A Origem da Energia - O Reino de Alucard
11 O ser extremo
Notas iniciais
Do grupo, quase todos estavam incapacitados. Apenas Vergil e Claire estavam em algumas condições de continuar, mas Suzan, Cole, Kenneth e Jane estavam muito feridos. O lutador caminhou pelo pátio central, vendo toda a destruição causada. Passou por alguns escombros da torre que derrubara e viu o local onde tinha reunido a espadachim e o acólito. Claire estava lá, cuidando dos ferimentos com bandagens e unguentos. Vergil se aproximou e perguntou:
– Como eles estão?
– Bem mal – respondeu pesarosa – Mas estão fora de risco agora.
– Pelo menos isso – comentou em voz baixa – Quanto tempo você acha que eles irão levar pra acordar?
– Não sei. Sondei a mente deles, mas só me respondem com sensações.
– Quais?
– Raiva, alívio, satisfação... Uma combinação bem estranha.
– É...
Seguiu-se um momento de silêncio. O lutador olhou para o céu: estava rajado de laranja. Estimava faltar uma hora para o escurecer. Comentou com a guerreira e ela concordou em armar acampamento ali mesmo.
Ele olhou para seus companheiros mais uma vez. Estavam tranquilos, como se estivessem prontos para enfrentar mais um dia na escola. Será que conseguiria? Depois de tudo isso que estava vivenciando, voltar à vida normal como se não fosse nada? Do grupo, apenas Claire, Jane e Suzan teriam tamanha façanha: elas eram as mais realistas e “pé no chão” que conhecia. Talvez Kenneth e Cole também, já que tinham facilidade em adaptar-se. Mas ele era diferente. Para ele, essa era sua realidade, que era igual a um livro ou jogo de fantasia. E por mais determinado que estava para voltar para casa, não conseguia tirar de sua cabeça que sentiria saudade disso tudo.
Mas pôs esses pensamentos de lado. Não adiantava ficar devaneando enquanto estava no primeiro turno de vigília, que se estendia noite adentro. Por um momento, pensou ter ouvido uma comoção na torre central, com luzes e tudo, mas não tinha certeza se tinha sido o cansaço ou a luz de seu punho eletrificado oscilando entre a luz da lua cheia, alta e vigilante. Se mantinha a quietude, com os grilos cricrilando e a ocasional rã coaxando para manter os barulhos da noite.
No entanto, a sensação de ser engolido não saía de sua pele. Desde que as lutas terminaram, ele veio sentindo uma Energia muito sutil, mas tremendamente densa e forte, como se estivesse sempre lá e ele não percebeu. Não conseguia imaginar algo que contivesse tamanho poder, e ainda assim, em seu íntimo, sabia que pertencia a Alucard. O tirano que não havia sequer pedido uma concessão para as requisições deles, enviando assassinos assim que ouviu algum rumor sobre irem até o castelo para pedir. Desde então, só haviam tido batalhas para tentar sobreviver e chegar no castelo. A essa altura, a diplomacia já tinha ido para o além: só restava a alternativa de ataque, e Vergil tinha certeza que não iria parar até fazer ele ceder, mesmo que tivesse que matá-lo. A perspectiva o deixou enojado, mas não tinha alternativa.
Parou de pensar ao notar o primeiro movimento no canto do olho. Imediatamente apagou a luz que o punho gerava e executou uma procura sonora, detectando toda e qualquer silhueta que se movia. Interrompeu a habilidade ao ver que era Kenneth quem estava levantando. Ele estava todo enfaixado nas partes queimadas, mas parecia bem melhor agora.
– Quanto tempo? – disse Kenneth, sem olhar para o lutador.
– 3 horas... – respondeu Vergil, se sentando – Está bom agora?
– Vou melhorar, mas estou com pouca Energia.
– Tudo bem. Não se exalte.
– Quem está disponível?
– Só eu e Claire, fora você, caso ache que dá conta.
– Arg... A gente tá ferrado.
Vergil concordou com a cabeça. O acólito deitou novamente, mas manteve uma mão por cima do peito, emitindo uma luz fraca, aparentemente se curando. Ao término do turno do lutador, ele chamou Claire que continuou a vigília. Estava tão cansado que logo ao se deitar, foi sacudido por Suzan, que também estava toda enfaixada, mas demonstrava o olhar firme e o sorriso no rosto que sempre tinha. Viu todo o grupo de pé, e a luz débil do início da manhã raiava por entre as silhuetas deles, como que um sinal para continuar em frente. Ele levantou e seguiu a liderança de Cole, cuja atitude não esmaeceu, mesmo com o corte profundo que tinha no abdômen.
