Notas iniciais
Olá meus amores. Demoramos um pouco por conta das atribulações, mas aqui estamos nós. A capa da fic, é uma obra de arte chamada "Saturno devorando um filho" de Francisco de Goya. Essa obra será citada nesse capítulo. Alem disso, no final da fic, eu coloquei algumas notas finais importantíssimas, e que devem ser lidas por vocês leitores para que venham a entender melhor a fic tanto agora, como as tramas do futuro. Conforme for postando mais capítulos vou também adicionando novas notas e explicações. beijos da Amanda e da Ju

A viagem de volta para a casa ocorreu sem maiores problemas, não fosse pelo fato de se ter um vampiro extremamente poderoso e milenar apavorado e com as garras cravadas no estofado do acento do avião, totalmente assustado e em alerta.

Mu estava paralisado de terror. A tal biga voadora era barulhenta, como tudo no novo mundo, aliás. Também cheirava mal e tinha tantas luzes que parecia estar imerso em uma fogueira.

O Nut já não tinha gostado nada da tal biga toda fechada e de metal que os levou até o lugar onde estava a geringonça voadora. Sem falar naquelas roupas incômodas que lhe apertavam as pernas e braços, mas como foram cedidas a si com tanta gentileza por parte do vampiro ruivo, não reclamou.

Olhava para o sacerdote a seu lado e se perguntava como ele conseguia se manter tão calmo dentro daquele pássaro metálico. Os imortais do novo mundo realmente eram criaturas estranhas.

Vez ou outra Shaka pegava em sua mão tentando tranquiliza-lo, mas notou que ele estava tão apavorado que achou melhor deixar todas as explicações para quando não estivesse sob a influência do estresse.

Cerca de uma hora e poucos minutos após levantarem voo em solo francês, pousavam em Londres, na Inglaterra, onde um carro já os aguardava. Não fora muito fácil desgrudar o Nut de sua poltrona, mas com jeitinho Shaka o tranquilizou e então Mu finalmente desceu do avião. Com toda a certeza que há no mundo, se Mu ainda tivesse um coração vivo ele teria parado de bater assim que aquela maquina demoníaca construída pelos humanos decolou.

Pisando no chão, o Nut fez uma nota mental: Aviões nunca mais!

Logo estava no carro a caminho da casa do sacerdote.

Por baixo das lentes escuras dos óculos, Mu observava a tudo com os olhos verdes arregalados em espanto. O trajeto era feito entre as vias menos movimentadas de Londres, mas mesmo assim a miscelânea de sons, o odor forte e instigante do gado, que parecia ter se multiplicado em níveis estratosféricos e inimagináveis, e sempre elas, as luzes, muitas, intermitentes ou perenes, sempre presentes aonde quer que fossem, ainda capturavam a atenção do Nut que tentava entender no que havia se tornado o mundo.

Logo chegaram à mansão onde Shaka morava. Ficava bem afastada do centro e das periferias da capital inglesa, isolada em uma área rural para não chamar a atenção de curiosos, pois em seu subsolo havia um templo Setita onde eram feitas as reuniões do clã entre os sacerdotes e membros mais influentes, já que muitos eram ligados diretamente a executivos, políticos e empresários de renome, que juntos governavam boa parte do país.

Ao chegarem, mal Shaka abriu a porta da entrada e Mu já corria para dentro. Era outra casa estranha, mas pelo menos o odor agradabilíssimo do sacerdote estava impregnado por todo o ambiente, o que confortou minimamente o ânimo de Mu, lhe dando uma sensação maior de segurança. Por isso, sentiu-se seguro para mais que depressa se livrar de toda aquela vestimenta incômoda que o apertava, especialmente os sapatos. Ah, como odiara os tais sapatos! Molestavam seus pés e o impedia de caminhar direito. Ao fim ficara apenas com a calça, ou quase, pois usando as garras arrancou boa parte do comprimento delas, liberando assim um pouco mais os movimentos das pernas.

Shaka colocava suas coisas sobre um balcão de vidro fumê que ficava ao lado da porta quando ouviu um barulho atrás de si e sentiu uma lufada de ar que balançou seus cabelos. Ao se virar viu as roupas que Mu usava jogadas no chão e nem sinal do Nut.

— Mu? – chamou, de início assustado, mas ainda o sentia por perto. Pelo menos não tinha fugido.

Seguindo seu rastro forte, logo o encontrou em um dos quartos que havia ali na enorme casa. O cômodo estava vazio há muitos anos e quase não havia moveis nele, apenas umas relíquias históricas que o sacerdote encontrara em escavações ou peregrinações mundo a fora. Também algumas estátuas, quadros, cerâmicas, objetos de arte, maquinário antigo...

No fundo do recinto havia um armário barroco gigantesco, e era lá que o rastro de Mu se fazia mais forte. Não sabia por qual motivo o Nut estava tão assustado, mas compreendia que para ele era tudo muito novo, por isso caminhou até lá e quase encostando o rosto na madeira do armário chamou em tom baixo:

— Mu? Não precisa ter medo. Estamos na minha casa. Somente você e eu. Por favor... Tem que confiar em mim. Sei que é tudo muito novo, mas... Se me der uma chance, posso te ajudar a se adaptar. Vamos, saia dai. Logo vai amanhecer e queria que conhecesse minha casa antes de se recolher. Ela será sua casa também daqui para frente. — disse Shaka, torcendo para que suas palavras se tornassem um desejo realizado.

Não sabia o porquê, nem de onde vinha aquela vontade estranha, mas queria o Nut perto de si. Havia a possibilidade de ele querer viver em outro lugar, com outras pessoas ou até mesmo sozinho, mas Shaka não queria pensar nisso. Não agora. Tudo que queria era tê-lo ali, bem perto, para domá-lo e desvendar seus mistérios.

Enquanto o sacerdote esperava uma resposta do Nut, outros seres que viviam na casa também seguiram o rastro do vampiro milenar e se desprenderam até o cômodo. Eram os dois felinos de Shaka, criaturas um pouco maiores do que gatos domésticos normais, de pelagem negra como a noite e de brilhantes e intensos olhos âmbares.

Com movimentos languidos e curiosos, circundavam as pernas do sacerdote as envolvendo com suas caldas longas e graciosas, até que se aproximaram do armário e começaram a arranhar a porta.

— Seth, Kali. Parem! Vão assustar ainda mais o nosso convidado. Deixem-no em paz! — dizia Shaka tentando afastar os bichanos, mas então a porta do armário se abriu, apenas o suficiente para que os dois gatos entrassem afoitos.

Mu não fechou a porta de volta, enquanto acolhia os animais em seus braços que como se o conhecessem já ronronavam e se esfregavam em seu corpo. O Nut respondia a eles produzindo um som parecido, como se estivesse se comunicando com os felinos.

Shaka observava a tudo calado. A aura do Nut parecia mais apaziguada com a presença dos animais ali, por isso não interveio.

— É... Parece que eles gostaram de você! — disse o loiro com um sorriso — Mu esses são Kali e Seth.

— Eu sei... Eles me disseram. — disse o Nut olhando para o sacerdote, enquanto Kali esfregava o focinho em seu rosto — São belos nomes.

— Fala com eles? Interessante! — admirou sua habilidade de se comunicar com as feras. Um dom muito parecido com o de seu clã, já que os Setitas podiam domina-las — São meus companheiros fieis há anos. Geralmente não gostam de ninguém, mas vejo que adoraram você. Olha... Sei que está assustado, mas não pode ficar enfiado aí.

