A Nova Guardiã
17 Patinando no Gelo
Notas iniciais
Eu havia acabado de despertar, quando de repente percebi que tinha uma carta em cima da minha cama. De quem seria, afinal? O que estaria escrito lá? Só lendo para saber...
"Olá, Roberta! (ok, essa saudação está ridícula).
Eu estou me sentindo um idiota escrevendo isso, afinal eu nunca fui de escrever cartas românticas... Mas, enfim, pelo menos eu não cometo erros de ortografia (você já pensou em como seria receber uma carta romântica cheia de erros de ortografia?). Ah, mas o que eu estou dizendo? Você deve estar se perguntando: Porque esse idiota não vai logo direto ao ponto ao invés de ficar divagando?
Está bem, está bem, vamos logo, você já deve estar super impaciente! Então... É que eu... Eu queria declarar todo o meu amor por você através dessa carta (ok, eu sei que isso é brega, mas nunca sai de moda). É que você é o ar que eu respiro! (merda, essa foi horrível). É... Agora sim vem uma declaração de amor de verdade: Você é maravilhosa, uma deusa, não teria como existir alguém melhor do que você nesse mundo! (que brega, alguém me ajuda!). Assim, eu sou ótimo para me expressar diante de ti quando nós estamos conversando, mas na hora de escrever, as palavras simplesmente somem! Desculpa, você deve estar achando que eu sou um estúpido – e com razão!
Mas, então... (nesse ponto você já deve estar de saco cheio de ler essa carta, mas leia assim mesmo, ok?). Já que eu não consigo escrever bosta nenhuma que preste (perdão pelo palavrão) encontre-me hoje às cinco horas da tarde perto do lago congelado mais próximo da fábrica do Papai Noel, tá? Eu sei que você sabe onde é, então não vai ter problema nenhum (um probleminha ou outro talvez). Ah, e depois que você terminar de ler essa carta (eu sei que a esse ponto você já desistiu de ler, mas mesmo assim...). Rasgue-a e jogue-a fora, ou melhor, queime-a, porque eu não acredito que escrevi algo tão mal escrito para uma garota como você que merecia muito mais do que um cara que não sabe nem escrever um parágrafo coeso e coerente! Ah, já chega, eu falo demais, sabe? Enfim, não falte ao encontro, está bem?
De alguém que te ama (super brega essa despedida)."
Nossa, eu nunca vi alguém tão enrolado assim para escrever! Mas, enfim, ele parecia bem sincero em suas palavras, então por que não? Porém, havia um grande problema: Ele se esqueceu de assinar a carta, ou isso foi proposital? Ah, com certeza era o Jack Frost, ele sempre me disse que não se dava muito bem com as palavras. Eu bem que poderia dar algumas aulas a ele sobre como escrever uma carta decente... Mas enfim, chega de zoar a escrita dele, eu realmente já falei demais...
_Com que roupa eu vou? – pensei comigo mesma.
Eu, então, na hora marcada, resolvi ir com uma das roupas lindas que a Fada do Dente costurou para mim... Eu vesti um belo vestido vermelho (ele era curto e decotado, mas enfim... Não era nada indecente).
Os meus sapatos eram belos tamancos vermelhos de salto fino (lindos!). Eu coloquei alguns acessórios e tratei de pentear os meus cabelos laranja, pois eles estavam um pouco bagunçados. Chegando ao local, lá estava o Jack Frost, lindo como sempre...
_Então, eu sei que a minha carta ficou uma porcaria! – disse ele.
_Tudo bem, o que importa é que isso veio lá do seu coração, não importa se está bem escrito, mas... Uma dica: Não coloque palavrões numa carta romântica, está bem?
_Ah, mas você sabe, eu nunca escrevi uma carta romântica...
_Hum, está bem, eu te perdoo então, mas só se você prometer que vai dar uma melhorada na sua escrita, ok?
_Nossa, ficou tão ruim assim?
_Mais ou menos... Mas porque você não assinou a carta, hein?
_Um pouco de mistério deixa a vida mais divertida... – disse, rindo daquele jeitinho que eu amava... Com isso eu acabei rindo também...
_Mas, enfim, porque esse encontro?
_É que eu queria te dar isso... – disse, mostrando um buquê de rosas de gelo – Passei duas horas fazendo...
Eu fiquei maravilhada com aquele belo agrado que ele me fez... Ele era mesmo muito talentoso! Talvez para compensar as suas parcas habilidades com o português, ele fosse um ótimo escultor!
_Nossa, que lindas essas rosas! Você tem muito talento!
_Ah, que nada... Muitos anos de prática, Roberta! Eu estou sempre mexendo com o gelo, então eu aprendi alguns truques, mas nada demais, sabe?
_Você é incrível!
_Ah, que nada, minha linda, você merece muito mais! Mas... Espera um pouco! Não é só isso! Eu também trouxe uns patins... Assim a gente pode patinar no gelo... É por isso que eu marquei o encontro perto do lago congelado... E aí, você topa?
_E se eu te disser que eu não sei patinar?
_E se eu te disser que eu posso te ensinar?
_Eu vou acabar caindo...
_Não, eu não vou deixar você cair! Você confia em mim?
_É claro que eu confio em você, mas isso é loucura!
_Se isso fosse normal, não seria coisa minha!
Eu ri. Eu gostava de gente doida, afinal os doidos são sempre os melhores, os mais engraçados, divertidos e criativos... E eu sentia que eu também não era muito normal...
_Então, vamos lá! – falei.
