A Máscara de Seth
5 Capítulo 5 Parte II
Notas iniciais

Ao terminar de acender todas as velas, Shaka parou na frente de Mu e admirou seu rosto, que agora tinha novamente as delicadas e doces feições humanas.
— Alguns de nós acreditam que Seth retornará em um momento de grande necessidade e, portanto, sua volta não pode ser profetizada. Encontrar Seth e preparar as novas gerações para a volta do nosso deus maior é a minha missão, e isso é tudo que posso lhe dizer.
Mu tinha os olhos verdes arregalados e uma expressão de espanto no rosto. Subitamente, tomado em ira e visivelmente irritado, levantou-se do sofá balançando a cabeça em tom de negação e caminhou até a janela recentemente aberta.
Olhou para o firmamento num gesto breve, sentindo o peito lhe apertar e então com voz tremula sentenciou:
— Está errado! Está tudo errado!
***
— O que? Do que está falando, Mu? — perguntou Shaka curioso.
O Nut não respondeu. Estava imerso em seus pensamentos e vivências do passado. Tudo que conseguia pensar era no absurdo que ouvira um pouco antes do fim do relato.
Segundo a tal mitologia, ele almejara tomar o lugar de Osíris. Logo Osíris, ou Shion, seu amado irmão mais velho! Jamais lhe ocorreu tal ideia absurda.
Outro fato que o indignou fora a descrição que Shaka fizera acerca de sua personalidade. Até podia aceitar a alcunha de deus do Caos, da guerra e da violência, afinal seu Consumo Conspícuo muitas vezes o fizera dizimar povoados inteiros, vilarejos e exércitos inimigos, mas associa-lo a paixões como ciúmes, inveja e vingança era algo que lhe incomodava, já que nunca sentira tais emoções.
Estavam todos errados!
Foi nesse momento, no entanto, que Mu tivera a certeza de que ele era realmente o “deus” do qual o sacerdote falava. Ele era Seth! O deus que o outro tanto procurava e no qual cria piamente. Entretanto, os milhares de anos em que passou dormindo deturparam toda sua história e transformaram um título de poder em uma divindade caótica, ambiciosa e cheia de ressentimento.
Governar os filhos da noite para a redenção e glória? Sequer podia governar a si mesmo com eficiência!
Era sim, um ótimo governante, mas junto à sua família. Fora com sabedoria dos pais e junto ao empenho dos irmãos que unidos fundaram o Egito e o conduziram a tempos de glória. Não teria feito nada sozinho.
Os homens e também essa tal seita Setita deformaram sua realidade a tal ponto que Mu não se reconhecia mais como Seth, no entanto ele o era!
Um deus fadado à maldição hedionda do Consumo Conspícuo, mas que em sua forma humana era amado pelo povo de sua época, dada sua cordialidade e doçura.
Hórus não era filho de Osíris. Hórus era Atla, seu irmão! Rá era, de certo modo, pai de todos eles, porque junto com sua mãe, Aset, os havia abraçado para salvar suas vidas. No entanto, nem Rá, muito menos ele próprio, Seth, foram os criadores, visto que Rá fora abraçado por um vampiro ancestral a ele.
Até o nome do seu clã, Nut, fora atribuído a uma deusa, muito provavelmente uma vampira.
Eram tantos erros e absurdos que a cabeça de Mu girava e ele esfrega os olhos com os dedos num gesto desesperado.
Shaka foi até ele confuso. Parou a seu lado e chamou sua atenção, segurando-lhe pelo ombro.
— Mu... O que houve? O que está errado?
O Nut não respondeu de pronto. Afinal, como diria a Shaka que ele era sumo sacerdote de uma seita cujos preceitos estavam todos errados, deturpados e cujas escrituras os enganavam há milênios!
Como diria que toda sua fé era apoiada em mentiras e exageros?
Eram tantas histórias desconexas que Mu só conseguia pensar que precisava, o quanto antes, descobrir o que aconteceu de fato à sua família. Entender como foi que todos desapareceram. Talvez esse fato estivesse ligado com a distorção de sua história.
Estaria ai a chave de todo aquele engano?
Mesmo que aturdido, decidira ali que não falaria nada a Shaka, pelo menos até descobrir o que aconteceu enquanto dormia. Dizer a verdade era destruir a crença sólida do sacerdote e ele não queria fazer isso. Não sabia o quão abalado Shaka poderia ficar e precisava, de certo modo, do sacerdote para se adequar ao novo mundo, tão nocivo a si. Dizer a verdade talvez gerasse um conflito entre eles que acabaria na morte do Setita e Mu não queria ter de elimina-lo.
Dessa forma, optou por omitir-se. Não diria a Shaka que Seth era um título de poder tão somente, apenas uma nomenclatura e não uma divindade, mas também não mentiria.
— Apenas minhas lembranças não condizem com os seus relatos, sacerdote. — falou de forma calma e respeitosa — Mas... Atribuo minha confusão ao tempo em que passei dormindo. Por favor, talvez outra hora, com a memória mais recuperada eu possa falar melhor sobre isso.
— Como quiser. — Shaka lhe sorriu enternecido — Confesso que me instiga a curiosidade ouvir suas histórias. — aproximou seu rosto do ouvido do Nut, tocou o pescoço dele com a ponta dos lábios e profetizou num sussurro — Mas temos todo o tempo do mundo para conversar, trocar experiências e histórias!
