Notas iniciais
Bom, outro capítulo a mandar. Leiam com cuidado, pois há muitos detalhes a considerar ^^

A luz do transporte o cegou por um instante. Imediatamente, sentiu um frio cortante, pondo as mãos nos braços, esfregando-os para se esquentar. Tinha a sensação que entrara numa geladeira. Deu um passo e sentiu que estava pisando em algo que parecia gelo raspado: todo o chão estava repleto de neve.

Vergil olhou para os flocos brancos com uma mistura de sentimentos de perplexidade e curiosidade. Nunca havia visto neve na vida, então se abaixou para poder tocar na substância. Por um tempo, esqueceu-se de como havia chegado ali e ficou apenas manipulando-a com as mãos, curioso e maravilhado. Assim que retomou a postura, lembrou-se que estava com frio e olhou ao redor, procurando sinais de civilização em meio à imensidão de montes brancos e montanhas despontando de trechos de grama baixa e verde. A cordilheira rodeava um semicírculo atrás de si, com uma pequena passagem congelada no meio dela. O vale em que se encontrava tinha algumas poucas árvores sem folhas e de tronco retorcido.

Acostumado com a paisagem de sua cidade e Ryokun como se lembrava, achou o local exótico e ao mesmo tempo fascinante. Mas foi aí que se deu conta que estava caída ao lado dele a maga da equipe de Lillian, e mais ninguém. Se perguntou porque sempre que acontecia algo assim, ela estava envolvida. Deixou essas perguntas para depois: a menina estava parada no lugar, sem se mexer. Tradou pelo espaço que os separava e a puxou com um solavanco, pondo seu braço por cima do ombro. Ela estava bem, só inconsciente. Observou e usou a Percepção, mas não viu mais ninguém. Se perguntou onde haviam ido parar. Felizmente não estava ventando, o que deixava o frio mais suportável. Apesar disso, não iriam durar muito tempo nessa temperatura se não encontrassem logo um abrigo. O céu, rajado de laranja e repleto de nuvens, contava regressivamente os minutos restantes de vida. Quando a luz estava quase fenecendo, encontraram uma cabana coberta de neve e aparentemente abandonada. Adentrou chutando a porta, que caiu com facilidade e bateu rangendo na madeira.

A cabana era pequena, mas resistente. Era feita de madeira de ipê, pela cor escura da casca e interior claro. Possuía algumas janelas, mas estava barradas com tábuas toscamente pregadas. Encontrou uma armação de cama, uma mesa velha e dois restos de cadeira. Deitou a menina com cuidado na mesa e foi recolocar a porta. Forçou um pouco, mas conseguiu reposicioná-la no arco. Agora que estavam abrigados (ou algo parecido), ele respirou fundo e ativou o Primeiro Nível. Tentou manter a emissão baixa, evitando grande parte da ventania que provocava. Seu corpo esquentou bastante, revolvendo a Energia e excitação de combate por seu sangue. Concentrado, foi até a garota e checou seus sinais novamente: ela estava muito gelada. Com a respiração liberando vapor, ele se aproximou dela e encostou o torso no da menina. Manteve o rosto de lado, mas esperou até que o calor passasse.

Alguns segundos depois, ela abriu os olhos e se viu naquela situação. Deu um grito agudo e empurrou Vergil para longe, cobrindo o peitoral com os braços e parecendo ofegante.

– Err, oi? – disse Vergil, de mal jeito, acenando com a mão direita.

– Me desculpe!!! – gritou Niéle, a voz saindo mais aguda que o normal.

– Tudo bem – dispensou com um aceno apressado de mão e desativou a emissão – Se recupere apenas.

O garoto procurou algo que pudesse usar como uma fogueira, já que a temperatura continuava caindo de acordo com a luminosidade de fora. Juntando o pouco de madeira, pegou duas tábuas e esfregava uma na outra, como tinha visto uma vez num desenho animado. Estava torcendo para que desse certo. Forçava e lixava, mas não produzia nenhuma faísca. De repente, um pequeno fogo estalou na madeira que tentara acender, agraciando o ambiente com uma confortável e merecida chama. Ainda sentado no chão, revirou os pedaços e se juntou à garota, que havia incendiado a lareira improvisada.

– Deve estar pensando que sou azarenta... – disse Niéle, de súbito.

– O que? Não! Por que diz isso? – respondeu Vergil de imediato.

– Sempre dá algo errado quando eu estou junto... Tento fazer tudo certo, mas nada funciona como deve.

