Notas iniciais
Então... Foi mal, galera, mas esse capítulo tinha sido concebido numa semana difícil de provas e trabalhos, aí ficou de lado por quase dois meses. Mas ele está aqui!

– Monai? Não é uma antiga lenda indígena? – perguntou Vergil, curioso. Eles estavam na sala vazia da escola, discutindo o próximo passo. Já era manhã, mas próximo da hora do almoço.

– Não sei quanto à lenda indígena, mas era bem real ontem – comentou Daniel.

– Eu senti a Energia, mas a prioridade era garantir a segurança de Tyler – disse Lúcio, um pouco frustrado. John confirmou com a cabeça, apoiando o amigo – Portanto, nos desculpe por não ajudar ontem.

A professora acenou com a cabeça em concordância, acatando a decisão.

– Lillian, o que pode dizer sobre ele? – perguntou Cole, até então calado.

– É um dos Sete Lendários do Caos. O Senhor dos Céus e Campos, Dominador das Aves e da Terra, a Serpente do Caos.

– Mas... Há alguma ideia de como ele veio parar aqui? Só tínhamos a pista que a filha de Alucard o invocou, porém nada a mais... – indagou Vergil.

– Só tenho hipóteses, mas nada concreto.

“A Energia do Universo e de Ryokun são diferentes de como são conduzidas. Aqui, por exemplo, ela praticamente não existe no ar. Apenas num local mais distante da civilização que é possível de sentir algumas linhas, mas ainda assim são raras. Felizmente, ela está em outro meio, que é através dos cabos de energia elétrica e dutos de água que permeiam as cidades. Fora as plantas por onde flui a Energia.”

– Então, Monai foi invocado puxando a Energia desses locais? Mas isso deveria ter causado um colapso muito grande no país, mas nem aqui na cidade sentimos algo...

– Pra você ter uma noção de como a herdeira de Alucard é poderosa.

Pensativo, o lutador inquiriu sobre algumas questões, até que se lembrou da reação de Niéle. Era muito estranho saber que ela tinha tido tamanho medo da criatura. Achou melhor não mexer no assunto, visto que ela estava um pouco distante e parecia tristonha. Mesmo assim, se sentiu na obrigação de reavivar os ânimos dela.

Na escola, de volta às aulas, as luzes falharam. Muitos dos alunos olhavam para os lados, assustados. Os monitores acoplados nas paredes da sala faiscaram, o que incitou o pânico. Cadeiras foram arrastadas com veemência e as pessoas saíam apressadas, se acotovelando na estreita porta. Os oito se encontraram no pátio central. A confusão era generalizada, mas tinham uma noção do que se tratava.

– A herdeira... – sussurrou Tyler, apenas para o grupo.

– Isso é muito maior do que parece – disse Lúcio, suando frio – Ela esgotou a Energia da cidade.

– Como assim?! – exclamou Lillian.

– Postes, canos, terra, plantas... É como se não existissem mais.

– Também percebo – confirmou Vergil – As únicas Energias são as nossas e dos alunos.

Saíram do colégio. A rua que conheciam, que passaram por dois anos estava alterada: o céu, antes azul rajado de nuvens brancas, agora era uma imensidão cinza-amarelada, lembrando um campo radioativo. O pavimento asfáltico estava rachado e podre, como se não houvesse sido cuidado há anos. Até a própria escola parecia decrépita e velha, mostrando partes do concreto caindo, o aço desgastado e o jardim da frente morto. O ar era pesado, estagnado, seco e frio, como se ali fosse o inverno de um deserto poeirento e extinto.

À frente deles, uma mulher loira de pele muito branca, trajada com uma túnica preta decorada com fios de ouro se elevava alguns centímetros no ar, flutuando como se pisasse em solo duro.

– Só uma mudança na paisagem para vocês – disse a mulher, como quem apresenta uma obra de arte – Chamar a Serpente aqui me consumiu muito, então só precisei pegar o que eu tinha gasto.

– Quem é você?! – vociferou Vergil, mal contendo sua ira. – Sua contenda é comigo: deixe a cidade em paz!

– Ora, ora, não vamos nos apressar – desdenhou a mulher.

