A Máscara de Seth
8 Capítulo 8 Parte I
Notas iniciais

Aos pés da cordilheira dos Cárpatos Ocidentais, na cidade de Cluj-Napoca, sozinha, no ermo gélido entre a fronteira da Romênia com a Ucrânia, uma majestosa mansão de arquitetura bizantina, cuja beleza ainda era conservada em suas escuras paredes de pedra e também nos vitrais coloridos, era iluminada apenas pela luz tênue do luar.
Ao entorno da construção infausta, um extenso jardim de imensas árvores, cujos galhos secos se trançavam uns aos outros, era gradeado, juntamente com a mesma, por maciças barras de ferro em arabescos, as quais selavam a propriedade com um grande e majestoso portão, onde se podia ler em uma placa suspensa o nome Paduinan, possivelmente a graça de seu antigo dono.
A trilha que ligava o portão à mansão era longa, estreita, calçada em pedras lisas e foscas tomadas por um musgo enegrecido.
Foi por ela que Camus caminhou apressado até chegar à pesada porta de carvalho negro que ficava na entrada, onde apanhou a larga alça de bronze e deu dois toques, se fazendo anunciar.
Não demorou muito para que logo ela se abrisse, inicialmente apenas numa fresta por onde um par de olhos magenta analisou o visitante.
Ao certificar-se de que se tratava da visita aguardada, o nefasto mordomo, vestido em um sóbrio fraque grafite escuro, abriu a porta e deu passagem ao visitante dando dois passos para o lado.
— Senhor Camus. Por favor, queira entrar.
— Merci. — o ruivo agradeceu adentrando o recinto.
— Iriei comunicar sua chegada. — disse o mordomo após fechar a porta e indicar o centro do hall de entrada para que o Cesarem aguardasse ali.
Após cruzar a enorme sala de estar, o serviçal caminhou por um corredor escuro, não muito longo, e de frente para uma grande porta de madeira lhe deu dois toques.
— Entre. — disse a voz que vinha de dentro da sala, na mesma hora em que a mesma era aberta lentamente.
O mordomo avançou apenas poucos passos.
— Senhor presidente, Camus, do clã Cesarem, aguarda no hall. — proferiu de cabeça baixa e braços alinhados atrás das costas.
Sem tirar os olhos heterocromáticos dos documentos que lia em completo silêncio, os quais estavam espalhados em sua enorme mesa negra, Saga respondeu de forma branda.
— Mande-o vir até aqui.
— Sim senhor. — após uma leve reverência o serviçal saiu, encostando a porta atrás de si.
Dentro da sala, detrás de um divã de couro disposto no canto inferior, logo abaixo de uma grande janela de vitrais coloridos, uma bela mulher de longos cabelos negros e olhos púrpuras, baixou as folhas do jornal que lia exibindo o rosto pálido.
Na mesma hora, os olhos do Presidente capturaram os dela, enquanto a via se levantar calmamente e caminhar até ele, colocando-se atrás de sua suntuosa cadeira de madeira escura e estofado de veludo vermelho.
Juntos olhavam para a porta, em silêncio, esperando o visitante abri-la.
O que não demorou muito, pois logo ouviram dois toques secos na madeira e viram o francês abrindo a porta.
— Seja bem vindo, Camus. — disse Saga, cruzando as mãos sobre a mesa enquanto esperava o Cesarem se aproximar.
— Olá, Saga. — respondeu cordialmente, quase com um sorriso — Posso saber por que fui convocado?
Saga era um vampiro relativamente novo — contava apenas com pouco mais de novecentos anos — a considerar a importância do cargo que exercia. No entanto, seu clã, os Patricii, era muito influente quando se tratava de cargos nobres ocupados pelo Conselho. Foi assim que Saga chegara à Presidência há cento e vinte e três anos, e ficaria até que completasse duzentos, quando um novo Presidente seria eleito.