Mu sentiu um leve arrepio lhe eriçar os cabelos da nuca e na mesma hora em que esperava outro toque percebeu Shaka se afastando e caminhando em direção ao piano.
Que sensação era aquela que sentia toda vez que o outro o tocava?
Ainda estava recuperando-se do arrepio na nuca quando ouviu o sacerdote lhe perguntar, agora em voz alta e em tom bem mais descontraído.
— Gosta de música, Mu?
— Sim. Aprecio muito. — respondeu com um sorriso cordial — Mas a música do meu tempo. Era suave e os escravos dançavam alegres nas noites de festa... A música do novo mundo é hedionda! Fere meus ouvidos. — fez uma carranca irritada, como se numa espécie de delírio auditivo estivesse ouvindo o som infernal da noite londrina se reproduzir naquela sala silenciosa.
— Ah sim! — disse Shaka — Uma das mudanças que mais lamento foi que, com o passar dos séculos, o gado parece ter perdido a sensibilidade para as notas harmoniosas. No lugar delas, adquiriu-se um gosto execrável pela música dissonante, ruim e que agride os sentidos. No entanto, eu não sofro desse mal. Em minha casa seus ouvidos serão agraciados com a melhor música dos homens. Aquela que é atemporal, e que só as almas sensíveis sabem reproduzir e apreciar. Dê-me um minuto. Quero lhe apresentar uma pessoa.
— Uma pessoa? — perguntou tentando conter o nervosismo.
— Sim. Mas, por favor, me prometa que irá conter a Besta, ou ficaremos sem nossas belas canções... E eu sem meu jantar. — rindo, Shaka deixou a sala.
Se aquilo foi uma tentativa de piada, mesmo sendo de extremo mau gosto fez o Nut baixar a cabeça e rir.
— Não se preocupe, sacerdote. Estou de barriga cheia! — respondeu balançando a cabeça enquanto ria.
Estava cada vez mais prazeroso desfrutar da companhia do Setita.
Aproximou-se da janela e olhou melancólico para a abóboda celeste, a qual estava coberta pelo mesmo manto cintilante de eras passadas.
O firmamento era imune às ações do Tempo!
Em outra ala da casa, Shaka abria a porta do quarto que Afrodite ocupava ali, com um gesto ansioso e autoritário.
Através do elo com Mu, sentia o Nut ainda muito tenso e arredio e esperava conseguir descontrai-lo apostando no talento do sueco.
O quarto estava escuro, pois o músico ainda dormia encolhido no meio da cama e coberto até à cabeça. Tinha muita febre, consequência da ferida na coxa, a qual o incomodou o dia todo.
Shaka então se acercou dele na cama e sentou-se na beirada, dando um puxão no lençol que revelou o corpo esguio e trêmulo sobre o colchão.
— Afrodite, acorde. — a voz era grave e em tom sonoro.
Ouviu-se um gemido e logo o músico entreabriu as pálpebras pesadas pelo sono vendo o vampiro à sua frente. Acostumado às visitas noturnas do sacerdote, o músico apenas se remexeu sutilmente e se afastou para o lado, dando espaço para que Shaka se deitasse.
— Hoje não vim para me deitar com você. — disse o sacerdote se levantando da cama — Anda. Levanta dai que quero que conheça uma pessoa.
Afrodite se surpreendeu e temeroso arregalou os olhos e encarou o rosto do sacerdote com uma expressão apreensiva.
— Uma pessoa ou outro monstro? — balbuciou em tom baixo.
— Quem disse que você pode falar comigo nesse tom? — disse entre dentes e então esticou o braço e agarrou no braço do garoto, o puxando para fora do leito com um solavanco.
— Foi ele quem quebrou a janela, não foi? — agora o tom da voz de Afrodite já era bem mais alto e aguilhoado — Ele queria te matar, não é?
— Não. Não queria. — arrastava o menor em direção ao closet — Ele estava assustado e fugiu, mas já está de volta e vai morar nessa casa também. Agora anda. Vista-se. — soltou o servo e ficou parado a sua frente.
— Qualquer um fica assustado perto de você. — balbuciou Afrodite, lançando um olhar rancoroso ao mestre, já que Shaka há dias o estava tratando com extrema grosseria — O que devo vestir, mestre? — perguntou em tom irônico, enquanto caminhava mancando para dentro do closet.
— Uma das túnicas egípcias. Ele é um vampiro muito antigo, do Egito, e é nosso hospede. Devemos agradá-lo, não acha?
— Argh! Uma múmia? — o grito veio de dentro do closet — É um velho? Era só o que me faltava! — vestiu uma túnica de linho branca com bordados em dourado e voltou ao quarto, encarando o rosto sisudo do sacerdote — Não quero alimentar nenhum velhote caquético.
— Ah, pode ficar tranquilo, que se por acaso ele quiser se alimentar de você, não vai ter tempo de sentir nojo e muito menos de perceber o que te atingiu. E também não vai sobrar uma unha sua para contar história! — quase deixou escapar uma gargalhada.
Ao ouvir aquilo, apavorado Afrodite deixou cair no chão o colar egípcio que havia pegado de uma gaveta para colocar no pescoço. Ainda com as mãos trêmulas e os olhos arregalados que fitavam Shaka sem desviar, apanhou o colar do chão e o entregou ao sacerdote, virando-se de costas em seguida e puxando os cabelos para frente.