O lutador estancou, se perguntando numa maneira de capturá-la. Nesse momento, Cole deu um passo à frente, sacando duas armas de suas costas: eram espadas longas orientais levemente curvadas de único gume, as famosas katanas, de empunhadura redonda e adornada de símbolos, com cabo de tiras de couro enroladas e lâmina prateada, dotadas de uma leve luminosidade azul, refletida da pouca luz solar.

Os outros sete ficaram tentados a avançar para pegar a herdeira, mas com os alunos assustados, poderiam haver vítimas, e sem um plano, poderia gastar Energia e não ter o suficiente depois para lidar com ela. Ela caminhou dois passos antes de saltar e flutuar em pleno ar, arrancando exclamações dos observadores. Antes de se separar, ela disse:

– Se querem me seguir, me encontrem na praia, no ponto mais interior ao mar. E você, Vergil Gadson – disse, encarando firmemente o garoto – É bom vir... – e saiu de lá, viajando a vários quilômetros por hora.

Depois disso, eles olharam para trás, percebendo a perplexidade das pessoas. Vergil esboçou um sorriso sem jeito, que mais pareceu uma careta. Seus amigos Kenneth, James, Jane, Suzan e Cole encabeçaram o grupo quando o lutador falou para todos escutarem:

– Me desculpem!

“Todo esse problema, essas ameaças, são culpa minha... Cometi algo imperdoável, e por mais que as circunstâncias fossem adversas, não isenta de minha responsabilidade.”

Cochichos nervosos percorriam as bocas dos alunos, professores e funcionários. Muitos lançavam olhares de dúvida, outros de medo e uma pequena parcela, de ódio.

– Garanto a vocês que vou resolver isso. Teremos nossa cidade de volta.

– Mas como? – indagou um dos alunos.

– Eu não sei – respondeu imediatamente. Muitos riram do comentário – Mas vou descobrir. Além disso...

Uma mudança no ar os chamou a atenção. O corpo de Vergil pareceu vibrar ao olhar. Aos poucos o ar começou a girar a seu redor e pequenas gotas vermelhas brotaram de sua pele. Com a velocidade aumentando aos poucos, o vento o circulava e as gotas saíam cada vez mais rápido, formando uma cobertura sobre a pele fluida, oscilando como se estivesse imerso em água, lembrando uma fumaça quente que se move pouco pelo ar. Imediatamente, o mundo pareceu iluminar-se. Um calor acolhedor se apoderou dos outros, diminuindo a sensação de opressão que sentiam com o ambiente morto, tudo isso em meio a exclamações. Aos poucos, ele cessou o fluxo de Energia e saiu, chamando seus aliados para enfrentar a herdeira de Alucard, aclamado por vivas das pessoas que agora depositavam a confiança em si.

A sensação de finalmente poder correr sem arrancar sustos e expressões de incredulidade era excelente. Pessoas temem o desconhecido, atacando com tudo que podem sem compreender. Mas agora, com a cidade totalmente afetada, não seria estranho ver 8 pessoas correndo e saltando sobre prédios e carros. Era como se a realidade que estavam antes fosse uma ilusão, e o agora, o palpável, o físico, era o real, o que realmente estava acontecendo. Mesmo com a periculosidade da situação, Vergil se sentia livre dos grilhões do mundo.

A distância até a praia era longa: cerca de 20 quilômetros de tortuosas ruas e baixas elevações. A urgência também, o que os compeliu a usar suas reservas de Energia sem pudor, incrementando suas capacidades físicas para chegar ao destino, seja pisando e reagindo exageradamente no solo, surfando numa onda pessoal ou voando envolto em fogo. Porém, ao descerem uma ladeira íngreme que levava ao acesso mais interior ao mar, visualizaram a praia a quilômetros de distância, como se estivessem ainda mais longe de onde começaram.

– Droga, Vergil, onde foi que nos meteu? – reclamou Lúcio.

– Mas, é essa ladeira que dá acesso-- – começou o lutador.

– Olhem direito, seus doidos – chamou Cole, interrompendo a contenda.

