A Máscara de Seth
4 Capítulo 4 Parte I
Notas iniciais

Mal o sol se pusera no horizonte, deixando xilogravadas ainda algumas ranhuras em tons corais no firmamento, o sumo sacerdote Setita já havia despertado de um sono inquieto e se preparava para sair em busca de seu precioso achado.
Sempre que saia a público, Shaka abandonava as vestes orientais que costumava usar em casa e aderia à indumentária que evoluíra juntamente com o gado. Assim, vestiu uma calça de alfaiataria, camisa e jaqueta, todas em tons escuros. Não queria chamar a atenção dos membros dos outros clãs que residiam em Londres, por isso abriu mão de seu estilo mais refinado, aderindo a um mais urbano.
Estava agitadíssimo, ainda mais depois da conversa ao telefone com Camus.
Dispensou o carniçal que lhe servia como motorista e ele mesmo seguiu dirigindo o Rolls Royce negro até o centro de Londres, que era de onde sentia a Presença de Mu mais pronunciada.
Estacionou o carro na Regent Street, uma das principais artérias de Londres, e seguiu caminhando a passos apressados pela Picadilly Circus, seguindo o rastro de desespero, torpor e medo, que vinha através da recente ligação sanguínea com o Nut.
Vasculhava todo beco e viela, guiava-se também pelo olfato e visão aguçada olhando para os topos das construções antigas exuberantes. Vez ou outra cruzava com o olhar lunático e perturbado de algum Malkaviano, ou com algum Toreador extremamente belo seduzindo sua vitima. Nessas horas apertava o passo, aflito, pois o fio tênue que sustentava a Máscara no novo mundo dependia de si. Se outro imortal encontrasse Mu antes dele, tudo estaria perdido.
Há poucas quadras dali, o Nut vivia um impasse. Sentia o sacerdote por perto, mas não sabia mais se podia confiar nele. Não após aquela mordida insidiosa.
Perturbado, porque apesar de arredio e assustado sentia-se muito atraído pelo Setita, de uma forma que não podia entender, deixou o esconderijo no túnel do metrô, ponderando se deveria voltar ou não para a casa de Shaka.
Entretanto, assim que voltou à superfície, fora golpeado novamente pelas luzes fantasmagóricas que tanto lhe feriam os olhos, pelo som aborrecido do novo mundo e pelo odor instigante do gado numeroso.
Oculto em um dos becos mais escuros da cidade, até porque não conseguira regredir sua forma bestial desde a noite passada, já que sua Besta interior o deixava em estado de alerta o tempo todo, Mu se esgueirava pelas sombras, atraído pelo odor do sacerdote.
Mas, junto com o cheiro de Shaka vinha também o cheiro de outras crianças da noite. Muitas, melhor dizendo! Aliás, o Nut se surpreendeu com o contingente de imortais que havia no novo mundo.
A dádiva das trevas parecia ter se tornado algo do sendo comum e não mais um presente para alguns escolhidos apenas.
O estresse que a presença dos outros vampiros lhe infligia acionava um mecanismo de defesa na Besta que, movida somente por instinto, despertava uma fome vorás no Nut, já que alimento era sinônimo de poder.
Dessa forma, mesmo que o sangue do gado naquela era lhe parecesse tão tuim e pestilento, Mu precisava comer para se defender dos outros imortais, para se defender de Shaka, que, assim como os outros estava ali, o caçando.
Era com essa ideia em mente e movido por esse pensamento desorientado, que Mu rastreou um grupo de humanos no perímetro em que se encontrava.
Estavam todos juntos em uma casa, onde acontecia uma pequena festa regada a música eletrônica e muita bebida.
O barulho incômodo e desorientador feria os ouvidos de Mu e aturdia seus sentidos, mas, por outro lado, ele folgava em saber que ele também abafaria o som dos gritos!
Sendo assim, esgueirou-se pelas paredes da construção e tal qual uma fera que prepara o bote, fechou os olhos e teleportou-se para dentro – esse era outro de seus dons malditos – surgindo no centro da sala onde todos dançavam distraídos.
