A Nova Guardiã

20 Íris e Breu: A União


Ah, a tão aguardada viagem de natal finalmente chegou. E como nós estávamos apreensivos! Estávamos com muito medo de que algo desse errado, mas aquela era a nossa única saída para nos livrar do problemão em que o Breu havia nos metido, quando destruiu toda a fábrica do Norte. O trenó do Papai Noel já estava pronto, com todas as suas belas renas. Pois é, o plano do Breu tinha um furo: Não destruiu o trenó. E isso nos dava uma grande vantagem, afinal nada melhor para viajar o mundo do que o trenó do Papai Noel. Eu nunca havia andado naquele trenó, mas estava bem curiosa para saber como era aquela experiência.

_Todos a bordo! – disse o Norte – Ah, e apertem o cinto!

_Mas cadê o cinto? – falei.

_Ih, Roberta... Essa aí já é bem velha! – disse o Coelhão – Não tem cinto!

Nós, então, nos acomodamos no trenó. O Papai Noel, vendo que todos nós já estávamos prontos, levantou o trenó em pleno ar. A vista era muito bonita.

_Próxima parada... Alemanha! – disse o Norte.

Quando nós chegamos lá, começamos a visitar as casas uma por uma. Nós não falávamos alemão, mas ao menos tentávamos. Porém, não era preciso falar a língua deles. Eles já se impressionavam simplesmente com a nossa presença. Eles nos abraçavam e admiravam os nossos poderes. Eu tive um pouco de dificuldade no início para que as crianças me vissem, mas, ao fazer alguns pinguins, cachorros e biscoitos de fogo, elas já acreditavam em mim. Sim, o meu poder me ajudava muito, pois com ele, as crianças passavam a me ver e a sensação de observá-las sorrindo era mesmo maravilhosa.

_Ufa, eu estou cansado! – disse o Coelhão.

_Mas já? – indagou o Jack Frost – Nós ainda temos que percorrer mais de duzentos países, canguru!

_Eu não sou nenhum canguru! – respondeu o Coelhão, já furioso.

_Por favor, parem de brigar! Vamos para a Itália! – disse o Norte.

_Oba, pizza! – comentou a Fada do Dente.

Os olhos do Sandman até brilhavam. É, ele também gostava muito de pizza.

_Nada de pizza, galera! – disse o Coelhão – Foco, está bem? Foco!

Enquanto eu e os outros guardiões ralávamos para que as crianças gostassem das nossas palhaçadas, o Jack Frost ficou numa boa, comendo pizza.

_E aí, gente? Quem quer pizza? – disse ele.

_Seu fanfarrão! Para com isso! – disse o Coelhão – O natal é uma coisa séria!

_Perco o natal, mas não perco a piada – retrucou o menino da neve.

_Então, pessoal... – disse o Papai Noel – Agora nós vamos para a França! Alguém aí fala francês?

_Et trés bien! – falei – Eu aprendi na escola!

_Uhu! E como se diz “Eu odeio o Coelhão” em francês? – perguntou o Jack Frost.

_Para de caçar confusão! – disse a Fada do Dente.

_É isso aí, senão eu vou rodar a baiana! – disse o Coelhão.

_Fica frio, canguru, cadê o seu espírito de natal? – disse o Jack Frost.

E fomos para a França. Lá nós tivemos até um tempinho de voar pela Torre Eiffel. E, puxa... As crianças de lá fediam e muito! Pois é, será que era mesmo verdade que os franceses não tomavam banho?

Então, resumindo aquela viagem toda nós, visitamos tudo quanto é tipo de lugar. Da Rússia até a Austrália. Do Japão até os Estados Unidos. Do Brasil até a África do Sul.

_Ufa... – disse o Papai Noel – Eu acho que nós visitamos todos os países!

_Seu lesado, você se esqueceu da Suécia! – disse o Coelhão.

_Mas eu já visitei a Suíça, Coelhão! – respondeu o Norte.

_Eu disse Suécia, seu velho surdo! – berrou o Coelhão.

_Ah, sim, Suécia! – disse o bom velhinho, enquanto ria.

Nós, então, visitamos a Suécia. E pronto, finalmente nós conseguimos terminar o percurso.

_Vocês têm certeza de que não se esqueceram de nenhum lugar? – disse o Norte.

_Minha gente, eu fui até na Área 51! – disse o Jack Frost.

_E o que tinha lá? – perguntamos, curiosos.

_Extraterrestres!

_Sério mesmo?

_Sim, eu até adotei um. O nome dele é Bob! – disse mostrando-nos um pequeno ET verde, do tamanho de um bebê – Ele parece bem simpático!

_É melhor você devolver esse ET, senão, quando derem falta dele, nós vamos entrar pelo cano! – falei.

_Ah, mas ele é tão bonitinho! – disse ele.

_Devolve!

