A Origem da Energia - O Reino de Alucard
12 Batalha de supremacia
Notas iniciais
“Ryokun, uma terra tropical indomada, recebera pessoas vindas de outro continente, o período conhecido como A Viagem: o grande êxodo de Kal para o novo mundo. Ao pisarem na grande massa de terra, houveram massacres pela imensidão de perigos que ali existiam. Foi aí, em meio à adversidade, que houve a descoberta dos Sensitivos, cuja força permitiu a sobrevivência nesse mundo hostil. Uma geração depois, as pessoas estavam estabelecidas e se descobria mais sobre os Sensitivos. Uma dessas coisas eram os Níveis de Energia.
O primeiro era um mecanismo de defesa que era adquirido ao se enfrentar perigo mortal e sobreviver, apesar de se existir raros indivíduos que já tinham esse potencial. Desde então, era ativado inconscientemente ou à vontade com bastante treino. Ele aumentava a liberação de Energia de qualquer Sensitivo pelo dobro, o que o deixava mais forte, rápido, resistente e capaz de feitos que antes não conseguia.
As pessoas sabiam que os Níveis de Energia não poderiam ser apenas um, já que tinham conhecido um dos indivíduos extraordinários no continente de Kal que usava de uma forma muito mais intensa que o Primeiro. Portanto, chamaram de Segundo Nível.”
– Esse conhecimento tinha se perdido, mas o ancião me refrescou a memória. Meu pai presenciou esse ser, e eu fui capaz de conseguir! – exclamou Alucard, após explicar sobre sua aura. – Tenho que parabenizá-los: serão os primeiros a ver o que é realmente um Sensitivo!
Alucard quase sumiu de vista, reaparecendo em alguns vultos indistinguíveis pelo ar. Vergil caçou o bastão nas costas, se preparando para contra-atacar, mas mesmo conseguindo apontar na direção certa do ataque, sua força não foi suficiente para segurar toda a cinética por trás daquele chute. Ele foi arremessado para trás com violência, parando apenas quando o atrito com o solo foi suficiente para tal. Ao levantar, vislumbrou uma grande foice enegrecida golpeando o disco de ar comprimido de Cole, bloqueando como podia. O lutador viu Kenneth saltando com o punho iluminado, pronto para acertar. Do outro lado, Claire descia o machado girando no ar com a lâmina alongada.
O tirano pisou no chão, enviando um volume de ar gigantesco com ele como centro. Escombros do castelo passaram voando por eles enquanto eram atirados no ar. O que ele não esperava era Suzan com uma flecha em chamas atirando logo após o solavanco. O projétil percorreu a distância quase instantaneamente, queimando as plantas ao redor, mas Alucard bloqueou com um escudo giratório de água, o que surpreendeu a todos mais uma vez.
– C-Como?! – exclamou Suzan, incrédula.
– Que monstro consegue usar mais de dois elementos? Isso é impossível! – disse Jane, atônita.
– Não parem agora! – gritou Vergil, com a mão envolta em raios – Fulgur Palus!
Um raio sólido vermelho partiu da ponta de seus dedos e se fincou na mão de garra do inimigo. Suzan corria com a espada totalmente vermelha e o corpo liberando cinzas, como um trem a carvão muito irritado. Cole executava uma complexa sequência de gestos com a mão, parecendo que desenhava no ar. Jane surgiu das sombras formadas pelo volume dos espectros azuis translúcidos que partia de Claire. A adaga ébano não existia mais, porém uma empunhadura com lâmina transparente estava em sua mão, e tão perigosa quanto sua antecessora. No chão, um imenso círculo branco formou uma estrela de 6 pontas, cada uma lançando uma corda também branca ao tirano no centro. Kenneth estava na borda, entoando palavras em latim enquanto mantinha a mão apontada para o meio. Em um uníssono, gritaram:
–MOLES BATTUO!
