A Ordem de Drugstrein
4 Encontro Inesperado - Parte 3
Notas iniciais
Capítulo 003
Encontro Inesperado (Parte 3)
Kayan levantou-se em um salto quando percebeu que alguém o havia salvado da morte certa. Ele não reconhecia aquele rapaz que o salvara, mas ele aparentava ser de uma idade bem próxima da de Allen. Sua aparência, porém, era bem mais imponente. Com aqueles cabelos vermelhos e olhos na mesma tonalidade, vestido com aquele sobretudo e roupas de boa qualidade poderia bem se passar por um nobre, mas Kayan bem sabia que aquela indumentária o caracterizava como um mestre. Mais tarde ele perceberia um brasão prateado com o símbolo de Drugstrein e saberia à qual ordem ele pertencia antes mesmo de lhe ser passado tal informação.
– Allen Kurbs, finalmente te encontramos.
– Mestre Spaak, devemos cuidar desta situação? – Paxter passava por debaixo da porta levadiça naquele momento, acompanhado de seu irmão.
– Podem, mas pela força do feitiço que eu acabei de defender ele não será desafio algum.
Allen parecia bastante desesperado com a situação. Sua reação imediata foi separar as mão que estavam juntas e conjurar uma espessa nuvem de vapor que começou a cobrir todo o ambiente. Paxter reagiu prontamente e conjurou uma ventania que dispersou toda a nuvem de vapor.
Kayan viu quando Allen tentou correr para a saída do castelo e logo percebeu que o rapaz mais baixo estava bloqueando sua passagem. Aquele era Guin, ele descobriria mais tarde, e havia se movimentado muito mais rápido do que jamais Kayan imaginaria ser possível, mesmo com o auxilio de magia.
Allen tentou atingi-lo com suas chamas, mas Guin desviou-as com um feitiço escudo e avançou contra seu oponente, tocando lhe o peito. Assim que o fez, conjurou uma descarga elétrica forte o suficiente para deixá-lo desacordado.
– Parece que acabou bem rápido – observou Spaak. – Ninguém foi morto ou gravemente ferido ao que parece. E você está bem... – o mestre parou de falar enquanto observava Kayan se aproximar – garoto? – completou finalmente. – Escute, qual é seu nome?
– Kayan, senhor, e obrigado por me ajudar.
– Eu sou Spaak Firyn e estes são Paxter e Guin Mirl. Nós somos da Ordem de Drugstrein e estávamos atrás de Allen Kurbs, que estava se passando por um mestre de nossa ordem para extorquir o ouro dos nobres de Garlin.
– Desculpem-nos pelo prejuízo que este mago lhes causou — disse Guin, dirigindo-se ao barão Erbert.
– Não se preocupe, graças ao Kayan nada de pior aconteceu. Este rapaz nunca estudou em uma ordem, mas foi capaz de segurar esse tal Allen até que vocês chegassem – Erbert adiantou-se para cumprimentar os três magos recém chegados.
– Levem Allen até a ordem, de lá ele será encaminhado para Kallamite.
– Mestre Spaak, o senhor não virá conosco? – perguntou Paxter.
– Ainda não, tenho assuntos a resolver em Bereth. A propósito, peça para algum mestre avisar à Sakuro que precisarei conversar com ele assim que chegar. Se ele puder me receber na entrada do castelo seria perfeito.
– Sim, mestre.
Spaak, então, observou enquanto os outros dois magos levavam o prisioneiro embora. Eles já haviam saído do castelo e Kayan estava ao seu lado, observando junto ao mestre.
– Eu devo agradecê-lo novamente, mestre Spaak, por ter chegado justamente no último momento para salvar a minha pele.
O ruivo não pode evitar de rir do comentário do outro mago.
– Acha mesmo que chegaríamos justamente no último momento possível? Nos já estávamos observando o que aconteceria desde alguns segundos após vocês entrarem no castelo, apenas queríamos verificar o que iria acontecer e qual era sua relação com Allen.
– Entendo – disse Kayan. – Mas quem era esse Allen e por que ele se passava por um mestre de Drugstrein?