— Por favor, sente-se. — esticou o braço apontando a poltrona em frente sua mesa — Por que a pressa? Temos todo o tempo do mundo! — sorriu irônico, enquanto acompanhava com os olhos o Cesarem se ajeitar no acento indicado, ignorando completamente a figura da mulher atrás da cadeira, já que ela ocultava sua Presença através de seus dons das trevas.
Saga e Camus não eram exatamente o que se pode chamar de amigos, pelo menos não ao que concerne os sentimentos dos homens. Mantinham uma relação diplomática, ancorada por uma tênue confiança mútua.
— Asmita dos Seguidores de Seth veio-me solicitar uma conferência sigilosa com os membros do Conselho Menor, a pedido de Shaka. No entanto, ele não quis me adiantar o tema. — cruzou as pernas encarando os olhos avelãs do ruivo — Sei que mantem com o sumo sacerdote das Serpentes uma relação de amizade e confiança, e espero o mesmo de você para com esse Conselho, Camus.
— O senhor poderia ser um pouco mais claro? — disse Camus arqueando uma das sobrancelhas.
— Obviamente que sim. Soube que Shaka fretou um voo saindo de Paris há algumas semanas atrás. Logo que ele chegou em Londres, coincidentemente houve um abatimento em massa do gado que os Seguidores de Seth tentaram ocultar do Conselho. Eu espero que essa reunião solicitada seja para me dar uma boa explicação desses acontecimentos, mas algo me diz que não é, que mais uma vez Shaka tentará me enrolar. Assim como algo também me diz que você, Camus, sabe exatamente o motivo dessa assembleia extraordinária.
Sentada no braço da poltrona da cadeira presidencial, Geisty, a companheira de Saga, ainda se mantinha oculta por seu poder de Ofuscação, prestando atenção interina à conversa que se seguia.
— Muito bem. — respondeu o francês em tom de desdém — Quer saber se non é um possível blefe, non? Pois, non é. Mas, aconselho que convoque apenas o Conselho Menor, assim como solicitou Asmita. Asseguro-lhe que non se trata de uma das tramas sórdidas das Serpentes. Creio que dessa vez o inimigo seja outro de fato, e imagino que é sobre essa ameaça que Shaka queira lhe falar, pois, segundo ele, corremos o risco de sermos atingidos em nossa estrutura hierárquica... Quanto às atividades dos Seguidores de Seth, e se, por acaso, eles tentaram ocultar algo do Conselho em Londres, lamento non poder dar nenhum parecer. Non compete a mim vigiar seus passos. Só posso dizer que Shaka fez um achado arqueológico de suma importância para nossa espécie, mas ele pretende apresentar-lhes apenas se permitir a convocação.
Saga franziu o cenho intrigado.
— E de que se trata esse achado?
— Lamento, Presidente. Somente Shaka pode esclarecer-lhe esse quesito.
O ruivo se calou, encarando os olhos heterocromáticos que o fitavam questionadores. Não diria mais nada, assim forçaria Saga a permitir a convocação do Conselho Menor.
Irritado, Saga rosnou baixinho, e o ato não passou despercebido por sua companheira, a qual possuía um elo sanguíneo muito antigo e forte com ele, portanto eram capazes de compartilhar pensamentos como se fossem um só. Geisty então usou o elo para comunicar-se com ele, falando diretamente em sua mente.
— “Perdoe-me pela intromissão, meu amado, mas precisamos saber do que se trata esse achado do sumo sacerdote. Esses dois, o Cesarem e o Setita, são estudiosos, cientistas sempre muito ativos, e para Asmita vir até aqui pessoalmente exigir uma assembleia com os membros mais fieis, não se trata de coisa simples.” — disse curiosíssima.