Uma explosão enorme jogou todos para trás. Assim que a poeira diminuiu, uma cratera de 100 metros de diâmetro estava no local do círculo. Praticamente não restava mais castelo nem jardim. Toda a planície agradável era agora um mar de chamas, gelo, poeira e partes escuras, com a floresta ao redor ainda intocada. Em meio ao silêncio devastador, um vulto golpeou a especialista, o acólito e a guerreira. O lutador, a espadachim e o mago conseguiram bloquear, mas não viram quem ou o que foi. Apesar de não querer acreditar, de ser impossível, viram Alucard de pé e olhando para os três. Sem entoar nenhuma palavra, ele sumiu e acertou um soco de incrível peso no plexo de Cole, o que o mandou vários metros ao longe. Sem parar, saltou para Suzan e a socou de baixo para cima. Ela defendeu com a parte plana da lâmina, mas não do chute que veio em seguida, acontecendo a mesma coisa com ela.
Vergil estava desesperado e tentou de todas as formas querer engajá-lo em combate, mas estava paralisado de medo. Deu um passo para trás, esperando alguma ação dele.
– Vocês nunca tiveram chance alguma... – disse Alucard surgindo à frente, enquanto suspendia Vergil com uma única mão. Este sentiu o ar faltar-lhe os pulmões, e a articulação no pescoço doer. Apesar disso, não tentou resistir: não conseguia. Fora tolice o que tentaram fazer. Enfrentar esse inimigo que conseguia controlar vários elementos, possuía Energia muito superior a deles e tão proficiente com combate que mal conseguiram atingi-lo. Com um único movimento, o arremessou ao chão. O que restava de ar lhe escapou, isso enquanto via na outra mão uma esfera com raios amarelos se formando.
“Então, ele também sabe usar raio... Não é a toa que ele não sofreu nada quando o atingi. Que droga! Estamos todos quase morrendo aqui, a um passo de ir para casa, e não conseguimos nem isso...”
“Não, eu não consigo aceitar isso!”
“Pessoal, me ajudem...”
“M-Me ajudem...”
“S-Suzan...”
Um choque percorreu o braço de Alucard, o que fez soltar o lutador. Ele observou com estranheza. Foi como se houvesse tocado em algo que não deveria, e que seu braço reagiu em reflexo. Ao ver o garoto, caído e inconsciente, notou a Energia aumentando. Arregalou o olho ao sentir que aquela Energia estava crescendo de maneira avassaladora, de modo que só ele tinha vivenciado.
– Não é possível...
Do outro lado de sua visão, o lutador levantava lentamente. A seu redor, a Energia começara a sair em forma de gotas até formar todo o fluido envolta dele. Só que o fluido foi se expandindo cada vez mais e mais até formar uma aura grande e vermelha, cuja violência dispersava os detritos pela área.
Ele abriu os olhos devagar, e faíscas emergiam das órbitas. Sua expressão mostrava uma profunda ira contida que iria ser liberada a qualquer momento, com o menor movimento ou intenção que viessem dele. Observou ao redor e viu que todos estavam ainda caídos, mas não sabia ainda se estavam vivos. Um movimento súbito e ele juntou todos para bem longe daí, agradecendo por estarem ainda com o coração batendo. Deu uma última olhada para Suzan e partiu para enfrentar o último obstáculo que estava entre sua ida para casa e o mundo perigoso de Ryokun.
Os dois começaram a brigar com golpes desarmados, ficando em pé de igualdade. Uma mudança no peso da perna foi suficiente para mandar Vergil voando até a floresta. Usando um dos troncos para parar, saltou com a perna eletrificada.
– Fulgetra Ensis! – a lâmina elétrica que mandara com o chute era 6 vezes maior que ele, cortando o chão tão facilmente quanto um bisturi na pele. Alucard desviou bem a tempo, evitando o que poderia ser seu fim. Levantando os braços, este invocou dois pilares gigantescos de pedra cinza do chão, e com um soco duplo, gritou:
– Procella Vis!– os pilares voaram pelo ar, bem onde o lutador seria atingido, se não tivesse conseguido saltar no ar para mudar a direção do pulo. Sem parar, o tirano apontou o dedo indicador e disparou várias esferas de água, que o atingiram. Tocando no chão, investiu contra ele, ignorando os impactos que sentira.
