A OFERENDA
6 Capítulo 05
Notas iniciais
Quando termino de ler a mensagem no pergaminho, a primeira coisa que penso é que não estarei embaixo da garra de Magrit e por isso, sou a última a escolher abaixo de qual garra ficarei. Percebo que abaixo da garra de Logan estão Ricky, Diana e Elizabeth; já sobre a foto de Hazel estão Alynn e Rose. Charles conta com o apoio de Winter; já com Magrit estão Lílian, Brittanny, e Igor. Estrategicamente, acredito que Hazel seja mais útil para o grupo do que Charles, por isso, me posiciono sobre a foto da garota também.
No instante em que piso na foto de Hazel, a garra que prende a garota, assim como as que prendem Logan e Magrit se abrem, fazendo com que caiam sobre as pessoas que estão abaixo de nós.
― Pelo menos ninguém caiu em cima de você, Winter – digo.
― Muito engraçado, Eva – ela resmunga.
As garras começam a subir lentamente em direção ao céu, inclusive a que carrega Charles. É possível escutar o garoto gritando. A garra não está totalmente fechada, permitindo que vejamos seus braços e que seus gritos sejam altos o bastante para escutarmos.
― Por favor! Não! – Winter começa a gritar, olhando para cima. Logan se aproxima dela e a abraça.
― É assim que eles nos chamam? Oferenda? – questiono.
― Como assim? – Alynn diz.
― Estava escrito no pergaminho – respondo. – “A próxima oferenda”...
Reparo que estão todos olhando para cima. As garras estão, acho, que a uns 40 metros de altura, ainda uma ao lado da outra. A de Charles é a última da esquerda. Ainda é possível escutá-lo gritando e Winter chorando alto. Confesso que aquela gritaria já está me irritando.
― Acho que já chega, né? – comento. – Já notou que a única que está fazendo showzinho é você?
― Por que você não fica calada, Eva? – Winter responde e parte para cima de mim. Quando ela está perto o suficiente a empurro, derrubando-a no chão. Hazel ajuda a amiga a levantar-se e Alynn sorri para mim.
― Vejam! – ouço Igor dizer, ao apontar para o céu.
A primeira garra da direita abre, depois de 5 segundos é a vez da garra ao seu lado abrir.
― A garra de Charles vai se abrir – diz Logan. – Mãos aqui, vamos fazer uma rede e tentar segurá-lo.
Fico parada onde estou, apreciando a cena. Alynn dá um passa a frente para ajudar, mas estendo meu braço, indicando que ela deve ficar ao meu lado. Ela me olha, intrigada e eu apenas sorrio levemente. Logan, Hazel, Winter (ainda aos prantos), Ricky, Brittanny e Elizabeth formam uma rede com os braços, assim que a terceira garra se abre. Cinco segundos depois, é possível ver Charles despencando com muita velocidade.
― Sejam fortes! – grita Diana, de fora da rede.
― Espero que não – comento baixinho e olho para Alynn, mas ela parece estar muito centrada na queda.
Charles consegue cair exatamente na rede, que se desfaz com o impacto, porém, amortece a queda do garoto. Winter o abraça com dedicação excessiva, que me causa náuseas.
― Pois é, parece que somos alvos de um joguinho no qual você quase foi eliminado, Charles – digo alto para que todos possam escutar. – E você sabe o porquê? Porque os braços que te acolheram ao cair pertencem às pessoas que preferiram salvar outros e deixar você morrer. Perdoe-me, mas eu não seria hipócrita de ajudá-lo sendo que optei pela vida de outro.
Vejo a dúvida no rosto de Charles, olhando friamente para cada um deles. Plantei a semente da discórdia na cabeça do garoto e, tenho certeza disso, quando o vejo correr para longe do centro (obviamente, Winter o segue).
Sinto-me completamente exausta e como hoje é dia de dormir confortavelmente, me dirijo ao local onde estão às redes e deixo, pegando no sono logo em seguida.
Ao acordar no dia seguinte, vejo que algumas pessoas estão reunidas próximas à árvore dos animais.
― O que temos hoje? – questiono.
― Quatro peixes – diz Logan. Me aproximo e vejo que um pequeno poço surgiu ao lado da árvore.
― Vamos pegá-los! – afirmo.
― Mas e se isso nos prejudicar? – questiona Magrit.