– Se fosse por isso, eu teria ganho o prêmio de “Coisas que deviam dar certo” do ano.

Ela deu uma risada, que ele acompanhou. Gostava de sua presença, e mesmo com o tumulto de emoções que sentia, era reconfortante saber que estava bem. Mas mesmo com a aparente calmaria, resolveu adiantar o assunto que vinha pensando desde que teve a visita da herdeira.

– Niéle... Por que a herdeira ficou falando com você como se lhe conhecesse de muito tempo? Era como se fosse irmã dela...

O ar da cabana subitamente gelou e a garota ficou um pouco pálida. Ela escondeu o rosto baixando a cabeça, os cabelos cacheados cobrindo qualquer feição ou expressão. Esfregou as mãos, em uma tentativa de escolher o que falar. Tremeu antes de prosseguir.

– Ela é mesmo minha irmã... – disse com a voz embargada – Eu também sou uma herdeira de Alucard.

Vergil não se mexeu nem se preparou para qualquer ataque. Estava desconfiado desde que fora abordado pela primeira vez na porta da escola. Como durante todos os meses que permaneceram convivendo ela não fez nada, tentou saber suas intenções prestando atenção nela. Mas nada do que havia inferido era conclusivo; por isso, fez a pergunta diretamente, para resolver o impasse de vez.

“Meu nome completo é Niéle Hudson Dorman. Conheci vocês, os Heróis da Profecia, no dia que invadiram o castelo. Meu pai nos mandou para longe, para que não víssemos o confronto que se seguiria... Assim que soube o que aconteceu com ele, Geardyne, minha irmã, os procurou para conseguir sua vingança. E refez seus passos até chegar no Universo. Daí, me deixou sozinha aqui, à mercê dos mercenários e caçadores querendo derrubar a monarquia de meu pai. Felizmente, consegui fugir para a cidade de Ryokun e de lá para Uranos, onde encontrei Lillian. Escondi meu sobrenome e me juntei à equipe dela, para viver normalmente. Foi aí que soube que ela tinha trabalhado com você e formou uma expedição para protegê-lo.”

– Tudo isso escondida? – surpreendeu-se Vergil.

– Sim. Peço que não fale nada pra ela, Vergil. É importante que mantenha segredo.

– Certo, mas... Se eu... – engoliu em seco, odiando lembrar do fato – Matei seu pai, por que não buscou vingança?

– Tinha que ter certeza de sua motivação. Não me entenda mal, Vergil: fiquei triste ao saber do ocorrido, mas meu pai era um homem cruel e impetuoso; além de nunca ter me aceitado como sou, não nos via como filhas e sim como soldados. Se mamãe estivesse ainda viva, isso não teria acontecido...

– Desculpe por isso. Deve ter sido doloroso falar...

– Na verdade, tirou um grande peso que tinha em mim – respondeu ela com um sorriso e mostrando o rosto. Estava sujo, mas mesmo com os olhos marejados, ela estava radiante. – Dyne era tão obcecada com ele que não aceitou de forma alguma ele ter morrido. Foi como se tivessem tirado o deus dela, a única coisa que ela acreditava. Por isso, Vergil...

Ela se aproximou e pegou as mãos do garoto. Não precisou dizer nada. Seu olhar era suplicante, como o de alguém que viu e quer esquecer coisas terríveis que vivenciou. Que precisa de algo para se livrar dos problemas que teve que suportar. Que precisa ter alguma esperança no que irá acontecer, um futuro ao qual acreditar.

– Não se preocupe, Niéle: ela não vai continuar o terror que Alucard fazia. Eu prometo! – disse Vergil com determinação. Nem bem sabia porque havia dito aquilo. Ele não era uma pessoa conhecida por assumir responsabilidades, mas algo o impulsionava a fazer o que era certo, mesmo que fosse um risco à sua vida. Não sabia se era ela ou algum outro motivo escuso, que não tinha noção alguma. – Outra coisa: por que ela é capaz de invocar um dos Sete Lendários do Caos?

– É uma das habilidades únicas dela.

“Por ser uma Dorman, ela é capaz de controlar combinações elementares. E nós duas temos controle de elementos opostos, o que nos torna mais poderosas ainda. Pra completar, todas nós somos dotadas de uma Energia muito grande. Tudo isso contribuiu para que ela fosse agraciada com o poder de controlar os Sete Lendários.”