– Fulgur Iaculat! – Vergil disparou um relâmpago da mão, mas o inimigo previu e defletiu seu braço para cima, evitando o raio de incrível potência que queimou mais de seis árvores que atingiu.
Eles voltaram a se enfrentar no corpo-a-corpo, cada impacto gerando ondas de choque poderosas, destruindo tudo o que ainda restava ao redor. De um lado, Vergil estava com os punhos e pés envoltos em raios vermelhos, fustigando os ares com fulgor e rasgando pedaços do solo com as chicoteadas dos relâmpagos. Do outro, Alucard mantinha todo o corpo envolvido (fora a aura) com Energia negra, como uma sombra que o estava possuindo e assumindo seus movimentos, degradando tudo o que tocava. Após um encontro de socos e mais uma ventania poderosa, eles foram jogados para trás ao mesmo tempo.
– Umbra Telum! – uma parte da aura escura se concentrou em sua mão e se juntou em uma lança enegrecida, sendo disparada logo em seguida. Vergil desviou por pouco, mas retornou com um disparo relampejante que acabou sendo defendido, mas não sem consequências. Alucard hesitou por alguns milésimos, o que lhe custou vários pontos do corpo que foram alvejados com poderosas cargas elétricas juntamente com fortes impactos de chutes e bastão. Ele foi lançado em direção às árvores, destruindo tudo pelo trajeto e se ferindo, mesmo com o Segundo Nível ativado.
O lutador respirava fundo, a aparente imensa torrente de Energia se esgotando. Quando estava prestes a relaxar, viu a silhueta do tirano ao longe pairando no ar. Incrédulo, correu e se lançou para o mesmo, preparando uma imensa concentração de Energia nas mãos. Juntou as palmas uma por cima da outra e esticou os braços à frente, como que jogando a grande esfera vermelha do tamanho de três bolas de basquete a ele. Esta viajou quase instantaneamente, explodindo no contato. Enquanto caía, observou a fumaça se dispersar, mas ficou apreensivo ao não ver o homem desabar. Assim que dissipou, ele estava com um escudo esverdeado e translúcido o cobrindo. Perdendo as forças, Vergil mal conseguiu aparar a queda e se ajoelhou, respirando com dificuldade. Escutou Alucard rindo.
– Sabia que não era nada de mais. Não há como alguém que acabou de conseguir o Segundo Nível aguentar tanto tempo liberando Energia desse jeito...
Sua consciência falhava, e cada piscada via o homem mais perto, pronto para acabar com ele, aproveitando cada segundo do momento. E depois viu um machado azulado com uma figura farfalhando as roupas. Abriu os olhos assim que sentiu uma mão tocar-lhe o ombro e restaurar um pouco de sua integridade física, diminuindo os cortes, arranhões e roxos de impacto. Claire disputava olhares agressivos com Alucard, bloqueando-o do lutador. Suzan estava a seu lado o mantendo em pé, com um braço por suas costas. Kenneth estava do outro lado com a mão no ombro e concentrado. Nem Cole ou Jane estavam à vista, mas sabia que estavam com algum plano. Todos estavam bem acabados, cansados e feridos, mas o abalo que mostrava em suas expressões sumiu. Agora um brilho de esperança era visto.
“Vergil, você acha que consegue fazer aquilo de novo?” – disse Claire para ele, por pensamento. Sua expressão não mudava enquanto encarava o inimigo.
“Aquilo o que?” – respondeu ele, sem mudar a expressão também. Ainda era mal acostumado com essa de falar por pensamento, mas estava se esforçando.
“Aquilo que Alucard também tá fazendo, ô tapado!”
“Ah... Eu não sei, mas talvez consiga”
“Você acha que consegue?”
”Sim, só preciso de um gatilho...”