― E se isso for só para nos alimentar? – indago. – Nunca saberemos se não pegá-los.
Logan me olha intrigado, sei que está considerando o que mencionei.
― Temos que ser rápidos, logo eles irão desaparecer – afirma Ricky. – Estou faminto!
― O poço é raso, pegaremos com facilidade – Logan explica.
― Eu entro – prontifica-se Charles.
O garoto entra no lago e a água bate em seus joelhos. Com muita agilidade, ele tira um peixe por vez e entrega a Ricky, que os põe sobre a grama. Ao entregar o quarto peixe a expressão de Charles muda rapidamente.
― Estou afundando – ele diz, apavorando-se. – Não consigo levantar meus pés.
Em questão de segundos a água está em suas coxas e a cada vez que ele se agita, sobe mais.
― Boca santa, Magrit! – rio.
Ricky e Logan apoiam-se na ponta do poço e alcançam as mãos de Charles, puxando-o. Pela primeira vez noto os braços fortes do oriental, confesso que gostei.
― Ajudem – diz Ricky, e algumas meninas também encontram um jeito de puxá-lo para fora do lago.
Com muito esforço, eles conseguem tirá-lo de dentro do poço, porém, suas pernas estão repletas de marcas de arranhões e sangue sai de alguns ferimentos.
― É como garras tivessem te puxado – comenta Winter.
― Não duvido – diz Hazel.
― Vamos lavar o ferimento, Charles – diz Winter, dando a mão para o rapaz.
― Vou pegar o álcool – menciona Hazel.
― Não desperdice muito – digo, em seguida, Charles me encara com frieza. Opa. Acho que fiz uma inimizade.
― Acho que teremos que comer cru, não? – diz Elizabeth.
― Bem que poderiam ter nos mandado algumas ferramentas, fósforo, talheres – diz Igor.
― Com certeza, eles bem sabem que queremos fazer um jantar à luz de velas – respondo.
― Eu não falei com você, Eva! – o garoto responde baixinho.
― Não consegui escutar, querido. Esse é o máximo que você consegue expandir sua voz? – implico.
― Deu Eva, já chega! – Logan diz de maneira rude.
― Quem você pensa que é para mandar em mim, garoto? – olho nos fundos dos seus olhos e nos encaramos por alguns segundos. Até que ele desvia o olhar.
― Vamos procurar por alguma pedra pontiaguda, para cortarmos os peixes – ele diz e todos saem à procura da tal pedra.
Finjo estar procurando no centro do Vale quando Alynn se aproxima de mim em silêncio.
― Amanhã completará uma semana – diz ela, mas fico em silêncio, chutando pequenas pedras. – Uma semana que a garra veio buscar Ray.
― Suponho que essas aparições serão frequentes, Alynn – respondo.
― A gente precisa arranjar um jeito de sair daqui, Eva. A qualquer momento pode ser uma de nós! – ela indica.
― Você acha que eu não penso nisso a todo instante? – grito.
― Não parece – ela resmunga e sai em direção à cachoeira.
― Enquanto não sei como fugir, basta garantir que outro seja pego pela garra – falo para mim mesma.
No início da noite, assim que todas as lâmpadas já se acenderam, Logan distribui os pedaços de peixe cru. Resolvemos comer todos no mesmo dia, afinal, deixar para o outro dia pode estragá-los. Alynn não conversou mais comigo depois de nossa pequena discussão e como ela é a única pessoa aqui que “faz” questão de me ter por perto, fiquei praticamente muda durante o resto do dia.
Deito-me cedo, ainda é meu dia de ficar na rede e por isso sou a primeira a acordar, com o canto de um único pássaro na árvore dos animais. Então é isso: A sequência reiniciou quando pegamos os peixes ontem. Um pássaro, dois esquilos, três tatus, quatro peixes. A intenção é nos fornecer carne, de fato. O pássaro some antes mesmo dos outros acordarem.
Vou até a cachoeira e me jogo na água sem pensar duas vezes. Gosto de sentir o frio da água de manhã. O dia será de sol, mais uma vez. Quando volto à margem da cachoeira me deparo com Logan me analisando.
― Acho que você não precisa pegar tão pesado – ele menciona.
― Acho que você não precisa cuidar da vida de todo mundo – respondo. – Preserve a sua e deixe que os outros se virem.