– Que apelação... – disse Vergil, e se levantou com um suspiro – É muita informação por hoje.

– Concordo. Vamos dormir.

Ela se levantou da mesa e foi caminhando até o estrado da cama. O garoto se afastou, o que arrancou uma interrogação dela. Vergil pensou por um tempo e tentou encontrar alternativas para passarem a noite. A janela que apontava para fora não mostrava mais nada. Arrastou a mesa até perto o suficiente e foi se deitar quando escutou Niéle lhe chamando.

– Se você ficar aí, vai acabar congelando.

– Mas estou bem. O fogo vai me manter aquecido.

– Essa quantidade de lenha só vai durar para a próxima hora. Mesmo que reabasteça com alguma madeira, a posição em que essa cabana está vai arrancar qualquer resquício de calor que tenha. O certo seria ficar aqui onde a cama está e... – hesitou ao falar – Deitar-se junto comigo.

Vergil, que antes estava sentindo frio, achou que suas orelhas estavam pegando fogo e começou a suar. Todo o sangue de seu corpo fugiu para sua face, o deixando da cor de um tomate maduro. Imediatamente, Niéle também ficou vermelha e começou a gaguejar, parecendo tão ou mais nervosa que ele.

– N-Não temos escolha! E-Eu também tenho vergonha, mas é isso ou morrermos de frio.

– N-Niéle... E-Eu vou ficar bem...

– Está tudo bem – garantiu a menina. – Só pegue essa mesa e tente cortar as pernas para cobrir o estrado.

Assim que o garoto o fez, foi deitar junto da fria superfície da tábua em cima da cama. Virou-se em direção à parede, para que ela ficasse de costas, mas ela o cutucou no ombro e pediu para que virasse do lado dela, assim garantindo que o calor circulasse entre eles. Era uma situação embaraçosa, mas não tinham alternativa: Vergil ficou encarando a garota enquanto punha os braços na altura do seu abdômen, e ela fazia o mesmo. Um calor agradável circulava os dois, mas ele não sabia dizer se era os corpos gerando Energia ou se era a vergonha. Só sabia que estava ao mesmo tempo embaraçado e feliz.

Não demorou muito para adormecer e nem para acordar com os primeiros raios de sol atravessando as frestas da madeira. Assim que abriu os olhos, se viu numa situação pior (ou melhor) de quando dormiu: ambos estavam firmemente abraçados, e ela descansando tranquilamente, com a cabeça em seu peito. Tinha cheiro de flores. Tentou sair, mas ela tinha um tremendo aperto. Então esperou até que ela acordasse e ambos saíssem da cabana.

O sol estava forte no canto do horizonte, mas ele ainda não tinha ideia de onde estava. A passagem continuava lá, a grama também, congelada pelo frio da noite e os montes pareciam estar derretendo com o início do novo dia.

– Sabe onde estamos, Niéle? – disse ele, em meio a dentadas involuntárias pelo frio.

– Sim – respondeu, conjurando uma chama do tamanho de uma bola de handebol na palma da mão direita – Fazia tempo que não vim aqui, mas viemos parar perto da Falésia da Concha, no continente de Arteris.

Caminharam por uma trilha aberta pelas constantes pisadas dos habitantes da área. No trajeto tortuoso, encontraram algumas carroças, puxadas pela força animal de um touro-bétula, segundo Niéle. O animal lembrava mais um bisão que um touro, repleto de pelos sobre pelos, como camadas de um grande lençol grosso. Seus chifres eram pequenos e quase escondidos, contrastando com o focinho grande. O corpanzil marrom trotava pela estrada com agilidade, vencendo a temperatura e as irregularidades com destreza não esperada para um animal daquele porte. Com a ajuda desses viajantes, eles conseguiram chegar à cidade portuária de Esquife.

Esperavam encontrar uma pequena doca de onde crescia uma pequena vila de pescadores, pela própria desolação do lugar. Assim que passaram ao lado de uma imensa montanha e desceram o vale, encontraram uma grande metrópole: ruas largas construídas com blocos quadrados amarelos, juntos com areia. Casas se estendendo por todo o vale e alcançando a praia, feitas de tijolos escuros e telhados com inclinação elevada. Galpões extensos ficavam no porto, próximo ao mar, um colossal espelho azulado recortado com placas brancas de gelo.

