A Máscara de Seth
7 Capítulo 7
Notas iniciais

O culto havia terminado, porém não as solenidades.
Um cortejo composto por três automóveis negros levavam Shaka, Mu e os quatro sacerdotes Setitas, um deles o membro honorável do Conselho, Asmita, para a mansão de Shaka.
A presença de Asmita era fundamental à conversa que se seguiu noite à dentro, regada à sonata de piano que Afrodite tocava enquanto os cinco Setitas conversavam e Mu apenas ouvia.
Shaka pedia à Asmita uma audiência junto ao Conselho, aonde ele iria pessoalmente pedir medidas a serem tomadas em resposta aos ataques que vinha sofrendo por parte dos Espectros das Sombras e sobre quem os estava liderando. Apesar de serem um clã relativamente novo, tinham já conseguido formar uma certa ordem. Ambiciosos e muito violentos, estavam se organizando rapidamente, e diante dos olhos do Conselho, visto que Hades, seu representante, estava acima de qualquer suspeita.
Resolvida a questão, já tendo decidido que Asmita convenceria o presidente do Conselho a receber o sumo sacerdote o quanto antes, Shaka ordenou que Afrodite deixasse o piano e que viesse alimentar seus convidados, habito comum entre eles.
Foi nessa hora, quando o jovem de cabelos louros separou-se do instrumento e arrastou a banqueta para trás levantando-se, que Mu educadamente pediu licença e se retirou da sala.
O Nut havia permanecido ali reunido com eles na verdade mais para apreciar a belíssima música do que para deliberar acerca dos assuntos do clã com os outros membros, uma vez que nada entendia da tal organização social criada pelos imortais do novo mundo. No entanto, ao saber que todos ali iriam se alimentar do jovem músico, mesmo sem fome alguma preferiu deixar o local, uma vez que o sangue, seu odor e a vida lhe instigavam de forma arrebatadora, e era nessas horas que ele mais temia perder o controle da Besta.
Não podia correr o risco de revelar sua maldição frente os sacerdotes e muito menos o risco de matar o servo de Shaka.
Por isso, enquanto sentia o odor do sangue de Afrodite impregnar praticamente toda a mansão, Mu embrenhava-se no corredor escuro às pressas em direção ao porão, onde entrou e rapidamente batendo a porta atrás de si.
Encostando-se nela, de costas, fechou os olhos na tentativa de conter seu furor. Em seu rosto cianótico, pequenos vasos negros já se desenhavam em torno dos olhos, cujas íris se tingiam de vermelho escarlate sob as pálpebras que tremelicavam.
Na tentativa de distrair a mente e ludibriar o demônio dentro de si, Mu abriu os olhos e correu todo o ambiente. Caminhou lentamente até uma estátua feita de bronze que representava a deusa Aset. Não reconheceu a figura de sua mãe nela, mesmo Shaka lhe tendo dito, dias atrás, que aquela era Aset, a esposa de Osíris...
— **Humpf... São todos tolos, minha mãe. Você criou Osíris e a mim. Se soubesse o que o mundo novo fez à nossa história... — balbuciava cabisbaixo, enquanto corria as pontas das unhas pontiagudas pelo rosto gélido da figura em bronze —... Temo não conseguir, minha mãe. É tudo tão diferente, tão denegrido, mas... Ele não. Ele me faz querer fazer parte de tudo isso... Shaka me faz querer viver no novo mundo, mesmo ainda não me enxergando como parte dele... Queria tanto poder ouvir seus conselhos, entender o que sinto...
Enquanto Mu abria seu coração à Aset no porão, na sala a reunião se dava por encerrada.
Ficou decidido que Asmita marcaria uma audiência no conselho, desde que Shaka apresentasse Mu ao Presidente e demais membros, visto que ele era um Nut e tal descoberta singular não poderia ser ocultada daquela forma.
Shaka aceitou os termos e após os sacerdotes deixarem a propriedade, o Setita levou Afrodite em seu colo, já que este estava desacordado após alimentar os convidados do Mestre, para o quarto que ele ocupava na casa e em seguida desceu ao porão a procura de Mu.
Ao entrar no recinto encontrou o Nut de pé foleando um livro que havia pego da estante que ficava ao lado da escadaria.
— Me perdoe. — disse em tom cordial ao aproximar-se dele, parando a seu lado — Sei que ficou apreensivo, mas sempre que eles vêm aqui é de bom tom lhes oferecer meu servo. É uma formalidade do novo mundo.
— Eu entendo. Não se preocupe. — guardou o livro no espaço de onde o havia retirado — Os costumes mudaram deveras desde o meu tempo. De alguns deles poderei fazer parte, de outros jamais poderei. Tenho isso como certo já.
— Tenha como certo também, Mu, que nos que puder fazer parte eu estarei a seu lado e ficarei feliz em dividi-los com você. — sorriu, encarando os olhos do Nut com profundidade, os quais já voltaram a apresentar a coloração verde esmeralda de costume — O que achou do ritual e das Serpentes? Gostaram de você. Geralmente são indiferentes e até agressivos.
— Peculiar... — não queria dizer que achou quase cômico, não o rito em si, mas o fato de ser ele o próprio Seth testemunhando recôndito um culto em louvor a si mesmo — Muito parecido com os ritos realizados em meu tempo e... Deu para perceber que respeitam muito a você e que realmente creem com afinco em Seth.
— Ah, sim! Creem sim. — respondeu Shaka, enquanto caminhava até uma penteadeira que mandou instalar ali. Aos poucos tornava o porão um quarto aconchegante, e também era aos poucos que se instalava nele com Mu, para passar mais tempo a seu lado — A nossa fé é nossa bússola, Mu. Nunca nos perdemos, nem tememos pegar o caminho errado quando somos guiados por ela. Cada um ali crê que Seth retornará em tempos ruins e nos salvará do juízo final. — de costas para Mu, retirava as joias que adornava seu corpo, as colocando sobre a penteadeira.