— Você vai... Me entregar a ele? — perguntou receoso, já sentindo seu coração disparar dentro do peito.
— Se ele te quiser... Quem sabe. — respondeu o Setita ajeitando o colar no pescoço do sueco e apertando o feixe para fecha-lo. Deixou escapar uma risada velada, pois era certo que não o entregaria a Mu, já que agora sabia o que isso significava. Porém, se Mu o quisesse, também não poderia fazer nada para impedir.
— Mestre Shaka... — virou-se imediatamente de frente para o sacerdote, agora o encarando com os olhos marejados — Por favor... Eu não quero morrer.
O sacerdote libertou o riso contido. Humanos ficavam tão mais desejáveis e suculentos quando o medo se apoderava de seus corpos e espíritos! Fez-lhe uma carícia delicada no rosto febril e logo interrompeu o gesto para seguir em direção à porta.
— Anda. Pare de choramingar e venha logo. Ele está nos esperando. Comporte-se e nada de ruim vai acontecer a você.
Não demoraram a regressar à sala.
Assim que adentrou o cômodo, Shaka sorriu para Mu que de pronto se levantou do sofá um tanto quanto apreensivo. Já sentia o odor atraente do servo e podia ouvir a sinfonia de vida que vinha de dentro dele. Fechou os olhos rapidamente, aplacando seu furor interno e então mais calmo os abriu lentamente, mirando o sacerdote à sua frente e logo atrás dele um jovem, parecendo um bichinho acuado, dono de uma beleza singela da qual jamais havia testemunhado.
Já Afrodite, que esperava ver ali algum tipo de monstro escabroso ou uma criatura de pele caquética e amarrotada, como tantas que já apareceram por ali e que ele revigorara com seu sangue quente, se surpreendeu ao ver aquela figura belíssima, de aparência até que frágil, doce e aparentemente inofensiva. Os olhos dele foram o que mais chamaram sua atenção, pois não possuíam a volúpia nem a iniquidade que costumava enxergar nos olhos de Shaka.
O abalo do músico era tanto que encarava a face do Nut com os olhos azuis arregalados, os lábios entreabertos e a face congelada, como se estivesse hipnotizado, ao passo que sua mente tentava encontrar um encaixe entre os fatos, já que uma criatura tão bela e de olhar cândido não condizia com o monstro descrito pelo mestre sacerdote, o qual fizera aquele estrago na janela do corredor.
O silêncio do encontro fora quebrado pelo sacerdote que, dando um passo ao lado segurou nos ombros do servo e o fez caminhar, ainda que trôpego e vacilante, até bem perto de Mu.
— Mu, esse é Afrodite, ele irá tocar uma belíssima canção para nós, para selar essa nossa primeira noite aqui em casa e para marcar o início de uma longa e duradoura... amizade!
O Nut se aproximou também, sem tirar os olhos do garoto. Apesar da beleza divina que ele possuía, a pele estava mais pálida que o normal, os longos cabelos de um loiro muito mais claro que os do sacerdote, quase em um tom prata, estavam sem brilho e era óbvio que algo de errado havia com ele.
Admirou a vestimenta egípcia, mas não se deu ao trabalho de elogiar a homenagem e todo aquele requinte, pois o medo e a dor que exalavam daquele corpo franzino açoitavam seu olfato apurado.
Mu sentia a dor do garoto através do cheiro dos neurotransmissores contidos no sangue dele, os quais também lhe proporcionavam uma leitura térmica e o levava facilmente a constatar que aquele humano estava doente.
Desbancando toda hipótese que se pudesse ser levantada acerca de sua personalidade dúbia, não agradava a Mu ver os humanos sofrerem, mesmo sendo gado.
Apesar de serem comida, o Nut tinha consciência de que antes de ser um vampiro, todo imortal um dia fora um ser humano e, como tal, deviam ser tratados com respeito. Entretanto, era justamente essa consciência a fonte de sua principal vergonha, já que quando era arrebatado pela fome, tornava-se o pior dos horrores aos humanos.
Angustiando e envergonhado, deixou qualquer pensamento de lado, controverso ou não, e se aproximou mais um pouco de Afrodite.
— Olá. Adoraria ouvi-lo tocar. — com um sorriso delicado nos lábios, falou de forma branda e amigável, enquanto ativava outro de seus dons das trevas, um truque ancestral que aprendera com seus pais, e que consistia em elevar sua Presença de forma mais branda a fim de encantar os humanos, os prendendo em um estado de graça e contemplação. Era muito eficiente quando se necessitava domar as feras mais exaltadas e arredias — Mas, antes deixe-me ajudar.
Observando com olhos atentos, Shaka lentamente se afastou deles. Ainda guardava certo receio de Mu em relação a seu servo, temia que o atacasse, mas diante do poder ancestral que ele emanava, o qual parecia reconhecer como o dom da Dominação, que não por acaso era o poder maior dos Seguidores de Seth, sentiu-se confortável o suficiente para apenas observá-los de longe.
O sacerdote, muito esperto e perspicaz, sabia que não havia desvendado nem um terço da natureza daquele Nut. Mu poderia ser sim, um demônio amaldiçoado por uma fome voraz, mas algo nele dizia o contrário!