– Na verdade ele estudou magia em Drugstrein, se não me engano ele era da minha turma. Eu sei que aparento bem menos idade que ele, mas é porque quanto mais poder um mago possuir, mais longa tende a ser sua vida. Existem magos que chegaram a passar dos cem anos. Mas, voltando ao ponto principal, eu não me lembrava de Allen, na verdade, e isso foi porque ele não conseguiu passar no teste para ser um mago de Drugstrein.
A dupla caminhava pela cidade em meio a rua principal, observando os comércios e conversando. A maioria dos moradores e trabalhadores parava para observá-los quando passavam, mas eles simplesmente ignoravam.
– Depois disso ele entrou para o serviço do duque de Corvin, neste mesmo reino de Garlin. No entanto, pelo que investigamos, o antigo duque morreu e seu herdeiro não queria mais os serviços de um mago e o dispensou. Desde então, Allen Kurbs vem se passando por um mestre de nossa ordem e extorquindo dinheiro dos nobres menores de Garlin. Nesses casos que envolvem a honra da ordem, um mestre de elite sempre é enviado para resolver o caso.
– Eu só fui desconfiar depois das atitudes que ele começou a tomar no castelo, ele me levou na conversa completamente – reconheceu Kayan.
– A propósito, quem são seus pais? Um deles deve ser um mago, ou ter alguma habilidade com a magia, ao menos.
– Meus pais... eles não estão mais neste mundo. Mas posso falar sobre eles, se quiser.
Spaak acenou positivamente com a cabeça e o rapaz continuou.
– Minha mãe não sabia nada sobre magia. Ela se chamava Selenne, Selenne Marlen. Ela estava prometida ao herdeiro do rei de Garlin, o principe Raphael, mas, pelo que ela me contou, essa casamento nunca aconteceu. Ouve uma guerra entre magos...
– A Rebelião Negra, quatorze anos atrás, Alteroz foi palco de uma batalha, mas os Marlen sobreviveram – interrompeu Spaak.
– Sim, mas pelo que ela me disse eles abrigaram um grupo de magos de Drugstrein em seu castelo e ela acabou se apaixonando por um deles. Até onde eu sei, os magos não esperam até o casamento para... hum... consumar o casamento – disse, um pouco constrangido.
– Exatamente, para nós o amor é algo mais livre do que para o resto da humanidade, uma mulher não é desonrada caso não seja virgem antes do casamento. Alguns magos nunca chegam de fato a se casarem.
– Certo, mas meu avô e meu tio não pensavam assim, então ela foi expulsa da casa Marlen. Meu pai, então, comprou a casa em que eu vivo para ela, e também deixou algum dinheiro. Ele prometeu-a que a levaria para Drugstrein quando a guerra acabasse, mas parece que ele não sobreviveu à ela. Minha mãe, então, viveu com o dinheiro que meu pai havia nos deixado e comigo. Há dois invernos ela pegou uma doença; muitos dessa cidade pegaram esta doença. Ela não sobreviveu, mas antes de morrer insistiu que eu entrasse em contato com um mago em uma guilda perto de Alteroz e comprasse alguns livros de magia, disse que eu devia ter herdado mais de meu pai que a aparência e deveria ser capaz de utilizar magia. Ela estava certa.
– Sinto muito pela sua perca, mas eu acho que conhecia seu pai. Eu nunca iria imaginar que ele teria deixado um filho assim tão próximo de Drugstrein. Qual o nome dele?
– Kaatus, minha mãe dizia. Tinha um sobrenome também, mas como não sou um nobre não achei que precisasse dele e acabei me esquecendo.
– Kaatus Atreius. Eu tenho certeza. Seu pai era Kaatus Atreius, e você é bem parecido com ele. Cabelos e olhos negros, todos os Atreius são assim, não importa quem seja o outro progenitor, por isso um Atreius sempre é um Atreius.
– Pelo que o senhor esta me falando, mestre Spaak, a família de meu pai me parece importante em Drugstrein.
– Uma das famílias fundadoras e uma das mais poderosas em toda Wesmeroth. O granmestre Sakuro Cyren poderá confirmar minha suspeita, ele era o melhor amigo de Kaatus. Você irá para Drugstrein comigo e, se quiser, irá estudar magia lá.
– É sério isso? – perguntou Kayan, empolgado. – Eu queria entrar para uma guilda quando fosse melhor, mas nunca poderia esperar por Drugstrein.