— Você também crê nisso, Shaka? — questionou o Nut o observando, hipnotizado com cada gesto, cada expressão que o outro executava — Que Seth irá salvá-lo de uma possível condenação? Da segunda e definitiva morte?
— Sim. — virou-se de frente, voltando a olhar para o rosto de Mu — Não apenas nisso, mas creio também que foi Ele quem colocou você no meu caminho.
Ao ouvir aquilo Mu calou-se.
De certo modo Shaka tinha razão, pois acreditava que Seth os queria juntos, quando ele, Mu, era o que mais queria naquele momento.
Não entendia de onde vinha o ímpeto frenético, o desejo por toca-lo. Queria correr suas mãos por todo o corpo do sacerdote, emaranhar seus dedos nos cabelos cor de ouro, aspirar ao odor aprazível de sua pele esfregando o rosto nela e não apenas de longe. Mas, como nunca experimentara desejo parecido, não sabia como lidar com ele.
Foi quando, inquieto e cansado de tentar entender seus instintos apenas por estuda-los, resolveu colocar-se à prova.
Aproximou-se do sacerdote lentamente e como um felino que espreita a presa o abraçou por trás, surpreendendo o Setita, que sem esperar tal atitude assustou-se deixando um bracelete que tinha nas mãos cair ao chão.
Mu afundou o rosto na curva do pescoço de Shaka, finalmente aspirando ao odor daquela pele que tanto lhe mexia com os sentidos. Esfregava o nariz, boca e lateral do rosto na região, ao mesmo tempo impregnando o sacerdote com seu próprio odor e delirando em provar o que aquele contato direto com o outro lhe causava.
— Mu? — Shaka sussurrou intrigado, mas em nenhum momento se mostrando avesso ao gesto. Ao contrário, estava curioso e vibrante — O que está fazendo?
— Preciso tocá-lo, Shaka... Preciso... — sussurrou o Nut em resposta, agora afundando o rosto entre as mechas do cabelo dourado — Não compreendo ainda o motivo, apenas preciso sentir sua pele... Seu cheiro. Acho que agora sei por que lambe meu corpo durante o banho, sacerdote. — apertava o outro corpo contra o seu com força pronunciada.
— Sabe? — respondeu Shaka, antes de livrar-se do abraço forte para se virar de frente para Mu, o encarando nos olhos, agora ele mesmo devolvendo o abraço, enlaçando o Nut e o mantendo aderido a si — Se sabe, então imagina que queira fazer o mesmo. Estou certo?
— Sim! — balbuciou Mu olhando nos olhos azuis do sacerdote — Quero. Quero muito, te lamber, te provar.
Num ato impensado, instintivo e puramente irracional, Mu colocou a língua para fora e deu uma longa lambida em toda a extensão do rosto de Shaka, a começar pela mandíbula, subindo pela bochecha e terminando pela têmpora, onde removeu um pouco da tinta azul que o outro ainda trazia impressa na pele.
— Faça isso, Mu... Me prove! — provocou o loiro, sentindo seu corpo já reagir aquele estímulo, visto que havia se alimentado do sangue de Afrodite ainda há pouco e seu organismo estava vivo naquele instante.
Um arrepio tomou a espinha do sumo sacerdote, irradiando por todo seu corpo e culminando num choque, que o fez estremecer por completo.
Delirante, Shaka sentiu seu membro pulsar. Todo aquele contato com Mu, o qual idealizara há dias, o estava ponto louco.
Soltando gemidos baixos, procurou a mão de Mu e a encontrando atreveu-se a direciona-la até seu órgão vivo e rijo, que de pronto fora agarrado, mesmo que com certa inexperiência e hesitação.
— Shaka... Eu queria... Queria muito provar você... Aaaaahhh — o Nut gemia, ao mesmo tempo estimulando o sacerdote e lhe desferindo outras lambidas bem mais afoitas, no pescoço, ombros, peito...
Estava dividido entre dois mundos, duas realidades, céu e inferno. Tinha o sacerdote como queria, o tocava, o provava, mesmo que apenas com lambidas, mas também lutava com sua Besta interior, reforçando as amarras racionais que a mantinham presa dentro de si, mas prestes a deixa-la escapar, pois o sangue que corria dentro do Setita, quente, perfumado e sonoro, a instigava de forma arrebatadora.
Shaka por sua vez, olhava dentro dos olhos verdes de Mu procurando neles algum indício do demônio feroz que o habitava. Estava delirante com aquele ataque repentino do outro, mas seu instinto de sobrevivência falava mais alto e mesmo entregue às carícias mantinha-se atento.
Não vendo o traço da Besta em Mu, Shaka prosseguiu com as provocações, roçando seu membro ao dele, arranhando a pele pálida e lhe lambendo os lábios aflitos num convite ao beijo tão esperado.
— Sabia que eu também quero prova-lo, Mu? Mais que qualquer outra coisa, eu desejo sentir você...
— Eu... eu também.
— Mas, será que estamos falando da mesma coisa, Mu?
— Do sangue!... Da fome. — sussurrou em êxtase o Nut.
— Não apenas do sangue, falo do corpo. Quero você todo para mim. Quero seu corpo e sua alma!
Tendo confessado, Shaka em seguida desceu as mãos à cintura de Mu e o agarrou com força. O levantando do chão e invertendo as posições, o colocou sentado sobre a penteadeira, já se encaixando entre as pernas dele no instante seguinte.
Com delicadeza, contornou os lábios levemente arroxeados com a garra do dedo indicador, hipnotizado pelo contorno perfeito que eles possuíam, tal qual uma pintura Renascentista.
Sentia-se incapaz de esperar mais um minuto sequer para tomar aqueles lábios entre os seus, saboreá-los a seu bel prazer. Contudo era cauteloso, pois os mesmo lábios que eram o pórtico de seus desejos mais íntimos, também eram arautos da morte.
Absorto em tudo aquilo, Mu começava a sentir seu corpo agora também responder aos estímulos. Antes apenas a Besta se manifestava, clamando por ser solta e por devorar o sacerdote em um único bote. Mas, Shaka era um vampiro e talvez por isso, só por isso, Mu conseguia conter seu ímpeto selvagem.