Assim que Kenneth terminou, o tirano cansara do jogo de olhares. Com um movimento derrubou Claire e partiu para o acólito. Kenneth, ao invés de pôr o escudo, se abaixou, surpreendendo a todos. Pisando de forma diferente, Alucard conseguiu se reequilibrar, mas foi vítima de cortes de ar pressurizado por Cole e uma torrente de água que o jogou para longe, de Jane.
Vergil respirou profunda e lentamente. Se acalmou e ativou o Primeiro Nível, fazendo a conhecida ventania. Mas não conseguia sentir a mesma sensação de antes, e sua forma regrediu. Ofegante, procurou ar até conseguir lembrar, mas não estava conseguindo.
– Vamos Vergil, você não tem tempo! – disse Kenneth, nervoso. – Você é o único que consegue!
– Isso mesmo, cabeludo! Vai lá e acaba com ele! – gritou Claire.
– Claire está certa! – comentou Jane, surgindo por trás do grupo – Os nossos ataques não estão fazendo efeito, mas você conseguiu pará-lo por um tempo.
– Chuta a bunda desse desgraçado!!! – gritou Cole, enquanto fazia uma barreira de vento para bloquear o futuro avanço do inimigo.
Determinado, Vergil formou o Primeiro Nível, mais intenso que nunca:
– Suzan, eu--
Sua fala foi interrompida por Suzan, que aproximou-se e lhe beijou. Ao recuar, ela disse:
– Pega ele.
Sorrindo feito um louco, o lutador virou-se para encarar o seu desafio e recordou a sensação do que era para fazer: simplesmente, após passar da situação de perigo (1º Nível), ele deveria se lembrar do que queria fazer. Sem demoras, seu fluido expandiu violentamente para a aura, mandando areia e pedaços do castelo para os lados. Aquela Energia era até maior que Alucard, mas não continha a mesma animosidade. Era como o ar, livre e espontâneo, e como a luz, claro e suave. Mas também tinha força, a junção das duas potências elementais, que fazia o relâmpago violento dos céus.
Esse era o jovem que corria a quase Mach 1, propulsionando contra o obstáculo para sua liberdade. O encontro de punhos fez uma onda de choque sonora que rachou mais ainda o solo e destruiu a primeira linha de árvores vicinais. Recuando, se encontraram novamente com chutes, que destruiu a segunda linha dessas árvores. A força destrutiva era tamanha que a sensação era que a natureza estava em fúria.
– Fulgetra Ascendo! – uma onda de raios emergiu do solo e arremessou o inimigo para uma clareira. O mesmo recomeçou a voar, conjurando milhares de flechas dos elementos a seu lado. Flechas longas de fogo, água, raio e pedra estavam apontadas para ele. Assim que fechou os braços, os projéteis voaram sem piedade para atingir o pequeno alvo. Sem escutar mais nada, Vergil correu como nunca havia corrido, saltou pelos escombros e troncos caídos, desviou mudando a contração dos músculos enquanto se movimentava para evitar qualquer dano. Sem mais hesitar, ele se aproximava em meio à chuva mortal enquanto concentrava Energia por todo o corpo.
– Fulgur...
Alucard também não perdeu tempo e concentrou Energia no corpo também. Isso, somado à sombra que o rodeava, lhe dava uma aparência demoníaca. Seu olhar encontrou o do lutador, e o mais profundo ódio se abateu nele.
– Ira...
Pelo canto do olho, viu seus amigos logo atrás de si. Quis dizer para saírem dali, que era perigoso, que não estavam sendo sensatos, mas ficou agradecido por virem, o que reforçava ainda mais sua força.
– ERUPTIO!!!
Um jorro de relâmpagos e luz vermelha emergiu de suas mãos, uma ao lado da outra. Raios estalavam pelo ar, crispando algumas árvores que eram pegas no momento. Todo o clima pareceu ficar mais escuro, e a Energia ficou rarefeita. Alucard respondeu disparando um feixe de sombras sólidas de sua mão direita que se encontrou no meio ponto entre os dois, formando todo um gradiente de cores que se retorcia. O ponto de impacto dispersava tanta Energia e puxava tanto poder que parecia ser capaz de destruir todo o continente. Imensas correntes de vento saíam da parte de trás das mãos de Vergil, esvoaçando as roupas dos garotos e espalhando mais poeira ao redor.