Quando provou seu sangue, Shaka sentiu uma fagulha de ordem no Caos, um traço tênue e sutil de compaixão. Isso o confundia, pois quem poderia coexistir em meio a balburdia de uma maldição hedionda, sendo dominado por uma Besta primitiva e mesmo assim ter consciência para sentir compaixão? Teria sido ele, em vida, um ser humano tão bondoso capaz de manter vivo em seu coração ressequido esse sentimento?
Quando Shaka não lambeu a ferida que provocara na coxa de Afrodite, o deixando adoecer rapidamente, era nisso que pensava e era justamente aquela reação de Mu que esperava!
Com toda a delicadeza que lhe cabia, o Nut tomou o músico em seus braços, que a princípio se assustou, sacolejando o corpo e tentando recuar, mas que logo se permitiu ser carregado até o sofá, onde fora deitado confortavelmente.
Em nenhum momento desgrudava os olhos vidrados da figura de cabelos lavanda.
Mu então colocou uma almofada debaixo da cabeça de Afrodite, desceu as mãos para a barra da túnica que ele usava e lentamente a levantou, até a ferida ser exposta, próximo à virilha do jovem. A chaga já estava enegrecida e toda a região em seu entorno comprometida.
Apesar da dor terrível que sentia, Afrodite em nenhum momento esboçou a mínima reação. Parecia em transe, cativo à imagem de Mu como um devoto. Algo naquela criatura tão bonita lhe transmitia a paz que ele jamais encontrara em Shaka.
— Está com o mal dos escravos. — balbuciou Mu, fazendo uso de seu acervo linguístico ancestral para diagnosticar o problema, já que infecção não era uma palavra de sua época — O corpo esquenta e se não baixar a temperatura eles morrem.
— Eu... Não quero morrer. — o sussurro do servo fora surpreendentemente entendido pelo Nut, que ao se alimentar do sangue londrino na noite passada, adquirira os conhecimentos do idioma inglês. Por isso esboçou um sorriso terno e lhe fez um afago na franja, respondendo em sua língua.
— Você não vai morrer.
— Às vezes eu penso que seria melhor... — dessa vez falou olhando para o rosto de Shaka, que observava a tudo calado, e então baixou os olhos encarando a bela figura de Mu novamente —... Mas, eu não quero. Tenho medo.
— Você não vai morrer, porque eu tenho a cura. Não se mexa e logo se sentirá melhor.
Com muita serenidade, o Nut se ajoelhou ao lado dele, inclinou o corpo para frente e baixou a cabeça, deixando propositalmente que os cabelos longos lhe servissem como um véu que guardava os segredos de sua face maldita. Assumindo sua forma vampírica mais uma vez, rapidamente levou uma das mãos à boca e perfurou o próprio dedo indicador com uma das presas pontiagudas, deixando que o sangue escuro e denso saltasse para fora a tempo de gotejá-lo sobre a ferida na coxa do servo.
Apenas poucas gotas bastaram. Na terceira a perfuração no dedo do Nut já cicatrizava milagrosamente e ele regressava a forma humana.
Foi também como milagre, que a ferida de morte que acometia o belo sueco aos poucos fora cicatrizando, perdendo o aspecto necrosado em poucos segundos, até não sobrar marca alguma sobre a pele alva e delicada.
Não havia mais sinal do ferimento quando Afrodite fechou os olhos e soltou um suspiro longo, cadenciado... Ainda podia sentir um calor vigoroso percorrer suas pernas, subindo pela coluna e culminando em uma sensação prazerosa, de bem estar, que aquecia todo seu peito e lhe trazia alívio. A febre também fora erradicada e agora, em espanto e contentamento, o sueco abria os olhos e olhava novamente para Mu, exibindo um lindo sorriso.
Estava ainda mais encantado por ele e, como um bichinho que é grato ao dono por lhe ter proporcionado bem estar e salvo a vida, sentia vontade de agradecê-lo com um forte abraço e carinhos. Porém, na mesma hora se deu conta de que não pertencia a Mu e sim a Shaka, e foi olhando para o sacerdote e o vendo lhe encarar de forma severa que apenas baixou a cabeça e fez um agradecimento em tom formal.
— Obrigado, senhor Mu. Sinto-me bem melhor. — ergueu o tronco e cobriu suas pernas baixando a barra da túnica, então se levantou do sofá devagar, sem mais olhar para o Nut — Deixe-me tocar uma canção para o senhor em agradecimento.
Mu também se levantou e o acompanhou com os olhos enquanto ele caminhava até o piano, o vendo ajeitar a banqueta, abrir a tampa que protegia as teclas, sentar-se e concentradíssimo estalar os dedos para iniciar a canção.
A melodia escolhida foi uma das preferidas de Afrodite, a qual sempre tocava em sua casa, na Suécia, quando desfrutava ainda de uma vida normal entre os humanos. Claire de Lune, do compositor francês Claude Debussy que, assim como ele era extremamente bela e triste.
Logo nas primeiras notas da canção, Mu sentiu que seria arrebatado por ela.
O som daquele instrumento era magnífico, extraordinário! Não se lembrava de ter ouvido algo tão sublime em seus anos na Terra, nem algo que tocasse sua alma amaldiçoada tão fundo, a ponto de fazer todo seu corpo responder.