O que se seguiu não demorara nem bem cinco minutos.
Assim que se materializou ali, sujo e em sua forma bestial, Mu chamou a atenção de alguns jovens que ao olharem para ele gritaram em terror. Porém, suas vozes logo foram caladas pelo ataque atroz do vampiro, o qual em poucos segundos, movimentando-se mais rápido que os olhos humanos puderam acompanhar, os abatia lhes rasgando as gargantas, ora com as garras, ora com os dentes, sorvendo o sangue em furor!
Na mesma hora, o ataque chamou a atenção dos outros jovens, que agora gritavam e corriam desorientados procurando as saídas do ambiente. Porém, todas estavam fechadas. Mu as lacrara com o poder avassalador de sua Presença, e em frenesi caçava suas presas, uma a uma, saltando por entre os corpos, mutilando membros e decapitando cabeças para esmagar os crânios com suas mãos poderosas.
A caça lhe era aprazível e tornava carne e sangue muito mais saborosos!
Uma a uma, as pessoas iam se tornando um amontado de carne disforme, no qual, por fim, o Nut caminhava sobre em completo êxtase, chafurdando nas vísceras como um animal, mastigando ossos, cartilagens, nervos... Engolindo tudo num primitivismo pungente, quando de súbito sentiu uma presença adentrando o recinto.
De cócoras sobre as vísceras, enquanto segurava um fêmur com alguns nacos de carne ainda aderidos ao osso, Mu virou-se num gesto brusco, para a direção da porta, e então seus olhos selvagens encontraram os de Shaka.
Não fora difícil para o sacerdote invadir a mente do Nut quando este abrira uma brecha num momento de distração, enquanto se alimentava. Assim que o encontrou, correu para o endereço antes que Mu pudesse ser notado por outro imortal, mas mesmo sabendo, depois da conversa com Camus, que Mu poderia ser um vampiro extremamente selvagem e perigoso, nada o preparara para o que via ali, diante de seus olhos surpresos.
— Por Seth!... De fato você é amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo! — os lábios apenas tremelicaram quando balbuciou aquelas palavras, como que numa constatação para si mesmo.
— Não... Não olhe...
Arrastando-se entre as poças de sangue e pedaços de membros mutilados, o Nut se esgueirou para debaixo de uma mesa, onde se encolheu, evitando olhar para o sacerdote. Era uma fera ferida, acuada, que mesmo quando estava em sua forma bestial ainda mantinha sua consciência, seus anseios e inseguranças. Por isso, sentia muita vergonha de sua situação.
Mesmo consciente, Mu não conseguia controlar sua ânsia por matar e devorar, nem sua fome primitiva. O Consumo Conspícuo era humilhante, degradante, sujo e o carregava como uma chaga hedionda em sua honra. Mesmo em sua época, Mu não permitia ninguém o ver se alimentar, nem Osíris, seu irmão, nem Rá, seu pai.
Em vão tentava limpar o sangue em seu rosto, cabelo e corpo usando os braços, mas apenas espalhava mais a imundice, entrando em desespero.
Devagar, em meio a luzes coloridas que dançavam frenéticas no ritmo da música caótica que tocava, Shaka aproximou-se dele, tomando cuidado para não pisar em um olho, estômago ou costelas que agora compunham a decoração funesta do ambiente. Por mais que abominasse a maldição do Consumo Conspícuo, não conseguia sentir nojo de Mu, mas somente alívio por tê-lo encontrado.
Agachou-se, apoiando um dos joelhos no chão e estendeu a mão para o Nut debaixo da mesa.
— Me perdoe, Mu... Eu errei ao mordê-lo, admito. Mas... Até quando achou que poderia me esconder sua maldição? — fez uma breve pausa — Eu precisava ter certeza.
— Você colocou sua vida em risco, sacerdote.
— Eu sei. Mas também sabia que não iria me matar.
— Como? Como pode ter tanta certeza se nem eu... Se nem eu tenho?
