A OFERENDA

4 Capítulo 03


Notas iniciais
#luto

Após identificar que um grito vinha de dentro da garra, todos nós corremos em sua direção. Muitos se aproximaram na tentativa de ajudar e salvar a pessoa que estava em imenso perigo. Eu fui por curiosidade, até mesmo porque não tenho obrigação de salvar ninguém por aqui. Pra mim ficou claro desde o primeiro dia que estão jogando conosco e todas as ações seguintes confirmaram isso – principalmente o surgimento desta garra.

Com a correria era impossível identificar quem estava dentro da garra, uma vez que a máquina também rangia forte. A garra se fechava à medida que nos aproximávamos, diminuindo o espaço para quem estava lá dentro.

― Gente, parem de chegar perto – disse Winter. – A garra se fecha a cada passo que damos.

Todos pararam quando a garota alertou, mas estava muito escuro e não era possível enxergar quem estava dentro dela. A pessoa havia parado de gritar.

― Eu não consigo ver daqui – disse pausadamente Eva, se aproximando lentamente, um passo a cada palavra.

― Não Eva! – eu disse.

― Só mais um pouco, Lílian – ela me respondeu.

A garra se fechava cada vez mais, mas não escutávamos mais nenhum grito vindo de dentro dela. Eva chegou a menos de um metro da garra que estava totalmente fechada, alguns segundos depois, ela começou a flutuar em direção ao céu, até desaparecer na escuridão da noite. Me pego olhando para todos ao meu redor, tentando lembrar quem não está presente.

― Foi o Igor? – digo em voz alta.

― Não, eu estou aqui – vejo-o saindo de trás de Brittany.

― Ray! – escuto Logan dizer. O relacionamento dos dois rapazes era bastante saudável desde o primeiro dia no Vale. Acredito que ter alguém da mesma idade, com a mentalidade parecida e do mesmo sexo foi importante para ambos. Fico um pouco admirada por Ray ter sido pego, afinal, ele era um dos mais fortes aqui, em minha opinião.

Volto para o Centro do Vale caminhando, tendo Magrit ao meu lado. A garota se parecia muito comigo e até o momento foi a pessoa que eu mais conversei. Nós duas hoje teríamos que dormir sobre a grama e eu, particularmente, não estava muito animada com isso.

― Magrit, eu tenho algumas teorias – digo ao sentar ao lado da garota, em uma das grandes pedras próximas ao centro.

― Estou ouvindo – ela responde, se ajeitando.

― Elizabeth chegou e Ray se foi. Talvez sempre que surja uma pessoa, outra precisa ir. A frase no braço dela dizia que a última não seria a primeira.

― Mas se for assim, Lílian, isso nunca terá fim? Sempre terá alguém novo?

― Não sei. Ou talvez, Elizabeth foi o que desencadeou isso tudo.

― Você acha que ela está escondendo algo? – Magrit fala baixinho, para que ninguém escute nossa conversa, embora o pessoal esteja se preparando para dormir.

― Eu acredito que não. Acho que ela foi só mais uma azarada em vir para cá.

― Será que a garra vai voltar? – ela pergunta, parecendo assustada.

― Vamos torcer para que não volte, né?

― Exceto se for para trazer comida e ferramentas – ela lembra.

― Isso mesmo! – rio com Magrit.

― Estou com sono. Vou tentar dormir nesse chão duro – ela diz rindo; pelo menos leva isso com bom humor.

― Também tentarei.

Procuramos um lugar plano próximo à cachoeira, pois a noite está bastante quente e a água pode amenizar um pouco o clima. Antes de dormir penso um pouco sobre a morte de Ray e o que isso pode influenciar ao grupo. Magrit não demonstrou tristeza com sua morte, assim como eu preferi não demonstrar nada. Não quero me mostrar fraca em frente aos demais, isso não significa que eu não sinta pela morte, apenas não irei demonstrar.