— Não vou ficar. Desculpe-me o mau jeito, sacerdote Shaka. — disse Mu saindo de dentro do móvel, com os felinos trançando suas pernas — Eles me disseram que aqui é seguro... Só... Só não gostei do tal do avião. Não entrarei mais naquele pássaro, espero que não insista... O barulho dele quase me deixou louco.

— Mesmo com nossos dons, o mundo se expandiu demais. Aviões se tornaram bons meios de transporte para nós. — disse Shaka estendendo a mão ao Nut — Mas se não quer, nada de avião por enquanto. Venha. Precisa comer, Mu.

Na mesma hora Mu recolheu a mão e desviou os olhos do sacerdote.

— Não quero comer. Estou bem. — mentiu mais uma vez.

Shaka o olhou desconfiado e confuso. Era muito estranha essa negação dele em se alimentar, contudo, cada um que lidasse com sua Besta interior como melhor entendesse.

— Está certo disso? Possuo um servo com um sangue delicioso. Imagino que iria adorar!

— Sim. Estou certo. — respondeu Mu tentando controlar seus ímpetos, pois só em Shaka mencionar o sangue fresco que tinha para lhe oferecer sua Besta interna urrava.

— Como preferir. — disse o sacerdote, acompanhando Mu para fora do aposento. Os felinos os acompanharam por um tempo e logo voltaram à sala, onde ficavam em guarda sobre antigos móveis acolchoados de madeira negra — Quando estiver mais adaptado ao novo mundo quero leva-lo ao Egito. Muita coisa mudou Mu, mas a história de nossa criação continua lá. Há muitas coisas que quero que veja!

Dizia o sacerdote com uma animação ímpar. De repente sentia que talvez tivesse encontrado um companheiro para suas viagens solitárias, mas logo se lembrou da experiência traumática do avião. É, levaria tempo!

Shaka então lhe apresentou a casa. Era de dois andares e quase tudo era composto por uma decoração rústica vitoriana. Os móveis eram em tons escuros, quase negros. As janelas sempre cobertas com cortinas espessas de veludo carmim e tecido indiano. Na sala principal havia um suntuoso lustre em cristal, com muitos detalhes, mas as lâmpadas eram todas muito fracas e mal chegavam a clarear o ambiente inteiro para não agredir seus olhos.

Mu olhava para tudo com olhos curiosos. Tocava em alguns móveis e objetos sentindo sua textura, enquanto refletia sobre seu antigo lar, o Egito... Gostaria muito de voltar para "casa", a sua casa, mas será que suportaria ver as transformações que o tempo com certeza operara em seu antigo lar?

Nessa mesma sala havia ainda um jardim de inverno sob uma abóboda de vidro, onde ficava um grande piano de cauda negro. Muitos quadros do período clássico e renascentista, peças de arte datadas de várias eras e achados arqueológicos também compunham a decoração daquele ambiente.

Ao final de um corredor do lado esquerdo, por onde agora eles andavam lado a lado, havia uma cozinha toda equipada. Curioso Mu deu dois passos à frente olhando tudo ao redor. No centro havia uma mesa grande e redonda de madeira maciça e sobre ela uma fruteira de cristal repleta de frutas frescas! Havia também geladeira, fogão e até uma dispensa.

— Você deve estar se perguntando por que tenho frutas na minha casa. — disse Shaka colocando uma mão sobre o ombro de Mu — Bem... Como eu disse, eu tenho um servo que mora comigo há alguns anos. Detesto ter de sair para caçar. — disse sorrindo, deixando Mu apreensivo — Mas não se preocupe. Não cruzará com ele pela casa. Ela é grande e ele mal sai de seu quarto.

O Nut achou os utensílios de alimentação humanos bem esquisitos, e se preocupou com o fato de saber que Shaka morava com um servo. Na verdade já havia sentido seu cheiro, que por sinal era delicioso, apetitoso, mas mantinha sua Besta ainda controlada. Seu medo era que não se alimentava há dias e aquele humano ali tão próximo era uma terrível tentação.

— Venha. Vou lhe mostrar o porão. — a voz de Shaka felizmente o distraiu e ele passou a segui-lo por outro caminho que tomaram.

Depois de andarem por outro corredor um pouco mais estreito, chegaram a uma porta simples de madeira crua e passando por ela desceram alguns degraus até entrarem no porão. Era bem escuro e pouco havia nele além de alguns achados arqueológicos, como estátuas, peças de cerâmica e algumas prateleiras com fichários, deixando o ambiente bem amplo e espaçoso.

— Mu, eu não possuo caixões, porém podemos improvisar um quarto para você aqui até arrumar um. Amanhã mesmo me certifico disso. — disse Shaka verificando o cômodo à procura de algumas velas que deixava por ali.

Enquanto isso, Mu andava pelo local admirando, mesmo no escuro, as peças de arte que haviam ali. Muitas pareciam ser egípcias e eram as que mais chamavam sua atenção, até que, enquanto caminhava entre os objetos muito antigos pisou em um prego que estava no chão, soltando um gemido abafado.

— Argh... Droga. — levantou a ponta do pé e mancando caminhou até uma cadeira que jazia ali perto, sentou-se e rapidamente e cruzou a perna para verificar, vendo o prego quase todo dentro de seu pé e o sangue espesso escorrendo para fora da ferida. De imediato ficou aflito por mais aquela perda sanguínea, pois quanto mais sangue perdesse mais cedo sua fome se tornaria incontrolável e ele teria que se alimentar. Se preparava para retira-lo e curar a ferida com seus dons quando o sacerdote o indagou.

— Mu? O que foi? — disse Shaka quando acendia a ultima vela que havia ali no local, então virou-se para o Nut e o viu sangrando.

Logo o sangue dele impregnou todo o ambiente com seu odor tão característico, instigando os instintos do sacerdote que rapidamente se ajoelhou aos pés da cadeira onde Mu estava sentado e com cuidado e precisão retirou o prego que estava cravado na sola de seu pé, o jogando para longe.

— Me deixe ajuda-lo. — disse, então segurou no pé ferido com ambas as mãos.

Sem quebrar o contato visual, Shaka ergueu a perna do Nut até o nível de seu rosto, abriu a boca, colocou a língua para fora de forma até meio despudorada e começou a lamber todo o sangue que escorria e gotejava pelo calcanhar, sentindo a pele meio fria, embora extremamente macia ao toque. Usaria sua saliva para regenerar o ferimento.

O sangue do Nut era algo único!

Shaka era um vampiro ancestral e, portanto, já havia bebido sangue vampírico algumas vezes em ocasiões extremas, nas quais sua sobrevivência estava em jogo, mas era avesso ao ato, o considerando até hediondo. Porém, aquela era uma situação extrema!

Desde que o encontrara naquela praia com resquícios de sangue até nos cabelos, e devido ao fato de Mu ter se negado a se alimentar na casa de Camus e agora ali na sua própria casa, Shaka percebera que algo de muito grave o Nut escondia. Pensando nisso, aquele incidente fora a oportunidade perfeita para descobrir um pouco mais sobre seu hóspede misterioso.