— "Querida, não posso ordenar uma convocação sem saber exatamente do que se trata o assunto a ser discutido... É irresponsável, é leviano!" — à medida que conversava mentalmente com a esposa, também respondia a Camus — Shaka pensa que é quem? Quer que eu convoque os lideres dos clãs mais poderosos de nossa sociedade sob alegação de que achou um artefato em suas andanças pelo mundo e que precisa nos alertar acerca de um possível levante? Levante de quem? Eu preciso de provas.
— Ele disse que as tem, Presidente. Basta o senhor fazer a convocação.
— “Querido, não tiro a razão de sua prudência, mas Asmita é um dos líderes do Conselho, e não viria aqui se não considerasse o propósito legítimo. Depois, esse tal achado pode ser algo que se cair em mãos erradas nos trará desgraças sem precedentes. Não confio nos Seguidores de Seth. Seria bom certificar-se do que se trata e, dependendo de sua magnitude, torna-lo nosso!” — falava Geisty, colocando-se de pé à frente de Saga, ainda oculta para Camus.
O presidente, em contrapartida, mantinha-se pensativo, com o queixo amparado por uma das mãos. Olhava para os belos olhos púrpuras de sua amada, mas para o visitante à sua frente apenas tinha o olhar perdido no nada. Até que tomou uma decisão, e desviando os olhos para o francês disse resignado:
— Certo, Camus... Avisarei Asmita que a reunião será convocada. Daqui duas noites. Esteja presente também. Convocarei apenas os mais confiáveis, como me foi solicitado. Obrigado por seus esclarecimentos. Sempre soube que poderia contar com você.
Camus levantou-se calmamente da poltrona.
— Obrigado, Presidente. Estou certo de que compreenderá a tudo assim que ficar a par de todos os detalhes. Sei que posso contar com sua sabedoria para a escolha do Conselho Menor... Existem "sombras" entre nós! — disse a última frase olhando fixamente nos olhos do Patricii, consciente de que sua mensagem velada fora compreendida com sucesso, então fez uma pequena reverência e deixou a sala em silêncio.
Do lado de fora, o mordomo ominoso o aguardava para conduzi-lo até a porta de saída, onde o automóvel que o trouxera já estava a sua espera.
Na sala onde se dera o encontro, Geisty, que era uma cigana renascida no clã Pietroni, desfez sua magia ilusória e sentou-se sobre a mesa do Presidente, apoiando os pés na cadeira dele, no vão entre suas pernas.
— Bem perturbador esse pedido do sumo sacerdote. — disse ela — E também a última frase dita pelo Cesarem, antes de deixar a sala. Não sinto bons agouros...
— Nada que venha daquelas Serpentes pode significar boa coisa, ou, agouros, como você costuma dizer. — disse Saga, acariciando um dos ombros nus da cigana.
— Eu concordo com você, mas... Minha intuição me diz que os Seguidores de Seth não são os nossos inimigos dessa vez.
— Mesmo que esteja certa, e sei que sua intuição nunca falha, o melhor a se fazer sempre é evitar conflitos desnecessários com esse clã. Deixarei que Shaka diga aos membros o que tem a dizer, pois confrontá-lo seria pior... Mas, acha que Camus falava dos Espectros das Sombras quando saiu?
— Sim. Falava. Melhor deixar Hades fora dessa convocação, meu amado. Pelo menos até sabermos o que o sumo sacerdote Setita tem a nos dizer.
— Farei isso. — disse convicto o Patricii, enquanto puxava sua dama para seu colo lhe beijando os lábios com ternura.
***
Enquanto o Rolls Royce de Saga cruzava as sinuosas vias das cordilheiras de Cárpatos a caminho da sede Cesarem que havia em Cluj-Napoca, onde Camus ficaria hospedado até o próximo por do sol, o francês fazia uma ligação para sua casa em Paris, a qual fora atendia de pronto por Hyoga, o belo e jovem pupilo do alquimista, uma criança da noite com todo o vigor do novo mundo.