Todo o grupo avançou pela borda do salão destruído até chegar na porta larga da torre central. Ao abri-la, se depararam com uma escada helicoidal somente para cima. Sem hesitar, subiram em fila indiana até despontarem numa sala pequena que continha uma única porta logo à frente, perfeitamente adornada com pedras preciosas e feita de madeira rija. Haviam apenas dois bancos longos que cobriam toda a extensão das paredes laterais, e logo acima deles as janelas que davam para o jardim lateral (também parcialmente destruído) e um terraço a céu aberto. Abrindo a porta, se depararam com um aposento muito grande. Tão grande que não parecia ser possível caber no tamanho que se via de fora da torre central. Vários arcos do lado direito do tamanho da parede eram abertos para o céu. Do lado esquerdo, haviam duas portas do mesmo jeito da de entrada e arcos menores cobriam a parte de cima da parede. O teto tinha mais de 10 metros de altura, sem mostrar as telhas que cobriam o topo da torre. Logo à frente, na parede oposta a eles, estava um trono grande e dourado, com acolchoado vermelho e um homem sentado nele.
O homem era exatamente como tinha visto no retrato: um homem de pele branca, imaculada pelo sol. Olhos estreitos e de íris azuis, frios e penetrantes. Cabelo longo e totalmente branco, como se essa fosse a cor natural dele desde sempre. Sua roupa mantinha os aspectos que tinham visto também, sendo uma vestimenta de nobre europeu do século XIX, com babados nas mãos, no pescoço e na base; porém, ela era aberta no meio, parecendo uma grande jaqueta, e revelando o porte físico trabalhado deste homem que emanava Energia. Suas calças eram culotes como a roupa de Napoleão, com direito ao sapato social e tudo, mas eram folgadas o suficiente para permitir movimento rápido se necessário.
Ele os encarou, parecendo extrair a menor informação através do olhar. E então falou com sua voz grave e imponente, cada palavra soando como uma sentença de poder.
– Vocês me provaram ser um incômodo...
– Então já sabe porque estamos aqui – respondeu Suzan em tom de cólera.
– Gostaria de ouvir de vocês a real razão – disse Alucard, enquanto observava ambas as faces da mão, como se estivesse desinteressado. Um leve sorriso se formava no canto da boca enquanto observava atentamente.
– Queremos falar com o ancião. Ele tem uma informação que nós queremos – disse Jane, por trás de Kenneth. Sua voz tremulou um pouco, mas conseguiu falar sem interrupções. – Mas você--
– “Não perguntou ou sequer escutou quando nos atacou”, não é? – respondeu Alucard, o que surpreendeu todos lá, se levantando. O homem de cabelos brancos começou a andar de um lado para o outro da sala devagar, gesticulando com uma mão na frente do corpo e a outra cobrindo as costas, como um filósofo. Olhava ocasionalmente para os meninos como se os convidasse a participar da discussão, mas o olhar frio ainda permanecia, por mais que sua atitude pudesse ser condescendente.
– Ora, os motivos disso são simples: estou expandindo meu território, e como ele conhece muito sobre Ryokun, está cooperando em me informar sobre os diferentes locais.
– E por “cooperar”, você quer dizer obrigá-lo – disse Jane, séria.
– Ora, minha especialista, ele apenas está fazendo o trabalho dele. Além disso, prevê o futuro com precisão, o que ajuda em tomar minhas decisões.
– Deixe de embromar e nos mostre logo o ancião! – gritou Cole, impaciente.
– Esses soldados novos precisam de mais disciplina... – desdenhou o tirano – Vou mandar uma mensagem para Osmos assim que cuidar de vocês – disse, virando para eles e o meio sorriso morrendo tão rápido quanto uma pedra caindo na água.
“Rebeliões são punidas severamente. Com tolerância, a sociedade fica fraca e não cresce. Uma nova era está surgindo em Ryokun e não vou deixar que seis crianças me atrapalhem!”
O primeiro golpe foi tão rápido que os garotos demoraram um instante para perceber que foram atacados. Vergil conseguiu bloquear a cotovelada com as duas mãos que giraram na defesa súbita. Uma onda de choque reboou pelo aposento, e Alucard prosseguiu a investir contra os outros. O Primeiro Nível de Energia emergiu em cada um inconscientemente, logo que viram o oponente recuando para um novo assalto, como em resposta ao perigo de vida que estavam correndo, cujo menor erro era punido com a morte.
Enquanto sua atenção estava voltada para o lutador, Jane apareceu atrás dele numa perfuração lateral com o corpo girando, tudo isso para penetrar através da ombreira elevada que protegia seu pescoço tanto pelos lados como por trás. A adaga negra deixava um rastro azulado sutil, prestes a cumprir seu objetivo. Mas Alucard desviou para baixo, acertando um pé precisamente no dela, fazendo-a perder o equilíbrio girando no ar, e atingindo um soco bem na cabeça da garota, a mandando para o chão no meio da rotação. Se curvando ligeiramente para cima, a cotovelada que se seguiu foi um contragolpe ao soco de Vergil, atordoando por alguns instantes, o suficiente para lhe acertar com um ataque de palma dupla sobre o abdômen, o lançando vários metros para trás. O tirano então recuou um passo calmamente e começou a calçar um par de luvas esverdeadas enquanto desviava completamente dos cortes perigosos de Suzan e Claire como se não fosse nada.