Sabia que o sangue do Nut continha suas vivências, e exatamente por isso, enquanto lambia e sorvia aquele elixir saboroso, um filme se projetava na mente do sacerdote, porém em flashes muito rápidos e desconexos, onde via o Egito antigo, montanhas infindas de areia, o Nilo e tudo que vivia em torno dele, até que de repente as imagens cederam lugar a gritos de horror, torpor de morte e sede de sangue. Seus olhos continuavam vidrados aos de Mu que naquela hora parecia estar em choque! Ou em êxtase!

O Nut parecia hipnotizado com a visão do sacerdote lhe lambendo daquela forma e o contado da língua dele com sua pele lhe causava um frisson parecido com o que sentira quando o outro o tocara enquanto o banhava na casa do Cesarem francês.

Porém, para o Nut aquela ainda era uma sensação de difícil interpretação. Confuso, mas muito excitado, mal conseguia tirar os olhos do sacerdote.

Foi então que Shaka tomara uma decisão que sanaria de vez sua dúvida. Seus olhos azuis de súbito tornaram-se dourados, seus dedos e têmporas assumiram um tom azul cianótico na medida em que suas enormes presas se distendiam, e então o sacerdote abriu a boca e num golpe rápido mordeu o pé do Nut propositalmente, por cima da ferida que acabara de cicatrizar.

Fui muito rápido. Em menos de três segundos Shaka já havia sugado alguns bons goles do líquido vital, sem deixar de olhar nos olhos de Mu, a procura da resposta que tinha certeza que encontraria lá. Se o Nut não a revelasse, as informações no sangue dele certamente findaria o mistério.

No entanto, assim que Mu sentiu as presas do outro rasgando sua carne e seu sangue ser sugado em uma velocidade espantosa para fora de seu corpo, o transe em que estava fora tomando proporções muito maiores e perigosas. Sentia seu corpo ser tomado por um turbilhão de sensações que se assemelhavam a uma tempestade de raios que lhe percorriam músculos, tecidos, nervos... Culminando num torpor extremo que misturava prazer e fome, lhe ativando o tão temido gatilho!

Seus globos oculares se tornaram negros, as íris escarlates faiscaram um lampejo intenso que paralisara totalmente o corpo do sacerdote, o qual, em choque, via o rosto do Nut se transfigurar bem à sua frente.

Shaka não teve tempo de esboçar reação alguma e completamente absorto, tanto pela paralisia, quanto pela figura horrenda que Mu adquiria, apenas o viu recolher a perna se livrando de sua mordida, para no segundo seguinte avançar sobre si o lançando contra o chão e se debruçando sobre seu corpo.

Como uma fera que mantem a presa acuada sob domínio do medo, Mu agora segurava Shaka pelos braços, cravando as enormes garras pontiagudas em sua carne, ao mesmo tempo em que enfiava o rosto na curva do pescoço do sacerdote e o farejava, se deliciando com seu odor instigante. Abriu a bocarra sedenta e já com as hediondas presas distendidas, que eram muito maiores se comparadas aos filhos da noite atuais, se punha pronto para rasgar a garganta do Setita.

Shaka, que era um vampiro poderosíssimo, nada podia diante da fúria primitiva do Nut. Sua poderosa presença era agora ainda mais forte e por mais que tentasse se livrar do domínio que ele lhe impunha não conseguia mover um só músculo.

Olhava nos olhos negros e escarlates do Nut e via que quem estava ali não era mais o vampiro de aparência frágil e gentil que despertara dias atrás, mas o Demônio em seu interior, a Besta que o dominava completamente, ou parcialmente.

Mu por sua vez, lutava com todas suas forças para não fazer o que mais desejava naquele momento, que era saciar sua fome avassaladora e se alimentar do loiro até sorver sua ultima gota de vida! Nunca havia se alimentado de um vampiro, mas o sacerdote lhe despertava um desejo único, diferente e muito tentador. Urrava baixo, próximo ao ouvido dele, enquanto esfregava o rosto no pescoço frio do outro e o lambia de forma doentia.

Abriu a boca e encaixou as presas e a mandíbula na garganta de Shaka, pronto para arrancar sua cabeça com uma só mordida, mas em um lampejo de consciência o soltou, se afastando abruptamente e visivelmente atormentado correu para fora do porão, se atirando contra a primeira janela que encontrara, a qual ficava no corredor que levava à sala. Caiu sobre o gramado do jardim feito um gato, em meio a estilhaços de vidro e madeira, e já partiu em disparada em direção ao enorme portão de ferro.

Shaka, ainda estava sob o efeito da paralisia imposta pelo outro. À medida que Mu se afastava sua Presença perdia força e o sacerdote agora conseguia, mesmo que a duras penas, levantar-se do chão e seguir o rasto do Nut.

Em velocidade bem menor, o Setita saltou pela mesma janela e correu na mesma direção, chamando pelo outro alucinadamente em meio à escuridão da noite.

— Mu! Muu! Volteeee! — gritava, mas em vão, enquanto ao longe o sentia seguir rumo à estrada que levava até à periferia de Londres.

Em desespero o sacerdote o seguia farejando seu rastro. O sangue do Nut dentro de si aguçava ainda mais seus sentidos e ele podia sentir o cheiro do outro mesmo a longas distâncias. Porém, Mu era infinitamente mais rápido e parecia usar tudo a sua volta para despistar seu rastro, como a fera predadora que era.

Depois de correr por bastante tempo, o sacerdote chegou aos arredores do coração da cidade. Como de costume, a noite londrina borbulhava frenética num caldeirão imenso de luzes, sons, odores e sensações, e na cabeça de Shaka só se passava um único pensamento: Como Mu se sairia sozinho em meio aquele pandemônio tão novo para ele.

Logo viu dois Espectros das Sombras circulando entre os notívagos. Desceram para o metrô onde encontraram com um Malkaviano e seguiram juntos até desaparecerem no subsolo. Um Toreador de aparência idosa lia um livro sentado no banco de uma praça ao lado de um café famoso, certamente de olho na vitima da noite, ao mesmo tempo em que um grupo de Ventrues saia, pela saída dos fundos, do Teatro Apollo. Um das mulheres olhou desconfiada ao passar por ele e Shaka percebeu que não tinha muito tempo. Tinha que impedir os outros clãs de sentirem a presença de Mu, ou teriam graves problemas.

O problema é que faltava apenas uma hora para o amanhecer, e não conseguia mais rastrear Mu, pois percebia que ele de alguma forma estava bloqueando seu rastro.

— Droga, Mu! — resmungou, percorrendo com os olhos azuis cada canto, cada viela e beco escuro, até que depois de trinta minutos e não podendo mais se arriscar, mesmo furioso voltou para a casa.

Shaka estava tão tomado pela ira, que abateu dois humanos no caminho de volta. Bebeu muito pouco deles, só precisava mesmo descontar sua raiva e sentiu um prazer incomensurável em mata-los! Além de que, o sangue do Nut lhe causava frisson e estranhamente lhe dava uma fome insana.

***

Momentos antes de Shaka decidir encerrar a busca, Mu corria alucinado pelas ruas da periferia de Londres. Perdido e confuso, o Nut sofria com as luzes noturnas que o cegavam e também com toda aquela poluição sonora que atordoava seus sentidos.

Além das luzes e do barulho infernal, o ar do novo mundo tinha um cheiro rançoso, pesado e haviam tantos humanos que chegava a ser assustador!

Em sua forma bestial, à medida que avançava desorientado, Mu escutava o pulsar da vida de todos ao redor e aquilo instigava cada vez mais seus instintos. Em completo desespero, ele corria, saltava sobre muros, escalava paredes e grades, na tentativa de fugir dali e encontrar um lugar seguro. Porém quanto mais avançava, maior a cidade lhe parecia e mais humanos surgiam levando o Nut à loucura.

