A Ordem Cerúlea
3 Capítulo II - Confronto
Notas iniciais
Ewrir olhou para seu amigo e percebeu que ele também estava indignado com a decisão, porém, eles não podiam ir contra o rei, obviamente.
— Vocês estão livres para se prepararem. Se vocês tivessem vindo mais cedo, saberiam antes, como os outros garotos e garota.
Os dois rapazes se despediram de todos na sala e partiram imediatamente.
— Isso é loucura! Eu não acredito que temos tão pouco tempo... — Resmungou Wilmorn, logo após descer as escadas.
— Pois é... Mas não é o momento de ficar reclamando. Vamos nos preparar ainda hoje, mesmo que já esteja quase na hora do banquete noturno.
— Ah, vá você, eu tenho mais o que pensar. A culpa não é minha que esse rei só pensa em agradar mais os que vem de fora do que a nós. — Retrucou o jovem de cabelo longo — Divirta-se.
Ewrir, confuso e impactado, perguntou:
— Mas... Seu sonho! Seu sonho não é adquirir uma das tão gloriosas armaduras?! Sabe que todos irão se esforçar.
— Eu sei o que estou fazendo. — Respondeu, saindo pelo portão do castelo sem se despedir do amigo.
Ewrir continuou a condenar a atitude de Wilmorn em seu pensamento. Considerava muita falta de responsabilidade, ainda que ele mesmo não tivesse tanta. Instantes depois, largou esse raciocínio e focou no que faria. Treinar exaustivamente era uma opção ruim, pois, com uma data tão próxima, seus músculos ficariam doloridos demais. Sem ideias, foi para o jardim real, o qual era livre para todos acessarem. Sentou-se em um dos bancos mais distantes de qualquer pessoa.
Ewrir esfregou seu rosto com as duas mãos e empeçou a dizer para si mesmo:
— O que faço, o que faço? — Questionou, impaciente.
— Ficar ai sentado não vai ajudar muito. — Respondeu uma voz de timbre baixo, porém intimidadora.
O garoto destampou seu rosto e virou em direção a voz vinda. Era Laurine, a mais jovem guerreira que trilhava A Jornada do Aprendiz, tinha quase dezoito ciclos.
A garota sorriu abertamente para o rapaz. Seu sorriso sempre transmitia uma alegria a quem fosse direcionado, mesmo que não fosse dos mais belos.
— Olá, Laurine. Posso te perguntar... Por que veste essa armadura? Digo, não é um momento adequado... Eu acho. — Questinou Ewrir, que havia reparado primeiramente na armadura de couro de lobo da menina.
— E quem disse que há um momento não adequado? — Retrucou com certa raiva — Essa armadura é confortável e leve. Não tem motivo pra eu não usá-la. Como pode ver, o tecido que cobre meus braços é leve.
— Vocês estão mais chatas do que o normal hoje, por Zéorim! — Comentou, dando risada — Você lembra minha mãe. Em muitos aspectos.
— Sua mãe é um esplendor — Abordou, soltando seus longos e castanhos cabelos. Eram maiores que os de Bresys — Um dia serei tão formosa quanto ela. Ah, serei! — Completou, sentando-se ao lado de Ewrir.
— E você? O que planeja fazer acerca da recente notícia? Presumo que você já tenha treinado hoje.
— Com certeza — Confirmou, Laurine — Mas ainda pretendo fazer outras coisas ainda hoje. Lhe contaria, mas seria ajudar meu adversário — Riu, dando um leve soco no ombro do amigo.
Ewrir riu e contemplou o céu o alaranjado. Voltou seus olhos para o cabelo da garota e o fitou por algum tempo, sem esboçar qualquer expressão. A menina percebeu e falou:
— Sim, eu sei, estão muito grandes e vão me atrapalhar em combate.
— Não, não é isso que pensei. Eu apenas gosto de cabelos grandes, como os de minha mãe...
Laurine ligeiramente arqueou uma de suas sobrancelhas e se levantou, indiferente.
— Vou indo, a gente se vê no banquete.
Com um rápido aceno, ambos se despediram. Ewrir se ergueu e foi procurar o que fazer. Pensou em passar na forja local, já que seu pai ainda não terminara o expediente. Considerou pedir dicas e afins, já que, assim como sua mãe, o homem já havia participado do exame.
