A Nova Era dos Heróis
2 Capítulo 2-Poderes Descobertos
Notas iniciais
Sábado. Um ótimo dia, para muitas pessoas. Dia em que as pessoas saem às ruas para fazerem compras, passearem, visitarem amigos, se divertirem e várias outras coisas. O dia estava ensolarado e sem nenhuma nuvem no céu, um excelente dia para ir à praia. Bom... Infelizmente não são todas as pessoas que tem o privilégio de aproveitar uma bela manhã de sábado. Uns tem que trabalhar, e eu estou aqui... No colégio; Pedro II, um dos melhores colégios Federais do País. Sim. Temos aula aos sábados.
Aqui estou eu, tentando prestar atenção na aula de Geografia. Não sou um aluno bom admito, sou preguiçoso demais para estudar. Meu futuro já está feito com a música mesmo... Tocando piano. Sou muito bom nisso. Meu nome é Ernesto. Não sou muito alto, tenho um cabelo mediano e um pouco ondulado. Eu tenho aptidão para música, me orgulho do meu ouvido para certas coisas. Para minha desgraça, este professor fala muito com o nariz... Uma voz simplesmente irritante.
Estranhamente, há um tempo não consigo escrever direito, quando olho pro papel ele aparece meio borrado e embaçado. Isso faz já um tempo, tomei uma bronca de um professor por não conseguir ler a equação no livro. Foi o maior vexame, mas a culpa não é minha, não sei o que está acontecendo comigo.
Tenho passado a ouvir coisas que não ouvia antes. Como o arranhar dos gatos no chão debaixo da minha sala, os passos pesados da inspetora que fica na portaria, o giz raspando o quadro negro na sala que fica do outro lado do pátio e o barulho metálico que a água faz ao cair no bebedouro do lado. Deveria estar feliz por ter uma audição apurada, mas isso não é normal e me atrapalha muito. Não me deixa pensar quieto. É incontrolável, ora eu ouço, ora o som para e volta segundos depois. Parece que eu não controlo mais minha audição.
Isso já é revoltante porque posso ouvir coisas que não deveria ouvir. Fofocas das garotas do outro lado da sala, professores falando mal dos alunos, faxineiros reclamando de todos. Eu não quero ouvir, mas não posso impedir. Ouvi coisas ruins, que poderiam acabar com a amizade de alguns com uma simples frase, um simples segredo.
Tenho que andar sempre com um fone de ouvido, pois as pessoas, nessa “nova audição”, gritam nos meus ouvidos. É um som ensurdecedor, o sinal do colégio é de matar e as buzinas são uma tortura. Não consigo controlar nada disso, é inevitável.
Faltam poucos minutos para a aula acabar e eu vou correndo pra casa investigar sobre o assunto, como sempre, não devo conseguir nada. Nunca achei uma página na Internet que explicasse esse problema. Já consultei vários médicos, não disse aos meus pais que ouço coisas a vários metros de distância com medo do que poderiam pensar, mas nenhum dos dez médicos apontou alguma doença em meus ouvidos.
Poderia não ser uma doença, e sim um dom, formado de repente. É a melhor explicação que eu já fiz até agora. Agora o sinal vai bater. Disfarçadamente eu coloco os fones o mais profundo possível. O sinal bateu e parecia que um megafone estava na minha orelha. Não quero saber o que aconteceria se eu tirasse o fone...
Quando estava arrumando a mochila eu guardei meu caderno verde no bolso de trás, virei para pegar o meu estojo, quando voltei a olhar a mochila o caderno estava fora. Tentei agarrá-lo, mas eu só senti o tecido da mochila. Passei a mão nas argolas metálicas e novamente, o tecido. Cocei meu olho e quando olhei o caderno estava desaparecendo e sumiu por completo em uns segundos. Abri a mochila e ele estava lá dentro. Fiquei confuso, mas guardei as coisas novamente e saí de sala.
Antes de ir embora eu queria beber água, fui andando até o bebedouro perto do refeitório porque apesar de tudo, lá fazia menos barulho, com os fones, claro. Quando passei na frente do refeitório eu vi a comida na panela fechada. Era macarrão e na outra carne moída... Eu vi a comida... Na panela fechada! Ela estava nítida aos meus olhos! E de repente desapareceu! Deixando apenas a panela de metal na minha frente. A senhora da cantina abriu e era o que eu havia visto. Macarrão com carne moída. Comecei a ficar assustado.
Cheguei no bebedouro, bebi um pouco de água, quando olhei pro lado eu vi dois faxineiros conversando dentro da sala com os equipamentos de Educação Física. Não havia porta alguma! Eles estavam acabando de comer e foram andando até a saída. A minha visão deles desapareceu e eu vi a sala com as portas fechadas, e vi os faxineiros saindo de la! Eu olhei através da porta!
Recuei um pouco de medo e esbarrei sem querer numa senhora que carregava uma caixa de madeira. Mas de repente as maçãs apareceram, eu via as maçãs dentro da caixa!