Sentia o alvorecer próximo e tinha que encontrar um lugar para se abrigar do sol, porém não fazia ideia de onde, já que ali não parecia haver cavernas ou catacumbas. Somado a isso, ainda precisava se alimentar, pois não adiantava nada se abrigar do sol na ânsia pela sobrevivência e não comer, já que sentia seus poderes no limite.

Foi quando entrou numa viela suja e mal cheirosa e deu de cara com três jovens agachados em volta de uma pequena fogueira. Eram magros, estavam imundos e pareciam doentes. Mu imaginou serem peregrinos esfomeados... Esses eram sempre boas presas!

De modo furtivo se aproximou deles sem ser notado de início. Até porque os três estavam muito mais interessados na divisão da pedra de crack que o homem mais velho partia com o auxílio de uma faca suja.

Quem conseguiu a pedra fora a garota, que se prostituía para sustentar o vicio dos três. Findada a partilha, o homem mais velho colocou a sua no cachimbo e ateou fogo, dando uma primeira tragada longa, e quando ergueu a cabeça viu finalmente a figura pálida e fantasmagórica, de longos cabelos lilases e olhos negros atrás dos outros dois colegas.

— Olha só o cara! — disse o viciado dando uma gargalhada alta, que chamou a atenção dos outros dois — Já é Halloween? Jean, Camile, olha só a fantasia do cara! Deve tá querendo uma chupada antes do baile... 5 libras, irmão. E ai, que tal?

Os dois jovens mal olharam para trás e tiveram suas cabeças arrancadas por um golpe certeiro, o que fez o homem mais velho dar um grito de horror que não durara muito, pois sua garganta fora dilacerada quando ainda gritava.

Em poucos instantes, Mu havia literalmente devorado os três. Não apenas bebido o sangue, mas comido suas carnes, vísceras e até alguns ossos, e tudo que restara era uma massa disforme e sanguinolenta de restos de vísceras e carne espalhados pelo chão.

Quando terminou, de pé Mu observava a carnificina sob seus pés. Em uma situação "normal" se livraria dos restos dos corpos como sempre fizera, afinal, mesmo soltando sua Besta, o vampiro ainda mantinha sua consciência, mas não tinha controle da fome. Contudo, aquela não era uma situação normal. Estava em estado de alerta constante e regido por seu instinto de sobrevivência.

Para agravar ainda mais sua situação, o sangue e os corpos dos jovens que comera estavam completamente contaminados pelas drogas pesadas que eles usavam e Mu começava a sentir os efeitos de todos aqueles entorpecentes. Sua boca tinha um gosto ruim, ácido.

— Maldito seja o sangue do mundo novo, Argh! — resmungou em sua língua mãe, o sânscrito, enquanto esfregava os olhos e contorcia o rosto.

Cambaleando entre as vielas, todo sujo pelos restos da refeição feita a pouco, Mu procurava desesperadamente por algum refúgio. Se não estivesse entorpecido pelas substancias químicas usaria seus poderes para rastrear um abrigo, mas em seu estado atual pouco podia fazer além de se guiar pelos sentidos e instintos. Escutava ao longe um barulho alto e irritante, uma mistura de sons para ele que na verdade era a música que vinha de uma casa noturna há três quadras dali. Além disso, o ruído dos carros passando na avenida mais próxima, as buzinas e as vozes já anunciavam que a cidade estava despertando.

Quando o céu começou a querer clarear o Nut entrou em agonia. Sentia sua pele esquentar, seus olhos arderem e em completo torpor correu sem rumo se esgueirando pelas paredes. Estava quase invadindo uma das casas para se abrigar quando viu, ao final da rua, a entrada para os tuneis do metrô. Não sabia o que era, julgou ser uma caverna, pois seus ouvidos aguçados já calculavam, através da propagação do som, que havia uma grande passagem por ali com espaço em baixo da terra.

— Uma câmara subterrânea! — sussurrou para si mesmo e no mesmo instante correu para lá já sentindo o calor do sol, que nem havia nascido ainda, ferir sua pele.

Desceu as escadas tão rápido que mal podia ser visto por quem esperava os trens para chegar cedo ao trabalho e assim que viu os tuneis, saltou entre os trilhos e ao encontrar uma fenda escura e úmida entre as paredes, meteu-se dentro se esgueirando para o fundo o máximo que conseguia, como um bicho assustado, mas sempre em alerta.

Logo o trem passou pelo túnel e Mu teve que proteger os ouvidos com as mãos, pois o barulho que ele fazia lhe feria os tímpanos e atordoava seus sentidos.

O Nut olhou para o lado e ficou assustadíssimo com aquilo, julgando ser outro monstro metálico do mundo moderno, mas que engolia os humanos e muito mais barulhento. Não conseguiria dormir, pois além do barulho haviam muitos humanos ali por perto, o que deixava sua Besta instigada e atiçava sua fome.

Prevendo a agonia que estava por vir, de olhos fechados ele clamou a seu pai, Rá, que dormisse e que quando acordasse descobrisse estar em casa, ao lado de sua irmã e que tudo não tinha passado de um sonho ruim.

***

Quando Shaka chegou a casa, os primeiros raios da aurora já despontavam fracos no horizonte. Rapidamente atravessou o jardim, abriu a porta da frente e entrou, a trancando e apoiando as costas na madeira, quando de súbito sentiu-se tomado por um torpor agonizante.

Seu corpo ardia, seu ânimo era voraz e mesmo liberto totalmente do poder de Mu, o sangue do Nut que corria em suas veias o mantinha ligado a ele, o fazendo sentir toda a angustia, medo, dor e confusão que o outro sentia naquele momento.

— Malditooo! Maldito, Maldito! — berrou repetidamente, enquanto desencostava da porta, agarrava um vaso de porcelana chinesa que havia ali e o arremessava contra um dos quadros na parede — Por que fugiu de mim? — dizia confuso e muito nervoso.

Seus sentidos pareciam inebriados, torpes e meio cambaleante atravessou a sala para seguir ao corredor que levava a seu quarto, quando de repente os raios dourados e quentes do sol invadiram o mesmo como num passe de mágica, entrando pela janela quebrada pela qual Mu fugira. A cortina negra estava aberta e a luz da manhã, mesmo que ainda tênue e fraca imediatamente queimou as retinas do sacerdote que em completo terror correu de volta para a sala e se abrigou atrás do sofá, onde se agachou e gritou pelo servo que morava consigo.

— AFRODITEEE! AFRODITE, RÁPIDO!

Sua voz saia num tom dissonante, grave e animalesco, uma mescla de sua voz humana e um rugido de fera.

Poucos minutos depois, uma figura belíssima, de longos cabelos louros muito claros, enormes olhos azuis e aparência delicada adentrava a sala às pressas e ofegante, como quem tinha acabado de levar um grande susto. Trajava apenas uma cueca azul marinho e uma camiseta branca de mangas longas que ia até um pouco para baixo de seu quadril. Tinha o rosto um pouco severo, pois foi acordado com os gritos do sacerdote e estava assustado.

O jovem parou no meio do corredor olhando para a janela quebrada e para os raios de sol que irrompiam a penumbra do lugar, quando outro grito o tirou do transe.