― Realmente, não tem como conversar contigo, Eva. Pelo visto até Alynn percebeu isso – ele diz e dá meia volta, dirigindo-se ao centro.
Seu comentário fez meu sangue esquentar. Nunca pensei que estar sozinha iria me ferir tanto. Saio correndo da cachoeira em direção ao Logan. Pulo em suas costas, arranhando seu pescoço, seu rosto e puxando seus cabelos. O garoto se contorce, tentando se livrar de mim. Como não consegue toma impulso para se jogar de costas no chão. Quando percebo a ação já é tarde e sinto o peso de Logan cair sobre mim, expulsando todo o ar que existe dentro de mim. Ele levanta-se, mas não tenho forças para fazer o mesmo.
― Da próxima vez não irei apenas derrubá-la – ele ameaça e sai em direção aos dormitórios.
Fico estendida no chão até o momento que Brittanny passa em direção à cachoeira.
― Segure minha mão – ela diz.
― Você não precisa me ajudar – respondo.
― Eu sei – sua mão continua estendida e resolvo aceitar a ajuda. Ela me levanta e me leva até a cachoeira, para beber um pouco de água. Sem perceber Alynn se junta a nós.
― Você está bem? – ela questiona ao sentar ao meu lado. – Logan comentou.
― Agora está tudo certo.
Conto para as garotas sobre o pássaro e minha teoria. Brittanny volta para o centro antes de Alynn, que fica comigo por mais alguns minutos. Permaneço sozinha na cachoeira até o sol apontar o meio do céu.
De tarde procuro por frutas para saciar minha fome, encontro algumas maçãs e goiabas, não era exatamente o alimento que eu desejava, mas me mantém satisfeita.
Com a chegada da noite, chamo Alynn em um canto afastado dos demais, para expor minha teoria.
― Não sei explicar o motivo, mas acho bom ficarmos afastada do centro essa noite, Alynn – comento baixo.
― Só porque faz uma semana? – ela questiona.
― Pode ter alguma lógica – dou de ombros. – Não podemos desconsiderar nada.
― Eu sei, mas, o que você quer que eu faça? – ela pergunta, vejo o medo em seu rosto.
― Fique próxima às árvores, algo do tipo – sugiro.
― Ok.
Ambas ficamos em silêncio pensando em hipóteses. Os demais estão em uma roda conversando, próximos aos dormitórios. Hoje é dia em que não durmo lá. Nos juntamos aos demais, sento-me entre Brittanny e Alynn. Brittanny tem a sua patotinha, mas ela é bastante generosa com todos os outros, sempre solícita a ajudar. Acredito que assim que Logan comentou o acontecido, ela veio procurar-me, antes mesmo que Alynn. De todo modo, sinto que estou em dívida com ela.
O ruído começa de forma silenciosa, mas noto desde o início. Aceno com a cabeça para Alynn, afirmando que minha teoria está certa.
― Brittanny, posso falar contigo em particular? – Alynn diz.
― Mas é claro – a garota responde.
― Vamos ali próximo à entrada da floresta, pode ser? – Alynn sugere e as duas levantam-se.
O ruído se intensifica e todos procuram de onde ele vem, mas eu já tenho certeza.
Depois de alguns segundos é possível ver a garra vindo em nossa direção. Todos começam a levantar-se rapidamente, correndo para todos os lados. Me ponho de pé, mas não corro para fugir, mas sim para alcançar meu objetivo: Charles.
Seguro o garoto que está exatamente no centro do Vale. Ele se debate, tentando se livrar de minhas mãos, mas não consegue. Envolvo-o com meus braços e dedico toda a minha força em segurá-lo. Olho para o céu e vejo que a garra se aproxima cada vez mais. Ela deve estar cerca de 30 metros de nós, quando empurro o garoto no chão, fazendo-o bater a cabeça. Corro em disparada para a cachoeira e noto que muitos estavam acompanhando a cena de perto. A garra não tem problema nenhum em pegá-lo, que apesar de consciente, estava se recuperando do impacto. Ao estar dentro da garra, ele grita e geme muito alto. A garra sobe rapidamente, levando-o junto.
Sorrio ao ver a garra desaparecer na escuridão do céu. Essa é a última coisa que vejo, após sentir uma pancada em minha nuca.
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