A Máscara de Seth
2 Capítulo 2
Notas iniciais

Estavam agora na França.
Por três noites inteiras eles correram cruzando todo o território árabe e parte do europeu usando uma velocidade sobre humana, uma das dádivas concedidas pela maldição. Sem se alimentarem ou ao menos conversarem, paravam apenas quando o alvorecer estava próximo, então se refugiavam em cavernas profundas, onde dormiam logo após se abrigarem, completamente exaustos. Corriam, na verdade, contra o tempo, afinal os perseguidores de Shaka ainda podiam estar em seu encalço.
Nos arredores de Paris, bem afastada do centro da capital francesa havia uma casa muito antiga, aos moldes provincianos, e onde viveu Margarida de Valois, rainha da França em meados de 1.500. A casa pertencia a um de seus primos, único sobrevivente da corte real, mas estava no nome de seu jardineiro, simplesmente porque uma pessoa normal não pode ser o dono da mesma propriedade por mais de quinhentos anos!
Era assim que Camus de Valois vivia sem levantar suspeitas. A cada cinquenta ou sessenta anos, passava a propriedade para o nome de um de seus carniçais, empregados na linguagem humana, e continuava a usar a casa, principalmente o porão enorme que ela ostentava, para desenvolver seus estudos empíricos, experimentos científicos e inventos esdrúxulos. Camus era cientista alquimista!
Foi para lá que Shaka rumou quando finalmente pisou em solo parisiense.
O Setita e o Cesarem, nome do clã ao qual Camus fazia parte, nutriam uma amizade um tanto quanto complexa há séculos, já que um era extremamente religioso e o outro completamente cético. Apesar dos muitos questionamentos e do fogo cruzado de opiniões divergentes, ambos se davam muito bem, tanto que um raríssimo sentimento de confiança nascera, fruto dessa amizade.
Foi em nome dessa amizade que Shaka sabia que podia correr para a mansão de Camus, pois logo se daria o nascer da aurora e não teria tempo de chegar até sua casa na Inglaterra.
Poderia ter ido ao Egito e levado Mu a um dos templos sede de seu clã, no entanto, o ataque que sofrera dos Espectros fora por demais violento e isso lhe dizia que deveria evitar aquela região conflituosa enquanto não descobrisse ao certo por que fora atacado.
Como não podia deixar de ser, Camus os acolheu de bom grado. De início estranhou tanto os trajes de Shaka, pois sabia que só os usava nos rituais Setitas, quanto o vampiro que o acompanhava, cuja presença era uma das mais poderosas que já sentira, apesar de sua aparência assustada e frágil. Porém, deixaria as perguntas para depois. Ofereceu aos hospedes um banho quente enquanto foi concluir as análises que fazia em um experimento no qual estudava há tempos.
Na mesma hora em que Camus concentrava-se nas dosagens dos reagentes em seu porão, em um dos banheiros da mansão o sacerdote Setita terminava de se despir de suas joias e adornos, colocando tudo sobre uma bancada de mármore negro. Vez ou outra lançava um olhar para o Nut e sentia o quanto ele estava triste e confuso.
Já sem toda aquela parafernália sobre o corpo, Shaka caminhou até Mu e apoiou um dedo em seu queixo, o fazendo erguer o rosto e olhar para seus olhos muito azuis.
— Venha... Eu vou te ajudar a se limpar. — disse e então pegou em sua mão e o conduziu até a banheira — Entre. Temos que ser rápidos. Logo vai amanhecer. O vampiro que mora aqui é meu amigo. Pode confiar nele. Vamos dormir aqui até amanhã à noite e depois, se aceitar, podemos ir para minha casa. Sente-se.
Mu olhava cabisbaixo para o sacerdote. Dobrou os joelhos lentamente e se sentou na banheira com certo receio. Era tão pequena! As salas de banho de seu palácio comportavam exércitos de tão amplas. Porém se ajeitou como pode e mergulhou as penas na água, que descia por um cano como por magia. Estava exausto!
Correr toda aquela distância logo após ser desperto de um sono milenar não fora nada fácil. Depois, tudo parecia estar diferente! O mundo estava diferente. Era tanto barulho, tantas vozes, mesmo em regiões ermas, tantos odores, luzes... Quanto o mundo mudara enquanto esteve dormindo? Só de pensar sentia-se agitado.
Mesmo confuso tudo que lhe restara foi seguir a misteriosa e encantadora figura de pele pintada de azul e cabelos com a cor do sol. Tinha tantas saudades do sol... Olhar para o sacerdote confortava, de alguma forma, seu espírito agitado.