— AFRODITE! RÁPIDO, DÊ UM JEITO NESSA JANELA!

O servo ouviu a voz rouca vindo da sala. Estava sonolento ainda, mas logo percebeu a gravidade do que ocorria ali e então correu para o porão, onde apanhou uma grande placa de madeira com rodinhas na base, construída para aquela função, de obstruir possíveis passagens do sol, e a arrastou até a janela quebrada, selando a passagem dos raios luminosos e fechando a cortina por cima da placa de madeira, acabando de vez com qualquer vestígio de claridade que pudesse entrar naquele lugar.

Arfante e apreensivo, o servo correu para o centro da sala e encontrou Shaka agachado atrás do sofá, então se ajoelhou no chão ao lado dele, o vendo segurar a própria cabeça com ambas as mãos enquanto rosnava baixinho. Seus dedos estavam manchados de sangue e ele parecia falar sozinho, em tom muito baixo e em uma língua estranha.

O jovem esticou o braço e tocou no ombro do sacerdote.

— Mestre Shaka?... O que aconteceu aqui? — perguntou em tom baixo.

Num rompante de fúria e confusão, Shaka se lançou sobre Afrodite, o prendendo contra o chão. Suas mãos trêmulas apertavam o pescoço do garoto e sua Presença o paralisava por completo. Seus olhos já assumiam um tom âmbar dourado e suas presas ameaçavam o jovem embaixo de si que, assustadíssimo, o olhava em terror.

O pulsar do coração do servo enlouquecia o Demônio dentro de Shaka como nunca antes, só não era mais perturbador que o terror e angustia que sentia vindo de seu elo de sangue com o Nut.

— Mes... Mestre... Não... — Afrodite gemia já sentindo o ar lhe faltar, quando Shaka finalmente o soltou e disse aflito.

— Depressa. Traga-me minha capa, preciso ir para o meu quarto. — pediu, empurrando o garoto para que se levantasse — Rápido! Vá!

Afrodite levantou-se no chão ainda arfante e assustadíssimo. Então correu até o quarto do mestre e apanhou sua grossa capa negra. Quando voltou a jogou por cima de Shaka e o ajudou a passar pelo corredor, protegendo o corpo dele com o seu, para que não sentisse o calor vindo da placa de madeira que vedava o sol, já que ela não era tão eficiente quanto o vidro especial que revestia as janelas da casa e isolava o calor.

Quando finalmente chegaram ao quarto, Shaka livrou-se da capa a jogando sobre a cama e esfregou o rosto com as mãos, num claro sinal de nervosismo.

— Mestre... — disse Afrodite, que se aproximava do sacerdote lentamente, meio vacilante — Onde o senhor esteve? — perguntou em tom sôfrego — O senhor me deixou aqui... Trancado... Sozinho... Por mais de quatro dias!

— Vá para o seu quarto. — disse Shaka tentando conter sua ira.

— Me sinto mal... Mestre... Sinto dor.

— Mandei ir para o se quarto, Afrodite! — repetiu o Setita de modo áspero.

Pelo menos sabia que Mu estava vivo, o sentia em conexão consigo, porém estava em péssimo estado, entregue ao sofrimento e agonia, o que lhe deixava completamente enlouquecido. Queria ir atrás dele, mas teria que esperar a noite chegar e até lá sofreria com sua angústia.

— Shaka... Mestre... — insistia o jovem, que mesmo receoso tocou na mão do vampiro como numa suplica — Me deixou todos esses dias sozinho... Não pode fazer isso comigo, Mestre...

O sacerdote olhou para ele, pela primeira vez sentiu-se incomodado com sua presença.

O coração de seu servo nunca lhe pareceu bater tão forte dentro do peito. O som do sangue correndo nas veias, alimentando aquele órgão vital, soava como uma orquestra em uníssono aos ouvidos do Setita, ao passo que seu odor impregnava seus sentidos despertando sua fome novamente, mesmo depois de já ter se alimentado dos homens que abatera quando voltava para a casa.

Shaka era um vampiro antigo. Foram milênios de estudos, meditação e autoconhecimento que o fizeram assumir controle absoluto de sua Besta interior. Alimentava-se o suficiente apenas para manter-se vivo. E era extremamente seletivo!

Sempre escolhia um servo, ou serva, jovem, belo e saudável que o alimentaria por anos até tornar-se obsoleto, e quando não o quisesse mais, o descartava e escolhia outro.

Usava seu sangue poderoso para manter esse servo cativo, lhe dando pequenas quantidades diárias que o tornaria dependente, além de servil e obediente.

Afrodite estava com o sacerdote há cinco anos. Cinco longos anos em que o servia com obediência e lealdade cegas em troca do sangue de Shaka, o qual o mantinha prisioneiro por vontade própria.

Em uma noite comum como qualquer outra, o belo jovem viera à Inglaterra acompanhando a orquestra sinfônica sueca. Mesmo muito jovem, contava com dezoito anos apenas, já era um pianista de renome na Suécia e iria se apresentar no conservatório londrino.

Shaka estava nessa apresentação e ficou fascinado, tanto pela beleza andrógina do garoto, quanto pela magia que suas mãos eram capazes de produzir ao acariciar as teclas do piano.

Ao final da apresentação, Shaka o abordou enquanto tomava um taxi na Westbourne Grove e desde então o mantinha cativo em sua casa, como uma espécie de “bolsa de sague”, com quem o sacerdote saciava sua sede e também sua luxúria.

O garoto entrou para a lista de desaparecidos e agora fazia parte das estatísticas.

Shaka recolheu a mão que Afrodite segurava e se afastou dele. De costas, fechou os olhos na tentativa de sublimar os rosnados de Mu que ecoavam por sua cabeça. O ouvia diretamente em sua mente, mas não entendia o que ele dizia, pois falava em uma língua muito mais antiga. O torpor do Nut o estava enlouquecendo.

Em um ato desesperado, arrancou a camisa a jogando sobre a cama para tentar aplacar o calor que o incendiava por dentro. Precisava se acalmar, mas o pulsar da vida de Afrodite o punha louco! Seria isso que Mu sentia e que o deixava tão confuso e perturbado desde que acordara no novo mundo?

Em sua era certamente não haviam tantos humanos na Terra, não haviam tantos corações batendo em uníssono. Convidativos... Apetitosos!

— Afrodite... Deixe-me sozinho. Saia. — pediu em voz baixa, ainda de costas para o servo.

O jovem sueco já aos prantos voltou a se aproximar do sacerdote, dessa vez se colocando a sua frente e agarrando em seus braços. Estava há dias sem beber o sangue de Shaka e a abstinência lhe causava uma dor angustiante.

— Mestre... Por favor. — suplicou.

— Me... Obedeça... Saia... — balbuciava Shaka visivelmente perturbado.

— Mestre Shaka... Está doendo... — choramingava o jovem.

Então num surto de ira e desvairo, o sacerdote executou um movimento rápido demais para os olhos humanos acompanharem e agarrou o músico pelos cabelos o arrastando até a cama, onde o deitou de costas com certa violência e o paralisou usando seu dom das trevas.

— Nããooooo! — gritava em vão o humano e aos prantos, sentindo o sacerdote abrir suas pernas com certa brutalidade e já se enfiar no meio delas, ao mesmo tempo em que assumia sua forma bestial, exibindo as presas num rosnado feroz.