— Eu apenas sei. — tocou no ombro dele e o fez olhar para si — Mu, o quero comigo, na minha casa, a meu lado. Você corre muito perigo aqui. O mundo novo se tornou nocivo para nós. Você não vai conseguir sozinho. Deixe-me ajuda-lo. Eu sei que traí sua confiança, mas me dê outra chance... — dizia com voz branda.
O Nut o olhou confuso.
— Você... Não tem nojo de mim? Não tem medo? — balbuciou com voz gutural, crispando os olhos e mostrando os dentes — Você é leviano demais para um sumo sacerdote. — desviou os olhos dele e baixou a cabeça — Saia daqui. Eu posso acabar devorando você.
— Não acho que fará isso. — disse Shaka, então aproximou o rosto do dele e, colocando a língua para fora, lambeu o sangue que escorria por seu maxilar, de forma lenta, demorada, quase erótica.
— O... que... está fazendo?
O Nut recuou um pouco ao toque, sentindo-se desconfortável, mas ao mesmo tempo sentindo o corpo todo tremer e vibrar diante o toque do sacerdote.
— Se quisesse dar cabo da minha vida, Mu, já o teria feito... no porão, quando bebi de você. — buscou as mãos dele e segurou uma deles nas suas, fazendo o Nut virar-se de frente para si para olha-lo nos olhos negros em meio à face sanguinolenta — Não o temo, mas sim o que pode acontecer a você caso outros imortais o encontrarem. Venha. Vamos voltar para casa.
Ainda que bastante ressabiado, Mu decidiu dar outro voto de confiança ao sacerdote e conforme Shaka o puxava delicadamente pela mão, saiu debaixo da mesa com a cabeça baixa. Evitava olhar no rosto do Setita, pois a vergonha lhe corroía a alma condenada.
Mu não entendia por que simplesmente não conseguia fugir dele. Era a atitude mais sensata a se tomar depois do que ocorrera no porão, mas, ao invés disso, o tênue laço de sangue que agora os ligava o mantinha atraído por aquele vampiro de cabelos de sol de uma forma que jamais sentira antes.
Shaka então retirou sua jaqueta e a vestiu no Nut, apenas para poderem sair dali e pelos telhados, saltando entre as casas, irem até o Rolls Royce estacionado na Regent Street, onde rapidamente entraram e retornaram à mansão do sacerdote.
Ao chegarem, Shaka desceu do carro, deu a volta e abriu a porta para Mu, que permanecera calado e imóvel durante todo o percurso. O auxiliando a descer do automóvel, segurou em sua mão e o conduziu a casa, deixando que um dos carniçais se encarregasse de guardar o veículo na garagem.
Já na sala, o Setita segurou o rosto do Nut com ambas as mãos e olhou dentro de seus olhos negros por longos segundos. Sentia um alívio indescritível por Mu estar novamente ali consigo. Seu precioso tesouro!
— Preciso dar um jeito na bagunça que você fez, antes que seus rastros os tragam até nós.
— Fala de quem? — perguntou Mu apreensivo.
— Do Conselho. Eles têm olhos por toda a parte... Mas isso não é conversa para este momento. Agora tenho que apagar seu rastro. Vou fazer uma ligação e quero que fique aqui. — aproximou-se mais dele e tocou em seus cabelos lavanda tingidos de vermelho opaco, que tinham ainda algumas bolotas de sangue coagulado impregnadas nos fios emaranhados — Sei que falhei, e me arrependo muito por isso. Mas não vou perdê-lo novamente por nada nesse mundo, Mu.
Com uma carícia singela no rosto sujo do Nut, Shaka se afastou e deixou a sala, indo até seu escritório onde ligou para Asmita, sacerdote do clã Setita, e lhe incumbiu de apagar os vestígios deixados por Mu na residência londrina antes de o sol nascer. Sabia que Asmita era o único em quem poderia confiar, mesmo dentro de seu clã, e que ele teria os contatos necessários para a tarefa designada.
Sem dar mais detalhes, até porque sua posição hierárquica dentro da seita lhe conferia esse privilégio, Shaka regressou à sala, onde encontrou Mu na mesma posição em que o deixara, de pé, cabisbaixo e com um semblante taciturno.