Ao chegaram àquela residência, sentiu vergonha por sua situação: nu, sujo e acuado. Justo ele, que sempre fora adorado e glorificado por sua altivez e imponência! Por isso, enquanto o sacerdote conversava com o jovem vampiro de longos cabelos vermelhos como o sangue mais puro e olhos curiosos e faiscantes como lava acesa, tentava ocultar sua figura miserável atrás de seu despertor.
A casa era extremamente estranha, o cheiro incômodo, os móveis minúsculos e em excesso. Aliás, tudo no novo mundo parecia ser em excesso. O mais surpreendente até o momento fora a luz!
Que luz fantasmagórica era aquela que não possuía chama nem calor?
Mesmo sendo fraca, agredia suas íris sensíveis, as quais não viam um feixe sequer há milênios.
Meteu a mão na água pensativo. Tentava conter seu espanto frente tudo aquilo para que o sacerdote não pensasse que era um completo idiota.
Shaka entrou na banheira junto com ele. Sabia que estava meio em estado de choque, então não custava ajuda-lo, até porque aquele vampiro lhe exercia certo fascínio ainda fora de sua compreensão.
Da parte de Mu não era diferente. Sentia no sacerdote uma figura em quem podia confiar. Não sabia se era pela pequena ligação de sangue que tinha com ele, a qual fora feito no seu despertar, mas a presença dele o confortava. Por isso, como fazia com seus irmãos, Osíris e Bastet, virou-se de costas para ele e se se encostou a seu peito, surpreendendo Shaka, que não o repeliu, muito pelo contrário, o acolheu afagando seus cabelos.
— Não posso ficar na superfície deste palácio ao nascer do sol. Somente o calor dele, mesmo através das paredes, queima minha pele. — disse Mu, em extrema melancolia — Eu... Eu nunca me banhei sozinho... Pode me lavar? — confessou por fim, um tanto quanto envergonhado, sem revelar detalhes sobre suas origens. Falar nelas lhe causava intenso sofrimento.
— Não se preocupe. O vampiro que nos acolheu possui um porão com paredes muito densas e vários caixões. Costumamos fazer algumas reuniões aqui que duram semanas. Pode usar um deles. — disse o sacerdote, que apesar de estranhar aquele gesto de aproximação, por considera-lo muito intimo, mas que era executado com extrema naturalidade, o ajudava a se banhar com delicadeza.
A pele dele tinha um tom cianótico e muito frio, porém sua textura era suave e macia, o que surpreendeu o sacerdote, pois depois de passar tantos anos ressequido em um caixão, era de se esperar que sua vitalidade não se regenerasse completamente em tão pouco tempo. Realmente ele deveria ser um vampiro muito poderoso!
Shaka mergulhou as mãos do Nut na água e enquanto as esfregava nas suas limpando a ambos, aspirava o odor único e fascinante dos cabelos lavanda dele. Era como fazer entrar pelas narinas milênios de história! Sentiu-se instigado como nunca, Mu o provocava sem perceber e mesmo com todo o controle da besta que adquirira ao longo dos séculos, fazia um esforço imenso para não cravar suas presas naquela criatura e prová-lo por completo!
Em silêncio Mu observava a água se tingindo de azul ao redor das mãos do sacerdote. Então o azul magnifico que o tornava ainda mais belo era tinta! Por um momento achou que fosse realmente a cor dele. Ele ficava bonito com aquela pintura.
— Você vai precisar de roupas. — disse Shaka, tirando Mu de seus devaneios — E também vai precisar aprender a se camuflar entre os vivos. A viagem que faremos amanhã não será como a de hoje.
Enquanto falava, Shaka despejou um pouco de sabonete líquido nas palmas das mãos e as deslizou por todo o corpo esculpido do Nut, que estranhava o cheiro do produto, mas nada dizia. Depois, o sacerdote virou Mu de frente para si e limpou suas unhas com uma bucha, terminando o banho lavando os longos cabelos lavanda dele e até sua intimidade, que foi onde se demorou um pouco mais, não porque estivesse mais sujo que as outras partes, mas porque o sacerdote simplesmente se distraiu mais do que deveria ali, deslizando as mãos pelas coxas e virilhas do vampiro!
O Nut sentia que o sacerdote o tocava de uma forma diferente do que fora acostumado com os irmãos. Não que os toques do outro lhe causassem algum incômodo, pelo contrário, desfrutava de uma sensação nova e bem prazerosa, mesmo sem entender por que sentia aquilo.