— Você quer meu sangue? É isso que você quer? — encarou os olhos amedrontados do músico e então lambeu seu pescoço. Devagar foi descendo, arranhando sua pele alva com as garras até que abriu a boca e cravou as presas na parte interna de uma das coxas do sueco, próximo à virilha, atingindo sua veia femoral de onde ele sugava o sangue quente e saboroso a goladas.

— Nãoooooo... Mestre, por favor... Assim não. — dizia sôfrego, hiperventinlado e tremendo devido a dor e o medo. Seu mestre nunca havia sido tão violento consigo antes.

Diferente das outras vezes em que Shaka alimentava-se de si, nesta o processo lhe parecia extremamente doloroso, pois o sacerdote sugava seu sangue com agressividade. Sentia suas forças e vitalidade serem drenadas rapidamente e já estava prestes a desmaiar, quando sentiu Shaka soltá-lo e erguer a cabeça para olhar em seu rosto.

O jovem respirava com dificuldade. Os lábios começavam a adquirir um tom arroxeado e o sacerdote, ainda encaixado entre as pernas dele, se esgueirou por seu corpo débil até quase tocar os lábios, então segurou o queixo de Afrodite com uma das mãos e usando sua presa rasgou o próprio pulso do outro braço, abrindo um pequenino talho.

— Nunca mais me desobedeça. — disse, então aproximou o pulso da boca do músico e deixou seu sangue gotejar entre os lábios trêmulos — Beba. É isso que você quer, não é? Beba... Você me irrita. — fechou os olhos, sentindo Afrodite lamber com avidez o pouco sangue que escorria para dentro de sua garganta.

Então o garoto agarrou seu braço e agora sugava o sangue em euforia, o que dava prazer ao vampiro, um deleite quase sexual, mas nada naquele momento aplacava a angustia que Shaka sentia ao ter a essência de Mu correndo em suas veias lhe dizendo o quanto fora leviano com o Nut. O pedira para confiar em si e agora ele estava perdido num mundo novo nocivo e sozinho!

Uma tristeza enorme tomou o Setita e ele então, com um tranco forte, se separou do servo, desceu da cama e lhe deu as costas, dizendo em tom baixo:

— Vá para o seu quarto Afrodite, e não saia de lá até eu mandar. Para o seu bem, dessa vez me obedeça, ou não hesitarei em mata-lo. E alimente-se melhor. Seu sangue está fraco e doce demais. Menos chocolates e mais leguminosas... Não me faça ter de transformá-lo em um zumbi.

Afrodite desceu da cama se arrastando até a borda. Trôpego e mancando deixou o aposento do vampiro sem dizer nada. Enxugando as lágrimas com as mangas da camiseta, caminhou até seu quarto deixando umas pegadas sanguinolentas pelo caminho, já que Shaka dessa vez não lhe lambera o ferimento para cicatriza-lo como costumava fazer e o sangue escorria lentamente do meio de suas pernas.

Normalmente o Setita se alimentava com uma elegância ímpar, sem deixar rastros ou nenhuma gota de sangue para trás. Afrodite julgava ter tido sorte. Estava vivo e pelo menos a dor que sentia pela abstinência do sangue do sacerdote havia sido aplacada, por hora!

Em seu quarto, Shaka agora um pouco mais calmo e saciado, porém não menos perturbado, passou a mão no celular e ligou para Camus na França.

Do outro lado da linha o Cesarem, que tentava traduzir um papiro antigo da época da dinastia Nut, o deixou cair no chão ao ouvir a revelação que o sacerdote lhe fazia.

— “Você o que?” — disse Camus em espanto, arregalando os olhos avelãs.

— Mordi o Mu.

— “Mas... Por que diabos você fez isso, Shaka? Por que... Shaka, ele é um Nut! Você... non podia... Ele pode ser um dos criadores... — falava nervoso e indignado, enquanto andava de um lado para outro de seu laboratório gesticulando, até que parou pensativo — Como foi? O que você está sentindo?”

— Foi intenso, e estou me sentindo fantástico! É como se entrasse em sincronia com o mundo à minha volta... Como se... Como se pudesse destruir, provocar o Caos e ter o poder de criar tudo de novo, mas...

— “Mas? Mas o que?”

— O Mu fugiu, Camus.

— “O QUE?”

— Ele... Camus, eu tenho que te contar uma coisa. Mordi o Mu porque tinha uma suspeita me rondando a mente desde quando o encontrei na praia de que te falei, e essa era a única forma de testar se ela tinha fundamento ou não.

Um silêncio se fez do outro lado da linha, até que a voz de Camus foi ouvida pelo sacerdote, agora em tom mais moderado, sem tanta euforia.

— “Deixe-me adivinhar. Por acaso sua suspeita está ligada o fato de que, por ventura, ele possa não ter um controle absoluto da Besta?”

— Sim.

— “Bingo! Eu sabia!” — disse o Cesarem estalando os dedos da mão que estava livre.

— Chegamos aqui e eu lhe ofereci meu servo e ele novamente se recusou a se alimentar.

— “Shaka... Está pensando no mesmo que eu?”

O sacerdote vacilou por um momento, e em silêncio caminhou até o fundo do quarto, onde parou em frente à uma moldura antiga que guardava um dos tesouros que mais presava dentre tantos de seu extenso acervo. Era a pintura a óleo feita por Francisco Goya, em 1819, sobre o reboco da casa onde morava. Intitulada pelo pintor de Saturno devorando um filho, ganhou uma versão sobre tela em 1873, nas mãos do pintor Salvador Cubells, mas o original pertencia ao sumo sacerdote Setita. Nela o Titã Saturno devora o braço de um de seus filhos, depois de já lhe ter devorado a cabeça.

Olhando para essa tela, Shaka confirmou o que mais temia.

— Sim. Creio que estamos diante de um caso raro de Consumo Conspícuo, já que Mu, sendo um Nut, em nada pode ser comparado aos casos de que temos conhecimento hoje.

— “Era o que eu temia. O fato de ele ser um Nut nos deixa totalmente no escuro, já que non sabemos sua geração para calcularmos o nível de seu poder.” — disse Camus muito sério do outro lado da linha.

— Ah, meu amigo, posso lhe assegurar de que ele é muito, muito poderoso. Ele me paralisou somente com sua Presença, sem ao menos me tocar, e me manteve sob seu domínio mesmo há quilômetros de distância. Sabe que poucos hoje teriam esse poder, Camus. Não sou o sumo sacerdote e líder do meu clã apenas por conveniência. Não se esqueça que sou da décima sexta geração.

— “Sacre Bleu!... Temos um grande problema!”

— Ele... Ele pode ter certo controle... Ainda não sabemos, Camus.

— “Non seja ingênuo, sacerdote. Non se deixe levar pelo seu apreço à sua descoberta. Non estamos falando de um vampiro do mundo novo que tem Consumo Conspícuo, mas sim de uma criatura milenar! Mu pode ser um dos primordiais!” — Camus correu até sua escrivaninha e abriu um grande papiro que traduzira pouco antes e, enquanto apontava para as figuras impressas no couro, como se Shaka pudesse vê-las, praticamente bradava entre perdigotos — “Os poucos registros que se têm sobre vampiros muito antigos que possuíam Consumo Conspícuo dizem que ele era muito mais que apenas um descontrole momentâneo da Besta na hora que iam se alimentar... Non, mon ami. Eles eram a personificação dela, eles se tornavam a Besta, e non se saciavam apenas com o sangue do gado, mas precisavam devorar a carne, os ossos... Mal se podia identificar a massa disforme que restava como um humano. A fome, nessas criaturas, era o que regia sua existência! Ela era implacável e insaciável! Enquanto havia vida por perto, eles as iam dizimando, numa ânsia avassaladora, e assim devoravam povoados inteiros, espalhando a morte e o terror no mundo antigo. Os ataques eram tão ferozes, que no descontrole essas criaturas matavam dos seus, o que levou muitos clãs a tomarem a decisão radical de... Exterminar os abraçados que acordavam sob essa maldição.”