— *Hyoga... — falava em sua língua mãe com o pupilo — *Preste atenção. Ficarei fora, pelo menos duas ou três noites, pois estou saindo da Romênia e irei direto a Londres.
— *Entendi, mestre, mas... Vai atrás daquele seu amigo Setita, não é? Mestre... Tome cuidado. Os Seguidores de Seth, eles são...
— *Não se preocupe, estarei bem. Mas, enquanto estiver fora, deixarei você encarregado de tudo durante minha ausência. Não posso deixar Shaka enfrentar o Conselho sozinho, sem nenhum apoio, mas também não posso confiar totalmente nele, seria leviano de minha parte. Por isso, quero ir até lá ver com meus olhos como ele está lidando com seu “achado” arqueológico, antes de tomar qualquer decisão ou partido. E, quem sabe, tentar colocar algum juízo naquela cabeça fanática.
— *Mestre... Não quer que eu vá com você?
— *Não. Fique, continue o experimento que deixei pela metade, cuide de Isaak e dos outros servos. Fique alerta. Me ligue mediante qualquer imprevisto.
— *Sim senhor. Tenha cuidado.
Com essa última recomendação Hyoga encerrou a ligação e Camus guardou o celular no bolso do casaco. Já estava chegando à casa sede dos Cesarens onde passaria o dia.
***
Assim que a noite cobriu o dia com seu manto escuro, Camus alugava um carro para leva-lo até o hangar onde seu jato particular já o aguardava com destino à Inglaterra.
Antes mesmo de levantar voo, o francês fizera uma ligação à Shaka a fim de avisá-lo sobre sua visita repentina, alegando que queria contar-lhe pessoalmente o que se deu em sua audiência com o Presidente do Conselho. Não que isso fosse totalmente inverossímil, mas na verdade, Camus queria ver de perto aquela perigosa relação que Shaka parecia estar desenvolvendo com o Nut.
Em Londres, o sumo sacerdote desligava o telefone após a chamada ser encerrada com uma expressão questionadora no pálido rosto. Camus lhe assegurara de que a reunião aconteceria dentro de duas noites e Shaka agora pensava em como apresentaria Mu aos honoráveis membros do Conselho em exercício, temendo o modo como o receberiam.
Mesmo o Nut estando bem mais a vontade e já a par de alguns princípios régios que conduziam aquela sociedade no mundo novo, Shaka sabia que não seria nada fácil apresenta-lo ao Conselho.
Uma semana havia se passado desde o dia em que, não contento seus instintos, atacara, literalmente, Mu com um beijo e carícias para lá de ousadas.
De lá para cá, tinha transformado o porão em um quarto para os dois, reforçando as paredes de pedra com isolantes térmicos, para que Mu pudesse sentir-se o mais confortável possível. Porém, ainda assim, não haviam conseguido avançar mais, além dos beijos e carícias.
Os dois viviam um tipo de romance às antigas, como o próprio Shaka definira, pois toda vez que avançava o sinal, Mu se descontrolava e temendo devorá-lo fugia para o quintal, criando uma barreira protetora que impedia o sumo sacerdote de aproximar-se de si.
Fora esse impasse, o qual se repetia quase todas as noites, Mu já se apresentava bem mais familiarizado com o mundo novo.
Seu aprendizado, apesar de lento, uma vez que eram mais de seis mil anos de informação a ser absorvida, era compensado pela inteligência do Nut.
Era apostando nessa capacidade incrível de Mu em discernir perfeitamente bem acerca de tudo que lhe era apresentado, que Shaka o chamou, após falar com Camus ao telefone, para lhe colocar a par de seus próximos passos.
Sendo assim, o sumo sacerdote explicou ao Nut que o apresentaria ao Conselho dentro de duas noites, o tornando oficialmente membro da sociedade vampírica a qual estavam inseridos todos.