– Olhe para onde anda! Cuidado com as...
– Maçãs!
– Como sabe que são maçãs?
Eu fiquei apavorado e saí correndo sem mais nem menos para a saída do colégio. As pessoas estavam um pouco embaçadas na minha visão, esbarrei em muita gente, foi quando comecei a ver tudo em tons de azul. Grama, luzes, árvores, pessoas... Do nada comecei a enxergar esqueletos de todos! A visão mudava de pele para músculos, órgãos, ossos, veias! Olhava pra baixo e via os gatos e ratos nos túneis, olhava pros lados e via a rua, de repente via a sala ao lado! Eu estava vendo através de tudo! E EU NÃO PODIA ME CONTROLAR!
Estava chegando na saída do colégio quando vi um vulto esbarrando em mim me lançando pra parede. Quando abri meus olhos, minha visão começou a retroceder. O azul sumia, e os corpos das pessoas se “enchiam” na minha visão. Quando toda a minha visão voltou ao normal eu cocei meu olho e olhei pro outro lado do corredor. Minha amiga Vanessa estava jogada no chão.
– Pô Ernesto, você me deixou jogada aqui!
– Hein? Arf... Desculpa. – Ajudei a Vanessa se levantar.
– Você tava a mil por hora! Ta fugindo do Giovanni?
– Que? Ah! Claro! Sim, sim, ele tava correndo atrás de mim. Arf... Eu te machuquei?
– Ah relaxa, eu to bem. Você viu a Marina? O irmão dela ta preocupado.
– Nem, vi... Estava procurando ela?
– Tô, você pode me ajudar?
– Ah, ok tudo bem.
Fui andando para o andar de cima, ainda pensando no que estava acontecendo comigo. Primeiro eu tenho essa super-audição evoluindo a cada dia, agora eu posso ver através de tudo, e não tenho controle nenhum sobre nenhum dessas duas coisas. Eu devia tentar controlar. É como voltar a ser bebê, meu corpo não usava as cordas vocais direito, com o tempo eu fui controlando-a com sons até chegar na primeira palavra.
Agora eu tenho que ter auto-controle sobre isso, tenho que saber como usar esses dois dons. Será que eu consigo? Forçando meu olho sobre vários locais por um tempo eu finalmente consigo algum progresso, mas perdi o controle novamente, as coisas começaram a ficar azuis, e as pessoas estavam virando esqueletos. Não, pensei, não vou deixar isso me controlar. Forcei a vista algumas vezes e depois de muitas tentativas consegui parar de atravessar as coisas. Minha visão estava estável.
Agora eu tinha que voltar porque eu não conseguiria andar pelo colégio olhando pra rua de fora. Instintivamente eu consegui fazer minha visão retroceder, e avançar na profundidade do raio-x. Comecei a voltar ao normal, tive de lutar contra meus hormônios e não deixar a visão chegar debaixo das roupas, eu não era pervertido, além do mais, há muitos homens aqui, não seria uma visão agradável. Consegui voltar ao normal. Agora era só usar esse poder e achar a Marina.
Enquanto caminhava testando minha visão eu percebi algo. Eu posso controlar essa visão azul também. Ela me deixa parecendo uma máquina de raio-x. Além dessa visão eu tenho outra, mais útil pra procurar a Marina. Eu posso ver as coisas através das paredes, porém em volta delas há um borrão da parede à frente. É como se eu fizesse um buraco nas paredes e enxergasse o que há atrás. A visão azul é para ver muitas coisas de uma vez.
Isso era fascinante! Não sei como eu consegui esse poder, mas é simplesmente incrível!
Animado e correndo, fui procurar a Marina. Onde ela poderia estar? Já a procurei na Biblioteca, na cantina... A sala de artes! Eu ainda não fui. Desci rapidamente e fui até lá. Estava fechada. Usei minha visão raio-x e vi a Marina. Ela estava de costas pra porta com um pincel na mão desenhando sobre uma tela. Mas a porta estava trancada! Eu gritei por ela, mas ela não se virava. Continuava lá pintando, na sala que estava com as luzes desligadas!
O que eu ia fazer agora? Vi o inspetor com algumas chaves no bolso e decidi que iria pegá-las, ele estava dormindo e lentamente eu as tirei de seu bolso. Não havia ninguém no corredor, e então eu abri a sala, me virei e fechei a porta com cuidado.
– Marina! Seu irmão estava te procurando! Como você entrou aqui?
Ela não se virava.
– Marina? Você ta bem?
Me aproximei e ela largou o pincel de suas mãos. Eu parei e aguardei algum movimento. Ela começou a cair, mas eu a segurei antes que caia, olhei para seu rosto, ela estava boquiaberta e com os olhos totalmente cinzas. A coloquei no chão e vi a pintura que ela fazia.
Era a Terra se explodindo como uma bomba!
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