Do outro lado da linha, Shaka tinha os olhos fixos na figura horrenda de Saturno devorando a criança, enquanto ouvia a tudo apreensivo, sentindo seu peito apertado e angustiado.

— Você acha que... — disse quase num sussurro.

— “Sim! Seu amiguinho ficou apavorando ao me ver beber Isaak, e por milésimos de segundos eu vi os olhos dele se tornarem negros e uma chama escarlate denunciar sua essência maldita... Foi... Foi muito rápido, Shaka, mas... Mas eu tenho certeza de que esse é o traço do Demônio das eras antigas. O traço dos filhos da noite que possuíam Consumo Conspícuo e que eram verdadeiros arautos da morte. Mu non bebe sangue dos humanos, Shaka. Mu devora o gado feito um animal. Ele non tem controle algum de si mesmo.”

— Por Seth! — resmungou o sacerdote. Apesar de o Cesarem estar coberto de razão, Shaka já começava a se arrepender de lhe ter ligado, pois uma situação grave como aquela deveria ser mantida em sigilo, já que aos olhos de toda a sociedade Mu seria visto como um inimigo em potencial — Camus, presta atenção. Ele... Mu... Ele me atacou, mas... Ele se conteve, ele tentou me morder, mas antes que o fizesse ele fugiu. Então eu creio que ele tem sim, se não um domínio total, um domínio parcial sobre a Besta. Não podemos nos precipitar!

—“Oh! Meus parabéns, Shaka. Você então deve ser o único sobrevivente a um ataque de um vampiro do mundo antigo que carrega essa maldição.” — disse Camus em tom irônico — “Shaka, acorda, amigo. Isso foi sorte, non foi controle.”

— Você é cético, Camus. Eu não encontrei Mu por acaso. Se ele veio até mim, ou se eu fui parar naquela caverna, é porque há um significado por trás disso. Ele não me matou e nem vai me matar. Eu tenho fé que não.

— “Olha, sacerdote, non é hora para ladainha religiosa. Que seja acaso, ou destino, o que importa é que agora você precisa encontrar o Nut. Está entendendo? Muita coisa está em jogo, Shaka. Ele non pode ficar solto por ai, ou vai promover uma carnificina tão grande que nossa máscara perante a sociedade humana estará ameaçada. Precisamos manter nossa existência em completo sigilo e nada pode nos denunciar para o gado. O Conselho... Merde! O Conselho será o primeiro a derrubar os céus sobre sua cabeça. Se Mu for descoberto, matarão a ele, a você e a mim. Isso na melhor das hipóteses. Na pior, ele cairá em mãos erradas e seu sangue servirá para deixar alguém muito poderoso. Alguém que pode querer alavancar um levante e tomar o poder. Já pensou nisso? Se com poucos goles do sangue dele você já teve seus dons aprimorados e sua Presença fortificada, imagina quem o beber inteiro! Ou pior, ele pode ser aprisionado por um clã que o usará como fonte de alimento perene, até se tornarem indestrutíveis. Teremos então um super clã que desestabilizará o equilíbrio já frágil do nosso Conselho... Shaka, pelo deus que você acredita e eu ignoro... Você tem que encontrar o Mu... Ele é uma descoberta incrível, mas também pode ser a fonte de nossa ruína. O Holocausto de nossa espécie.”

— Eu compreendo. Até mais, Camus. Eu o manterei avisado. — respondeu o sacerdote tão somente e então desligou o celular com uma expressão séria e aflita no rosto pálido.

Sentou-se na beirada da cama, apoiou os cotovelos nos joelhos e esfregou o rosto em sinal de preocupação. Em seus pensamentos, só conseguia procurar uma forma de domar aquela fera primitiva que era Mu.

A conversa com Camus fora ao mesmo tempo elucidativa e preocupante. Se Mu era a Besta incontrolável, então nada o faria mudar esse fato. Sabia que não possuía poder suficiente para subjuga-lo através de seus dons de Domínio. Porém, estranhamente algo lhe dizia que nada no mundo era impossível desde que se tivesse fé. E era apegado a ela que o sacerdote agora pensava que talvez pudesse domar o Nut, domesticá-lo e adaptá-lo ao novo mundo, caso contrário só lhe restaria exterminá-lo, pois já que ele despertara o Demônio, então ele deveria livrar-se dele. Nada mais justo!

Só de pensar nessa possibilidade uma angustia tomava todo seu ser. De um modo estranho, sentia-se responsável por Mu, mas mais que isso, sentia-se atraído por aquela criatura de uma forma que jamais sentira antes. Seria curiosidade científica? Ou mais que isso?

Shaka ainda não sabia, mas uma coisa era certa tanto em sua mente astuciosa quanto em seu coração ressequido: Mu pertencia a ele, e nem o Conselho, tampouco a Besta que regia as vontades de Mu, tirariam o Nut de seu poder. Ele decidiria seu destino.