A música era lenta, cadenciada, lindíssima e... triste. Agora era ele quem sentia-se hipnotizado pelo dom de Afrodite.
Era como se a canção conseguisse traduzir com maestria toda sua melancolia, saudades e dor.
Olhava para o belo rosto do pianista com o espírito em êxtase. Parecia poder sentir o coração morto bater novamente dentro do peito. Milagre? Não. Apenas as notas musicais viajando por aquela sala escura, entrando por seus ouvidos e ressoando dentro de seu corpo, fazendo órgãos e tecidos mortos vibrarem em resposta.
Já Afrodite olhava para o Nut com o rosto iluminado pela luz das velas que estavam no castiçal dourado deixado por Shaka em cima do piano e que tornavam sua figura ainda mais bela.
Foi então que Mu, a passos bem lentos e como se estivesse mergulhado em um tipo de encantamento, caminhou até o piano e se acercou do músico, parando a seu lado. Então, ajoelhou-se, sentando-se sobre os próprios calcanhares, curvou o tronco para frente e delicadamente deitou a cabeça sobre o colo de Afrodite, que não se abalou em nenhum momento. Ao contrário, o músico ficou feliz em agradar seu salvador e continuou a serenata melodiosa.
Ambos estavam conectados através da canção, cada qual imerso em seus próprios pensamentos, em suas dores particulares.
De olhos fechados, Mu se entregava totalmente àquela experiência nova. A música do servo de Shaka em nada parecia com o som dissonante do novo mundo e como num transe o Nut deixava a mente vagar, retornando a um passado remoto, onde ainda vivia junto à família.
Embalado pela canção, Mu deixava aquela sala escura para retornar ao vale do Nilo onde, junto aos irmãos, brincava nas margens jogando água para cima, correndo e mergulhando. Em outra viagem insólita de sua mente, revivia uma das festas junto aos pais, Rá e Aset, que de dentro do palácio comemoravam a alegria do gado em festejar uma colheita farta. Depois, num outro lapso, Aset lhe ensinava os hieróglifos correspondentes a seu título de poder, o qual assumira quando fora abraçado.
Seth.
Foi sobre esse título que aprendeu, junto a seu pai, conduzir os projetos grandiosos de engenharia que séculos depois tornariam o Egito um Império.
Então viu Osíris... O irmão se despedia de si com um sorriso antes de seu sarcófago ser fechado para que entrasse num sono que duraria muito mais que o planejado.
Osíris... A quem os homens e os tais Seguidores de Seth clamavam como seu assassino e que na verdade era seu tão amado irmão.
Que mundo era esse no qual acordara?
Em meio a essa espiral de torpor nostálgico, Mu só conseguia desejar nunca ter acordado. Quisera a Fortuna lhe ter agraciado com mesma morte que extinguira a família da face da Terra.
Foi nessa hora que, tomado por uma nostalgia angustiante, Mu chorou. Um pranto silencioso, de dor, tristeza, saudade...
***
Momentos antes de Mu se ajoelhar ao lado da banqueta do pianista e chorar no colo de Afrodite, Shaka havia deixado a sala sem ser notado.
Depois que o Nut se compadeceu do sofrimento de seu servo e o curou da ferida que o estava matando aos poucos, o sacerdote sabia que Mu não faria mal algum a ele. Por isso, aproveitou o momento em que seu hóspede ilustre estava distraído pela música de Afrodite e foi fazer uma ligação para Camus, já que imaginava que o amigo Cesarem pudesse estar bem preocupado consigo.
De seu escritório ligou para a residência do francês, em Paris, e após dois toques apenas Camus o atendeu.
— “Shaka! Até que enfim! E então? Encontrou ele?” — a voz do outro lado da linha era atarantada e abafada, pois o Cesarem segura o celular entre o queixo e o ombro enquanto manejava algumas pipetas para um experimento alquímico.
— Sim. Ele está aqui em casa novamente. — respondeu o Setita em tom baixo. Não queria ser ouvido.
— “Ah bom! Que ótima notícia, Shaka. E como ele está?”
— Bem. Muito confuso ainda e assustado, mas bem.
— “Shaka... Non acho bom mantê-lo ai. Li uma notícia no periódico de hoje e fiquei bem preocupado. Você também deveria ficar... Noticiaram a morte por esquartejamento de três moradores de rua... Estripados, dilacerados... Por mais que Londres esteja se tornando uma cidade bem violenta, os assassinos vivos ainda não chegaram a esse nível, non acha?... Depois, as autoridades londrinas não souberam acarear provas ou sequer traçar um suspeito, devido à violência do ato... Mas, na mesma hora em que estava lendo a notícia eu recebi uma visita em minha casa.”
— Eu imaginei.
— “Pois bem...” — livrou-se das pipetas as jogando em um latão de chumbo e segurou o celular com a mão. A conversa exigia toda sua concentração — “O porta voz do Conselho veio me sondar. Queria saber se recebi alguma visita inesperado nos últimos dias, já que um voo fretado por você saiu de Paris na calada da noite e pousou em Londres. Então esteja preparado, pois logo você também pode ser visitado... Eles sentem que há algo estranho, Shaka, algo acontecendo debaixo do nariz deles e sendo escondido. Estão se mobilizando! Acha que pode controlar o Mu?”
— Não. Ainda não... Preciso de mais tempo. Mas... Eu o quero, Camus. Não vou deixar que ninguém se aproxime dele.