Ao perceber seu membro enrijecer, afinal havia se alimentado de muita carne e sangue humanos naquela noite, assustou-se. Não havia acontecido muitas vezes, talvez porque ninguém antes do sacerdote o estimulara.
Shaka friccionava seu pênis ao de Mu o enlouquecendo de prazer, porém um prazer que, aos sentidos do Nut, era confundido com fome, e que o arrebatava de forma sedenta e avassaladora.
— Você, sacerdote, me faz sentir como nunca senti antes... — dizia aos sussurros, olhos entreabertos e mãos crispadas nos cabelos dourados do outro.
— E o que você sente? — lambeu o lábio inferior do Nut, correndo ambas as mãos pelas coxas fortes, onde arranhou a pele de leve — Diz para mim.
— Fome... Mas, é diferente.
— Porque não é fome o que você sente, Mu. — mordiscou os lábios provocando-o — Nunca beijou outro imortal? Não falo do beijo que trás a morte aos que vivem, do beijo que carrega a maldição da imortalidade... Falo de um beijo puramente de desejo, de excitação, de amor.
Mu abria a boca permitindo que o sacerdote a invadisse com sua língua, delirando com o ato, enquanto ouvia suas palavras e se empenhava em entender o que seu corpo e sua alma lhe queriam mostrar naquele momento.
— Nunca sentiu desejo carnal, Mu? — continuava Shaka entre beijos desafiadores — Desejo em tomar outro ser para si? Pois eu já desejei muitos, homens e mulheres, mortais e imortais... Mas nunca de forma tão intensa e surpreendente como desejo você!
— Shaka... — tentou dizer algo, mas fora impedido pelo outro que levantava sua túnica e corria as mãos pelas virilhas nuas, ao mesmo tempo em que lhe beijava o pescoço.
— Você mexe comigo de uma forma que jamais imaginei que fosse provar, Mu. Eu quero você. Quero você para mim.
De súbito, Shaka ergueu os braços e agarrou nos cabelos lavanda do Nut para finalmente tomar os lábios dele com os seus de maneira passional, com sofreguidão e ansiedade.
Naquele momento não queria pensar no quanto aquela boca era letal e perigosa. Um segundo apenas e Mu lhe arrancaria a cabeça com uma só bocada!
Porém, o desejo de beija-lo era maior que qualquer cuidado que devesse tomar, e quando sentiu que o Nut, mesmo de forma estranha e contida o correspondia, aprofundou o beijo ainda mais, delirante em estar explorando a arma mais letal daquele vampiro de maneira tão erótica.
Mu por sua vez, empenhava-se em responder à altura, enroscando sua língua à de Shaka, mordiscando seus lábios, alucinado pela sensação que o ato lhe causava.
Nunca havia beijado outra criatura daquela forma. Os beijos que dera e que ganhara eram sempre castos, carinhosos, direcionados às mãos, raramente nas bochechas. Isso quando era beijado por Aset, sua mãe ou por Yuzuriha, sua irmã.
Aquele era seu primeiro beijo envolvendo erotismo e desejo em mais de 6.000 anos de existência. Nem tinha conhecimento de que imortais se davam à práticas normalmente vigentes apenas entre os humanos. Para ele era tudo novo.
A verdade era que, temendo incitar ainda mais a Besta que o dominava, a família de Mu fizera um voto em comum acordo, e sem que ele soubesse, no qual decidiram mantê-lo casto, impedindo qualquer indivíduo ou situação que pudesse lhe despertar a libido sexual.
A família temia que sendo um demônio selvagem e indomável, Mu não teria controle de seu apetite sexual, como não tinha da fome, correndo o risco de sucumbir, afinal vampiros compartilham de sangue ao se relacionarem sexualmente.
Sabendo que qualquer parceiro escolhido por Mu estaria fadado à morte e querendo evitar seu sofrimento, os pais e irmãos o criaram em uma espécie de redoma, onde os desejos carnais lhes foram doutrinados como sendo reflexo apenas da fome insaciável da Besta.
E era justamente a isso, à fome, que Mu associava as reações em seu corpo despertas pelos toques e estímulos do sacerdote Setita.
Sentia calafrios ao correr sua língua contra a dele e provar o calor do corpo seminu a pressionar o seu contra o espelho da penteadeira. Inconscientemente tentava imitar os gestos de Shaka, correndo suas unhas pelas costas largas do loiro, enquanto lhe sugava os lábios de forma ainda que desajeitada.
A confusão e inexperiência do outro não passava despercebida, porém, pelo sacerdote, que não se espantou em deduzir que Mu pudesse de fato nunca ter tido uma experiência carnal, uma vez que tinha consciência do que aconteceria caso Mu decidisse fazer sexo com outro imortal.
No entanto, nem o discernimento a cerca do perigo de morte iminente que corria era capaz que impedi-lo de desejar tomar o outro para si. Estava disposto a correr o risco de bom grado, pois algo lhe dizia que havia encontrado seu companheiro para a eternidade.
Foi nessa hora que, tomado por um furor sexual delirante, Shaka deu um puxão na túnica de Mu, rasgando um pedaço do tecido e desnudando todo o tórax trabalhado do Nut, que excitado agarrou-se ainda mais a ele, tomando agora os lábios do sacerdote por iniciativa própria.
Mu sentia um ímpeto irracional crescer dentro de si, o qual ele lutava para controlar, mas quanto cravou as garras nos ombros de Shaka e o odor pronunciado do sangue dele atingiu suas narinas, foi como acionar um gatilho.
A Besta havia rompido as amarras.
Alheio, Shaka seguia beijando em euforia o corpo febril, o qual desnudava e se encaixava na medida em que aprofundava os toques.
Mu em contrapartida, agora lutava contra sua própria natureza, tentando, a todo custo, buscar dentro do âmago um autocontrole que não tinha.