Adicionado a esse fato, Shaka também deixou Mu a par do interesse de Camus em estudar sua fisiologia e dons, visto que ele era um achado e tanto para a Ciência, o último exemplar de um clã extinto há milênios.
Mu achou graça da maneira como Camus o via, tal qual um espécime raro, porém não fez nenhuma objeção em colaborar com os estudos do Cesarem.
***
Na sala, vestido em uma belíssima túnica egípcia feita sob medida e ornado com joias exuberantes em puro ouro, Afrodite tocava ao piano uma sonata de Schubert a pedido do sacerdote, que elegantemente dentro de uma túnica negra de barra e mangas longas, apreciava a bela canção ao lado de Mu, o qual estava sentado a seu lado de olhos fechados, deixando-se conduzir a um mundo de sonhos embalado pelas notas harmoniosas da canção.
Diferente de Shaka e Afrodite, o Nut optava por usar somente o longo tecido de linho que ele mesmo amarrava em torno de sua cintura, como aprendera com a mãe. Não usava joias, maquiagens ou adornos, mas apreciava muito aquele hábito de Shaka em manter a cultura de seu povo viva dentro de sua casa. Tinha que admitir que poder vestir-se como a milênios atrás de certa forma o mantinha mais próximo de sua realidade há muito perdida. Era como se ali, dentro da casa do sacerdote, o tempo nunca tivesse passado.
Toda essa ambientação o deixava extremamente seguro e confortável, tanto que permitiu-se conduzir pelo prazer que a música lhe causava e lentamente encostou a cabeça em um dos ombros largos do sumo sacerdote, logo após buscando sua mão gélida para entrelaçar seus dedos aos dele.
A luz fraca e fantasmagórica das velas dispostas em pontos estratégicos do recinto, a suavidade das notas musicais, o cheiro adocicado do incenso, e principalmente a atração avassaladora que aprisionava a ambos naquele mar revolto de desejos, logo os fez sucumbir novamente aos braços um do outro e quando menos esperavam já trocavam beijos afoitos e carícias ousadas sem se darem conta de mais nada a sua volta.
Apesar de um sutil progresso por parte de Mu, cujo domínio sobre a Besta ainda estava longe de ser conseguido, ainda era muito custoso para o Nut permitir que Shaka fosse além do que ele considerava sua linha limítrofe. Sendo assim, foi apenas o sacerdote lhe correr as mãos por debaixo do saiote de linho e arranhar suas coxas fortes que imediatamente ele segurou em seus ombros e o afastou de pronto.
— Não. — foi apenas o que conseguiu dizer antes de levantar-se do sofá às pressas — Me desculpe. Não posso.
De cabeça baixa para ocultar os traços da Besta que já tomavam conta de seu belo rosto, Mu atravessou a sala sem dar mais explicações, visto que sentia o odor fortíssimo do sangue do músico, além do som frenético de seu batimento cardíaco, que agora de tão alto a seus ouvidos selvagens já encobriam as notas musicais do piano, e temendo devorar Afrodite ali mesmo foi que correu para o corredor sendo engolido pela escuridão.
O músico o acompanhou com um olhar curioso, até que parou de tocar e olhou para Shaka, que do sofá onde estava esfregava o rosto num gesto visível de irritação.
— O que aconteceu com ele? — o servo perguntou em tom moderado, novamente olhando para o corredor escuro no qual Mu mergulhara.
— Nada... Não é da sua conta. Volte a tocar. — Shaka respondeu de forma ríspida.
— Será que não gostou da música? Se quiser eu posso mudar o repertório, mestre. — insistiu o sueco.
— Não, Afrodite. Não precisa mudar nada, apenas cale essa boca e toque.
A irritação do mestre era notória, e o jovem deu por bem não aborrece-lo ainda mais. Por isso voltou a tocar o piano sem nada mais dizer, mas sabendo que algo afligia, e muito, seu mestre.