– Independente de você ser filho de Kaatus ou não, seu lugar na academia de Drugstrein estará garantido. Se você foi capaz de aprender tudo isso apenas com livros, acredito que você terá um grande potencial quando aprender com nossos mestres. Vamos lá, apresse-se em pegar suas coisas, mas leve apenas as mais pessoais, pois a maioria das coisas você terá em Drugstrein.
As coisas estavam acontecendo de maneira bem rápida, mas Kayan nunca poderia imaginar que teria uma oportunidade daquelas em sua vida e decidiu agarrá-la naquele exato momento. Animado, ele apressou-se em ir para sua casa. Uma hora mais tarde, ambos estavam montados no cavalo baio de Spaak e dirigindo-se ao castelo de Drugstrein.
* * *
O sol estava se pondo quando Spaak e Kayan chegaram ao castelo de Drugstrein. Ele era muito maior do que o rapaz poderia imaginar, superando em muito a extensão de toda a cidade de Bereth. Ele não possuía nenhuma muralha, com exceção da parte frontal que era constituída de uma parte não coberta e era cercada com uma muralha que chegava facilmente aos trinta metros de altura.
O corpo central do castelo era composto por oito torres com um diâmetro de aproximadamente trinta metros e altura superior a cem. Além dessas haviam incontáveis torres menores que permeavam entre as grandes torres e eram ligadas a elas por uma estrutura principal e pontilhões.
A entrada era um enorme portão de madeira e ferro com o símbolo da ordem entalhada. Não havia um fosso protegendo o castelo, mas Kayan tinha certeza de que proteções mágicas resguardavam a sede da maior ordem de Wesmeroth.
Assim que eles chegaram, os serviçais do castelo ergueram a porta levadiça e eles entraram em um grande pátio. Os servos do castelo eram todos bem vestidos e aparentavam serem muito bem tratados pelos magos. Um cavalariço apareceu para cuidar do cavalo de Spaak, que o cedeu de bom grado. Haviam vários estábulos espalhados por ali e torres internas também, inclusive três das oito maiores ficavam na parte interna da estrutura. Haviam, também, grandes estruturas de vidro que Kayan sabia que se chamavam estufas e que facilitavam o cultivo de alguns tipos de vegetais. Campos para a criação de animais também podiam ser vistos, tudo muito bem interligado e organizado.
Os dois magos caminharam lado a lado por vários minutos. Kayan cada vez mais impressionado com o que via. A noite havia caído e, ao invés de tochas, cristais iluminavam o castelo por todos os lados e a luz emitida era dez vezes mais forte que a do fogo. Kayan podia sentir a energia mágica em tudo, o que indicava que milhares de encantamentos permeava o castelo.
– Logo, logo, você vai conhecer Sakuro. Assim que chegamos algum de nossos mensageiros deve ter corrido para avisá-lo e é bem provável que ele nos receba logo no salão de entrada.
Kayan estava entretido demais para responder e apenas acenou afirmativamente com a cabeça. Eles chegaram na porta principal do castelo, que ficava logo após uma longa e ampla escadaria. Grifos, dragões e harpias adornavam as paredes da torre principal. Uma porta dupla de madeira e ferro encontrava-se fechada e nenhum guarda estava a vista. Spaak mesmo abriu uma das portas com algum esforço.
O salão de entrada era imenso. As paredes eram ricas em tapeçarias e as colunas eram largas e revestidas de mármore. No fundo havia quatro largos lances de escada e nas laterais muitas portas de madeira.
Um homem os aguardava. Ele aparentava ser um pouco mais velho que Spaak e um pouco mais musculoso também. Suas roupas eram nobres trajes de ceda e um sobretudo de lã azulada com a bainha e detalhes dourados completava a indumentária. Seus olhos eram azuis e os cabelos longos e divididos no meio também possuíam uma tonalidade azulada, embora fossem bem escuros, próximo do preto.
– Já cheguei Sakuro, que bom que veio me receber aqui no salão de entrada.
– E é bom que tenha um bom motivo para esta audiência urgente, caso contrário – o granmestre parou de falar quando viu Kayan entrando logo atrás do mestre. – Kaatus? Não é possível, você deveria estar morto e não mais jovem!
Spaak não conseguiu segurar uma gargalhada enquanto Kayan coçava sua nuca um tanto quanto constrangido.
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