— S-Shaka... — balbuciou, fechando os olhos que rapidamente assumiam as íris escarlates mergulhadas em profundas orbes negras — N-Não... Não posso...
— Pode sim... Eu quero você, Mu... Enlouquecerei se me rejeitar. — sussurrava o sacerdote sem interromper o que fazia.
Foi no momento em que sentiu Shaka roçar as presas em seu pescoço que Mu conseguiu, enfim, acessar o pouco raciocínio que ainda lhe restava.
— NÃO!
O gripo gutural surpreendeu o sacerdote, que mal se deu conta já era arremessado contra a parede dos fundos do porão, caindo de joelhos em seguida.
— Não se aproxime de mim!
Shaka ergueu os olhos e viu o demônio diante de si mais uma vez. Deveria temê-lo, mas impelido por uma vontade além de sua compreensão, levantou-se do chão tomado em ira e com passos decididos novamente se aproximou do Nut.
— Não pode me evitar o tempo todo, Mu.
— Mandei não se aproximar, sacerdote! — rosnava o Nut descendo da penteadeira sem quebrar o contato visual. As presas expostas tal qual uma fera selvagem pronta para dar o bote.
— Não vou desistir de você. — continuou avançando.
— Não sabe o que está dizendo. Não podemos... Não quero mata-lo... Afaste-se! — sibilou e percebendo que o Setita não desistiria tão fácil, em completo desespero teleportou-se para longe dele enquanto ainda lhe restava um fio de raciocínio.
— NÃÃOOOOOO!
O grito raivoso de Shaka pode ser ouvido por Mu, que recordando-se da experiência traumática da ultima vez em que fugiu do sacerdote não deixara a casa, preferindo embrenhar-se entre as árvores no terreno ao fundo da propriedade.
De cócoras, abraçado aos próprios joelhos e de olhos fechados, o Nut empenhava-se em conter seu ímpeto, na tentativa de domar a Besta faminta dentro de si e retornar a sua forma racional.
Porém, seu corpo não lhe ajudava. Trêmulo, quente e excitado, abriu os olhos e olhou para seu baixo ventre, notando o pênis ainda rijo e pulsante em excitação. Com certo receio, levou a mão até ele e deu um leve apertão, sentindo prazer com o ato, e na mesma hora a imagem de Shaka lhe lambendo a região, lhe acariciando com mãos hábeis lhe veio à mente... Desejou senti-lo novamente, beija-lo uma vez mais, tocá-lo, provar seu sangue... mastigar sua carne... devorar Shaka, por inteiro, cartilagens, ossos!
— NÃO! — gritou retirando a mão de seu pênis imediatamente, como se tivesse levado um choque.
Não podia devorar o sacerdote. Não!
Precisava controlar sua fome, manter o foco, mas estava difícil, ainda mais ao sentir a presença do loiro ali, o qual chegava agora no jardim a passos largos.
— MU!
Shaka gritava correndo em direção às arvores ao ver a silhueta acocorada no chão. Estava nervoso, tanto por ter sido interrompido num momento tão crucial, e de maneira tão bruta, quanto por novamente Mu ter fugido de si.
— Não! Saia daqui! — o Nut gritou em resposta, levantando-se saltando entre os galhos da árvore mais alta que havia ali — Me deixe em paz!
— Mu, por favor! — parou ao pé da árvore olhando para cima, para os olhos escarlates que cintilavam em meio ao breu da noite — Não pode fugir de mim toda vez que achar que vai perder o controle! Até quando acha que vai fazer isso? Até quando acha que vai fugir?
— NÃO SE APROXIME! — rosnou como uma fera acuada — SAIA DAQUI, PARA O SEU PROPRIO BEM!
— Não pode fazer isso... — Shaka rebatia a ordem que vinha do escuro — Não pode me evitar para sempre! Eu quero você, Mu, e sei que também me quer! Não tenha medo... eu vou te...
— É VOCÊ QUEM DEVERIA TER MEDO, SUMO SACERDOTE! VOCÊ! LEVIANO, INSANO! — bradou novamente, fazendo os troncos das árvores trepidarem ao som da sua voz — Saia daqui... Quero ficar sozinho. Saia daqui!
Diante da Presença agressiva do outro, Shaka recuou alguns passos, até finalmente se dar por vencido e retornar ao interior da mansão.
Em cima da árvore, Mu agarrava-se a um tronco escondendo a cabeça entre os joelhos, e quando sentiu-se finalmente a uma distancia segura do sacerdote, permitiu-se chorar.
Estava assustado, temia perder o controle a qualquer momento e foi nessa hora que se lembrou das palavras que Shion, Osíris, uma fez lhe dissera: — “Quando a fome lhe vier em uma hora inoportuna e você achar que não conseguirá manter o controle, cante, Seth, meu irmão. Cante, nossas canções de infância. A música, quando vem da alma, aplaca a fúria até da mais selvagem das bestas!"
Mu então buscou na memoria uma velha canção egípcia que Bastet cantava para si enquanto penteava seus cabelos e, tal qual ela fazia, começou a recitar os versos da canção em voz baixa e trêmula.
— “Brilha lá no céu, quando a Noite cai,
O Sol não mais verei, pois a luz se esvai
Mas piedosa foi de mim, ó divina e nua
Guardou para meus olhos a luz do Sol, oh Lua.”
Vez ou outra, com os olhos marejados abertos, vidrados e fixos em um ponto qualquer, deixava escapar entre uma estrofe e outra da canção:
— Tão... saboroso!... Shaka. – e voltava a cantarolar.
***
Dentro da casa, Shaka surtava.
Havia cruzado o corredor a passos ligeiros e firmes, maldizendo a covardia do Nut e perdendo as estribeiras completamente. Arremessou alguns objetos contra as paredes, rasgou a mobília com suas garras e quando pensou em ir para seu quarto tentar se acalmar foi incapaz.
Estava ainda muito instigado. Sentia um desejo subversivo por aquela criatura complexa, poderosa e confusa. Um desejo que chegava a assustar a si mesmo, pois parecia perder a razão quando estava perto dele.