Apesar da idade “avançada”, Mu pouco conhecia a respeito dos prazeres da carne e das malicias do sexo. Na verdade, nunca tivera uma experiência sexual, uma vez que sua família tivera o cuidado de não deixa-lo despertar essa paixão em seu espírito, pois sabiam que a Besta podia se tornar ainda mais incontrolável. Mu sabia que os humanos e também os animais copulavam, era assim que procriavam, portanto, devido ao condicionamento imposto pelos membros de seu clã, desde que fora abraçado, via o ato como algo inútil, já que vampiros não geravam descendentes dessa forma. Para Mu, o único prazer a ser desfrutado na imortalidade era saciar a fome.
Sendo assim, o fato de Shaka tocá-lo de um modo mais íntimo não lhe provocava nada além de um bem estar aprazível.
Já para o sacerdote não era bem assim. Por isso mesmo, Shaka se levantou da banheira às pressas para encerrar o banho. Estendeu a mão a Mu e o ajudou a sair junto consigo. A água estava completamente vermelha e suja e não poderiam ficar ali por muito mais tempo.
O Setita então caminhou até o boxe e abriu a ducha. Sua escolha inicial pela banheira fora apenas para não deixar Mu tão desconfortável, já em sua época tomavam banho nas enormes piscinas que haviam nas casas de banho dos palácios. Como arqueólogo ele sabia e presumiu que Mu se assustaria com um jato forte de água direto nele.
Dito e feito. Quando Shaka abriu a ducha, Mu arregalou os olhos e olhou espantado para a engenhoca barulhenta por onde a água saía.
— Venha. Preciso tirar essa tinta do meu corpo e enxaguar você e essa água aqui é mais eficiente, porque é corrente! Entre. Não precisa ter receio! — disse puxando Mu pela mão para junto de si.
— Está bem. — Mu disse somente.
Shaka então se limpou de toda aquela tinta azul, permanecendo apenas com as tatuagens tribais que tinha nas mãos e alguns hieróglifos nas costas, os quais Mu analisara rapidamente, enquanto o loiro erguia o cabelo para cima para se enxaguar, e se surpreendera ao identifica-los como sendo representações do nome Seth, seu título na antiguidade.
Foi tomado de imediato por uma tristeza profunda ao ver aquilo. Não. Ele não era mais Seth. Não era mais nada. Era apenas Mu, um vampiro perdido e solitário fora de seu tempo. Seth ficara para trás. Havia sido extinto juntamente com Osíris, Bastet, Hórus, Rá e Aset e todo seu passado de glórias.
Shaka novamente o despertou dos devaneios cutucando suas orelhas, que ainda tinham vestígios de sangue. O sacerdote o tempo todo se perguntava o que ele tinha feito afinal para se sujar tanto daquela forma!
Deixou os questionamentos de lado e finalmente terminou o banho, envolvendo Mu em um roupão vermelho felpudo que Camus lhes havia providenciado. Estava com um igual, e agora ajudava o Nut a enxugar os cabelos usando uma toalha.
Deixaram o banheiro e encontraram com Camus na sala. Shaka pediu ao francês que lhe cedesse um dos caixões do porão para Mu e, apesar da sua enorme curiosidade, a educação refinada do vampiro ruivo falou mais alto e ele apenas lhes pediu que o acompanhassem até o porão sem mais perguntas, mesmo se roendo todo por dentro de curiosidade.
— Non sabia da preferência do seu amigo, Shaka. — dizia no caminho — Teria mandado os carniçais ajeitarem melhor o local onde estão os caixões.
— Não se preocupe com isso, Camus. É só por uma noite. — falou Shaka, que vinha logo atrás do ruivo, seguido por Mu, que caminhava a passos um pouco mais lentos.
— Já mandei separar roupas limpas para vocês. Vão precisar para a viagem. — o francês entrou o porão e os conduziu até os caixões — Estão aqui. Pode ficar com o que preferir. E Shaka, se preferir o quarto que costuma ocupar quando vem aqui também está arrumado e com as paredes já revestidas.
— Está bem, Camus. Eu lhe agradeço. — respondeu o sacerdote.
Camus então os deixou a sós, se despedindo com um olhar singelo para ambos.
Mu olhava confuso para o ruivo deixando o porão. Não entendera nada do que Camus dissera, pois ele falava em francês com Shaka, e não em egípcio antigo como estava se comunicando antes. Pegou as roupas que o sacerdote lhe entregara e as ficou encarando com certa estranheza.
— O que é isso? — perguntou desdobrando as peças.
— São roupas modernas. — disse Shaka abrindo a tampa de um dos caixões, o maior que havia ali — Calça, camisa, meias, paletó... É isso que se usa no mundo novo. Vai precisar se vestir assim para nossa próxima viagem.