Ao observarem ao redor, perceberam o que ele quis dizer: em alguns pontos, o sol estava brilhante demais, contrastando com o cenário escuro que povoara todo o caminho. Um trecho da ladeira parecia que estava afastado do outro, como se houvesse sido cortado ao meio e deslocado com o poder das ondas. A praia mais ao fundo, agora que prestaram atenção, estava com uma coloração vítrea e avivada, parecendo que era uma grande tela de televisão. Andando pela orla incrivelmente longa, eles não sentiam nada de diferente, tanto nas pisadas como na visão ou o cheiro da maresia.

– Entramos numa zona ilusória... A questão é como vamos sair – comentou Daniel, observando ao redor.;

– Como se cuida de algo que distorce a visão? – indagou Tyler, confuso – Fechando os olhos?

– Quem dera, Tyler. – disse Vergil – Mas não só está mudando nossa visão: está alterando o espaço. Você está certo em uma coisa: ambos estão relacionados, e se não solucionarmos um, não adianta tentar com o outro.

– Sempre pessimista – disse Cole – Já disse pra olharem direito. Isso é muito fácil!

Os outros o olharam surpresos, sem entender de onde vinha tanta confiança. Sem dizer mais nada, o garoto sacou uma katana das costas e perfurou o chão, fazendo um característico movimento com a outra mão, como se fosse um samurai que estivesse rezando antes do sangrento combate por vir. Em meio à calmaria, um córrego começou a escoar pela ladeira, cobrindo-a num tapete transparente. Água vazava pelos bueiros do asfalto, preenchendo toda a área que estavam num grande lago de água cristalina. Seria algo belo não fossem as circunstâncias e o local.

– Daniel... – disse Cole, ainda concentrado na tarefa. Manipular um volume de água desse tamanho exigia atenção absoluta, e para evitar perdas ele não podia nem se mexer.

– Rá, então é assim – respondeu o especialista, apontando a besta de mão numa direção aparentemente aleatória e falando com voz imperativa “Exílio da Escuridão”: o virote da arma partiu deixando um rastro incolor, como se apenas cortasse o ar. Assim que passou por debaixo de uma grande nuvem espessa, a sombra dela pareceu amassar num ponto, na trajetória do projétil. A nuvem “física” permanecia do mesmo jeito, mas o virote estava parado no ar, envolto em trevas fluidas. Manteve-se parado por alguns poucos segundos, até conseguir mover devagar, arrastando embaixo a sombra larga e irregular da nuvem.

No momento que a sombra sumiu, o sol acertou o espelho de água e os raios queimaram o ar, refratando para todos os lados que estavam sob efeito da ilusão. O ato retornou um pouco da Energia ao ambiente, mas era muito pouca para que houvesse feito alguma diferença. Cole e Daniel bateram as mãos num cumprimento.

– Isso! Vamos continuar – comemorou Lillian, tomando a frente do grupo.

Caminharam até o ponto que dizia “Parte mais oriental das Américas”: de ambos os lados se via a faixa irregular de areia, com algumas pedras grandes ancoradas. Antigamente, cresciam várias colônias de pequenos animais, como ostras, moluscos e ouriços, mas com a recente degradação do ambiente e imediato sumiço da Energia, não havia nada exceto os corpos das pobres criaturas. O mar não quebrava com a ação do vento, lembrando uma superfície de lago em meio a uma depressão. No topo de um desses rochedos um pouco maiores, estava a mulher, com um sorriso sarcástico no rosto. Estava com uma mão no queixo e de pernas cruzadas, lembrando uma capa de revista feminina. A túnica preta esvoaçava inexplicavelmente.

– Foi muito fácil – sua voz era imperativa, sempre demandando e sempre comandando. A mulher fez um gesto de dispensa com a mão e se levantou. – Pelo menos tenho todos vocês aqui.

“Se conseguirem passar, então me procurem nas escarpas vulcânicas... Isso é, se passarem disso!!!”

Levantou as mãos ao céu. Uma pressão negativa fez todos ficarem tensos. Ao vislumbrarem o céu, algo escuro estava se formando. Girava em um espiral negro, lembrando uma engrenagem de máquina maleável. Se expandia cada vez mais, com uma força ameaçadora os puxando com maior intensidade a cada segundo. Grãos de areia subiam dificultando a visão e a audição, mas Vergil pensou ter visto ela gargalhando.