Do lado de fora da mansão, mais precisamente no terreno dos fundos sob as árvores, Mu devorava o carniçal que havia limpado o quarto de hospedes para abrigar Camus que logo chegaria.
O homem de meia idade guardava os produtos de limpeza e outros objetos que usara horas antes, quando fora atacado e nem tivera tempo sequer de gritar.
A garra hedionda do Nut rasgou a pele de suas costas abrindo passagem para os dedos robustos que lhe agarraram a coluna vertebral e com um tranco o tiraram dali, o arrastando em milésimos de segundos para o pequeno bosque no fundo da casa, onde fora jogado ao solo.
De cócoras, Mu mantinha o corpo aderido ao chão usando ambas as mãos, enquanto com absurda voracidade rasgava a garganta do homem com suas presas horrendas, devorando a carne, bebendo o sangue, mastigando ossos e cartilagens.
Terminado de fartar-se com as vísceras, com sua enorme força arrancava os membros, um a um, e os devorava com igual selvageria, até não sobrar quase nada a ser enterrado ali.
***
Dentro da casa, Shaka andava de um lado para outro da sala pensativo e exasperado.
— Mas que hora mais inoportuna, Mu! — resmungou o sacerdote, que não se abstinha da culpa também. Deveria ter contido sua libido, mas agora já era tarde. Ouvia três toques na porta de entrada.
Muito nervoso, Shaka andou apressado até o piano, debruçou-se sobre o instrumento, olhou profundamente nos olhos azuis de Afrodite e apontando o dedo para seu rosto disse em voz baixa:
— Só fale se eu permitir, entendeu? Não fale sobre Mu e não pare de tocar.
Dito isso, e vendo o servo lhe devolver um olhar amedrontado, afastou-se e caminhou até a porta. Girou a maçaneta lentamente e deu boas vindas ao amigo francês com um sorriso cordial nos lábios.
— Seja bem vindo em minha casa, Camus! — deu passagem para que o ruivo pudesse entrar — Fez boa viagem?
— Merci. — o Cesarem respondeu com a mesma cordialidade, adentrando o recinto com um sorriso no rosto — Oui, muito boa. Sem nenhuma turbulência!
— Que bom! — Shaka fechou a porta e foi juntar-se a ele no meio da sala — Por favor, fique a vontade.
— Tinha me esquecido de como sua casa é agradável e interessante! Há quantos anos non venho aqui! — disse Camus olhando para o ambiente a sua volta, deslumbrado com as peças de arte, a decoração oriental, o perfume adocicado do incenso e a música que lhe acariciava os ouvidos.
— Sim, alguns anos, não é mesmo? — o sacerdote dizia enquanto se colocava atrás do Cesarem para ajuda-lo a retirar o sobretudo que ele usava — Deixe-me pendurar seu casaco. Depois lhe mostrarei o seu quarto. — tinha certa pressa em retirá-lo dali e leva-lo para o quarto.
Foi no exato momento que executava esse movimento, quando atrás de Camus o auxiliava a retirar o casaco, que Mu adentrou a sala banhado em sangue, vísceras, terra e folhas secas grudadas em seu corpo.
Um silêncio ressaltado se fez presente na mesma hora.
Afrodite ao olhar para a figura parada no batente da entrada da sala, cujos cabelos ensopados em sangue respingavam gotas ao seu entorno e os calcanhares encharcados formavam grossas poças escarlates em volta de seus pés, fora tomado por um terror paralisante, que o impediu de continuar tocando o piano. Tudo que conseguia fazer era olhar para Mu e procurar suas feições angelicais por baixo daquela imundice toda. Tremia e nem piscava, completamente aterrorizado.
Igualmente espantado, Camus também olhava para o Nut com os olhos avelãs arregalados, não gostando nada do que via.