— Não sei vestir essas coisas. Vista-me, sacerdote, por favor. — pediu o Nut retirando o roupão, o deixando cair sobre seus pés. Sua voz tinha certo tom autoritário, apesar de o pedido ser educado — Aliás, não me disse seu nome até agora, sacerdote.
— O meu nome é Shaka. — disse o Setita, percorrendo os olhos rapidamente pelo corpo do outro. Então apanhou as roupas que ele abandonara sobre o caixão, e peça a peça o ajudou a se vestir — Enfie a perna aqui dentro, uma de cada vez... Isso... Eu sou sumo sacerdote do clã Seguidores de Seth.
— Seguidores de Seth? — perguntou Mu surpreso, afinal ele era Seth, seu título no Egito primordial, e saber que no mundo moderno havia um clã com seu nome era no mínimo curioso. As tatuagens com seu nome nas costas dele deveriam ser por conta do clã.
Aquele sacerdote parecia nem desconfiar de quem ele era... Ou, passaram-se tantos anos, milênios na verdade, que outro vampiro poderoso poderia ter ficado com seu título. Logo, o Seth de Shaka deveria ser outro, afinal, por que existiria um clã com seu nome, sendo que passara o tempo todo dormindo? Sim, era doutro Seth. Até pensou em perguntar, mas estava tão exausto que pouco se interessou, até porque, qual fosse a resposta nada mudaria. Continuaria sozinho no mundo. Deveria ser mais uma peça de mau gosto que o destino lhe pregava. Tinha coisas mais importantes para se preocupar... Estava começando a sentir fome! Isso sim era um problema.
— Sim... Seth é um dos primordiais. Tenho certeza que sabe de quem estou falando, dada sua idade. — respondeu Shaka, lhe enfiando uma manga da camisa no braço — Estica o braço... Isso... Nossa linhagem foi fundada por Seth, e não por Caim. Estava em um ritual com outros sacerdotes quando sofri um ataque de um outro clã. Na fuga eu encontrei a gruta onde você dormia.
— Ah, entendo. Por isso as roupas e joias egípcias. — disse Mu somente, um pouco transtornado com tanta informação. Pelo jeito haviam muitos clãs no mundo moderno! E que linhagem era essa a que Shaka se referia e a qual ele teria sido o fundador? Sua cabeça começava a embaralhar tudo e Mu tomou a única atitude que lhe cabia no momento — Estou muito cansado, sacerdote. Se não se importar, quero me deitar. Pode fechar o sarcófago para mim?
— Claro. — respondeu Shaka, o ajudando a se deitar no caixão — Bom descanso, Mu. Estarei aqui quando acordar. — disse de modo terno e então despediu-se do Nut com um sorriso singelo e lacrou o caixão, permanecendo ainda algum tempo ao lado dele, como se velasse seu sono. Depois se levantou, deixou o paletó que Camus separara para Mu sobre o caixão e retornou à parte de cima da casa.
Dentro do funesto leito, sozinho e longe de toda a poluição sonora do mundo novo, Mu pode enfim se abraçar à sua dor. Estava angustiado. Não costumava dormir sozinho. Sempre Aset ou Bastet lhe acolhiam na hora do sono. Pensando nelas, uma saudade lhe corroía o coração sem vida e em silêncio, amedrontado, confuso e perdido, Mu chorou por sua família até seu corpo mergulhar em torpor e adormecer profundamente.
Diferente de Mu, Shaka não precisava dormir em caixões. Apesar de os Seguidores de Seth serem muito mais vulneráveis à luz do que os outros vampiros, um quarto bem revestido com placas negras nas paredes e isolamento térmico já era suficiente. Por isso Shaka fora para o quarto que Camus já deixava preparado para si em sua mansão.
Quando chegara ao aposento, o amigo francês o esperava na porta.
— Me surpreenderia se não estivesse aqui! — disse o Setita, dando uma risada descontraída.
— Então você traz um imortal que cheira à milênios de história e cuja presença é tão poderosa que até os pelos das minhas sobrancelhas se eriçaram e achou que eu non lhe perguntaria nada? Sua Serpente presunçosa! — disse Camus, que possuía um carregado sotaque francês — Vai me dizer quem é ele?
— Sei tanto quanto você, meu amigo, mas... — se aproximou do ruivo e olhando em seus olhos curiosos sussurrou em tom bem baixo — Tudo que posso lhe dizer no momento é que... Ele é um Nut!
— Sacrè bleu! — Camus arregalou os olhos em espanto — Um Nut! Um... Nut de verdade? — como todo bom cientista e curioso que era, já havia estudado sobre o clã extinto dos Nuts e os achava espécimes fascinantes, mas já havia desistido de procurar por um no mundo moderno — Mon ami! Um Nut vivo! Quer dizer, morto! — riu da própria piada infame — Mas, onde o encontrou, Shaka? E... Ele parece tão deslocado!
