A OFERENDA
5 Capítulo 04
Notas iniciais
Estou sentada sobre a sobre a sombra de das grandes árvores do Vale quando vejo Lílian e Magrit correndo em direção ao centro. Por reflexo, levanto rapidamente e me ponho a prestar atenção em tudo o que está acontecendo, imaginando que uma nova garra surgiu.
Algumas pessoas se reúnem no centro do Vale, ao me aproximar escuto percebo que Diana e Magrit está explicando o acontecido.
― ...E então a madeira estava lá novamente – menciona Lílian.
― O que? – questiono incrédula – A parte da ponte que caiu e fez você ficar trancada está lá novamente?
― Isso mesmo, Winter! – afirma Lílian.
O barulho que se inicia a seguir é extremamente forte, coloco minhas mãos em meus ouvidos para abafar o som. Procuro a origem do ruído e percebo que as montanhas rochosas que nos cercam estão se deslocando, como se estivessem encolhendo o nosso espaço, fechando o círculo. É possível afirmar que o deslocamento foi mínimo, mas no mesmo instante, me preocupo a longo prazo.
Desde o dia em que estamos aqui acabamos formando pequenos grupos com aqueles que mais criamos afinidade. Britt, Rose e Igor costumam ficar mais próximos, assim como Ricky, Diana e a recém-chegada, Elizabeth. Allyn e Eva formam uma dupla que não quero ter muita proximidade, as ações de ambas me assustam um pouco. Já eu, fiz amizade com Logan, Hazel e Charles.
Charles olha pra mim após o ruído terminar e indica com a cabeça que vai caminhar pelo espaço, pedindo que eu vá com ele.
― Me parece que à medida que vamos descobrindo coisas, mais chances temos de morrer aqui – ele argumenta.
― Como assim? – questiono, enquanto caminhamos em direção ao outro lado do Vale, onde fica a ponte. Não combinamos para onde ir, mas sei que é pra lá que vamos.
― Ricky descobriu aquela bolinha e a garra apareceu trazendo Elizabeth, e na sequência, levando Ray. Em seguida, quando todos souberam que, sei lá, a ponte consegue se regenerar, as montanhas diminuíram nosso espaço.
― Talvez a ponte não possa ser destruída porque será por ela que vamos sair daqui – sugiro.
― Quando aprendermos a atravessar paredes? – ele brinca.
― Isso! – afirmo. – Ou quando uma garra descontrolada descer e quebrar a rocha pra gente.
― Não seria uma má ideia.
― Também acho que não.
Ele me encara por alguns segundos, enquanto o silêncio se mantém entre nós.
― Você já percebeu? – ele diz.
― O que?
― Você é a única que veio com um objeto.
Toco na corrente em meu pescoço, que sustenta um anel. Tenho um grande apego com o objeto, talvez seja a única coisa que me ligue ao meu passado.
― Não me lembro de onde ele veio ou o que significa.
― Eu sei disso. Mas você não acha estranho?
― Talvez.
Depois de mais alguns minutos de caminhada, chegamos à ponte e percebo que ela da mesma forma que sempre, sem madeiras faltantes ou falhas devido à locomoção das montanhas.
― Está intacta – comento.
― Parece que alguém aqui tem razão quando à ponte – Charles comenta, sorrindo.
Charles e eu temos a mesma idade e é muito bom ter amizade com alguém que pensa parecido comigo. Resolvemos voltar para o centro do Vale e de longe conseguimos identificar a maioria do pessoal estava olhando para cima, para a árvore em que ontem aparecera um pássaro, porém, quando chegamos perto do grupo, não consigo encontrar nada.
― O que aconteceu? – questiono.
― Haviam dos esquilos na árvore – Hazel responde.
― E onde estão? – procuro pelos esquilos em árvores próximas.
― Desapareceram em frente aos nossos olhos – Magrit explica.
― E o pássaro de ontem, alguém viu outra vez? – Charles questiona, mas ninguém responde e entendemos o silêncio como uma negativa.
A cada dia que passávamos aqui, tinha a impressão que a noite demorava mais para chegar e se alongava muito para que o outro dia chegasse. De todo modo, todos os dias estavam bastante monótonos, mas estava conseguindo controlar bem meu psicológico e não me apavorar com a situação.
Como Lílian ainda estava machucada decidiu-se que ela iria dormir em redes até melhorar, evitando seu contato com o chão e o que pode vir a prejudicá-la mais.
Estava na minha rodada para dormir “no conforto”, se é que podemos chamar assim, mas Charles teve de dormir no chão e então, foi a primeira vez no dia que nos separamos, de fato.