Sem muitas opções, criou uma corrente avermelhada com um gancho, se ancorando o mais fundo que podia. Com os braços esticados, formou uma corda esfiapada também vermelha, prendendo quem pudesse. John fazia o que podia, usando a corda de sua arma como uma hélice, os impulsionando para baixo. Apenas Tyler havia ficado de fora, o que não ajudou em nada suas preocupações.

– Se segura, cara! – gritou Vergil, tentando se fazer ouvir em meio à cacofonia.

– Eu... – hesitou Tyler – Eu posso parar esse buraco!

– O que?! – exclamaram Vergil e Cole surpresos.

Deixando o garoto sem respostas, o grandão dava passos curtos e medidos até conseguir chegar ao centro. Logo que conseguiu, fechou o punho e deslocou o grosso braço até socar o chão. Por um momento, toda a ação do buraco negro pareceu sumir, e no entanto, voltou logo depois. Mas Tyler não cessou a ação por aí: continuou o trabalho com o outro braço, alternando numa rajada lenta, mas poderosa e efetiva de socos. Observando a ação, Vergil notou que a força gravitacional do buraco ainda existia, mas era anulada pela força da Energia de Tyler. Foi aí que se lembrou que seu amigo também era controlador da gravidade.

O buraco começou a descer em trancos, como se sua força agora estivesse sendo sobrepujada pelo grandão. Quando estava perto o suficiente, Tyler parou o ataque e saltou com o punho em riste, atacando o centro do elemento com a mão envolta numa Energia roxa que transbordava com a trajetória. O buraco explodiu em faíscas e linhas amarelas, o que reavivou aquela parte da praia em particular, cujo vento começou a circular e propagar as ondas.

Vergil desfez as correntes e olhou absorto pro amigo. Preocupado como estava, não notara como os outros também haviam evoluído para enfrentar esses perigos. Se deu conta que o que Cole falara era verdade: ele tentava sempre segurar tudo sozinho.

– Vamos para Ryokun. Ela quer alguma coisa, e só conseguiremos respostas se a seguirmos – disse Lillian, preparada.

– Como iremos? Que eu saiba, não está nem aqui o continente... – disse Vergil, olhando ao redor.

– Fácil: estamos no ponto onde o portal se conecta com Universo. Vejam.

E apontou para o horizonte: uma vasta faixa de terra despontava no limite de sua visão. Mas ao mesmo tempo, parecia não estar lá, já que toda vez que piscava, ela sumia e reaparecia.

“Vamos atravessar apenas andando na água. Pisem logo atrás de mim.”, ela disse, enquanto caminhava sobre a água como se estivesse pisando em concreto. Prestando atenção, via a mulher flutuando poucos centímetros da superfície. Seguiu hesitante, mas sem desacelerar. Ficou surpreso pela facilidade, e quando deu apenas cinco passos, estava parado na faixa de continente com os outros. Palmeiras e árvores tropicais formavam um semicírculo a seu redor. O mar quebrava veemente atrás de si. O céu estava azul e límpido, com apenas algumas nuvens, que eram carregadas rapidamente pelos fortes ventos que permeavam a clareira. Logo à sua frente, erguia-se uma alta e esguia torre, com um cristal transparente poliédrico no topo. Era feita de algum metal preto e reluzente, e sua base era larga o suficiente para apenas uma pessoa, sendo aberta em arcos nas suas quatro faces.

– Agora é só entrar aí e esperar o relâmpago de transição – disse Niéle para os três.

– Ele se ativa quando uma pessoa entrar, então não tenham pressa – disse John com sua voz tranquila.

– Nos vemos lá! – disse Daniel, fazendo um sinal com os dedos saindo da cabeça.

Nervoso, Tyler foi o primeiro a entrar. Depois foram Lillian, John, Cole, Daniel e Vergil, com Niéle por fim. Esperaram alguns poucos segundos e um raio multicolorido atingira o cristal no topo e mandara sua carga até a base, de onde cada um que estava dentro sumiu instantaneamente. Ryokun era sua próxima parada.

Notas finais
E então, o que acharam? Vou trabalhar no próximo já! Aproveitar esse período de recesso das aulas.