— Ah, também pudera, né Camus. Como você se sentiria se tivesse mais de 6.000 anos, dos quais vivera apenas 2.000 e passara os outros 4.000 dormindo?
— Eu ia querer morrer! Morrer de novo né, no caso! — o francês coçou o queixo pensativo.
— Exato! E logo depois de acordar descobrir que todo seu clã, sua família, fora extinto e que o mundo mudou completamente, e que só restou você e nenhuma história! O coitado está arrasado!
— Puxa. Sim, isso é bem perturbador. Mas, um Nut!... Bem que eu senti o cheiro estranho do sangue dele! Os cabelos também tem uma cor muito diferente. Ah, como adoraria estuda-lo!
— Componha-se, meu amigo. Ele está assustado! —disse Shaka — Mesmo tão calado e ainda incógnito para mim, eu sinto que vamos nos dar bem. Creio que terá sua chance, com o consentimento dele, é claro!
— Sim, eu sei... Mas como não quer que eu me exalte? Shaka os Nut são considerados os originais, tem ideia disso? 6000 anos! Ele pode ser de 5° geração ou até menos... Minha nossa, Shaka!
— Sim, deve ser mesmo! Foi uma descoberta arqueológica e tanto, não? — disse o loiro com um sorriso.
— Exato! Non pensa em contar ao Conselho, pensa?
— Não! Ninguém pode saber da existência dele, Camus! Por isso eu vim até você! Só confio em você! E, o Conselho... Há tempos não me sinto seguro quanto a eles.
— Oui! Sei que está cansado. Quando acordar venha conversar comigo. Você foi atacado, non? Eu vi as marcas no seu corpo. Imagino até por quem.
— Sim. Como imaginávamos eles estão se agrupando.
Camus se recompôs. Abriu a porta do quarto e deu passagem a Shaka. O sol já dava indícios de raiar.
— Como imaginávamos. Agora chega. Venha descansar, à noite conversamos.
Despediu-se do amigo e fechou a porta. Porém, ele mesmo não dormiria. Eufórico por ter um Nut em sua casa passaria o dia trancafiado em sua biblioteca em meio a livros, anotações, estudos e análises. Finalmente poderia estudar a fisiologia de um primordial! Estava excitado e radiante!
***
Quando a noite caiu novamente no horizonte, Shaka se levantou da enorme cama de lençóis de seda negros, bem mais disposto. Tinha muita fome e imaginava que seu protegido também tivesse. Vestiu-se rapidamente com as roupas que Camus lhe fornecera, uma calça social preta justa e camisa da mesma cor, calçou os sapatos e deixou o quarto.
Desceu até o porão para acordar Mu, mas quando abriu a tampa do caixão levou um susto!
O rosto do Nut estava lavado em sangue já seco e o caminho por onde as lágrimas deslizaram como veios estreitos de um rio, ainda se desenhavam pelas têmporas e pescoço, deixando manchada a gola da camisa branca.
Shaka teve muita pena dele. Sentiu vontade de se enfiar ali naquele caixão apertado e confortá-lo, mas não sabia até que ponto o outro lhe daria essa liberdade. Portanto, só o que fez foi levar a mão até seu rosto e lhe fazer uma caricia suave nas bochechas e nos cabelos. O cheiro dele era fascinante e o seu sangue era tão primitivo que parecia lhe hipnotizar e lhe transportar para um passado tão remoto que nem em seus devaneios mais tresloucados poderia imaginar!
Impelido por uma vontade maior, aproximou o rosto do dele e lhe depositou um beijo suave nos lábios. Apenas um encostar rápido de peles e então se afastou um pouco e o chamou.
— Mu. Mu acorde. Já é noite.
O Nut estava emocionalmente esgotado. Tanto que ao sentir a carícia sua mente imaginou que tudo não passara de um pesadelo e Osíris o estava acordando, mas quando seus olhos encontraram os de Shaka, a realidade veio à tona e com ela uma fome avassaladora.
Apesar de ser um pouco mais amena, diferente de quando fora despertado que aceitara comer até morcegos, ainda assim a fome impelia sua Besta interior a prepara-lo para a caça. O que deixava Mu em completo desespero. Olhou para Shaka e tentou esconder suas mãos, pois suas enormes garras já se distendiam na ânsia pela busca por comida. Então sentiu suas presas crescerem, rasgando de leve as gengivas e pressionando sua língua. Ficou apreensivo e rapidamente fechou os olhos, que agora se tornavam totalmente negros, como céu em noite sem luar. As íris reluziam uma chama púrpura e incandescente que pairavam sobre aquele firmamento tetro.