― Olhem aqui! – escuto alguém gritando e abro os olhos assustada. O sol já está raiando, parece que a noite passou voando e eu nem senti por dormir no chão duro.

Magrit já não está mais ao meu lado. Como não há gritaria, lavo meu rosto com tranquilidade e me dirijo até onde há uma concentração maior de pessoas. Igor aponta para cima de uma árvore, me esforço para enxergar o que ele está indicando antes mesmo de chegar próxima ao local, mas, somente junto do grupo consigo identificar: um pássaro.

Pela primeira vez avistamos um animal aqui. Tenho certeza que o pensamento de todos é o mesmo: carne!

O dia passou normal, não apareceram outros animais e o único pássaro visto sumiu após algum tempo. Ricky e Diana foram novamente até a cachoeira para ver se encontravam mais alguma coisa, mas não tiveram sucesso. No meio da tarde resolvo ir sozinha até a ponte, com o intuito de encontrar algo diferente por lá.

A ponte fica do lado inverso ao local onde montamos nossas coisas. Feita de madeira e cordas, ela balança muito quando alguém está em cima. Não é possível afirmar o que segura a ponte, já que a montanha está no meio dela, mas é bastante intrigante.

― Descobriu algo? – Charles questiona. Não notei sua chegada.

― Não.

― E se tentarmos derrubá-la? Ela não parece muito forte – ele sugere.

― Mas se esse for o meio para escaparmos daqui? – tenho minhas dúvidas em relação a este lugar, tudo parece possível de acontecer.

― Não me parece provável – ele afirma, tanto subindo na ponte.

― E como você sugere derrubá-la?

― Pulando? – ele propôs.

― Não acho que o nosso peso seja suficiente.

― Podemos conversar com algumas outras pessoas.

― Talvez – ele me parece bastante pensativo. – E se tiver alguém por trás disso tudo, talvez a gente o deixe chateado e podemos considerar isso uma vingança pela morte do Ray.

― E então o alguém manda outra garra para nós aprendermos a não destruir o que tem no Vale.

Charles não responde ao meu comentário e vejo-o retornando para o centro do Vale. Continuo sobre a ponte e começo a pular sobre cada uma das divisórias de madeira. Sinto que com ao se aproximar da montanha a madeira range mais, então penso que estão mais fracas. Uma das madeiras então se desprende e cai na água corrente. Meu pé fica trancado e não consigo tirá-lo. Sento na ponte e puxo minha perna com toda a força, porém, não é suficiente e acabo cortando parte da minha canela. O sangue escorre e a cada minuto a madeira machuca ainda mais.

Não sei quanto tempo fiquei ali presa, mas a noite começa a surgir e eu começo a ficar nervosa com a possibilidade de permanecer aqui a noite nota. Pensamentos surgem em minha mente, como a hipótese da garra vir novamente e eu não ter chances de escapar. A madeira continua a me ferir a cada minuto, enquanto sinto o sangue escorrer pelo meu pé. A única pessoa que sabe que estou aqui é o Charles e eu temo tê-lo magoado, fazendo com que ele não se preocupe com minha ausência. Não é possível que Magrit não se importe também. Certo, eu não posso exigir de alguém aquilo que eu não faria.

A noite chega e eu ainda estou ali presa. Sei que é inútil gritar, pois estou muito distante do Centro. Quando menos espero percebo duas pessoas se aproximando: Logan e Ricky.

― Lílian? – um deles fala.

― Tranquei meu pé na ponte – respondo.

Ricky se aproxima, tentando enxergar o buraco que acabei fazendo.

― Estou há tanto tempo aqui que não consigo mexer meu pé. Cortei minha canela, saiu sangue a todo o momento – explico.

― Não vou conseguir te ajudar por aqui – diz Ricky. – Vou entrar na cachoeira e escalar a montanha e tentar mexer seu pé por debaixo da ponte.

― Está escuro Ricky – Logan diz –, você não vai conseguir.