Ao terminar, ele virou para os garotos, ignorando completamente a rajada pressurizada de Cole com um aceno de mão, e ativou o Primeiro Nível também. O solavanco de ar, junto com a pressão de sua presença e a incrível quantidade de Energia os intimidou. Se já achavam a Energia dele elevada, o Primeiro Nível pegou essa perspectiva e aumentou a escala de Sensitivo para Elevado. Flexionou os dedos, revelando as pontas de lâmina que tinham em cada falange, demonstrando que sua luva era uma garra muito afiada e perfeitamente ajustada a ele. Levantou a mão para o teto, fazendo surgir uma enorme bola de fogo, quase três vezes o tamanho dele, talvez mais. O arremesso não fez barulho algum, mas tremeu o ar severamente como um terremoto, as linhas de calor se espalhando pelo ar e crispando qualquer tecido no caminho só de passar perto.
– Lumen Clausus Tris!!!
O grito desesperado de Kenneth formou um escudo luminoso grande que cobria todo o grupo, em três camadas protetoras brancas. O terror estava gravado em seus olhos, assim como no de todos. Seguiu-se uma explosão forte que os cegou momentaneamente. Ao recobrarem a visão, viram que o escudo de três níveis conseguira bloquear tudo, mesmo que por pouco. Do aposento só restava a parede por trás do trono e o homem que sentou lá instantes atrás. Suzan sacudiu a cabeça e avançou para o inimigo. A espada estava incandescente, brilhante com as chamas que a envolviam. Cada ataque era desviado, mas deixavam um rastro quente no ar. Alucard parecia brincar, até que um reajuste na postura dela o fez bloquear, arrancando uma expressão de perplexidade dele. Com um “Heh”, ela continuou o assalto, gradativamente mais agressiva e com golpes mais pesados.
O homem defletiu a lâmina dela para cima, expondo sua guarda. Quando estava prestes a atacar, de seu lado direito surgiu Claire com o machado em curso, prestes a acertar seu abdômen. Desviou para o lado, evitando o golpe perigoso, mas não conseguindo evitar o ataque certeiro feito em direção às suas ombreiras feito por Jane, que surgia da sombra da espadachim.
As adagas de cor preta se quebraram em inúmeros pedaços após destruir as ombreiras. Mesmo reforçadas com sua Energia, elas não resistiram. Alucard distorceu a face, aplicando um poderoso soco no abdômen, enviando-a para o jardim lateral, desacordada. Virou o rosto repleto de orgulho ferido e prosseguiu a atacar Suzan. A espadachim repelia os ataques com violência, conseguindo ferir o tirano no processo, mas recuava a cada golpe. Por fim, tentou usar o Ensis Inflammatio para terminar o que começara. O inimigo era implacável: mesmo tendo destruído uma das garras com sua tentativa, sua espada partiu-se em dois e um corte de cada dedo da outra garra lhe atingiu, invadindo a armadura de aço e sangrando sua pele.
Ao ser jogada para o lado com a força do ataque, ela não se mexeu mais. Vergil quase perdeu o controle, mas manteve a cabeça fria. Elas tinham feito aquilo para que pudessem completar a ofensiva. Repentinamente, os três gritos soaram.
– Fulgetrum Crinitae!
– Turbo Canalis!
– Caelestis Illumina!
Um raio de sol surgiu e queimou intensamente onde Alucard estava. Atrás dele, um tornado na horizontal, partindo da mão de Cole limitou o movimento do inimigo. Antes de sequer pensar em fugir, um grande cometa formado de raios viajou instantaneamente e explodiu no ponto de impacto, levantando muita poeira e detritos para os lados. Sem ver o resultado da ação, Kenneth correu para o auxílio de Jane, assim como Vergil para Suzan. Quando o mago deu o primeiro passo, sentiu a força do tirano ir aumentando, ao invés de ter sumido. O chão recomeçou a tremer, como se anunciasse outra bola de fogo imensa para queimá-los.
Imediatamente a poeira dispersou: em seu centro estava Alucard, como se nada tivesse o atingido. Os cortes que Jane e Suzan haviam provocado estavam curados. Tirando o fato que ele não tinha mais ombreiras e uma das garras estava inutilizada, parecia que ele tinha acabado de se levantar do trono. A Energia começou a se intensificar ao redor dele, saindo mais e mais faixas verdes visíveis. De repente, houve um forte solavanco de ar e toda aquela Energia do fluido aumentara para uma aura a seu redor, muito mais intensa e violenta que a anterior.
Os garotos estavam em choque. A escala de Elevado não importava mais. Aquilo que estavam presenciando era algo muito mais raro, algo que não havia registro algum até agora: o Segundo Nível de Energia.
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