Virou o rosto para o lado e se concentrou o máximo que pode. Um... dois... três segundos. O tempo necessário para que controlasse sua fome e os sinais da Besta deixassem seu corpo. Tinha vergonha se tua forma bestial, e a esconderia o quanto pudesse.
Então, voltando ao normal, voltou o rosto para Shaka e abriu os olhos.
— Eu... Preciso me desculpar com o anfitrião. Sujei as vestes dele e seu sarcófago. — disse, enquanto se levantava e deixava o caixão, olhando na gola machada da camisa. Ficou ainda mais apreensivo, pois perder sangue daquele jeito leviano não era nada inteligente quando se precisava conter a Besta.
Não conhecia absolutamente nada do novo mundo, mas, se em sua época já causava problemas ao se alimentar, agora não deveria ser diferente.
Alheio ao conflito que se desenrolada no interior do Nut, Shaka sorriu para ele. Percebeu seu constrangimento, mas procurou deixá-lo o mais confortável possível.
— Ora, não se preocupe com isso, Mu. No novo mundo existe uma coisa chamada alvejante! – disse dando um sorriso descontraído.
— Alve... Alvejante?
— Exato. Muito útil para pessoas como nós, pois acidentes acontecem a toda hora, não é mesmo? Venha, vamos trocar essa camisa. E deve estar faminto. Camus tem muitos servos, além de estar louco para conhecê-lo! Depois de comermos vamos para minha casa.
Mu quase entrou em choque ao ouvir aquilo. Jamais poderia se alimentar na frente deles, nem de ninguém. Não. Definitivamente não! Aflito, olhava para o sacerdote que caminhava até a saída do porão, parando na porta e se virando para chamá-lo. Sentiu ímpetos em fugir, correr, mas para onde?
Reuniu toda a força de vontade que lhe restava e seguiu Shaka, cruzando os corredores estreitos da mansão de Camus até uma grande sala, a principal da estrutura. O caminho todo só pensava em uma coisa: Como sair daquela situação. Então seu maior medo se desenhou bem à sua frente, na figura do vampiro ruivo sentado em um divã de couro negro, com um jovem belo e deliciosamente perfumado em seu colo. Um perfume instigante de sangue, que exalava das aberturas feitas em seu pescoço fino e alvo pelas presas de Camus, o qual sorvia o líquido vital de forma muito elegante, sem desperdícios ou exaltações, fazendo o humano delirar em arrepios de prazer e gemer baixinho.
Em estado de catatonia, Mu viu o Cesarem afastar a boca do pescoço do jovem e lamber as feridas abetas, as fazendo cicatrizar de imediato ao contado com sua saliva. Depois, ele subiu o ombro da camisa do jovem, o qual estava caído do lado que o mordera, e lhe pediu para se levantar.
— Este é Isaak. Eu particularmente o acho deveras saboroso. Sangue finlandês! — disse o francês com um sorriso no rosto — Vá, Isaak. Sirva os meus convidados. — disse o francês com um sorriso no rosto — indicou esticando o braço na direção de Shaka e Mu, enquanto limpava o cantinho da boca com o dedo mindinho.
— Sim mestre. Com todo o prazer.
De forma obediente, o humano caminhou lentamente até Shaka e Mu, abriu o punho da camisa e levantou a manga até os cotovelos. Desceu novamente a gola e expos a ambos, pulso e pescoço, para que se servissem como mais os agradaria. Para Isaak, era tão prazeroso poder servir a seu mestre que saciar seus convidados lhe deixava igualmente satisfeito.
— Se a fome for demais, me avisem que tenho outros servos a disposição. — disse Camus os observando.
Shaka olhou para Mu e o percebeu com um semblante perturbado.
— Mu? Algum problema? — perguntou o sacerdote.
O Nut olhava fixamente para Isaak, paralisado. O cheiro doce do sangue vivo invadia suas narinas sem misericórdia. Ouvia excitado ao som do pulsar de veias e artérias, dos órgãos executando suas funções... o som orquestral da vida! O calor do jovem lhe afetava mesmo ele estando longe, convidativo, instigante... As pupilas de Mu dilataram, pois sua Besta inferior gritava para sair. Enlouquecida e faminta!
Desesperado, ele só pensava que tinha que sair dali o mais rápido que pudesse.