Sabia muito bem que corria um risco tremendo caso fosse adiante com aquela ideia, mas queria corre-lo. Passara séculos, melhor, milênios, sozinho, se satisfazendo apenas fisicamente, saciando seus desejos hedonistas ora com o gado, ora com imortais que nunca lhe significaram nada além de satisfação física.
Mas, por Mu não sentia apenas desejo.
Shaka sentia que Mu era o único capaz de acabar com a solidão de sua alma antiga.
Estava cansado de viver sozinho, de procurar alento onde sabia que não encontraria, e desde que vira Mu e que sentira sua presença ancestral, teve certeza de que o queria para si.
Tinha que ser tão complicado?
De que adiantava encontrar aquele por quem sentia que seria capaz de passar a eternidade ao lado sem se cansar por um só segundo, ou maldizer a rotina, e não poder tocá-lo? Não poder toma-lo para si? Não poder entregar seu corpo e sua alma á ele e faze-lo sentir o maior prazer que um imortal pudesse experimentar?
Nervoso, irritado, inconformado e ainda com o corpo febril de desejo, Shaka sucumbiu a um acesso de fúria, perdendo a pouca razão que ainda lhe restava.
Sentindo toda a inquietação de Mu através do elo sanguíneo que partilhava com ele, e que mesmo fraco lhe dava sinais, o sumo sacerdote parou diante da porta do quarto de Afrodite, encarando a madeira com olhos vorazes, enquanto um ímpeto lhe arrebatou o ânimo.
Em sua forma bestial, olhos âmbar faiscantes, caninos à mostra e garras distendidas, chamou por Mu uma vez mais usando a ligação sanguínea, e sem obter resposta, agarrou a maçaneta da porta e a abriu num tranco forte, adentrando o quarto feito um vulto assombroso.
O jovem músico, que dormia distraído, despertou de supetão, assustado com o barulho, mas nem bem teve tempo de entender o que se passava que de pronto a figura selvagem de Shaka surgia à sua frente sobre a cama.
— Mestre? O que...
O garoto não teve tempo para questionamentos. Na mesma hora que perguntava aturdido, Shaka arremeteu-se sobre ele o colocando em transe, e tomado por um desespero pungente, agarrou as roupas que cobriam o corpo frágil do servo as rasgando num único e bruto golpe, o deixando completamente nu.
Com os olhos azuis vidrados, presos à figura nefasta do vampiro sobre si, Afrodite o via rasgar as próprias roupas, despindo-se de maneira apressada e ansiosa, porém sua vontade não mais lhe pertencia e tudo que fazia era olhar para Shaka, absorto.
Tal qual uma fera indômita, o sumo sacerdote agarrou o músico pela cintura e o virou de bruços, já se posicionando sobre ele ao mesmo tempo em que afastava suas pernas, encaixando-se entre elas tomado por uma impaciência ímpar.
Com um único tranco forte, violento e grosseiro, Shaka penetrou Afrodite, soltando um rosnado animalesco na sequência e já iniciando de imediato os movimentos do ato em si, debruçado sobre o garoto enquanto lhe agarrava os cabelos.
Como esperado o servo não esboçava a mínima reação, mesmo diante da tamanha violência com a qual era tomado pelo vampiro, uma vez que Shaka não queria reações. Ansiava por apenas possuir aquele corpo da maneira mais primitiva que conseguisse, a fim de saciar seu desejo, sua necessidade e sua frustração.
E assim ele o fez, e enquanto penetrava Afrodite num frenesi tresloucado, entre rosnados selvagens e grunhidos, Shaka pensava em Mu.
Ao mesmo tempo tão perto e tão longe!
Enlouquecido, de olhos fechados o sacerdote lambia os ombros do servo e cravava suas garras poderosas em suas costas frágeis, arranhando toda a região sem dó nem piedade, ao mesmo tempo em que se arremetia dentro do corpo bem menor que o seu de forma afã, urrando entre gemidos selvagens, e no ápice de seu delírio, Shaka cravou as presas na jugular do garoto, sugando o sangue quente uma vez mais.
Ao sentir o líquido tórrido e aprazível lhe descer pela garganta, o Setita aumentou o ritmo da penetração, investindo no corpo menor com ainda mais força, pois se encontrava mergulhado em um frenesi sublime que culminou no singular orgasmo vampírico, uma sensação de prazer inigualável, da qual sonhava partilhar com Mu.
Retraiu suas presas e lambeu a ferida no pescoço do servo, ainda desfrutando dos espasmos que seu corpo sofria involuntariamente enquanto penetrava o músico, agora de forma lenta e cadenciada.
Quando se deu, enfim, por saciado, seu coração batia forte dentro do peito.
Nessa hora também era em Mu que pensava. No quanto queria faze-lo sentir aquele prazer intenso e sublime.
Em arrebatamento, Shaka saiu de Afrodite rolando para o lado. Tinha toda a tinta do corpo borrada, sangue lhe escorria pelos cantos da boca, unhas e também manchava o lençol.
Tendo aplacado o furor de seu corpo, mas não a inquietação que assolava sua alma, o sumo sacerdote levantou-se da cama e tomado em uma frivolidade ímpar desfez o feitiço que mantinha Afrodite em transe, deixando o quarto do servo sem nem se dar ao trabalho de fechar a porta.
Caminhou pelo corredor escuro, nu, calado e com um semblante nada agradável no rosto contorcido.
Adentrou a sala e sentou-se ao piano.
De olhos fechados começou a dedilhar uma das sonatas mais melancólicas de Beethoven, Sonata No. 14 “Moonlight”, inconscientemente usando da mesma artimanha de Mu para procurar aplacar sua fúria interna, através da música.
As notas musicais bailavam pelo ambiente e embalavam os pensamentos do sumo sacerdote. Estaria mesmo brincando com a morte ao desejar o Nut? Seria leviano e tolo a tal ponto?
Seu instinto racional lhe dizia que sim, porém sua fé rebatia essa afirmativa com afinco. Qual dos dois caminhos deveria seguir?