Notas finais
Olá. Eu e Ju achamos por bem fazer algumas notas importantes no final deste capítulo e talvez de alguns outros. Vamos explicar nelas algumas coisas sobre a mitologia e o mundo que criamos para melhor entendimento da historia. Como explicamos antes nos baseamos no rpg vampiro, a mascara, mas também usamos influencias de filmes, series, livros e até pesquisas online. Desse modo nosso universo é único e não segue exatamente os mesmos padrões do rpg. Então vamos começar: — O beijo do vampiro: A mordida do vampiro é chamada de beijo pois ela causa prazer em suas vítimas. Se for realizado da maneira correta, um vampiro pode hipnotizar sua presa, beber dela e ir embora sem deixar evidencias, e o humano apenas acordara de seu devaneio sentindo-se eufórico mas sem saber o que ouve. Mas isso é apenas se o vampiro assim desejar, pois ele pode também ser agressivo e causar muita dor propositalmente. — Saliva: Ao sentir o odor do sangue ou prova-lo, o vampiro produz uma pequena quantidade de saliva, que tem capacidades regenerativas instantâneas. — O ato de beber de outro vampiro: Canibalismo entre vampiros é considerado hediondo. Mesmo assim existem algumas situações onde beber o sangue de outro são aceitáveis e até necessárias. O sangue do vampiro carrega informações, e se ele assim desejar pode concentrar poder, lembranças, informações e passa-las a outro vampiro ao lhe fornecer seu sangue. Por isso é comum um vampiro permitir que um pequeno gole de seu sangue seja bebido em julgamentos e investigações, de maneira a provar que o que fala é verdade, já que o sangue não mente. Também é aceitável beber sangue vampírico em caso de sobrevivência, mesmo assim ainda é algo vergonhoso. obs: é importante salientar que o sangue vampírico não é tão saboroso quanto o dos humanos, ele é denso, escuro e pegajoso. Parceiros sexuais podem se atrair pelo sangue um do outro, mas por motivo libidinoso e não por fome. — Sexo: Vampiros são mortos vivos, por isso seu sangue é morto e eles não tem ereções espontâneas. Para um vampiro macho fazer sexo ele precisa beber sangue humano pouco antes do ato, para que o sangue ainda quente e vivo da vitima circule dentro de si e então possa irrigar seu Pênis levando a ereção. Nem todos conseguem tal feito, pois é necessário controle total do próprio organismo. Além disso é outro momento onde vampiros trocam sangue. Durante o furor sexual, o desejo é tanto que eles não conseguem se conter e se mordem, trocando o sangue entre si e elevando o prazer de ambos muito a cima do prazer humano. — Elo de sangue: O elo surge através da troca de sangue entre dois vampiros, eles adquirem memorias, sensações, emoções um do outro. Pode ser momentâneo e fraco, como em um julgamento, onde um juiz bebe um pouco de sangue, se liga ao vampiro obtendo a verdade mas logo a ligação entre eles acaba. Mas também pode ser muito intensa quando há uma ligação emocional entre os dois. Quanto mais se bebe, mais o elo é fortificado, levando ambos ao longo do tempo quase se tornarem um, pois parceiros de longa data dividem pensamentos, emoções e até conseguem ver em tempo real o que o outro esta vendo. — Parceiros/Companheiros: Vampiros não se casam e nem namoram. É extremamente raro ver dois vampiros em um relacionamento justamente por causa do elo sanguíneo. Por isso quando um vampiro acha que encontrou um parceiro, ele precisa estar bem certo disso, pois ao se relacionarem trocarão sangue e ficarão vinculados um ao outro, tornando uma separação extremamente complicada e dolorosa para ambos. Pode-se passar milênios sem que um vampiro encontre um parceiro, pois eles naturalmente não buscam companhia. Mas se chegar a encontrar aquele com quem deseja partilhar a eternidade, eles se denominarão companheiros. — Conselho: Ele é formado por 25 membros, cada um representa um clã, não necessariamente sendo os mais fortes. Todos os membros incluindo o presidente ( o 26° integrante do conselho) são elegidos democraticamente. Primeiro o clã escolhe seu representante, e todos os representantes então escolhem um presidente, que deixará de representar seu clã para representar todos os vampiros. Seu lugar vazio deverá ser reposto com outro membro do próprio clã. obs: existem clãs não ligados ao conselho, tanto por serem inimigos como por apenas serem isolados. — Conselho menor: Composto por 10 membros mais confiáveis entre o grande conselho. Lida com problemas internos e acusações de traição entre clãs. Sua composição pode variar muito dependendo do motivo a que foram convocados, quem escolhe o conselho menor é o presidente. — A mascara: A mascara é como os vampiros se referem ao disfarce de sua sociedade perante o gado (humanos). Os filhos da noite manipulam os governos, regem a história mas sempre de maneira discreta e escondida pela mascara. É de consenso geral que a sociedade vampírica deve se manter constantemente por traz da mascara. Sendo assim, presa-se muito a educação, discrição e refino. Quanto mais um vampiro se parece e se confunde com um humano, mais bem visto ele é, pois pode enganar muito mais. Desse modo os vampiros mais influentes e conceituados são capazes de fingir estarem vivos, isso inclui pequenos atos que aprendem a imitar para tornarem sua mascara mais “perfeita”. Para isso utilizam inúmeros artifícios, como pro exemplo: se maquiarem para disfarçar o tom cianótico da pele, fingir respirar movendo propositalmente o peito, piscar mimetizando o habito de lubrificar os olhos, e em caso extremos podem ate ingerir alimentos humanos, mesmo que passem mal e precisem vomitar tudo logo após, pois seus estômagos ressequidos não são funcionais. Por outro lado, quanto mais características da besta o vampiro tiver, pior será sua imagem e moral perante os outros, pois não é capaz de manter a mascara. — Marcas da besta: São as características bestiais e animalescas de um vampiro ao se transformar. Quanto mais marcas, mais mal visto ele será diante da sociedade vampírica, pois o afasta da aparência humana. Isso inclui desde a mudança da cor dos olhos ao consumo conspícuo. O consumo conspícuo é a pior de todas as marcas da besta, pois o vampiro que a possui não é capaz de beber um humano de modo a apenas saciar sua sede, ele não consegue parar de beber enquanto não esgotar todo o sangue do corpo da vitima e mata-la. Por isso ser mordido por um vampiro com consumo conspícuo é sentença de morte. Existem lendas que dizem que os primeiros vampiros amaldiçoados com o consumo conspícuo eram ainda piores, pois ao invés de apenas secarem o sangue das vitimas, eles as dilaceravam e literalmente as devoravam de maneira grotesca e violenta. Um vampiro com consumo conspícuo é uma grande vergonha, por isso ele tentará sempre esconder sua humilhante situação. — Tempo e gerações: A maioria dos vampiros acredita que Caim foi a primeira besta, sendo amaldiçoado para se tornar vampiro. Existem outras teorias, como os Setitas que não acreditam em Caim, mas que alegam que Seth os criou, e que ele e seus familiares eram os primeiros. Concordando ou não, todos os clãs contam o tempo da data aproximada em que Caim abraçou o primeiro humano, de modo a facilitar a contagem. Dentro desse padrão temporal, surge o conceito de gerações. O vampiro original seria mais forte, tendo seu numero representado como 1, a primeira geração. Depois dele viriam os vampiros que ele abraçou, denominados de 2° geração e um pouco menos poderosos. Os vampiros então seguiriam essa linhagem, onde quanto mais velho e menor sua geração, mais próximo seria ao original e portanto mais forte e mais influente. — Regressão de geração: Um vampiro pode diminuir o numero de sua geração e aumentar seu poder de maneira “artificial”. Para isso ele precisa beber o sangue de um vampiro mais forte e antigo do que ele. Exemplo: um vampiro de 30° geração, se ele conseguir abater e beber todo o sangue de um vampiro de 24°, ele ficara mais forte e seu numero então cairá por exemplo para 29° geração. Mas não é uma regra, depende muito das condições em que o sangue é bebido, quantidade e se o vampiro doador quis lhe doar poder, pois ele pode concentrar sua energia vital em seu sangue de maneira proposital, tornando pequenos goles mais eficientes do que grandes quantidades. — Abraço do vampiro: Consiste no ato de transformar um humano em vampiro. Se for realizado de maneira correta e eficiente, o humano terá seu sangue drenado, o deixando em um estado de semi-vida, e então imediatamente, antes que a alma abandone o corpo, o abraçador inoculará seu sangue nele. O novo vampiro então deverá despertar uma geração abaixo de seu criador e pertencente ao mesmo clã. Exemplo, eu sou um Ventrue de geração 20 e abraço você de maneira eficiente, Você renascerá como um Ventrue de 21° geração. Mas isso não é regra, pois muita coisa pode dar errada no processo. O humano pode não resistir e morrer, o sangue doado pelo criador pode não ser o suficiente, o criador pode estar fraco, efeitos adversos podem gerar alterações, enfim, inúmeros motivos podem levar ao fracasso, resultando ou na morte do humano, ou em um vampiro com gerações muito abaixo do esperado, ou seja com poderes inferiores. No mesmo exemplo, eu um Ventrue de 20° abracei você de modo ineficaz. Você então pode despertar como um Ventrue de 25° ou 31°, depende do quão falho foi o abraço. Quanto maior o fracasso, maior será a geração e mais fraco será o vampiro.