_Ah, mas...

_Eu disse devolve! – falei.

_Ah, está bem...

E, quando ele devolveu aquela coisinha estranha à Área 51, voltamos ao Polo Norte. E percebemos que o globo terrestre estava mais luminoso do que nunca. Na verdade, ele estava tão coberto de luzes douradas que era até difícil olhar fixamente para ele. Nós nos abraçamos e ficamos tão felizes que poderíamos morrer. Ficamos com aquela sensação de dever cumprido. Já era de manhã. Nós estávamos cansados e resolvemos dormir. Porém, antes que nós pudéssemos ir para as nossas camas, alguém apareceu: O maldito Breu. Não... Ele de novo não...

_Eu, olhando em meu pequeno globo terrestre, percebi que algo estava errado... Era para ele estar sem uma única luz! Mas ele está tão brilhante que está ofuscando a minha visão! O que vocês fizeram? Vocês estavam sem os presentes, seus tontos! Vocês... Vocês burlaram a ordem das coisas? Hein? O que vocês fizeram para estragar o meu plano implacável, seus estúpidos?

_Em primeiro lugar: O único estúpido aqui é você, porque o seu plano deu errado! Em segundo lugar: O nosso plano deu certo! Nós demos a volta ao mundo, visitando todas as crianças de cada país e, assim, elas continuaram acreditando no Papai Noel e em todos nós! – falei.

_Ah, mas quem foi o ridículo que elaborou esse plano?

_Fui eu, Breu. – falei, olhando bem no fundo daqueles olhos dourados que, apesar de tudo o que eles já me causaram, não me eram mais amedrontadores.

_Droga, mas você é um ultraje em pessoa! Uma pedra no meu sapato! Uma insuportável!

_E depois você diz que me ama...

_Eu te amo, mas também te odeio!

_Pois eu tenho a mais absoluta das certezas de que te odeio!

_Nas vezes em que eu te beijei, os seus olhos não diziam isso!

_Vá embora, Breu! Você não tem mais poder, contra nós! O seu plano fracassou! Suma daqui, rápido!

_Íris, eu só queria que ela estivesse aqui comigo, eu só queria que ela pudesse me abraçar de novo, pudesse me beijar de novo.

_Chega de devaneios, Breu! – disse o Jack Frost – Morra!

_Calma, cara! Eu resolvo isso! – falei – Eu já sei como devolver a sua Íris, Breu!

_Como?

_Você só pode se juntar a ela se resolver se tornar um ser da luz! Um espírito das trevas não pode ficar com ela!

_Mas por quê?

_Essa é a regra, Breu! Luz com luz. Trevas com trevas. Eu a vi. E ela disse que é assim que tem que ser!

_O quê, Roberta? – disse o Jack Frost – Você a viu?

_Depois eu te explico, cara! – falei.

_Eu prometo ser um ser da luz, Roberta... Mas só se você prometer que vai me levar até a Íris!

_Não, nada disso, Breu! Você tem que se tornar um ser da luz, mas isso tem que partir do seu coração! Sem pedir nada em troca!

_E se você estiver me enganando? Não! Nunca! Jamais!

_Então, Breu, você estará condenado às trevas para sempre. Por que, para ter a sua Íris de volta, será preciso confiar na sua maior inimiga: Eu!

_Eu nunca serei da luz, nunca!

E desapareceu no ar.

Ele, com certeza, foi para o esconderijo dele. Eu preciso ir atrás dele! Eu preciso ajudá-lo!

_Não, Roberta! Ele vai tentar te beijar de novo! – disse o Jack Frost.

_Eu sei me cuidar, cara! – falei – Deixa comigo, eu vou salvá-lo das trevas, eu juro que eu vou! É essa a minha missão! A Íris me disse que eu era a única pessoa que poderia salvá-lo! A única!

Eu, então, fui andando. Ele, preocupado, colocou a mão esquerda no meu ombro e disse:

_Toma cuidado, Roberta!

_Pode deixar — falei, beijando o rosto dele.

Assim, eu resolvi voar até o esconderijo do Breu. Lá, eu o encontrei, escrevendo um poema. Ele ainda não tinha terminado de escrever. Apenas uma estrofe estava no papel:

“Acorrentam-me, prendem-me, torturam-me.

E isso só me faz afundar ainda mais nas trevas

Porém, todos esses dissabores valeriam a pena

Se ao menos eu pudesse ver a Íris de novo”

Ele estava chorando. Eu peguei a mão dele e disse:

_Você acha mesmo que alguém que tem sensibilidade o bastante para escrever algo tão lindo assim poderia ser feito somente de trevas?

_O que eu escrevo não presta... Isso não passa apenas de um punhado de versos sem sentido... Essa é uma coisa indefinível, sabe? Você não me entende, Roberta...