O Nut travava uma batalha enfadonha contra sua Besta interior na tentativa de voltar a sua forma humana, mas todo o sangue que cobria seu corpo o enfraquecia frente a Ela, que estava instigada, inquieta. Algo lhe dizia para não confiar em Shaka, pois de uma forma sentia-se ameaçado, apesar de atraído.
— Meu pai... Rá... O que será de mim? — balbuciava em desespero, agitado e confuso.
Sentia o odor estimulante do humano que residia ali com o sacerdote. Podia ouvir seu coração batendo num ritmo lento, tentador! Deveria estar dormindo e seria uma presa fácil.
Contudo, podia sentir um medo abrasador vindo dele. Seu corpo vivo o exalava através dos poros. Estava muito assustado, ferido e em sofrimento. O Nut franzia o nariz para rastrear a fonte de sua dor... Uma ferida na coxa, já em um estado avançado de infecção. Poderia acabar com o sofrimento dele o devorando...
Nessa hora fechou os olhos procurando conter a Besta mais uma vez. Não precisava se alimentar novamente. Nutrira-se por vários dias... Mas o odor do humano era único e delicioso.
— Mu?
Felizmente Shaka tocou em seu ombro e o despertou daquele devaneio que quase o fez perder o controle mais uma vez.
— Sim? — abriu os olhos, mirando o sacerdote de modo firme — Eu preciso de um banho. O sangue... Não posso voltar à minha forma humana com todo esse sangue sobre mim. Por favor, me banhe, sacerdote.
Já começava a sentir-se envergonhado por ser incapaz de banhar-se decentemente sozinho. Talvez a família o tivesse mimado demais, contudo naquela época eram como deuses na Terra, moravam em palácios e o gado os servia... Tudo era muito diferente.
Não eram eles que temiam os homens, mas os homens que os temiam.
— Fica incrivelmente belo assim. — disse o sacerdote num sussurro, enquanto percorria seus olhos felinos por todo o corpo do Nut admirando aquela figura demoníaca e fascinante, até que de posse novamente do olhar curioso de Mu sobre o seu, deu um sorriso malicioso e passou um dos braços pelo ombro dele — Venha. Será um prazer te banhar novamente.
Já no banheiro, Shaka o ajudou a se livrar da calça imunda e se despiu juntamente com ele, diante de um par de olhos negros vidrados em seu corpo. De fato era muito mais fácil entrar debaixo do chuveiro junto com ele para ajuda-lo a se livrar de todo aquele sangue do que usar a banheira ou apenas o instruir, mas a verdade era que o sacerdote ansiava por tocá-lo de uma forma mais íntima.
Shaka era um mestre da sedução. Com o passar dos séculos seus olhares, toques, insinuações e palavras apenas se aperfeiçoaram, sendo praticamente impossível de algum ser, vivo ou morto, resistir a seus encantos.
Sabendo disso, o Setita aproveitava a hora do banho para seduzir Mu. Já era nítida a inexperiência do outro quanto aos jogos de sedução vampíricos, tão comuns entre os imortais, tendo em vista a ingenuidade com que reagia a seus toques.
Podia sentir através do elo de sangue que o Nut ainda desconfiava de si, que nutria certo receio por tê-lo mordido, e por isso agiu rápido, abraçando o fato de que Mu havia se alimentado há pouco tempo e, portanto, seu corpo reagiria.
— Não vamos desperdiçar todo esse sangue, não é mesmo? — a voz sussurrada era sedutora, numa frequência baixa e grave, e dita ao ouvido de Mu, que mal teve tempo de reagir ou responder qualquer coisa que fosse, pois Shaka já percorria as mãos nas laterais de seu corpo enquanto agachava lentamente, se ajoelhando sobre o piso frio do banheiro de frente ao Nut.
Por um instante, o vampiro ancestral até cogitou aquele gesto ser algum tipo de reverencia ou prostração, como ocorria em seu passado quando os homens o adoravam como a um deus.
Contudo, para sua completa surpresa e espanto, Shaka abriu a boca e começou a lamber o sangue que tingia sua pele alva.
— O que... — disse assustado, dando um passo para trás, já que fora da mesma forma que o outro lhe mordera na noite passada.