Do lado de fora, Mu cantava ainda os versos antigos com voz embargada e lágrimas ressequidas aderidas ao rosto. O som das notas do piano irrompiam pelo ar e chegava até ele, trazendo consigo além da triste melodia todo o rancor e fúria que vinham de Shaka.
Inconscientemente, respondendo tanto à canção, quanto ao sentimento do sumo sacerdote, Mu cantarolava ao tom das notas, formando um dueto melancólico que se estendeu noite adentro como um hino trágico que embalava seus destinos incertos.
Passados alguns minutos naquele diálogo silencioso, com a música por intermediaria, Mu, já tendo conseguido mitigar a fúria de sua Besta interior e refeito as amarras que a mantinha dominada, teleportou-se para a sala da mansão, surgindo atrás de Shaka. Caminhou a passos lentos e vacilantes até o instrumento e então sentou-se ao pé da banqueta, ao lado do sacerdote, porém sem o tocar.
— Sinto sua ira. — disse em voz baixa, cabeça pendida e rosto ocultado pelas mechas do cabelo lavanda — Por favor, não me odeie. Eu apenas não posso arriscar perde-lo também... Senti que estava prestes a perder o controle. A fome... A fome me faria mata-lo e juro que se fizesse isso a você, sacerdote, eu me entregaria de boa vontade à luz do amanhecer, aos braços do astro rei.
Nessa hora Shaka parou de tocar o piano, porém nada disse.
Diante do silêncio do Setita, Mu continuou a explicar por que temia tanto entregar-se aquele sentimento que para ele era uma estrada incerta.
— Não me restaram razões para continuar existindo nesse mundo, sumo sacerdote. Tudo que eu amava me foi tirado sem nem ao menos eu saber o motivo... O mundo que eu conhecia não existe mais e até mesmo a história de meu clã, minha família, parece ter sido apagada para uma nova ser escrita. Sou uma aberração do tempo, um monstro entre os monstros, sem referência, sem nada... Mas, se logo que constatei minha inadequação a esse novo mundo e ainda não tive coragem para me entregar aos braços do amanhecer, pode estar certo de que isso se deve a você... É para poder ouvir sua voz, olhar para seu rosto e sentir seus toques que me deito no porão a cada alvorecer. Sou apenas uma faísca do que já fui um dia, Shaka, mas só não apaguei por completo ainda porque anseio abrir meus olhos a cada por do sol para poder admirar seus cabelos cor de ouro espalhados a meu lado... Eu... Desejo tocá-los, como desejo tocar seu corpo, mas não sei... Não sei o que isso significa, e um demônio vive em mim, um demônio que nasceu junto à minha morte e do qual não quero que você conheça, porque ele é feio, Shaka... E me faz fazer coisas de que não me orgulho. Você jamais entenderá o tamanho da minha sede, a voracidade da minha fome... — enxugou com os dedos uma lágrima que lhe escorreu de um dos olhos —... Sou duplamente amaldiçoado, pois apenas o sangue não sacia a sede da Besta, é preciso sentir a carne, os ossos, a destruição...
Calou-se de súbito.
Sentado na banqueta, com os olhos presos nas teclas do piano, Shaka ouvia a tudo sentindo o pesar que vinha da alma do Nut. Nem era preciso o elo sanguíneo que partilhavam, pois a voz de Mu carregava toda sua tristeza.
Com as mãos ainda muito sujas do sangue de Afrodite, o sumo sacerdote tocou os cabelos do Nut fazendo uma carícia sutil. Entendia muito bem o conflito que envolvia aquela criatura, mas tudo em que conseguia se ater era às palavras que ele dissera, de que seu sentimento era reciproco. Mu também sentia-se ligado a si e era apenas isso que lhe importava.
— Eu entendo e sinto muito. — disse Shaka, agora tocando o ombro do outro o fazendo virar-se de frente para poder olhar em seu rosto — Eu não deveria tê-lo instigado daquela maneira. Entendo o problema que nos cerca, assim como entendo seu medo em me matar, mas acredite, eu não tenho medo. Eu não o temo, Mu.
— Não sabe o que diz, Shaka. — o Nut olhou para ele tomado em aflição.
— Posso não saber o que digo, mas sei o que sinto. — respondeu, colocando uma mecha de cabelo lavanda atrás da orelha de Mu — Sinto que é você, Mu. Você quem eu espero há milênios.
— Mas Shaka...
— Mu, a imortalidade nos cobra um preço caro. Eu não suporto mais a solidão do mundo. Eu sei que tudo está acontecendo muito rápido, mas como você, que tem uma sede insaciável, eu tenho uma presa urgente! Eu quero que seja o meu companheiro, Mu.
O Nut estava atônito!
Aquele sacerdote só poderia ser louco. Não entendia como Shaka, mesmo o tendo testemunhado se alimentar, mesmo sabendo de sua maldição, do Consumo Conspícuo, não o temia. Talvez se soubesse que já dizimara exércitos inteiros de homens em uma só noite apenas para aplacar sua fome ele seria mais cuidadoso.
— Companheiro? Shaka parece que não entende o que eu falo. — disse Mu aflito.
— Não, Mu, é você quem não entende o que eu sinto. — retrucou o sacerdote levantando-se da banqueta — Eu tenho fé, Mu.
— Fé?
— Sim. E é ela quem me diz que eu encontrei o companheiro que sempre procurei nesses mais de dois mil anos de minha existência amaldiçoada. Se minha fé me diz que é você, Mu, eu nada temo.
Curvando o tronco para baixo, Shaka depositou um beijo na testa de Mu, entre as pintinhas carmins tatuadas. Em seguida, levantou-se e antes de deixar a sala disse em tom brando:
— Eu peço novamente que me perdoe se tenho sido precipitado. Também peço, novamente, que confie em mim. Você não vai me matar, eu sei disso, eu sinto isso. Eu vou esperar o tempo que for preciso, Mu, mas... Temo que o Tempo é que não está nada disposto a nos esperar. Um período turbulento se aproxima... Eu vou me lavar e hoje dormirei em meu quarto. Deixarei você em paz para que reflita... Fico feliz em saber que partilha do mesmo sentimento por mim. Boa noite, Mu.