— N-Não, sacerdote. Nenhum problema. Apenas não estou com fome. Vou me retirar, enquanto mata sua sede e vou até aquela sala de banho onde nos banhamos ontem. Preciso me lavar para podermos seguir viagem, não é? Agradeça ao anfitrião pelo alimento, por favor.
Mu nem esperou resposta, deixando a sala à passos ligeiros e aflitos. No caminho seus olhos se tornaram negros novamente, as íris vermelhas refletiam toda sua ânsia em devorar o jovem servo do amigo de Shaka. As garras arranhavam de leve o tecido da camisa que ele tentava tirar enquanto caminhava às pressas.
Quando alcançou o banheiro entrou e trancou a porta. O que em nada aliviava seu frenesi, já que podia ainda ouvir o pulsar de vida vindo da sala e o odor instigante do sangue. Aliás, não apenas o de Isaak, mas de todos os servos de Camus que habitavam aquela propriedade.
Em completo desesperado, correu até o dispositivo pelo qual a água surgia parecendo feitiçaria, já que não havia poço ou piscina alguma ali para armazena-la, e girou da mesma forma que vira Shaka fazer na noite anterior. Enfiou ambas as mãos debaixo da torneira e capturando a água a jogou no rosto sujo de sangue ressequido e de forma enlouquecida lambia os próprios dedos sujos, tentando aplacar de alguma maneira a fome louca que sentia. Obviamente não adiantava, mas como que por um efeito placebo, aquela água com sabor estranho, misturada ao próprio sangue o ajudava a se controlar.
— Rá, meu pai! Me dê forças! — rogou, enfiando a cabeça debaixo da torneira.
Ficou ali por longos minutos, até que foi capaz de suplantar seu Demônio interior.
Enquanto isso, na sala, já saciado da fome Shaka se sentava em uma poltrona ao lado de Camus.
Pelo fato do Nut ter bebido algumas gostas de seu sangue, sentia-se ligado a ele, mesmo que por um elo muito sutil, mas o qual lhe permitia sentir alguns lampejos de sua essência.
Por isso, percebeu que o outro estava muito agitado e um tanto quanto hostil! Achou muito estranho o fato de ele não querer se alimentar, pois imaginava que por ter passando tantos séculos dormindo demoraria algum tempo até que saciasse de fato sua fome.
No entanto, sua essência era ainda um mistério. Um mistério que talvez levasse tempo até ser completamente desvendado.
— Creio que a conversa que tanto anseia ter com nosso hospede deverá ficar para uma outra ocasião, Camus. Não o sinto bem e não é nada normal que não queira comer.
— Oui, je comprends! — disse o ruivo — Mas... Algo me diz que deva ter cuidado com ele. Só te peço isso. Non sabe como ele se comportará, pode ter surpresas e... Por ser um Nut, imagino que deva ser muito poderoso!
Camus estava de fato preocupado com o amigo Setita. Observara calado toda a cena, desde que chegaram até o momento em que Mu deixara a sala às pressas, recusando se alimentar. A seus olhos de alquimista e profundo entendedor da fisiologia vampírica, aquela reação não era bom sinal! Era certo que aquele Nut escondia algo e já até suspeitava o que seria, porém não queria dar créditos a si mesmo antes de ter provas. Até porque suas suspeitas eram terríveis e Shaka estaria correndo um risco iminente de morte ao manter a criatura a seu lado.
— Não se preocupe, Camus. — disse o sacerdote — Não sinto que ele possa fazer algo contra mim, em absoluto. Dê-me algum tempo para adaptá-lo, deixa-lo mais confortável, entende-lo e então vá até minha casa na Inglaterra. Seus estudos sobre os Nut também me serão de muita ajuda, eu tenho certeza!
Camus sorriu de volta, concordando com a proposta do sacerdote, afinal não era nenhum dissecador de espécimes raros. Estava louco para estudar Mu e desvendar seus mistérios, mas faria tudo com o consentimento dele. Mesmo assim, temia pelo sacerdote. Mu não faria nada contra ele, Shaka poderia até estar certo, mas e quanto ao Demônio indomado que vira de relance nos olhos do Nut antes de ele deixar a sala às pressas?
Esperou que Shaka fosse conversar com Mu, para levar Isaak de volta aos aposentos dele para descansar. O colocou na cama e o cobriu confortavelmente.
— Durma bem, pequeno. Quando acordar se alimente de maneira saudável... Quero saboreá-lo em breve! — se despediu do servo com um pequeno beijo em seu rosto e saiu.
***
Em frente à porta do banheiro onde Mu estava trancado há quase uma hora, Shaka deu dois pequenos toques.
— Mu? Está tudo bem? Posso entrar? Precisa de ajuda?