— Não tenha medo de mim, Mu... Eu fui leviano, admito. — erguendo a cabeça, o sacerdote falava procurando os olhos negros curiosos — Jamais farei algo que você não queira. Mas... o sangue... — baixou a cabeça e com uma lambida longa na virilha do Nut continuou — O sangue é precioso demais para ser apenas escoado com a água. Não acha?
— Eu... — murmurou Mu, sentindo uma reação nova de seu corpo.
Estava ficando excitado.
Nessa hora, Shaka deu um sorriso malicioso e da maneira mais atrevida que conseguia correu a língua sobre o membro desperto, sentido o outro se contrair um pouco.
A contração involuntária fora uma resposta imediata à corrente elétrica que percorreu todo o corpo do Nut ante aquele toque. Mu arregalou os olhos, baixando o rosto e olhando para o sacerdote, que não se interrompia, lambendo toda a região de forma erótica e presunçosa.
— S-Sacerdote... — sussurrou, sem conseguir prosseguir, já que nem sabia o que dizer, uma vez que nunca havia lhe ocorrido coisa parecida e nem sensação tão prazerosa.
Em êxtase, observava o vampiro loiro lhe lamber toda a intimidade, passando do membro rijo para os testículos, períneo, virilhas e coxas, sempre buscando seus olhos negros com seu olhar profundo, pleno em luxúria. Um pulsar inesperado no pênis e baixo ventre fez Mu soltar um leve gemido.
Nem todo o medo, receio e desconfiança que pudesse suster ainda contra o sacerdote lhe eram capazes de fazer se afastar dele naquele momento. Mordeu o lábio interior no intento de conter outro pequeno gemido, pois sentia uma ânsia, sabe-se lá de que, crescer dentro de si. Porém, como jamais havia sido tocado daquela forma, não sabia que o que sentia era desejo sexual.
Achava que era a fome! Mais uma vez temeu pela vida de Shaka.
— Shaka... Por favor... — suplicou.
Na mesma hora o sacerdote interrompeu o que fazia. Já tinha o que queria e não precisava ter pressa. Teria que reconquistar a confiança do Nut e não assustá-lo novamente.
Por isso, levantou-se e com mais algumas lambidas, agora no pescoço, ombros e rosto de Mu, Shaka abriu a torneira e deixou que o jato forte de água completasse o serviço, enquanto encarava os olhos perplexos de Mu.
— Nunca sentiu seu corpo vivo assim? — perguntou malicioso, mas na mesma hora esticando o braço para pegar uma bucha vegetal com a qual limparia as garras de seu hospede — Me dê sua mão.
— Eu... Creio que já... Quando me alimento. — respondeu em baixo tom, ainda um pouco confuso e excitado, enquanto estendia uma das mãos ao sacerdote — Mas, essa... Essa fome é diferente. Nunca a havia sentido... assim.
— É porque não é fome, Mu... — Shaka respondeu com um sorriso, ao mesmo tempo em que esfregava as garras pontiagudas do outro — Mas, vamos voltar ao banho, ou temo que ele se estenda além do que deveria.
Enquanto Shaka o ajudava a se banhar, o pensamento de Mu voava longe, de volta ao passado, onde procurava um significado para toda nova emoção que o acometia desde seu despertar. Nem os servos, tampouco os irmãos, o banhavam daquele jeito tão intimo. Era bem verdade que eram também carinhosos e gentis, mas não como o sacerdote de cabelos dourados. Algo nos gestos, nos toques e no olhar dele despertava em si um desejo novo, do qual ainda não tinha domínio tampouco conhecimento.
Assim, depois de uma longa sessão de esfrega-esfrega, terminaram o banho, vestiram-se com roupões negros e seguiram para o quarto do sacerdote. A aparência do Nut voltara à forma humana. Finalmente a Besta se aquietara dentro de si.