— “Você o que? Você o quer? Está mexendo em um vespeiro, sumo sacerdote! Esse Nut tem o traço da Besta... O Consumo Conspícuo? Você...”
— Sim. É exatamente como imaginamos... Eu o testemunhei e nada do que eu te descrever será fiel ao que eu vi, Camus.
O silêncio do outro lado da linha deixava claro o espanto do Cesarem, que tinha os belos olhos avelãs arregalados e fixos em um ponto qualquer. Camus estava assustadíssimo.
— Camus? Camus, está me ouvindo?
—“Oui... Estou.”
— É magnifico, meu amigo. O poder dele é sem precedentes. Mu é uma criatura sublime e eu não vou perdê-lo para o Conselho.
— “Shaka... Ouça bem. Você non pode bater de frente contra o Conselho. Você já sofreu um ataque brutal dos Espectros das Sombras, muitos clãs não o veem com bons olhos e agora vai bater de frente com o Conselho? Se descobrirem que encontrou um Nut e não os comunicou estará assinando um atestado de conspirador. Pior! Se descobrirem que Mu possui o Consumo Conspícuo vão elimina-lo e a você também. Sabe muito bem que o traço da Besta é uma maldição impossível de ser domada, controlada... Você... Pelo deus que você acredita, non seja leviano. Non sabe com o que está lidando!”
Shaka ia pedir para o amigo Cesarem lhe depositar um voto de confiança quando de repente a música que vinha da sala cessou de súbito e segundos após um grito de horror ecoou pela mansão. Era o grito de Afrodite.
***
Minutos antes...
Afrodite dedilhava o piano com uma habilidade nata. De olhos fechados, já que nem precisava olhar para as teclas, ele se entregava aquele momento que sempre lhe era mágico, quando homem e instrumento tornavam-se um só e a canção maravilhosa era o fruto sublime daquela comunhão.
Distraído, grato e feliz, sentia o peso da cabeça de Mu em seu colo e lhe acalentava o coração pensar que de agora em diante o teria ali, junto a si e ao mestre. Não era um velho amarrotado como pensara de início, mas sim uma linda criatura de aparência jovem, doce e que lhe curara da ferida mortal que o afligia.
Quando fora sequestrado por Shaka e colocado em cativeiro, demorara um bom tempo até aceitar seu destino e, mesmo sendo mantido em encantamento pelo sangue do sumo sacerdote, ainda sentia saudades de sua liberdade e sonhava com ela nesses momentos, quando a música lhe dava asas para voar dali.
Foi nesse momento, quando seu pensamento voava longe, que fora trazido de volta à realidade de maneira brusca e aterradora. Sentiu seu colo encharcado e de súbito percebeu um líquido frio lhe escorrer pelas pernas.
Rapidamente abriu os olhos e baixou a cabeça olhando para baixo. Foi nessa hora que tirou os dedos das teclas, pois suas mãos tremiam em demasia, juntamente com o os braços, pernas e todo seu corpo em seguida.
Sobre seu colo, em torno da cabeça de Mu a túnica que usava estava encharcada de sangue. Alguns fios dos cabelos lavanda do Nut espalhados em seu colo estavam tingidos de vermelho.
O coração de Afrodite falhara uma batida e em pânico ele gritou.
— AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH NÃÃÃOOOO!
Assustado, Mu de imediato se desencostou do sueco e abriu os olhos.
Nessa hora, no anseio em meio ao horror de fugir dali, o músico tentou se levantar da banqueta, mas tropeçou nela e caiu. O sangue todo em seu colo o assustava e tudo que ele fazia era tentar se afastar de Mu como podia. Assim, se arrastava pelo chão em desespero, ao mesmo tempo em que erguia a túnica e apalpava as pernas procurando a ferida aberta que sangrava daquele jeito.
— VOCÊ... VOCÊ ME MORDEU! — gritou em agonia.
Ainda assustado, Mu engatinhava para perto dele tentando acalmá-lo. Seu rosto estava encharcado de sangue, o que assustada ainda mais o garoto.
— N-Não... Eu... Não mordi você... Por favor não se afaste, eu não te feri! — a fala era entrecortada e os gestos meio atrapalhados. Tentava limpar as lágrimas em seu rosto, mas elas insistiam em deixar seus olhos. Mu havia ficado muito emocionado com a música.
— Sim! Você me mordeu!... Olha... Olha quanto sangue! Onde está? Onde está? — procurava a ferida tateando as coxas com as mãos tremulas ao mesmo tempo em que se afastava de Mu — ... Eu... Eu vou morrer?
— Por favor, acalme-se!
Num gesto rápido o Nut esticou o braço e agarrou no punho de Afrodite, que novamente entrou em pânico.
— NÃÃÃOOOO! ME SOLTA! POR FAVOR ME SOLTA! NÃOOO!
Mu o puxou para seus braços, lhe contendo num abraço forte, e usando novamente sua Presença de forma branda o acalmou para, ai sim, poder fazer com que ele prestasse atenção em si.
— Shiii... Acalme-se... Não tenha medo... Assim... Ouça minha voz... — dizia com voz gentil, sentindo o coração do jovem aos poucos se abrandar e sua respiração se acalmar — Eu não mordi você. Eu chorei. Apenas isso.