O encontro estava equilibrado, cada lado sem ceder e consumindo tudo que se aproximava daquela concentração massiva de poder. De repente, o tirano acrescentou o seu outro braço à equação, forçando mais Energia no feixe e avançando o ponto de impacto até o lutador. Este tentou aumentar ainda mais a liberação, mas já estava no limite. Se forçasse mais, poderia morrer. Suas reservas também não estavam grandes, e ainda assim tinha que pender a balança para o outro lado. Faltando outras opções, começou a fornecer a Energia direto de sua aura liberada, o que fez subir novamente o ponto de impacto, porém numa velocidade muito baixa.
Arregalando os olhos e diminuindo a aura, Alucard pôs mais uma quantidade absurda de Energia no jorro, avançando a disputa mortal para obliterar seu inimigo. Vergil ajoelhou com a pressão exercida, mas manteve o contato. Seus membros doíam, sua respiração ficava mais pesada e sua cabeça estava muito quente. Sabia que isso era sinal de uso excessivo de Energia, e quase interrompeu o fluxo, se não fosse o toque de uma mão em suas costas. Olhou de relance e viu a espadachim lhe dando um apoio. Imediatamente depois, os outros lhe apoiaram também. Emocionado, sentiu a pouca Energia que ainda restava neles se conectando com a sua, formando uma única entidade.
– A diferença, Alucard, é que eu não estou sozinho... Não serei eu quem irá lhe derrotar, mas sim todos nós!!!
Com um grito de guerra, Vergil elevou a emissão até o máximo, forçando sua Energia além dos limites. Auxiliado por seus amigos, o ponto de impacto avançou quase instantaneamente para o tirano, que recebeu todo o feixe de raios raivosos escarlates no corpo.
Houve um grito e silêncio depois. As nuvens dispersaram quando o jorro atravessou os céus, iluminando toda a área da floresta. O ar ficou mais claro, como se sua Energia estivesse retornando. O lutador caiu inconsciente. Ele mal respirava e não se movia. Sua testa estava muito quente, como se tivessem derramado água fervente sobre ela. Kenneth e Claire iniciaram o tratamento imediatamente, para salvar seu amigo que havia sacrificado muito para que eles pudessem estar vivos agora.
Enquanto isso, Suzan e Jane procuravam sobre os escombros alguma informação do ancião. Apesar de tudo que passaram, ele ainda era a única pessoa que poderia os levar para casa. Se depois disso ele não pudesse... Não gostaram nem de pensar na possibilidade. Felizmente, encontraram uma sala da torre (agora no chão) que não havia sido soterrada ou levada pela luta. Nela, viram um homem idoso, careca, porém um pouco alto, vestido com uma túnica cinza meio amarrotada e de barba bem longa. Ele parecia um mago dos tempos de fantasia, como se agora fosse surpresa.
– Q-quem são vocês? – indagou com sua voz profunda, porém trêmula.
– Somos pessoas que vieram lhe libertar do tirano Alucard – disse Suzan firme – E também pedir uma coisa do senhor.
– Sabia... Não se faz nada mais apenas por ser o certo.
– Não diga isso, senhor. Nós também queríamos ajudá-lo – suavizou Jane, tentando convencê-lo.
– Ok. Não é sensato reclamar de seus salvadores. O que irão precisar? – disse enquanto se levantava e era conduzido pela espadachim e especialista. Ao saírem, viram Vergil ainda caído, mas sua Energia era estável. Cole olhava para a floresta, pensativo. Claire se aproximava do grupo que saíra, e Kenneth estava lendo algo em seu livro.
– Esse é o ancião? – perguntou Claire, desconfiada. O homem era mais saudável e novo do que achava que seria.
– Sim, me chamo Erwin Kimmel. Soube que vocês precisam de ajuda. Em que exatamente?
– O senhor conhece a existência de outra dimensão?
– Mas é claro. Ryokun e Universo estão paralelas entre si. Uma não tem contato direto com a outra, mas são ambas muito semelhantes.