― A gente tem outra opção, Logan? – Ricky parece nervoso.

Por um momento pensei que sim, existe outra opção: me deixar aqui presa e tentar me ajudar somente quando o sol surgir. Mas de modo nenhum comentaria isso. Quero mais que tudo sair daqui.

Ricky tira sua camiseta e entra na cachoeira, cuja água vai até a altura do seu pescoço. Com certeza me cobriria, afinal, Ricky é maior que eu. Ele começa a escalar a montanha, com certa dificuldade, devido à escuridão.

― Agradeça por estar caída próximo à montanha, Lílian – Ricky comenta.

Ricky firma os pés na montanha e se segura em um pedaço de corda da própria ponte, e assim, consegue chegar até o meu o pé.

― Vou mexer no seu pé agora, Lílian – ele diz.

― Ok.

Ele torce o meu pé para fora, já que é o meio mais fácil de tirar meu pé do buraco, no entanto, é o mais doloroso também. Seguro um gemido, novamente não quero demonstrar fraqueza. Após alguns segundos exercendo força sobre ele, Ricky consegue tirá-lo do buraco. Ele se joga na cachoeira e nadando rapidamente volta para terra firme.

― Você quer ajuda para ir até o centro do Vale, Lílian? – Ricky diz ao pegar sua camiseta sobre a grama.

― Acho que consigo ir sozinha, Ricky. Mas agradeço se você for ao meu lado, caso eu fraqueje.

― Sem problemas.

Ricky, Logan e eu voltamos ao centro do Vale, onde encontramos a maioria das pessoas dormindo.

― Temos que limpar isso e enfaixar – diz Logan.

― Não temos material para isso – afirmo.

― Vou pegar água para lavarmos e alguma camiseta que era do Ray para cobrir seu ferimento – diz levantando-se para encher um recipiente de água limpa.

― Obrigada por hoje, Ricky – sussurro. Pra mim é difícil aceitar a ajuda das outras pessoas, gosto de conseguir as coisas pelo esforço próprio.

― Não estou com vontade de ver outro de nós morrer – ele afirma com o rosto fechado, ao lembrar de Ray. – E não tem pelo que agradecer.

― Certo.

― Ricky, rasga para mim um pedaço da camiseta?

― Claro – Ricky agarra a camiseta que Logan joga.

Logan coloca água no meu ferimento, passando seus dedos levemente, limpando o local. Em seguida abre uma lata de álcool que recebemos na caixa e me mostra, para que eu fique ciente que vou sentir dor, mas sei que é preciso. Em despeja um pouco de álcool e eu seguro o grito dentro de mim. Ricky passa o pedaço de pano, Logan dá algumas voltas em minha canela e em seguida amarra-o na parte de trás.

― Acho que podemos descansar agora – Logan sugere. Ricky e eu concordamos.

Acordo assim que o sol surge e sinto minha canela latejar. Saio da rede em que dormi e sento no chão, afastada dos outros dormindo. Magrit me vê levantar e me segue.

― Onde você estava? – ela pergunta ainda sonolenta.

― Fiquei presa na ponte.

― Eu não sabia, desculpa – ela lamenta.

― Tudo bem, Ricky e Logan me ajudaram.

Retiro o pano que Logan colocou ontem e vejo que o corte foi profundo, porém, não muito extenso.

― Dói muito? – ela olha o corte com cara feia.

― Doeu mais ontem. Magrit, quero ir até a ponte novamente.

― Pra que?

― Só curiosidade. Quer ir comigo?

― Agora?

― Sim – levanto-me e começo a caminhar lentamente em direção ao outro lado do Vale, até que Magrit se decide e me alcança.

Caminhamos devagar, por isso, o trajeto demorou mais que o comum. Chegamos à ponte e fico surpresa assim que a vejo.

― Magrit, o pedaço de madeira que caiu ontem reapareceu!

Notas finais
Não me matem por matar alguém. Foi difícil, juro.