Eu, então, o abracei e disse:

_Eu te entendo, sim, Breu... – No início ele se assustou com o meu abraço, mas logo depois retribuiu:

_Eu te amo, Íris... – disse ele.

_Vá para a luz Breu... O Homem da Lua saberá te guiar para o caminho certo... Eu tenho certeza de que você ficará bem se resolver largar essa sua vida de trevas!

_Você tem razão, Roberta... No entanto, eu não consigo me distanciar das sombras... A escuridão, de alguma forma, me atrai! Eu não consigo resistir a essa tentação!

_E o que a escuridão te trouxe até hoje, Breu?

_Nada... – disse ele, chorando.

Eu limpei as suas lágrimas e lhe disse:

_Então... Por que você não se decide pela luz? A Íris esteve e está lá, esperando-te por anos e anos... Vá até ela, Breu! Ela precisa de você!

_E eu também preciso dela, Roberta... Muito mesmo... Assim como eu preciso escrever... E, isso me faz lembrar de um texto do poeta alemão Rainer Maria Rilke...

_E como é esse texto?

_No escuro da noite, confessa a ti próprio que morrerias se te proibissem de escrever. Procura a resposta nas profundezas do teu coração, no lugar onde as suas raízes se estendem, e pergunte-se: preciso escrever?

_Lindo texto... Você gosta mesmo de poesia...

_Eu tenho um livro de poesias... Eu... Eu quero que ele fique com você... Para que você possa se lembrar de mim... – disse, entregando-me o livro.

_Obrigada – disse, dando um beijo no rosto dele – Eu creio que esse seja um presente de natal, certo?

_Talvez... O que você quiser que seja... – disse, sorrindo levemente.

_Se você me permite dizer... Os seus olhos são lindos... – falei.

_Obrigado... Os seus também são... Eu não sei direito o que você é, Roberta, e eu acho que, por mais que eu tente, eu nunca vou saber... A única coisa que eu sei é que... Bom... Você é um ser extraordinário...

_Não, Breu, você que é! – falei – Você é a pessoa mais complexa que eu já conheci em toda a minha vida! Você é... Você é especial!

_Você acha isso mesmo?

_Sim!

Ele, então, me abraçou bem forte. Eu retribuí o seu abraço. Aquele momento durou alguns minutos. Ele, assim, beijou a minha testa.

_Eu vou me entregar à luz, Roberta! Eu prometo que eu vou!

_Então, diga, o mais alto que você puder, Breu! Diga que você está arrependido das atrocidades que você já cometeu, diga que você quer recomeçar. Diga que você quer a luz! Diga, agora!

_Eu estou arrependido! Eu quero... Eu... Eu quero ir para a... Não, Roberta, eu não consigo, não tem como eu ir para a luz, eu estou com muito ódio dos guardiões por terem arruinado o meu plano! Eu quero matá-los! É isso aí!

_Não! – falei, segurando as duas mãos dele. – Não fique assim! Desprenda-se da escuridão! Liberte a si mesmo!

_Diga apenas uma coisa, Roberta: Você me perdoa por tudo o que eu já te fiz?

_Eu te perdoo Breu! De coração! – falei, sem desviar o olhar.

_Obrigado, Roberta... É que... Sem o seu perdão, eu sinto que tenho uma dívida com você nesse plano... Mas agora que todas as pontas soltas já foram amarradas, eu decido plenamente que eu quero ir para a luz! Sim, eu quero ir para a luz! Isso é tudo o que eu mais quero! – disse, gritando com todas as suas forças.

De repente um facho de luz atingiu o Breu e eu. Quando nós vimos, a Íris estava lá. Ela havia se projetado para fora do meu corpo mais uma vez.

_Olá, Breu, essa sou eu... A sua Íris...

_Íris... – disse ele, ainda mais pálido com aquela visão – Essa é você mesma?

_Sim, Breu... Agora que você decidiu se livrar das trevas, eu vou te ajudar nessa empreitada... Segure a minha mão...

Ele, então, segurou a mão da sua amada.

_Adeus, Roberta... – disse a Íris – Agora, nós dois, partiremos para o outro plano!

_Adeus... – falei.

_Obrigado pelos seus ensinamentos, Roberta! – disse o Breu.

_De nada...

_Eu nunca vou te esquecer! – disse ele.

_Eu também não, Breu... – falei, sorrindo.

A Íris e o Breu, então, se beijaram profundamente. Quando isso aconteceu, um grande facho de luz permeou todo o esconderijo dele. Assim eu me dei conta que os dois haviam sumido. Eles realmente haviam partido para o outro plano. Um plano melhor, com certeza.

E naquele momento, enquanto folheava o livro de poesias do Breu, percebi que a minha grande missão, enfim, estava completa.

_Ao menos por enquanto – suspirei, pensando que muitas outras missões ainda viriam, por mais que eu tentasse fugir delas.