Andando pela movimentada cidade, Ewrir mostrava-se desanimado e de cabeça baixa. Seu sonho, assim como o de Wilmorn, era ganhar uma das armaduras. Era possível adquirir as duas, mas sempre combinou com seu amigo que se sobrassem apenas os dois no teste final, optariam por dividir. Esse era o plano de alguns outros que não gostariam de lutar entre si.
Em meio a seus devaneios, o rapaz levou um empurrão que o fez cair no chão.
— Ora, se não é Ewrir, o filhinho da mamãe guerreira que arrancaria a cabeça daquele que mexesse com seu filho. — Disse uma voz estridente e arrogante.
— Hulbard... Primeiramente, minha mãe quer muito mais que eu me vire sozinho, do que dependa dela ou de meu pai, ou de qualquer outra pessoa. Tenho idade suficiente pra isso. Segundo, não estou com cabeça para uma rixa estúpida agora. — Redarguiu, Ewrir, com calma e indiferença. Pôs-se em pé e se desviou do caminho do forte encrenqueiro.
— Aonde você pensa que vai, seu rato imundo! — Gritou Hulbard, puxando o braço de Ewrir e o jogando numa viela com pouco movimento.
O garoto apenas tropeçou dessa vez, mas não caiu.
— O que você quer?! Já fazia um tempo em que não me tirava a paciência! — Rezingou.
— Fique sabendo que o homem que sua mãezinha humilhou, era meu pai! Que direito ela tem de fazer aquilo?! — Gritou, com ódio.
— Se ela fez aquilo, foi porque ele mereceu. Não discordo da atitude dela. Seu pai que é um infame, um desprezível. — Retrucou com serenidade.
Foi depois dessas palavras, que Hulbard avançou contra Ewrir. O soco potente com sua mão direita por pouco não acertou o rosto do garoto em cheio. Um forte empurrão partiu de Ewrir, que logo ficou pronto para uma luta.
Hulbard novamente atacou. Cerrou seu punho esquerdo e mirou a face do rapaz. Num rápido movimento, teve sucesso, mas não aplicou força o suficiente para que causasse algum estrago. Ewrir devolveu o golpe, socando com ferocidade o rosto de seu oponente. Hulbard cambaleou um pouco, mas voltou a seu posicionamento inicial. Tentou acertar um chute, mas, Ewrir, com facilidade se esquivou. O garoto, por mais que fosse fisicamente mais fraco, era mais habilidoso e aplicava seus golpes com mais astúcia, afinal, treinara por muito tempo com sua mãe, uma excelente combatente em qualquer situação.
Ewrir chutou a coxa direita de Hulbard com o peito do seu pé esquerdo, fazendo o grande jovem recuar. Começou a tomar conta da luta, pressionando cada vez mais, porém, Hulbard não era nenhum novato, aproveitou uma leve brecha e agarrou o braço direito de seu adversário e o torceu, pouco, pois rapidamente Ewrir se recompôs.
— Doeu? — Perguntou ironicamente, o corpulento garoto.
Ewrir ignorou a provocação e continuou atento. Sabia que qualquer vacilo era fatal, não podia arriscar ficar lesionado próximo a um evento tão importante. Agora, aguardava cautelosamente os movimentos de Hulbard.
As pessoas que ali passavam não tentavam impedir a briga. Os guardas quando percebiam, mudavam o caminho que estavam percorrendo. Era comum haver brigas, seja de bêbados, seja de intrigas pessoais, enfim, de qualquer tipo.
O rapaz aparentemente mais fraco, acertou um soco com seu punho direito, em cheio, no queixo de Hulbard, que mordeu o lábio inferior devastadoramente. Caiu no chão e ficou tonto, com sua boca ensanguentada.
— Isso basta pra você? — Ewrir serenamente contemplava Hulbard se levantando com dificuldade. A briga estava praticamente encerrada. O grande moleque não aguentaria outro golpe certeiro. De súbito, um grupo de quatro outros garotos surgiu, se juntando a Hulbard.
— Não acredito que você tem uma “gangue”. Você age como se tivesse no auge de sua adolescência. — Afirmou Ewrir, extremamente indignado.
— Eu vou... eu vou matar você! — Esperneou, Hulbard.
Uma perseguição começou na estreita viela. Ewrir buscou se afastar do local apertado e correu em direção a rota mais larga e movimentada possível. Esbarrava em algumas pessoas e corria em direções diferentes, sem ideia plena do que fazer para escapar da situação. Seus perseguidores começaram a se dividir para o encurralar, o que começara a dar certo. Não via mais caminhos plausíveis e já estava ficando cansado. Optou por escalar lugares que não exigissem tanto esforço, mas não foi o necessário para que a acossa cessasse. Tentou entrar em becos perigosos e pouco acessados, porém, fora surpreendido com facilidade. Por infelicidade, acabou entrando na região da cidade onde ficava localizada a grande rota do esgoto, sem opções para onde correr dessa vez. Guardas continuavam a ignorar a situação, que, para eles, era corriqueira, só que com garotos mais novos. Bem mais novos.