Dito isso o sumo sacerdote deixou a sala e seguiu para o banheiro. Com o espírito em euforia, por agora saber que Mu também sentia desejo por si, pensava que só teria que ter um pouco mais de paciência, teria que conter seus instintos e esperar o momento dele, que com certeza iria chegar.
Shaka de fato não tinha medo da Besta. Temia muito mais não poder viver ao lado de Mu, ser rejeitado e amargurar mais 2.500 anos de solidão.
Na sala, apesar de confuso e ainda triste, Mu se permitiu um sorriso tímido, que renovava sua esperança. Shaka havia dito que o queria como companheiro e apesar de não entender ao certo o significado profundo e grandioso do pedido, sabia que era um compromisso, uma vez que seu pai, Rá, e sua mãe, Aset, eram companheiros e inseparáveis.
Seria esse tipo de relação que Shaka lhe propunha?
Levantou-se devagar do chão com essa questão lhe povoando os pensamentos. Não sabia que desejos carnais e sentimentos, como os partilhados entre os pais, pudessem também surgir entre os filhos da noite, mas pensava que passar a eternidade ao lado do sumo sacerdote era, naquele momento, tudo que mais almejava.
Ficou ali por mais alguns minutos divagando, até que resolveu deixar os outros questionamentos para a noite seguinte, já que os raios da aurora logo despontariam no céu.
Adentrou o corredor em direção ao porão, mas quanto mais avançava mais sentia o odor do sangue do servo de Shaka.
Sabia que o sacerdote havia bebido dele quando o expulsou dos fundos da mansão. Não apenas sentiu a euforia de Shaka, como também sentiu o cheiro de Afrodite impregnado nele.
Contudo, nem passava pela cabeça de Mu que o sumo sacerdote havia feito sexo com o servo. Julgou que todo o frenesi que sentira através do elo sanguíneo fora causado pelo sangue, pelo ato da alimentação, como acontecia consigo, e porque o sumo sacerdote estava tomado em ira.
Apertou o passo quando passou pelo quarto do músico, afinal o odor do sangue dele atiçava a Besta dentro de si e manter-se longe era sempre a melhor escolha. Porém, dois fatores fizeram Mu frear seus passos.
A porta do quarto estava aberta e de dentro do cômodo podia ouvir um choro contínuo, sofrido e em tom bem baixo, acompanhado de gemidos fracos.
Fechou os olhos, não queria e não podia entrar, também não deveria se envolver, mas o cheiro do sangue era forte e o garoto parecia ferido. Deu um passo à frente, temendo que se entrasse poderia devorá-lo.
No entanto, sentia um apreço genuíno por aquele humano que produzia canções tão lindas, as quais o faziam, mesmo que por breves momentos, esquecer sua maldição e voar em nuvens de encantamento junto das notas musicais.
Regredindo os passos, voltou para trás e adentrou o quarto, usando de toda sua força de vontade para conter a Besta ao se deparar com o músico sobre a cama envolto em lençóis encharcados de sangue.
Encolhido no meio do leito, Afrodite chorava baixinho. Tremia muito e em suas costas nuas Mu pode ver as marcas das garras de Shaka que dilaceraram sua pele. Várias feridas hediondas por onde um sangue espeço escorria.
Aflito, pois dentro de si a Besta urrava numa gana afã em ser solta, Mu virou de costas e cobriu o rosto com ambas as mãos. Pensou em sair correndo dali, mas o sofrimento do garoto simplesmente não lhe permitia ignorá-lo. Até porque, julgava-se culpado pelo seu estado, uma vez que imaginava que Shaka descontara sua frustração alimentando-se do servo de maneira selvagem, visto o modo como seu espírito estava enfurecido quando o sentiu através do elo.
Sendo assim, conteve seu ímpeto e fazendo uma força ímpar, acercou-se de Afrodite na cama, sentando-se sobre o colchão a seu lado.
A presença do vampiro logo fora notada e a reação do músico não poderia ser outra ao erguer a cabeça, abrir os olhos e vê-lo ali.
— Não! Não! Vai embora... — tentava gritar, mas estava tão ferido que sua voz não passava de um sussurro rouco —... Me deixe em paz, vai embora!
Arrastando-se para longe de Mu, o loiro fez menção em descer da cama, mas foi segurado pelo braço de forma gentil.
— Shiii, espere!
— NÃO! Não toque em mim... Vai embora.
— Eu não vou te machucar. — disse Mu em tom brando e cordial, seu rosto tinha um semblante doce, que inspirava confiança e acolhimento — Confie em mim, como da outra vez.
— Por favor... — o músico chorava em angústia, tomado em dores terríveis, mas estranhamente o rosto de Mu lhe transmitia paz e segurança — Não me machuque mais...
— Não irei. Não vou feri-lo. Pelo contrário, estou aqui para ajudar. É meu amigo e como tira minha tristeza com sua música belíssima, também tirarei sua dor com meus poderes. — dizia, enquanto puxava para trás algumas mexas dos cabelos loiros que encobriam o rosto do jovem — Confie em mim, está bem?
Conseguindo a atenção que queria por parte do outro, Mu o deitou de bruços gentilmente sobre suas coxas e mordendo a ponta do próprio dedo indicador deixou gotejar seu sangue entre as feridas abertas em suas costas.
O sangue poderoso do Nut era dotado de poderes regenerativos e conforme ele pingava sobre as chagas, uma a uma elas iam se fechando como que por mágica. O sangue de Mu entrava pela corrente sanguínea de Afrodite, curando outras feridas em seu corpo de dentro para fora e também causando alívio instantâneo da dor, além de arrebatar o humano com uma sensação sublime de prazer e bem estar.
De olhos fechados, e ainda tomado por um torpor aprazível condicionado pelo sangue ancestral do Nut, Afrodite sentiu Mu lhe pegar no colo e carrega-lo até um divã que ficava ao fundo do cômodo, onde foi deitado com delicadeza e todo cuidado.