Desde que fora trazido por Shaka, Afrodite nunca viu o sumo sacerdote chorar.
Sendo assim, o músico não tinha a menor ideia de que vampiros choravam sangue e ao olhar para todo aquele vermelho em sua roupa e pernas, julgou ter sido mordido pelo Nut. Mas agora, erguia a cabeça e olhava para o rosto de Mu. Curioso, constatou que de fato o sangue saia de seus olhos manchados de vermelho vivo e que, além de não sentir nenhuma dor também não era arrebatado pela euforia característica que sentia quando era mordido por Shaka.
— Você... chorou?
— Sim.
— Eu... Não sabia que pudessem chorar...
— Podemos sim. Choramos quando nos sentimos tristes ou... Quando algo muito belo nos toca a alma. — afastou-se minimamente para apenas poder olhar nos olhos azuis do músico — Não tenho outro líquido no corpo, então, quando choro eu... Bem, eu sangro! Me desculpe se o assustei, mas... A sua música, ela é tão bela, tão sublime que me fez vivenciar o passado... Lembrei-me de minha família e... e chorei.
Não queria de fato assustar aquele humano. Ele lhe parecia tão frágil e tão obediente. Já não lhe bastava ter de conviver com a culpa e a vergonha de sua maldição, agora afastaria até aqueles por quem tinha certa compaixão?
Tinha tanto medo de ficar sozinho. A solidão era seu maior algoz. Mas, desde que despertara parece que uma nuvem de infortúnios pairava sobre si.
Com o rosto também banhado em lagrimas e bem mais calmo, Afrodite baixou o olhar. De certa forma sabia como Mu se sentia. Também tinha saudades da família, da vida que ficara para trás.
— Me desculpe, senhor Mu. Não toquei o piano para fazê-lo chorar.
A voz do sueco saiu fraca e vacilante. Havia gostado muito daquele vampiro, mas do que deveria, visto que Shaka o alertara de que era muito perigoso, mas ali, com o rosto banhado em sangue Afrodite só conseguia sentir pena dele.
Foi nessa hora que o sumo sacerdote, que assistia a tudo parado no batente da porta que dava acesso à sala, caminhou até eles. Seus felinos de estimação Seth e Kali o acompanhavam, mas quando Shaka parou em frente ao piano, os animais seguiram, indo se esfregar em Mu, já que sentiam sua tristeza.
— Afrodite, vá para o seu quarto. — ordenou em tom grave e autoritário — Amanhã pedirei a um carniçal que o acompanhe ao mercado e, caso se comportar, a um passeio ao parque.
— Sim senhor. — respondeu acabrunhado, então se afastou de Mu e com uma ultima troca de olhares, apoiou as mãos no chão e se levantou, caminhando de cabeça baixa até Shaka — Obrigado, mestre.
Antes de deixar a sala, Afrodite se deteve. Olhou para trás e buscou os olhos de Mu que o acompanhavam.
— Da próxima vez, prometo que tocarei uma canção mais alegre, senhor Mu. Uma que não o faça chorar. Com licença.
Quando o jovem enfim deixou a sala, Shaka se aproximou de Mu, ajoelhando-se no chão ao lado dele. Tocou em uma mecha de seus cabelos a colocando atrás da orelha e, sem pedir ou dizer algo que fosse, abriu os braços e enlaçou o corpo do Nut num abraço forte, carinhoso e protetor.
Fragilizado e emocionalmente esgotado, o Nut não resistiu. Ao contrário, se aninhou nos braços do sumo sacerdote soluçando baixinho.
— Eu... Eu não sou o que pensam... Eu odeio matar o gado daquela forma hedionda... Mas, a fome... A fome é tanta...
— Eu sei. Eu acredito em você. — o sacerdote afagava os cabelos dele enquanto o permitia desabafar.
— Sempre gostei dos servos e até dos escravos... Shion... Shion dizia que eu não servia para ser líder, porque era bom demais com os súditos e levava tudo à falência, mas... Na mesma hora que eu os amava eu os... Eu os comia daquela forma horrenda que você testemunhou... Meu clã soube na noite em que minha mãe me ofertou minha primeira alimentação. Não tive como disfarçar, estava muito faminto, perdi o controle de maneira ainda mais violenta e todos viram... Minha vergonha foi tanta... Quiseram me tirar da minha mãe por causa da minha marca amaldiçoada... Mas ela não permitiu. Ela me amou mesmo com a Besta vivendo sem controle dentro de mim. Ela dizia que eu era dela e que jamais me abandonaria apenas porque meu abraço não saiu como o planejado... Eu me tornei um Nut, Noite, em egípcio antigo, ou um vampiro como vocês dizem hoje, depois de minha mãe ter tentado por séculos abraçar um filho... Todos morriam... Eu também quase morri... O rito foi tão difícil que minha mãe quase pereceu, mas meu pai salvou a ela e a mim também... Por isso, eu me tornei o único Nut a possuir o sangue de dois criadores.
Mu então ergueu a cabeça e olhou para Shaka. As lágrimas voltavam a escorrer.
— Eu fui muito amado pelos meus, sumo sacerdote de Seth! Mesmo sendo um demônio faminto... E... hoje... Nada mais me resta... Não queria ter assustado Afrodite, ele é tão frágil... Não há lugar para mim no novo mundo... Quisera nunca ter voltado a abrir meus olhos... ter secado por milênios... até me tornar somente pó...