— Você quer tanto assim me bater? Repito, a culpa do seu pai ser um idiota, não é minha e nem da minha mãe — Falou Ewrir — E digo mais, você é outro fraco! Nem para fase final da jornada você passou.
Irado com essas afirmações, Hulbard mandou todos cercarem Ewrir e golpeá-lo até suas mãos não aguentarem mais.
Ewrir tentava se defender de todo maneira, mas acabou sucumbindo à avalanche de socos e pontapés. Pisoteavam sua cabeça, socavam suas costelas, davam joelhadas, faziam de tudo. Hulbard o levantou pelo cabelo. O rosto do rapaz estava cheio de sangue, seus olhos um pouco inchados e seu corpo todo repleto de hematomas e feridas. Sua roupa estava suja e rasgada.
— Agora não tem mais volta, seu tolo. — Grunhiu Hulbard, sacando uma adaga de ferro simples.
Um guarda percebeu que aquilo estava além dos padrões de uma briga qualquer. Se já não estava a muito tempo. Decidiu interferir, porém, Hulbard percebeu seu movimento e rapidamente tentou apunhalar Ewrir, que num instante jogou seu corpo para o lado esquerdo, caindo numa profunda rota de esgotos. O local não era tão profundo, mas quando o jovem caiu sobre seu braço direito, provocou uma grande dor, o fazendo gritar e agonizar, rolar de um lado para outro na água podre e fétida.
— Seu insolente! — Vociferou o guarda para Hulbard — Percebe o que fez?! Sabe que pode ter o matado!
— Pouco me importa.
— Você será preso! Junto com todos vocês! Quem era o moleque que espancaram?
— Ewrir — Respondeu um dos meninos. O “líder” do grupo deu um leve empurrão no que havia falado.
— Não pode ser... o filho de Bresys Fiedlerson?! Vocês serão mais que somente presos. Se preparem para ira daquela mulher.
O grupo então foi detido, mesmo que tarde demais. Foram levados a prisão local.
Ewrir tinha parado de gritar, mas emitia gemidos de dor. Saiu do fluxo de água e encostou na parede mucosa do esgoto. Com seu braço menos danificado, ajeitou o outro machucado e novamente sentiu uma dor insuportável. Chegou à conclusão de que aquele estava quebrado. Lágrimas de desespero e ódio percorriam seu rosto lentamente. Estava tremendo e com o corpo frio, mas mesmo assim levantou-se e tentou procurar uma saída. Gritos eram inúteis e mal conseguia bater palmas eficazes.
Depois de muito tempo andando no que parecia um labirinto subterrâneo, cambaleou e caiu de novo. Não sabia se alguém viria a sua procura e nem se já estava de noite do lado fora. Estava sem esperanças e novamente sem um plano do que fazer. Arrastou-se para a parede e sentou, recostando sua cabeça , olhou para o lado. Mesmo com sua visão prejudicada, avistou um vulto.
— Ei, você! — Gritou com dificuldade — Me... ajude. Por favor.
A figura se aproximou devagar. Trajava um manto negro mais escuro e intenso que outros. Estava limpo, o que indicava que trafegava naquele local com consciência.
— Quem é você? O que faz aqui? — Questionou Ewrir, quase sem voz.
O indivíduo se aproximou mais e se agachou próximo do rapaz. Ewrir sentiu um certo incomodo. Ele foi tocado e uma energia estranha começou a percorrer seu corpo. Sentiu que suas feridas cicatrizavam suave e rapidamente. Ficou espantado, não conseguia definir suas emoções naquele momento, estava impactado. Não foi curado completamente, ainda estava em estado alarmante, mas já havia melhorado.
A figura se ergueu e estava indo embora quando o garoto puxou seu manto, ocasionando a queda do capuz.
— Um... um elfo?! — Questionou, mais eufórico.
O indivíduo adquiriu uma expressão de ira por um segundo. De suas mãos, um pó foi jogado no rosto de Ewrir.
— Es-- Espere... — Antes que pudesse falar mais alguma coisa, o rapaz desmaiou rápida e profundamente.

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