No quarto, Shaka caminhou até o closet, abriu a porta e acendeu uma luz fraca, mas que ao incidir nos adornos dourados e de metal que havia ali aos montes os fazia brilhar e reluzir intensamente. Em araras muito bem organizadas, haviam diversos trajes que remetiam ao Egito Antigo. Túnicas de linho, sandálias douradas, muitas joias... Um guarda roupa completo que mais parecia uma câmara secreta do passado, a qual não sofrera as ações do tempo.
Em silêncio, Mu apenas observava tudo aquilo nostálgico.
— Deve achar estranho o fato de eu não saber me banhar corretamente sozinho. — disse enquanto seus olhos caminhavam entre as peças de linho e os adornos em ouro — Em minha época eu possuía muitos servos e, além deles, Shion e Yuzuriha sempre quiseram me auxiliar no banho, por que... Bem... Sabe bem por que. — baixou os olhos, pois se referia ao fato de ser amaldiçoado pelo Consumo Conspícuo, e sempre que se alimentava ficava tão sujo que precisava de ajuda para se limpar.
— Sim. Compreendo. Não me importo em ajuda-lo também. — respondeu Shaka, enquanto retirava o roupão para vestir uma túnica negra de linho.
— Mas... Eles não me tocavam como... como você me tocou.
O sacerdote esboçou um sorriso, percebendo que ele estava levemente envergonhado, então decidiu acabar com seu desconforto mudando o rumo da conversa.
— Bem, como disse, era um desperdício deixar todo aquele sangue ir embora com a água. Mas... Pelo que diz você me pareceu ter sido uma figura de extrema importância no passado. E esse Shion e Yuzuriha? Quem eram eles? — perguntou enquanto dedilhava as araras e fazia um gesto para que Mu escolhesse uma peça para vestir.
— Eles eram meus irmãos... Atla também. Nós quatro fomos abraçados pela mãe.
— Uma mulher! — arregalou os olhos, num gesto de surpresa — Que interessante! Ela deveria ser muito poderosa, tendo em vista a sua geração. Quem era ela?
Mu desviou seu olhar dos olhos de Shaka e ficou em silêncio por alguns instantes. Não podia falar que sua mãe era Aset ou entregaria sua origem "divina". Poderia inventar algum nome para dar a ela, mas achava uma afronta à sua lembrança. Decidiu então simplesmente continuar seu relato, desviando o foco e torcendo para que o sacerdote não insistisse. Assim, caminhou até a arara de roupas e enquanto tocava os tecidos sentindo sua textura continuou:
— Shion e Yuzuriha sempre cuidaram de mim, por serem mais velhos. Não tenho lembranças de antes do abraço, mas Yuzuriha me contou que eu e ela éramos irmãos quando em vida. Segundo ela, minha transição fora muito difícil, dolorosa e que quase me perderam. Por essa razão, muitas das minhas lembranças se apagaram ou simplesmente foram alteradas. — sua voz adquiria um tom mais brando a medida que contava parte de seu passado — Você me disse que é um Seguidor de Seth. — virou-se novamente para Shaka o encarando nos olhos —Quem é Seth para você?
— Seth? — respondeu Shaka — Seth foi quem fundou nosso clã.
— Fundou? Como? Após 4.000 anos, gostaria de saber como foi passado o legado das tradições. Confesso que há coisas das quais, pelo pouco que ouvi você dizer, não tenho conhecimento. — perguntou enquanto escolhia um saiote tradicional de linho, e uma faixa comprida para ser enrolada na cintura — Fale-me mais sobre esse... esse Seth, a quem vocês atribuem sua criação. — a pergunta fora direta, mas o receio em ser descoberto fazia Mu desviar o olhar mais uma vez.
— Seth é nosso deus e a nós, Seguidores, foi atribuído o dever de manter sua memória viva, aguardando o jubiloso dia de sua volta. A mim, no entanto, foi dada a missão de encontra-lo e revivê-lo, para que ele possa nos guiar na criação de uma nova Era, onde ele reivindicará para si o controle absoluto da sociedade vampírica e irá nos guiar novamente para a glória. — caminhou lentamente até Mu, e circulando seus ombros com um dos braços o acompanhou até a porta, a qual abriu e indicou o corredor — Vamos até à sala. Ainda temos um resto de noite e adoraria passa-lo em sua companhia.