Nós calçamos os nossos patins e começamos aquela doideira completamente sem sentido. Eu mal conseguia me manter de pé, porém ele sempre me dava uma ajudinha, ainda bem, senão eu ia acabar de cara no chão... Com o tempo eu fui pegando o jeito e já conseguia pelo menos andar em linha reta por alguns segundos sem cair. Aquilo estava mesmo muito divertido, diga-se de passagem. Eu estava amando aprender a patinar, ainda mais com o meu namorado que além de me dar várias dicas de patinação, ainda me fazia dar boas risadas o tempo todo! Como era bom namorar alguém como ele... A sensação de estar ao lado dele era simplesmente indescritível, não tinha como explicar o que eu sentia quando ele estava por perto... Eu não sabia dizer se eu me sentia viva, assustada, feliz, louca, sem limites ou maravilhada... Enfim, eu acho que, estando com ele, eu sentia vários sentimentos ao mesmo tempo e muito mais... E tentar explicar isso seria indubitavelmente impossível, pois não existem palavras para descrever o Jack Frost. Realmente não existem mesmo.
De repente, enquanto nós patinávamos, eu tropecei e acabei caindo. Ele, na tentativa de me segurar, acabou caindo também. Quando nós vimos, ele estava em cima de mim, rindo de um jeito muito besta, mas que me fez rir também... Ainda bem que o gelo não estava muito fino, senão nós o quebraríamos.
_É... Você é mesmo um tonto! – falei em tom de brincadeira – Você me deixou cair! E ainda por cima você acabou caindo também, seu besta!
_Ah, vai me dizer que você não gostou de ficar assim comigo, deitada, olhando nos meus olhos? Eu bem pertinho de você... Você tão próxima de mim... Eu aposto que você adorou! – disse ele, sorrindo daquele jeitinho travesso que eu conhecia muito bem.
Pois é, eu fiquei toda vermelha, feito uma menininha besta...
_Você sabe mesmo como importunar! – falei, brincando.
_Sua boba! – disse ele, rindo.
_Seu burro! – respondi, rindo também.
Nós ficamos alguns segundos nos olhando com cara de tontos... Eu, então, resolvi tomar a iniciativa e o beijei do jeito mais intenso que eu poderia fazer... Ele correspondeu e pela reação dele foi possível ver que ele gostou da minha atitude. Aquele beijo durou um tempão. Nós rolávamos e rolávamos pelo lago congelado assim como duas criancinhas bobas e nos beijávamos de um modo tão voraz que parecia que estávamos brigando e não namorando.
Quando aquele momento maravilhoso terminou, ficamos um pouco vermelhos, é, era difícil acabar com a vergonha... Quando parecia que nós já havíamos nos libertado dela, a maldita dava as caras novamente...
_Que loucura! – disse ele.
_O quê?
_Esse nosso amor, minha nossa, parece o tempo todo que vai pegar fogo!
_E é aí que você derrete – falei, fazendo uma careta.
_Muito engraçado... – disse ele, irônico.
_Você está duvidando? Um dia eu te derreto!
_Não se eu te congelar primeiro!
_Ah é? – falei, desafiadora, enquanto me levantava — Você não me pega!
Eu, então, saí voando. Ele foi atrás de mim. Nós usávamos os nossos poderes durante a brincadeira, fazendo um verdadeiro show de efeitos especiais... O gelo e o fogo se misturavam de um jeito simplesmente impressionante, formando várias figuras no ar.
_Te peguei! – disse ele, pegando o meu braço.
_Ah, nem pensar! – falei, lançando uma faísca no rosto dele.
_Ei, isso é trapaça!
_Então venha dar o troco! – falei, em tom de brincadeira.
Assim, ele lançou uma bola de neve na minha cara. Eu revidei com algumas pequeninas bolas de fogo que não machucavam, só irritavam um pouco. Nós então seguimos naquela lutinha estúpida durante horas, até que nos deitamos na neve, ofegantes, super cansados. Já era noite e várias estrelas estavam no céu, cintilando.
_Quem venceu? – perguntei.
_Eu, é claro! – disse ele – Sem dúvida, fui eu!
_Eu acho que não, hein? Eu venci, obviamente!
_Nem aqui, nem lá na China! – disse ele, fazendo uma careta besta.
_Besta! – falei, dando um tapinha de leve no rosto dele.
Nós, então, começamos a observar as estrelas. Ficamos em silêncio por um tempo, até que o Jack Frost disse:
_Olha só, aquela é a Ursa Maior!
_Eu não sabia que você entendia de constelações...
_Eu sei tudo sobre as constelações, Roberta! Na verdade, eu sei até mesmo como me guiar através das estrelas... Eu aprendi quando eu era pequeno, porque a minha mãe me ensinou. Ela gostava muito de astronomia...
_Eu só sei o básico mesmo... As estrelas não me interessam...
_Há! Eu sou mais inteligente, então!
_Falou o cara que nem sabe escrever um parágrafo coeso e coerente...
_Que droga, agora você tocou no meu calo!
_Você tocou no meu primeiro!
_Eu te odeio, sua mala sem alça! – disse ele, brincando.
_Sei, bestão...
_Mentira, eu te amo demais!
_Eu também te amo, seu idiota!
_Sua boba!
E ficamos lá durante um tempão, observando as estrelas, enquanto ele demonstrava os seus conhecimentos sobre as constelações. Pois é, aquele bobo gostava mesmo de aparecer...
Mas quem não gosta de bancar o sabe tudo de vez em quando?
Enfim, aquele dia foi simplesmente perfeito.
Eu nunca vou esquecer todos esses momentos maravilhosos que eu estou vivenciando com o Jack Frost. Nunca mesmo.
Por quê? Porque esse garoto perfeito por quem eu me apaixonei só pode ser descrito em três palavras:
Louco, travesso, insubstituível...
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