Nas ruas, enquanto andavam, viam algumas pessoas. Estavam vestidas com grossas roupas de algodão, de cor principalmente escura. Eram alvos e de olhos claros na sua maioria, apesar de haver suas exceções. Não viram guerreiros ou Sensitivos por perto, o que os preocupou. Se apareceram longe demais de Lillian e os outros, complicaria o reencontro. Felizmente, sabiam para onde ir.

– Você sabe como chegaremos às Escarpas daqui? – perguntou Vergil, enquanto se escondia com ela do frio.

– Ainda não. Precisamos de dinheiro para chegar em Ryokun, pelo menos. – respondia Niéle, esfregando a palma das mãos, fazendo o fogo nelas dividir e espalhar, retornando à forma de chama única quando terminava.

– E como vamos fazê-lo? Tem uma arena ou coisa parecida aqui?

– Hm... – ponderou a garota – Da última vez que vi, tinha algo assim perto do mercad--

Um som quase imperceptível e um brilho oportuno do sol foram sinais detectados por Vergil, que havia tirado a mulher do caminho de uma faca peculiar, com lâmina em losango e feita de ferro escuro. Havia algo enrolado no cabo, limitado pela lâmina e argola na outra extremidade. Não chegou a ler o papel, porque a arma explodiu em fumaça e som, os jogando para longe dali. Aproveitando a adrenalina correndo pelo corpo e a aceleração ativada, procurou pela direção o autor do ataque. Distinguiu apenas uma fumaça verde translúcida em forma de gente por um instante, até que ela se moveu numa velocidade tão grande quanto a sua. Saltou para tentar alcançar, e para sua surpresa, se elevou a mais de 30 metros de altura, mais que um prédio de 10 andares, conseguindo vislumbrar a cidade praticamente toda. Pelo canto de olho, viu a fumaça tomar forma de uma pessoa, mas não teve tempo de prestar atenção nos detalhes: outra faca, com o mesmo papel enrolado vinha em sua direção, com a lâmina cintilando pela luz do sol. Instantaneamente, Energia fluiu para a ponta de seus dedos em várias linhas, se enroscando e formando um revólver de 6 tiros de cor vermelha, disparando logo em seguida. Uma explosão pairou no ar, mas não lhe jogou para trás. Aterrissou formando uma pequena cratera, mas não se machucou nem nada.

Apesar disso, não deu trégua para o oponente: mirou a arma em sua mão e disparou incessantemente, flashes avermelhados saindo da ponta do cano e liberando os projéteis em altíssima velocidade, provocando um estrondo sonoro. Um dos tiros acertou o alvo, e interrompeu o movimento. Através da fumaça da explosão anterior, surgiu Niéle, com o punho envolto em chamas alaranjadas:

– Ignis Offensus! – o fogo na mão pareceu intensificar-se ao atingir o peito do indivíduo, mandando-o com um rastro de fogo para o chão. Porém, antes de se impactar, se restabeleceu no ar e freou a queda, pousando com um toque suave dos pés.

Não era um homem como haviam imaginado, e sim uma adolescente, não muito mais velha que eles. Tinha cabelos de um ruivo intenso, quase roxo, amarrados num rabo-de-cavalo com uma franja triangular cobrindo um dos olhos. Seu rosto era também triangular, mas estava encoberto por um pano preto que se conectava com a roupa. O olho que se via era de uma íris prateada, com um pouco de verde e pupila fendida. Sua vestimenta era toda negra, com o tecido justo ao corpo para fazer o mínimo de barulho ao percorrer o ar rapidamente. Em seus braços, estavam as empunhaduras das facas que usara para atirar, assim como na cintura e nas pernas. Seu corpo era pequeno, não aparentando ter mais que a altura de Lillian. Tinha braços fortes, mas não volumosos e torso estreito. Seria normal se não fosse o grande volume das pernas e posterior da menina. Talvez daí viesse a incrível mobilidade que tinha de cobrir grandes distâncias com um único salto e de se reajustar em pleno ar.

Ela mantinha um dos braços colado ao local chamuscado, revelando sua pele muito branca. Suava na lateral do rosto e encarava o lutador procurando uma brecha. Sem perder os olhos dela, o garoto pronunciou, apontando a mão:

– Lança Celeste Sêxtupla! – dessa vez, nada aconteceu, o que surpreendeu todos. A ninja aproveitou a deixa para fugir, mas não sem antes usar uma bomba de fumaça para impedir os olhos sobre ela. Praguejando, Vergil tentou persegui-la, mas já havia sumido de seu alcance. Caminhou forte até a calçada e se sentou, ignorando as olhadas que as pessoas da rua lhe davam. Niéle se aproximou, mas não puxou conversa. Assim que ele se acalmou, ela disse:

– Não se preocupe.