Shaka olhava para ele e não podia deixar de se compadecer de sua tristeza. Sabia que com o passar do tempo aquela dor que parecia um monstro gigantesco lhe pisoteando, logo iria se amenizar. Sabia, porque ele próprio já a sentira.
Shaka também tivera uma família. Pai, mãe, irmãos, esposa, filhos... Viu a todos morrer com o passar do Tempo, e antes o que era dor hoje não passava de uma lembrança melancólica.
A imortalidade tinha seu preço, por isso criar vínculos com humanos não lhes era interessante.
Logicamente que a dor do Nut em nada podia se comparar a sua. Shaka perdera a família quando se tornou um vampiro, no entanto foi uma perda lenta, branda, inevitável, não menos dolorida, mas que viera em doses homeopáticas, por assim dizer. Primeiros seus pais, depois a esposa, seus filhos, os netos... Ainda tivera dois milênios para se acostumar a conviver com essas perdas. Mu não.
Mu havia passado dois mil anos vivendo no seio familiar e depois fora posto para dormir. Quando despertou fora como se tivesse perdido a todos no dia anterior a seu regresso!
Todas as feridas estavam abertas!
Shaka no entanto, não entendia toda aquela fragilidade de Mu. Quando o encontrou na praia, em meio a sangue e areia, e ele lhe revelou que era um Nut, nunca imaginou que aquela criatura primitiva, e por que não detentora dos segredos da criação, fosse lhe apresentar uma alma tão ingênua e sensível. Algo que ia contra sua forma bestial, mas que caracterizava a essência de Mu em sua maior parte.
O sacerdote chegou a pensar que ele seria um dos grandes. Osíris, Hórus, ou até mesmo o próprio Seth! Abandonou essa possibilidade assim que Mu se mostrou confuso, turbulento e assustado com o novo mundo. Quando o Nut se compadeceu do sofrimento de Afrodite e o curou com extrema delicadeza e compaixão, tivera sua prova definitiva.
Seth, segundo acreditava, nunca faria aquilo... Ao contrario, devoraria a carne do servo, um mero humano sem importância alguma, dominaria os homens e provocaria o Caos no momento de seu despertar!
Olhou para Mu e com delicadeza enxugou suas lágrimas.
— Me perdoe, Mu. — dizia, enquanto acariciava o rosto melancólico — Seu despertar não me foi planejado. Eu simplesmente me senti impelido a abrir sua cripta, porque, além de sumo sacerdote, eu sou também arqueólogo. Tenho uma empresa e muitas pessoas que trabalham para mim, escavando os segredos do mundo. Então, quando eu encontrei aquela caverna onde você dormia, pensei ter encontrado um tesouro arqueológico... Se te causei dor ao te despertar, essa não foi a minha intenção. Mas... Se de alguma forma eu puder me redimir com você, lhe protegendo, sendo seu guia no novo mundo. Seria seu companheiro... Se me permitir, é claro, eu nunca o deixarei só.
— Você não teve culpa de nada, sumo sacerdote... Está mais que claro que algo de errado aconteceu, eu nem...
Mu iria falar que nem deveria estar no Irã, onde Shaka o encontrou, e sim dormindo no Egito junto aos irmãos, mas decidiu que não iria revelar mais nada.
— Esqueça... Uma noite eu retornarei àquela caverna e tentarei descobrir alguma pista... Mas não amanhã, nem depois... Só quero descansar.
Aninhou-se ainda mais aos braços de Shaka, deitando a cabeça em seu ombro.
— Eu raramente dormia sozinho em minha época. — a voz era meio acanhada, devido o teor do pedido que queria fazer ao sacerdote — Será que poderia dormir ao meu lado essa noite? Eu realmente detesto dormir só... Fica comigo quando o dia vier?
— É claro que sim. — respondeu de pronto o sacerdote.
Então Shaka acompanhou Mu até o banheiro onde o ajudou a lavar o rosto. Enquanto o Nut descia ao porão, o Setita ligou para Camus, que havia ficado muito preocupado depois de o grito do servo de Shaka ter interrompido a conversa que levavam ao telefone.
Tendo tranquilizado o francês, Shaka desceu ao porão onde junto a Mu improvisaram uma cama debaixo da escadaria, o único lugar onde o Nut sentia-se mais protegido e confortável.
— Bom... Considere como um improviso, por enquanto. Prometo que providenciarei algo mais confortável amanhã mesmo. Podemos fazer um quarto aqui no porão para você, Mu... Por que, eu quero que fique aqui, comigo. — disse pegando na mão do Nut e o puxando para junto de si em um novo abraço terno e protetor — Sei que não começamos muito bem, mas eu vou cuidar de você.
Mu deu um pequeno sorriso e se aconchegou no outro.
— Está ótimo... Melhor que meu antigo sarcófago e infinitamente melhor que aquele esconderijo de ontem no buraco da fera metálica.
O Nut dedilhou os dedos pelo peito de Shaka e não sabia explicar porque toda aquela proximidade mexia com algo dentro de si, além de lhe acalmar.
— Eu não tenho mais nada em minha pós vida Shaka. Tudo desapareceu... Eu sinto que só tenho você...
O final da frase foi dito num sussurro, pois estava esgotado e o sono o tomava.
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