O sol já estava alto quando acordei e a única pessoa que avistei foi Hazel, que pediu silêncio assim que me viu acordar. Me aproximei lentamente dela, caminhando em direção à árvore dos animais com passos leves, evitando fazer barulho. Ao chegar mais próximo notei a presença de três tatus de porte pequeno. Hazel os contemplava sorrindo, ela é uma devota da natureza e é perceptível sua felicidade ao ver que podem existir outros seres vivos no Vale. Os bichos desaparecem repentinamente, mas não me assusto, afinal, isso já está acontecendo diariamente.
― Onde estão os demais? – questiono.
― Alguns resolveram olhar a ponte e outros resolveram ir até a floresta, procurar por carne para comer.
― E você não foi porque é contra a caça?
― Isso.
Charles e Logan são os primeiros a chegarem e logo contamos sobre a nova aparição.
― Eu já entendi – Charles comenta. – Vocês não?
― Entendeu o que? – Hazel pergunta.
― Primeiro dia em que os animais resolveram aparecer, surgiu um pássaro. Depois, dois esquilos. Hoje foram três tatus. Ou seja, a cada dia aumenta o número de animais, assim como o porte deles. Amanhã provavelmente aparecerão quatro animais.
― Faz sentido – menciona Logan.
― Acho que estão oferecendo eles, para que possamos nos alimentar – sugiro.
― E temos que pegá-los antes que desapareçam – Charles completa.
― É bom avisarmos a todos e montarmos vigia amanhã, para que não deixemos a oportunidade passar – Logan diz. – Estou louco para comer algo que sustente, de fato.
― Também quero! – comento. – Vocês dois foram onde?
― Estávamos na floresta, mas não encontramos nada. – Charles confessa. – Aliás, nos perdemos dos outros e resolvemos voltar.
― Olhem lá! – diz Hazel, apontando para três pessoas que correm em nossa direção enquanto acenam.
― Encontramos algo na ponte – Rose grita, enquanto se aproxima.
― Sim! E achamos que a Winter pode ajudar – finaliza Diana,
― Eu? – tento imaginar no que posso ser útil e os demais não. – Como?
― Venham! – diz Igor, me puxando pelo braço.
Ao chegarmos na ponte avistamos uma haste de madeira sobrevoando a ponte, estava na horizontal. A haste não tem espessura muito grande, compara-se à grossura de um dedo.
― E no que eu seria útil? – questiono a todos ali presentes.
― Porque você não tenta colocar o seu anel na haste? – sugere Elizabeth.
― Isso não tem lógica! – afirmo.
― Coloca! – ouço Eva dizer.
Caminho em direção à haste e tiro a corrente do meu pescoço, em seguida, o anel de dentro dela. A haste começou a brilhar na mesma hora e um barulho estridente surgiu, mais uma vez.
De repende a luz do dia começou a ir uma força começou a empurrar todos nós para o centro do Vale, seguindo a haste, inclusive aqueles que estavam na floresta caçando. Quando estávamos todos reunidos em torno da haste, ela subiu em direção aos céus até desapareceu na escuridão. A força ainda nos mantinha presos em nossas posições e embora tentássemos fugir, não era possível.
― O que acontece agora? – diz Britanny.
― Confesso que não quero saber – respondo.
Mas é inevitável. No mesmo momento quatro garras surgem em nossa direção e percebo que não há mais nada que nos segure. Corro em direção à ponte. Olho para trás, tentando procurar Charles, Hazel ou Logan, mas não vejo nenhum deles. Identifico Rose correndo bem atrás de mim; estico a minha mão e ela a segura firme, logo estamos as duas correndo juntas em direção à ponte.
Novamente a força volta a exercer sobre nós e somos carregadas mais uma vez em direção ao cento do Vale, onde encontramos as quatro garras alinhadas uma ao lado da outra, abertas o suficiente para não esmagar ninguém, contudo, altas o bastante para não identificarmos quem está dentro de cada uma delas.
Olho para os lados e percebo que Charles não está entre nós. Preciso engolir o choro em minha garganta e respirar fundo e só assim me controlo.
De repente uma luz sai de baixo de cada uma das garras, projetando as imagens de quem está dentro delas.
A primeira garra mostra a foto de Charles.
A segunda exibe a foto de Magrit.
A terceira mostra que Logan foi pego.
E na última garra encontra-se Hazel.
A haste volta novamente do céu e paira exatamente na nossa frente. Ela se abre como um pergaminho, exibindo uma curta mensagem:
“AQUELE QUE TIVER MENOS PESSOAS SOBRE A SUA FOTO, SERÁ A PRÓXIMA OFERENDA”
Preciso escolher ficar abaixo de alguma das pessoas que mais me identifiquei. Naquele momento só torço para que a foto de Magrit no chão seja a mais visível de todas.
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