– Como não? Chegamos aqui e já fomos atacados por um assassino. Assassina, que seja...

– Mercenários sempre estão atrás de vocês, ou já se esqueceu? – disse, olhando fixamente nos seus olhos e bem próxima – Vocês, os Heróis da Profecia, estão sendo caçados por minha irmã. É natural que tenha mais alguém atrás de você.

– Tá, tá, entendi – respondeu, carrancudo, mas recobrou a postura logo depois.

Foram até o porto, onde viram as pequenas e grandes embarcações sendo ajudadas pela força dos marinheiros e práticos, descarregando mercadorias e parando para uma noite de reparos. A confusão de pessoas era enorme, e ficava difícil procurar alguém com quem conseguir informações. Por fim, desistiram, indo até o mercado, com suas barracas dispostas num labirinto de estandes com os variados peixes e camarões da área. Algumas vendiam frutas e verduras, mas pelo aspecto eram importadas do outro continente, já que nessa época gelada não se plantava nada por aqui.

Encontraram mais à frente uma estalagem pequena, diretamente na entrada do mercado. Tinha uma fachada modesta e de cor clara, contrastando com o resto da cidade. Tinha escrito numa placa mais acima, “Sequoias Sorridentes”.

– Com licença...? – começou Vergil, avistando o recepcionista grande, careca e de barba espessa, com braços roliços como troncos. Este espanou o pano que levava no ombro e prosseguiu a limpar o balcão com ele, envolto na sua grande mão.

– Sim, o que desejam? – falou em uma voz nem amigável, mas tampouco hostil, levantando um olhinho apertado em direção aos dois.

– O senhor sabe como fazemos para chegar nas Escarpas, em Ryokun?

– Hm... – ponderou o homem por um instante – É bem longe...

“Vocês vão ter que pegar um barco até a cidade de Cosy e atravessar a estrada e montes por uma estrada quase abandonada. Vocês podem se informar no porto quando alguma embarcação vai pra lá.”

– O porto está uma confusão só. Não há ninguém que possa nos ajudar lá.

– Perguntaram sobre Bernard?

– Quem?

– Bernard Trassius, o auxiliar de administração do porto. Ele quem detém quem vem e quem sai, inclusive os destinos de cada. Vocês vão o encontrar na Junta Marítima.

– Obrigado, senhor.

Caminhando pelas ruas, não demoraram a encontrar a tal junta: um pequeno prédio, não maior que uma simples casa, estava empoleirado numa baixa elevação de madeira em treliças, com uma pequena escada de 5 degraus. Bateram na porta e viram um sujeito baixo, com nariz protuberante, óculos de aro de arame, olhos e cabelos pretos, com feições que lembraram um cachorro da neve. Ele escrevia as coisas em papéis grossos com uma “caneta” de ponta suja de tinta preta. Assim que Niéle juntou ar para falar, ele levantou um dedo em espera. Poucos segundos depois, ele baixou a caneta e olhou diretamente para os dois.

– O que querem?

– Saber qual navio vai para Ryokun.

– Comporta 2, um barco comercial de média carga. Partirá em dois dias. Comporta 5, um navio privado. Partirá essa noite. Comporta 6, uma barcaça privada. Partirá em um dia, nessa mesma hora.

– Obrigada.

– Onde há um quadro de missões? Precisamos de dinheiro...

– Há um em frente à taverna “Gelo de Ferro”. Não tenho conhecimento de nenhum outro. Agora, se me dão licença...

Ambos cumprimentaram e ele respondeu com uma mesura. Com o caminho traçado, os dois chegaram ao local e procuraram algum trabalho que pudessem executar. Aproveitando que ainda era tarde, foram imediatamente. À noite, voltaram exaustos, mas com a Fruta de Iara, uma variedade que crescia no Vale da Provação nos intrigantes pinheiros-d’água. Para consegui-la, esperaram até a luz da lua iluminar todo o Vale e iniciar um vigoroso jogo de luzes azuis, refletindo no topo de cada uma. O Fruto ficou visível logo depois, uma conjunção de morango (sem as sementes na casca) com manga (pelo tamanho e suculência) e a cor azul.