– Então, o senhor sabe como transportar pessoas de uma para outra? – perguntou Suzan, a crescente excitação na voz. Jane também estava esperançosa. Até Kenneth parou de ler para escutar a conversa e Cole voltou para o grupo.
– Sim.
Os urros de felicidade se espalharam entre eles, acordando o lutador que massageava a cabeça como se tivesse pensado demais. Olhou zonzo para o grupo pulando alegremente e iria perguntar o que houve, mas ao ver o velho senhor em meio à algazarra, supôs o que tinha sido. Dando um risinho, levantou devagar e se dirigiu ao grupo, procurando manter uma linha reta até lá. Ainda estava bem ferido e com pouca Energia, mas dava para se movimentar. Ao se aproximar, Suzan lhe deu um abraço caloroso e comentou perto de usa orelha:
– Nós vamos para casa!
– Finalmente... Todo nosso esforço não foi em vão. O que precisa ser feito?
– Era só você acordar e ele poder efetuar o poder de transporte.
– Fácil assim?
– Fácil assim...
Desconfiou, porém assentiu. Afinal, era basicamente só falar com o ancião e ser mandados de volta. Mas com toda a complicação, trajeto e desafios, estava considerando a possibilidade de ser mais uma jornada atravessando Ryokun para conseguir fazer algo que pudesse os levar para casa.
– O poder é complicado, por isso vou precisar de um pouco de Energia de vocês e que fiquem parados enquanto desenho os símbolos no chão.
Aproveitou o tempo para se recuperar e olhou para todos. A espadachim estava radiante e a seus olhares se encontrarem, ela deu um sorriso. O acólito fez um aceno com a cabeça, que foi retribuído. A especialista estava inquieta, parecendo que iria pular a qualquer segundo. O mago ria abertamente, aproveitando cada último segundo que restava nesse mundo incrível, mas perigoso que passaram. A guerreira estava pensativa, mas mesmo isso mostrava a alegria dentro de si. Quando olhou para o ancião, ele estava com um graveto marcando várias linhas e pontos retorcidos, mas sem se sobreporem. Ao terminar, um bizarro hexágono com 6 protuberâncias estava marcado. Ele foi para o centro e levantou os braços. Nisso, os garotos forneceram a Energia que pedira e vários feixes multicoloridos partiram de suas palmas.
Cada feixe mirou o peitoral de cada um, e ele falou com uma voz de comando:
– Plane Molde: Moveo in Universo
As formas de cada um foram ficando translúcidas até sumirem completamente.
Ao abrir os olhos, se viram num ambiente quase nostálgico: estavam dentro de um shopping conhecido. Pessoas olharam espantadas para o súbito clarão de luz que surgira. Vergil encarou os outros para ver se estavam todos lá, vendo que estavam mais novos. Respirou mais tranquilo, mas ainda pegou o celular, que curiosamente estava no bolso de sua jeans que vestira a tanto tempo, e ligou para a única que não estava. Claire atendeu:
– Você está bem?
– Eu liguei justamente para saber isso de você – respondeu Vergil com um riso fraco – Que loucura, hein?
– Com toda a certeza. Nós estamos desaparecidos a dois dias.
– HÃ?! Como assim, dois dias?! Passamos quase dois anos por lá.
– Esqueceu, anta? O tempo aqui flui diferente de lá.
Riu gostosamente depois disso. Apressou-se a ligar para seus pais, os acalmando e comunicando a situação pela qual tinha passado, e que iria explicar em detalhes quando chegasse em casa. Suzan, Jane, Kenneth e Cole fizeram a mesma coisa. As meninas se apressaram para sair e pegar o transporte público que as levaria para casa, e Vergil, Cole e Kenneth foram logo depois. Porém, o último estancou ao notar uma notícia peculiar.
Na manchete da TV, estava passando uma filmagem da praia e uma ilha ao longe, que acima dela estava um furacão abrindo as nuvens. Não seria nada em especial se a tal praia não fosse a da cidade deles.
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