Enquanto Mu observava o corpo do jovem se regenerar, acompanhando o movimento do peito alvo que subia e descia, numa respiração acelerada e forte, perdia-se em pensamentos, divagando acerca dos tantos milhares de anos que não sentia mais o que era apenas respirar, sentir o ar entrar nos pulmões, soltá-lo pela boca, suspirar de alegria... Se nunca mais iria sentir o prazer de um gesto tão simplório, ao menos alegrava-se em curar a dor daquele ser inocente. Sentia-se menos bestial ao menos.
— Sente-se melhor? — perguntou o Nut.
— Sim. — respondeu Afrodite abrindo os olhos e buscando o rosto do vampiro que lhe trouxera alívio de suas dores pela segunda vez — Muito melhor. Obrigado novamente, senhor Mu.
— Está pálido... Talvez esteja anêmico. Quer que lhe traga algo para comer? — perguntou o Nut com semblante entristecido.
Não queria que o pobre humano pagasse por sua personalidade complexa. Ele parecia tão frágil e bondoso que não merecia estar envolvido naquele mundo monstruoso... O que quer que Shaka tivesse feito a ele, certamente fora consequência da rejeição que impusera ao sacerdote.
— Não! — respondeu Afrodite num sobressalto, desencostando-se do divã e olhando para Mu assustado — Não faça isso. Mestre Shaka... — baixou os olhos evitando olhar para Mu —... Mestre Shaka não há de gostar que me sirva, e depois, eu sei bem o meu lugar. Não se preocupe comigo, senhor Mu.
— Claro que me preocupo. Por que não me preocuparia? — afastando-se dele caminhou até a cama e puxou os lençóis machados de sangue, os jogando num canto perto da porta — Coloque lençóis limpos e descanse. Quando amanhecer faça uma refeição reforçada. Você perdeu muito sague, tem que repousar.
— Quem é o senhor?
A voz vinha de trás do Nut. Afrodite havia se levantado e caminhado até ele.
— Eu sou seu amigo... Pelo menos é o que pretendo ser, é só o que precisa saber.
— O senhor é tão diferente. — esticou o braço e tocou no ombro do vampiro — É tão diferente de todos que vem aqui. É bondoso e... quando chego perto de você, sinto como se o Sol banhasse meu rosto com seu calor... Logo o Sol, que nunca entra nessa casa. Talvez seja você, senhor Mu, o Sol que irá aquecer o coração gelado do Mestre.
Mu virou-se de frente para ele e sorriu entristecido. Conhecia muito bem aquele tipo de reação. Era tão somente seu sangue poderoso circulando dentro do corpo dele. Seu sangue produzia no gado efeitos diversos, encantamento, prazer, adoração!
— Sim eu sou diferente.
— Me sinto seguro com o senhor morando aqui.
— Infelizmente nunca estará seguro enquanto estiver perto de um filho da noite.
Mu então tocou o belíssimo rosto de Afrodite e olhando profundamente em seus olhos disse:
— Nunca confie em um vampiro, não importa o quão bondoso crê que ele seja. Nós não somos bons, Afrodite. Somos demônios, Bestas famintas que não enxergam você, mas apenas o sangue correndo dentro de suas veias. Não confie em mim. Não confie em Shaka. Não irei aquecer o coração dele, pois ambos estamos mortos e Shaka não possui nenhum apresso pela vida humana. Eu gosto de você, jovem músico. Admiro seu dom e quero muito que viva o quanto puder, pois para mim até mesmo o gado merece ser tratado com respeito, uma vez que já fomos gado também. Mas, quando a fome é voraz, meu caro músico, não distinguimos amigos de inimigos... Preste atenção no que vou lhe dizer, Afrodite. Se um dia olhar para mim e meus olhos estiverem negros, corra. Corra o mais rápido que puder e vá para um lugar onde haja muito barulho. Misture-se a outros humanos, acenda luzes, camufle seu cheiro e nunca, nunca olhe para trás. Está entendendo?
Assustado com as palavras dele, Afrodite apenas afirmou com a cabeça, o encarando com os olhos azuis arregalados.
— Uma fração de segundo. É tudo que preciso para acabar com sua vida e por tudo que é sagrado, não quero ter que chorar sua morte, jovem músico, não quero. Quero poder ainda ouvi-lo tocar suas maravilhosas canções por muito tempo.
Com uma carícia sutil e delicada na testa do humano, Mu sorriu para ele e sem dizer mais nada deixou o quarto, fechando a porta atrás de si.
Aquele seria um longo dia, estaria sozinho e como havia sugerido o sacerdote iria refletir sobre o ocorrido naquela noite.
Em absoluto silêncio, Mu adentrou o porão, tirou suas vestes e se deitou para dormir. Era estranhamente incômodo estar ali sem a companhia de Shaka. Conheciam-se há tão pouco tempo, mas era como se a companhia do outro agora lhe fosse vital.
Deitado sozinho lembrou-se novamente da família e a tristeza logo voltou a lhe corroer por dentro. Pôs-se então a imaginar como seria dormir sozinho por anos, séculos, milênios e somente a ideia já lhe soou horrível.
Seria isso que Shaka sentia? Talvez fosse por isso que ele dizia ter pressa.
Nunca estivera só antes, até ser desperto recentemente, e agora ali, olhando para o travesseiro vazio a seu lado, o Nut estava mais próximo de entender a dor que assolava a alma de Shaka.
Também o queria para aplacar sua solidão e não apenas naquele instante. Desejava tocar seus cabelos, acariciar sua pele, abraça-lo, beija-lo, encaixar-se nele para dormir.
Quando sentiu que o dia raiava, puxou o travesseiro do sacerdote para junto de si e o abraçou com força, fechando os olhos e entregando-se ao sono.
Logo um novo anoitecer viria e Mu estava decidido a nunca mais permitir que Shaka dormisse só novamente.
** = traduzido do sânscrito
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