A Ordem Cerúlea
1 Prólogo
Notas iniciais
O jovem finalmente encontrava-se livre. Livre de seus devaneios, livre de sua prisão individual, caminhando por uma floresta longe de seu habitual espaço geográfico. Estava feliz, finalmente trajava a almejada armadura de Vhasriin, do antigo guerreiro do norte, aquela que só poderia ser entregue ao jovem que completasse a Jornada do Aprendiz. O azul e dourado, mesclados com a cor branca, eram marcados pela luz do sol. Seu elmo lembrava a cabeça de um dragão, já que grande parte da vestimenta fora feita a partir de escamas de um. Era sem dúvidas a melhor armadura que um ser humano daquele reino já havia usado.
O local, apesar de trazer um tom de serenidade e ternura, exalava mistério. Cada passo do jovem guerreiro trazia consigo uma insegurança fora do normal. Poderia ser o fato de estar em contato, pela primeira vez, com seu estado de paz mental e espiritual. Algo no fundo de sua mente o dizia que alguma coisa estava prestes a acontecer, seja isso ruim, seja isso bom. Independentemente do que viesse, aquela sensação lhe trazia um certo incomodo, com tudo, tentava expulsar isso para manter sua serenidade.
Parou um instante para vislumbrar sua armadura novamente. Adulava suas grevas, revestidas de malha e ferro, com ligeiros detalhes dourados e azuis. Sua joelheira brilhava tanto que chegava a ofuscar um pouco de sua visão. A luz solar só ajudava o ouro reluzir. Estufou seu peito, exaltando o peitoral e o espaldar, estes alabastrinos, dourados e azuis. Removeu seu elmo, vislumbrando os pequenos olhos esverdeados de enfeite presentes nele. Por fim, cerrou os punhos e sentiu a macies que traziam suas manoplas, revestidas de uma escama dourada e com certo tom de cinza.
O jovem então voltou a caminhar, com aquele mesmo sentimento de insegurança, mas não pensava voltar, queria distância de sua zona habitual. Considerava qualquer perigo externo menos perigoso que sua mente presa e “morta”. Olhou para o céu, pressagiou uma mudança, porém, novamente ignorou. Começou a observar os animais. De longe, via coelhos sendo caçados por cobras de corpos asquerosos, no entanto, percebeu que os animais em fuga sentiam medo de uma coisa além dos bichos medonhos e também não sabiam quando esta ia surgir e por fim mata-los.
De súbito, um vendaval se iniciou. Folhas caiam, os bichos se escondiam, as águas de rios próximos se agitavam insanamente. O guerreiro não esboçou reação, continuou andando e se deleitando com sua nova aquisição. Não sabia que estaria à beira de um transtorno que em breve viria.
O céu então começa a escurecer, uma escuridão que apagava a luz do sol rapidamente. Uma desordem total começa na floresta. Animais grunhiam e corriam desgovernadamente. Nesse momento o rapaz parou mais uma vez, adquirindo um semblante de preocupação a algo iminente. Começou a ofegar com ligeiras pausas, sua respiração estava completamente desordenada.
De repente, é escutado um som estrondoso e quase ensurdecedor. Do alto, dois olhos azuis e petrificantes surgiram entre as nuvens negras. Um bater de asas negras, pesadas e ferozes causava vendavais mais intensos do que os anteriores. As asas eram enormes e encorpadas, o que explicava a grande intensidade daquilo que causavam. Sua cauda pontiaguda balançava insanamente a medida que a fera mostrava cada vez mais raiva. A enorme criatura de escamas com cores das trevas fitou o homem e, após pairar por um instante no ar, pousou em sua frente, com suas enormes patas, destruindo grande parte da vegetação.
O guerreiro estava com os lábios trêmulos e sua respiração já não era mais descritível. Suas mãos suavam horrores e sua língua ficou tão seca que parecia estar congelada. Finalmente se deu conta do que estava a sua frente: um dragão. E nenhum dragão “comum”. Era o Dragão dos Dragões, Dulfanir.
A besta, ao pousar, ficou parada, sem fazer nenhum movimento ameaçador ao rapaz. Chegou um momento em que sua feição voltou a expressar ódio. Rugiu com uma força sobrenatural. Simplesmente ao rugir o dragão emitiu calor suficiente para que a armadura tão gloriosa do homem começasse a derreter aos poucos. A pele do rapaz foi sendo invadida pelo ferro e ouro ferventes, porém, nem agonia ele conseguia mostrar. A dor parecia menor frente ao medo sentido naquele momento.