O pagamento de 2 mil Stips foi mais que suficiente para comprar novas vestimentas, a estadia pela noite e a passagem para o continente de Ryokun. Vergil conseguiu um casaco grosso de pelo de lobo-pontar, sendo preta rajada de branco, e Niéle um casaco grosso de couro do touro-bétula marrom. Com o tempo passado, eles falaram com o dono da embarcação, um sujeito baixo e gordo, trajado com roupas e panos chiques coloridos, com vários anéis em cada dedo de cada mão. Havia sido arrogante, mas concordou em levar os dois até Cosy, de onde iriam partir para as Escarpas. No trajeto do barco, Vergil resolveu perguntar mais à garota, já que não conhecia muita coisa do mundo de Ryokun.

– Sabe o por quê de não ter acontecido nada quando usei as palavras de comando?

– Hm – pensou ela antes de continuar, debruçando-se sobre o parapeito do navio, que rasgava preguiçosamente sobre o espelho imutável de água, com apenas neblina e um fraco sol no alto, iluminando debilmente o convés, o que dava a impressão que eram um navio espectral e o dia não havia chegado, mesmo com o céu estando aberto na partida. – Não sei dizer, desculpe – respondeu, sem graça.

– Não precisa... – avisou ele, apoiando os cotovelos no parapeito e ficando de costas para o mar, olhando o outro lado do convés, à bombordo – Só gostaria de saber o que diabos está acontecendo comigo...

“Antes, em meu mundo, eu me sentia bem normal, apesar de ser um Sensitivo. Agora, em Ryokun, desde que cheguei, eu me sinto muito mais forte, muito mais ágil, muito mais resistente, o que não faz sentido. Sempre achei que a Energia de uma pessoa era imutável, pelo menos enquanto ele não a treinasse.”

– Isso é realmente estranho. Vamos perguntar à Lillian quando a encontrarmos.

– Certo. Até lá, vamos aproveitar a calmaria.

Como se fosse um gatilho, um barco se chocou lateralmente com o deles. O dono do navio saiu em polvorosa, estando vestido apenas de pijama listrado e um grande casado de peles de animais. Quando compreendeu do que se tratava, soltou um guincho e tentou fugir para dentro de sua câmara, mas os agressores saltaram rápido para dentro e o seguraram pela gola.

Eram humanos normais, ou achavam que eram. Trajavam coletes bordô, colares variados de metal, calças azuis e botas de cano alto com biqueira de metal rebitado. Em sua maioria eram magros e assombrosamente tatuados. Cabelos eram negros, lisos e sujos. Eram cerca de 15 piratas e haviam apenas 6 guardas no navio. Estes brandiram suas armas e se preparavam para entoar o comando, mas um dos corsários antecipou a manobra, invadindo a área deles e cortando-os com precisão num arco perfeito de suas cimitarras. Dois ainda conseguiram, mas os outros companheiros, alertados, atacaram com suas armas e os mataram rapidamente.

Não conseguiu conter sua ira: ignorou toda puxada que Niéle lhe dava e praticamente voou para cima dos inimigos. Agarrou um pela cabeça e o arremessou na água, como quem joga um coco. Os outros ficaram surpresos com o ataque, demorando a reagir aos socos, chutes e arremessos que eram feitos contra eles. Em um instante, pouco mais que uma piscada de olho, os piratas do barco foram incapacitados. Assim que a excitação da batalha acabou, ele percebeu o que havia feito, mas seu olhar não mudou.

– I-Isso. – falou o dono do navio, parecendo convincente – E-Era o mínimo que você tinha que fazer por mim.

Vergil olhou com ferocidade para o homem, sua raiva transbordando na forma do Primeiro Nível. A ventania provocada, junto da intensidade do sentimento e o inexplicável aumento de sua Energia fazia com que ele fosse capaz de destruir todo o navio com o mínimo movimento.

– Como? – disse ele com a voz calma, mas emanava intenção assassina. Deu um passo em direção ao homem gordo, e as tábuas do barco rangeram perigosamente. Iria continuar, mas foi impedido por Niéle, que o abraçou por trás. Como se fosse a resposta, o garoto se acalmou, mas manteve fixo o olhar. O dono do navio correu para seus aposentos e ficou lá durante toda a viagem.

O caminho depois dos piratas foi tranquilo, com eles cortando a névoa persistente através do caminho reto sem pedras de Esquife até Cosy. Os marinheiros do navio contavam histórias à noite, o que sempre deixava as noites animadas. Assim, os dois dias restantes passaram rápido.

Notas finais
E aí? O que acharam? Comentem, conspirem...