Enquanto caminhava, Mu ouvia, com ouvidos atentos, o relato de Shaka.
— Para os homens, porém, Seth é um deus alegórico catalogado no panteão pagão da antiga civilização egípcia.
— Hum... E os homens não creem mais nele.
— Exato. Para o gado, Seth se tornou uma figura mitológica, uma força da Natureza que alimenta o imaginário humano por séculos. Nosso deus, no entanto, representa a violência, a traição, o ciúme, a inveja... Também os desertos, tempestades, animais e serpentes... Para o gado frágil, Seth seria a própria encarnação do mal.
— Puxa! Quanta coisa ruim.
— Sim. Dizem as escrituras que ele teria rasgado o ventre de sua mãe, Nut, com as próprias garras para nascer. Seth era implacável e tão poderoso que os outros deuses o temiam. Mas no mundo novo, Mu, e para os humanos, tudo isso não passam de lendas. Apenas nós, Setitas, cremos em nosso deus e seguimos as tradições.
Já na sala, Shaka indicou o sofá fazendo um gesto para que Mu se sentasse.
— E... É nisso que você acredita, Shaka? — perguntou o Nut com voz firme e baixa, enquanto se sentava no sofá indicado pelo sacerdote.
Shaka olhava para ele ao mesmo tempo em que caminhava até uma das grandes janelas que decoravam o extenso cômodo, e então a abriu, deixando a brisa fresca acariciar seu rosto. Olhou para o céu estrelado e fechou os olhos.
O que iria dizer ia contra tudo que os Setitas pregavam e acreditavam.
— Não e sim... — voltou-se para o centro da sala onde apanhou um castiçal dourado suntuoso com várias velas e o colocou sobre o piano que havia ali — Acredito no dever divino que me fora outorgado, de encontrar e reviver nosso deus nessa Era, mas... Apesar das escrituras serem claras, penso que deva haver muito mais por trás da vida de Seth do que apenas o que nos é dito. Dizem que Seth tentou matar o próprio irmão por sede de poder, que traiu a família e foi morto facilmente. Nós, os Seguidores de Seth, Setitas ou Serpentes, sabemos que isso é mentira. Seth não morreu, apenas desapareceu. Somos vistos como os guardiões dos segredos antigos de nossa existência, por isso, muitos clãs nos perseguem, em busca desses segredos. Muitos dos papiros antigos foram perdidos com o passar dos séculos, e isso fez com que a história de nosso deus se perdesse com eles e dificulta-se minha busca. — apanhou um isqueiro de dentro de uma gaveta do móvel próximo ao piano e com ele acendeu as velas do castiçal.
— Nós Setitas, somos muito mais do que um clã apenas. Somos uma seita consagrada à divina missão de preparar o mundo para o regresso de nosso criador, Mu. Diferente dos demais clãs, que atribuem tolamente a criação dos filhos da noite a Caim, nós sabemos que não viemos da mentira cristã. Mesmo assim, em ambas alternativas, Seth ou Caim, a verdade é que ambos desapareceram. Contudo, sabemos que Seth ainda está aqui, porém não caminha sobre a terra. Ele dorme, escondido a espera do momento correto para se revelar e lembrar ao homem que o poder dos deuses não deve ser esquecido.
Ao terminar de acender todas as velas, Shaka parou na frente de Mu e admirou seu rosto, que agora tinha novamente as delicadas e doces feições humanas.
— Alguns de nós acreditam que Seth retornará em um momento de grande necessidade e, portanto, sua volta não pode ser profetizada. Encontrar Seth e preparar as novas gerações para a volta do nosso deus maior é a minha missão, e isso é tudo que posso lhe dizer.
Mu tinha os olhos verdes arregalados e uma expressão de espanto no rosto. Subitamente, tomado em ira e visivelmente irritado, levantou-se do sofá balançando a cabeça em tom de negação e caminhou até a janela recentemente aberta.
Olhou para o firmamento num gesto breve, sentindo o peito lhe apertar e então com voz tremula sentenciou:
— Está errado! Está tudo errado!
Continua...
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