Lua e até mesmo a nossa aparição ali no lago da Lua. Então me perguntava como um cara tão inteligente e poderoso como ele poderia ter desaparecido assim do nada, deixando para trás apenas algumas pistas do seu suposto paradeiro. Ele queria que o encontrássemos e se já sabia onde estaria, por que não nos contar logo onde o encontrar?
"Há certas coisas que não devem ser reveladas ainda, tudo ao seu tempo, Jack Frost", a voz de Noiteluz ecoou em minha mente respondendo a minha pergunta. Além disso, ainda tinha a minha conversa com Norte dentro do sonho daquele rato, lá tinha confirmado em partes a suspeita de que o que o subordinado da Lua disse era verdade: o protetor da Lua tinha lido o Livro da Vida e por isso sabia de muitas coisas.
— Vamos seguir o que ele pediu ou não?
— O que quer dizer? — Finalmente ele me encarou, não tinha nada ali que demonstrasse tristeza ou qualquer outra emoção, talvez ele realmente estivesse se esforçando para manter a sua promessa.
— A magia do seu arco, me empreste Cupido. Tenho que aprender a controlá-la, talvez assim a gente consiga acabar com tudo isso. — Ele suspirou. — O que foi?
— Tenho escondido uma coisa, não só de você, mas de todos.
— E o que é?
— Eu encontrei uma coisa na Transilvânia depois daquele acidente que tivemos e não tive um pressentimento muito bom, então fui visitar uns antigos colegas.
— Quem?
— Você provavelmente não os conhece. — O fitei sério, estava cansado de não conhecer todo mundo. — Lady Catrina, Xibalba e o Homem de Cera. — Certo, não fazia a mínima ideia de quem eles eram. — Eles são espíritos, cultuados como deuses dos mortos no México, mas não deixam de ser guardiões como nós, eles apenas não foram reconhecidos pela Lua. — Ele continuou como se tivesse lido meus pensamentos.
— E o que você encontrou? — Ele fez um minuto de silêncio, me observando como se ainda pensasse se deveria ou não contar. Percebi-o segurando firme em seu arco que estava apoiado em seu ombro cruzando o corpo.
— A primeira flecha que você atirou naquele dia. — Era raro, mas sentir aquele famoso "frio na barriga" não era uma coisa boa, parecia um presságio de que alguma coisa ruim iria acontecer e era exatamente o que eu estava sentindo conforme Cupido falava. — Depois que todos nós fomos embora, voltei para procurá-la, segui o rastro de magia e a encontrei. Não cheguei a tocá-la com receio de que a minha magia sucumbisse a sua como aconteceu naquele dia.
— E aí você levou para esses guardiões. — O termo correto talvez não fosse aquele, mas não precisamos de formalidades. Ele assentiu. — E o que eles disseram a você?
— Lady Catrina reconheceu a flecha como uma das minhas, mas a magia não. Não tinha um pingo de amor envolto naquela flecha... Na verdade não tinha nada nela, Jack Frost, além de um vazio congelante e mortífero.
— O que você quer dizer? — O guardião parou um instante para pensar, ainda estava receoso.
— Tente não se ofender com o que vou dizer. — Acenei para que ele continuasse, não achava que tinha como ele me ofender mais. — Pense que o amor é preencher lacunas nas vidas das pessoas, dar um novo rumo, ele é, literalmente, vida. Aquela flecha não tem nada disso, pelo contrário, ela aumenta o vazio e seu destino é apenas um. — Fez outra pausa. — Morte. — Uma onda percorreu meu corpo.
Como imaginava aquele frio na barriga não era uma boa notícia e aquela onda que me invadiu... Foi desesperador. O novo poder, a nova magia que Noiteluz quer que eu controle, estava relacionada à morte. Era isso que ele queria que eu controlasse? Para que eu não machucasse ninguém? Ou pior, para que machucasse mesmo?
— Cupido. Eu... — Engoli em seco, não queria que aquelas palavras saíssem da minha boca, não queria uma confirmação. — Matei alguém? — Já sentia as lágrimas em meus olhos, não podia ser verdade, que tipo de fardo era aquele? Passar de guardião das crianças para um... Assassino? — Eu matei alguém na Transilvânia?
— Não, Jack, não aconteceu nada, foi apenas um susto.
— Apenas um susto? Cupido alguém poderia ter se machucado! — Alterei a minha voz, não estava mais calmo, estava apavorado. — Não é como uma das suas flechas!
— Eu sei Jack, eu sei... Quando vi aquele nome escrito... Jokul Frosti... — Sussurrou. — Eu soube que tinha alguma coisa errada, Jokul não era conhecido por ser um espírito gentil entre os vikings. Tinha lá suas travessuras, mas não era só disso que vivia.
— Obrigado, isso vai me ajudar muito. — Disse sarcástico, não queria. Realmente não queria estar agindo daquele jeito com ele, mas era quase que automático.
— Desculpa... Eu deveria ter esperado um pouco mais para falar isso... — O que eu estava fazendo?!, gritei internamente comigo mesmo, como poderia estar tratando Cupido daquele jeito? — Mas você entende agora o meu receio? Veja como você está, imagine o quão pior seria se alguma coisa realmente tivesse acontecido.
— Eu queria muito poder te odiar agora, porque você não está ajudando muito nesse momento, mas mesmo assim, acredito que devemos seguir o que o guardião primordial me disse..
— Mas Jack...
— Mas nada. Já me decidi. Você confia no Noiteluz, certo? — Ele acenou, é claro que ele confia nele. — Ele disse que eu tinha que aprender a controlar essa nova magia, pra mim, aquilo, — Apontei para a mensagem na árvore. — é prova o suficiente de que não estou mentindo. — Ficou em silêncio. — Noiteluz também disse para não esconder as coisas de você, eu confio em você e você confia em mim? — Qualquer que fosse a necessidade dessa magia, não a usaria para machucar ninguém.
— Confio.
— Então me ajude a controlar isso. Não quero e nem vou machucar ninguém, mas pra isso acontecer preciso de ajuda. — Cupido assentiu, tinha concordado comigo e não tinha muita opção mesmo. Olhei para o alto procurando a Lua e ela continuava em cima do lago que refletia lindamente o seu reflexo, exatamente como um espelho, a projeção de Noiteluz já tinha desaparecido, nem percebi quando, talvez quando o guardião do amor resolveu queimar o tronco daquelas duas árvores.
A segunda profecia da lua ecoou em minha mente.
"Aquele que uma vez o terror prendeu e o horror poupou,
Guardião Primordial o Homem da Lua nomeou.
Por ele os Guardiões devem procurar e..."
E me perguntava o que aconteceu com ele para que precisássemos procurá-lo? Noiteluz não parecia ser qualquer guardião, ele tinha sido o primeiro a ser criado, batalhado contra Pitch Black, criado uma cidade paralela ao nosso mundo e colocando nela Jack Esqueleto, e provavelmente mais alguns feitos que eu devesse desconhecer. Quem seria tão forte o suficiente para fazê-lo desaparecer assim? E por quê?
Talvez aquelas fossem as perguntas corretas a se fazer.
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