O dragão gigantesco parecia sentir o cheiro das escamas na vestimenta do guerreiro, o que o deixava mais irado. Dessa vez, a besta se aproximou mais ainda e encarou o humano com mais afinco. O que aconteceu foi algo tão assustador quanto a vinda do dragão.
Logo após essa encarada, o guerreiro ficou desnorteado e sua visão começara a ver outras coisas. Já não existia mais floresta, o cenário mudou completamente. O que via era uma terra desolada em meio a chamas e sangue. A figuras de homens e mulheres lutando intensamente num campo de batalha infinito e pavoroso. Não só homens, mas elfos, orcs, anões e, nos céus, dragões de variados tipos. A guerra ali vista, piorava cada vez mais a medida que os orcs matavam os humanos, retiravam seus corações e os comiam com prazer. Lambiam o sangue de suas laminas e pareciam ficar mais fortes e loucos. Notou algo estranho, os elfos não atacaram um orc se quer, pareciam ser aliados, de alguma forma.
Ao observar mais detalhadamente o cenário, percebeu que era uma conhecida cidade, uma das mais importantes do reino de Prifthel.
Montada num cavalo branco e robusto, uma mulher muito familiar a aquele rapaz, dilacerava e aniquilava seus oponentes com destreza. Tinha alegria em matar, adorava guerras, mas apenas a parte da batalha. A medida que matava, ordenava guerreiros e táticas de combate, então logo notou que aquela era uma comandante de guerra. Das mais poderosas pelo visto.
Apesar do esforço dos humanos, ele começou a perceber que todos lutavam em vão, pois estavam cada vez mais sendo superados numericamente e fisicamente.
Os elfos e orcs possuíam alguma magia diferenciada, algo que os faziam muito mais eficientes do que as outras raças. Os anões, mesmo que aliados aos homens, não conseguiam se impor em luta também.
Em sua visão, os céus novamente escureceram e vendavais destruidores tomaram conta do espaço. Dulfanir faz sua aparição mais uma vez, agora com um alguém sob seu comando, ou pelo menos auxilio. Alguém de aparência irreconhecível. Desde então, a batalha tomara outro rumo, se tornando ainda mais violenta.
Do alto de uma torre, no centro da cidade, sacerdotes com túnicas azuis eram vistos, estampando em suas faces, decepção. Esses magos não faziam nada e nem eram atacados. O guerreiro forçou sua visão um pouco mais e os reconheceu. Eram sacerdotes da Ordem Cerúlea, a guilda que portava o maior conhecimento mágico de todo Mundius, como era chamado o mundo em que viviam.
Após mais alguns segundos, a visão do rapaz voltou a floresta e novamente ele viu o dragão supremo, dessa vez, com sangue em suas escamas e em seus olhos. Seu sangue era azul, assim como a aura que dominava sua essência. A fera estava agora com um aspecto de tristeza e dor. O guerreiro agora sentia as dores das queimaduras, mas já mostrava-se muito mais calmo diante tudo aquilo. Estendeu seu braço e tocou delicadamente a cabeça do dragão.
— Eu lhe entendo. — Falou com ternura. Já não sentia mais pavor do que via. Pelo contrário, sentia dó e amor. Finalmente entendeu o propósito de tudo aquilo que havia visto, sentido, e tocado. Retirou seu elmo e sua armadura, ficando apenas com suas roupas normais. Fez isso com certa dificuldade devido ao derretimento, mas não o impediram de realizar tal ato. Seu corpo agora estava deformado. Uma grande quantidade de carne ficou grudada na vestimenta e muitas partes do corpo apresentavam carne viva.
Uma voz distante começou a ecoar pela floresta, ainda atormentada pelos vendavais e céu negro.
“Eles estão lhe chamando. Você deve retornar. Não se preocupe, o que puder fazer, farei” Vociferou a besta alada, com uma voz penetrante e áspera.
— Você sabe o que acontece quando eu volto. Não quero voltar, preciso te ajudar. — Falou o guerreiro, agora também entristecido.
O dragão simplesmente ignorou o dito e voou para longe, fazendo com que a região voltasse ao normal.
— É uma pena que eu não consiga pôr um fim a isso... Me perdoe, amigo...

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