Percebendo os olhares alarmados sobre si, Mu rapidamente se colocou atrás de uma das grandes pilastras, ocultando sua figura e dizendo em tom baixo:
— Me... desculpe, eu... — baixou a cabeça fechando os olhos. Na pressa em saciar a Besta e limpar-se antes da chegada do hospede, Mu simplesmente não havia se dado conta de que Camus já estava ali, e agora amaldiçoava-se em pensamento por esse deslize, sentindo seu peito lhe apertar pela vergonha e humilhação de sua situação —... Shaka, será que... poderia me ajudar?
Shaka estava preso em uma espécie de transe. Tinha em mente convencer a Camus de que tinha Mu sob seu controle absoluto, tranquilizando, assim, o amigo Cesarem, mas acabara de ter seus planos abortados.
Apenas quando ouviu Mu lhe chamar telepaticamente que recobrou a consciência.
— “Shaka, me desculpe. Eu não pude me conter... Sinto muito. Me distrai e não o senti aqui... Preciso me lavar. Preciso de sua ajuda.”
Na mesma hora, o sumo sacerdote terminou por tirar o casaco de Camus e o entregou a ele apressado, olhando profundamente em seus olhos avelãs.
— Camus, peço que me dê licença por alguns minutos apenas. Temos muito o que conversar, não é mesmo? — sorriu sem graça — Não vou me demorar. Enquanto isso, meu servo, que é um excelente músico, tocará uma bela canção para você.
Olhou para o piano e viu Afrodite pálido olhando para a silhueta atrás do pilar. As mãos congeladas no ar pairavam inertes sobre as teclas do piano na posição ainda das notas musicais que iria produzir.
O Setita caminhou ligeiro até ele e chamou sua atenção em voz baixa.
— Afrodite... Afrodite, toque! Anda!
A voz grave do mestre tirou o músico do transe, mas não do estado de pânico em que se encontrava. Tremia muito, mas mesmo assim procurou retomar a melodia tentando ele mesmo se acalmar com a canção. Em sua mente apavorada, perguntava-se o que haveria acontecido a Mu, aquela criatura tão bondosa que curava suas feridas e mandava para longe suas dores. O que teria acontecido a ele para que aparecesse ali naquele estado?
— Isso toque! — Shaka agora andava apressado até o pilar onde Mu se escondia, e o tomando pelo braço o puxou para o corredor enquanto dizia em voz alta — Camus, eu não demorarei. Aprecie a canção. Afrodite tem mãos mágicas para a música! Nos dê licença.
***
No banheiro, enquanto Shaka rapidamente ligava o chuveiro, atrás dele Mu se apressava em tirar as vestes encharcadas em sangue.
— Eu realmente sinto muito. — disse em tom melancólico — Eu não queria que Camus tivesse me visto assim e... Eu comi o seu carniçal que nos ajudava... Não queria, mas era ele ou Afrodite. Ou ainda pior... Você.
— Está tudo bem. Arranjamos outros. É apenas gado. — respondeu Shaka em tom austero, depois se aproximou dele e segurou seu rosto com ambas as mãos, olhando fixamente em seus olhos negros e escarlates — Até quando acha que levaremos isso a diante? — abriu a boca e colocando a língua para fora deu uma lambida generosa em um dos cantos dos lábios de Mu, sorvendo o sangue coagulado que estava grudado — Eu já lhe disse que não tenho medo. Você não vai me matar.
— Eu não tenho a sua fé, sacerdote.
— Talvez seja exatamente isso que lhe falta. — Shaka lhe deu um beijo nos lábios sujos e se afastou — Crer.
— Crer? Em quem? Em você? — Mu riu, terminando de se desfazer do saiote imundo.
Shaka lhe sorriu de volta, mas deu por bem deixar aquela conversa para outra hora, visto que Camus os aguardava na sala.
— Anda, vá se lavar. Vou pegar a escova pequena para limpar suas unhas. Não podemos deixar nosso hospede nos esperando.
***
Continua...
*Traduzido do francês.
Fale com o autor