Um pouco mais calmo, Mu se dirigiu até a porta pra abri-la, porém ao ficar de frente à ela tinha um novo problema. Shaka agora emanava calor de seu corpo, já que se alimentara recentemente. Era tão perturbador sentir o odor do sacerdote misturado ao do sangue do jovem que seus olhos oscilavam de cor, ora verdes, ora rubros.
Jamais tivera anseios em matar sua fome com outro vampiro. Isso era abominação! Porém, desde o dia anterior, quando havia provado o sangue do sacerdote o gosto dele impregnava sua mente e atiçava sua Besta incessantemente.
Fazendo um esforço colossal para manter o controle, girou a maçaneta e abriu a porta. Sorte que era muito observador e vira Shaka fazer o mesmo na noite anterior.
— Está tudo bem. Apenas me atrapalhei um pouco com a água. — disse ao olhar para o sacerdote ali, parado diante de si. Seus olhos em algum momento escorregaram para o pescoço alvo dele, onde um leve pulsar era percebido. Miseravelmente, Mu esfregou os olhos com os dedos para evitar olhar para ele, depois focou qualquer outra coisa, o piso foi uma ótima opção — Você disse que a viagem de hoje seria diferente? Vamos de mulas? Ou embarcações?
Shaka sorriu com aquela pergunta, mas não conseguiu esconder sua preocupação com ele. Era obvio que tinha algum conflito lhe assombrando, ou não estaria tão alterado. Que sua mente estivesse confusa tudo bem, mas sua fisiologia também dava claros sinais de perturbação.
— Não, Mu. — disse, então pegou uma toalha e gentilmente passou pelo rosto dele, pois tinha minúsculas gotículas de sangue na testa, claro sinal de seu nervosismo — Vamos de avião. Tenho um jato fretado para daqui à uma hora. Teremos tempo suficiente para chegar em casa antes do amanhecer. Mas estou preocupado com você. Não me parece nada bem! — segurou em seu queixo mais uma vez, o fazendo erguer o olhar e encontrar seus olhos azuis — Há tantas coisas que quero lhe mostrar e tanto que tenho a lhe ensinar... Quero que confie em mim. Há algo que eu deva saber antes de partirmos? Por que não quis se alimentar?
O Nut olhava dentro dos olhos do sacerdote e sentia uma angústia enorme. Não queria mentir, mas como contar a ele que era Seth? Talvez não o mesmo, o que o outro adorava como a uma espécie de deus, uma vez que, se não o reconhecera, mesmo sendo sumo sacerdote da tal seita erguida em seu louvor, era porque não correspondia às expectativas de Shaka. Como dizer a ele que tinha um Demônio incontrolável dentro de si? Que sua fome era tamanha que até a família o mantinha sobre controle em seu tempo? E que isso era sua maior vergonha!
Mesmo no novo mundo, era obvio que vampiros como ele não eram bem vistos. Viu Camus se alimentar de forma irrepreensível. Mantendo protegida a máscara que ocultava sua espécie no convívio pacífico com os humanos.
— Não. Não tenho nada a dizer. Apenas me leve para sua casa, por favor. — disse em voz baixa, com o semblante melancólico de costume — Não sei o que é um avião... Mas não deve ser pior que os camelos... É tudo novo demais para mim. Só preciso de um pouco de paz. — desejava sua casa, mas já que não a podia ter, sentia que podia ficar melhor na casa do sacerdote, longe de todos aqueles humanos que haviam ali. Até porque, sentia-se estranhamente ligado a Shaka, e talvez a casa dele pudesse chamar de seu novo lar.
Parado no meio do corredor, Camus observara a toda a cena. — “Hum, parecem terem feito um pequeno laço sanguíneo. Isso non é bom! Non é! Esse Nut é perigoso e Shaka está envolvido demais para perceber o perigo que corre!” — pensava o francês, coçando de leve o queixo.
Caminhou até um grande aposento onde havia um closet imenso e de lá tirou um casaco grande e pesado, óculos escuros, cachecol e um chapéu negro de camurça. Iria ajudar por enquanto, para não piorar a situação que já considerava grave. Certamente aquele Nut não passaria despercebido pelo gado, até porque não sabia fingir ser um deles. Não sabia que tinha que respirar, piscar os olhos... Atividades ínfimas, mas que depois que se está morto exigem um tanto de concentração. O melhor agora era esconder Mu da sociedade, até dos próprios imortais.
Quando chegou à sala Camus encontrou os hospedes o aguardando. Entregou as roupas e acessórios à Shaka e ficou o observando ajudar Mu a vesti-los. O sacerdote ajeitou os óculos no rosto do Nut, enrolou o grosso cachecol em seu pescoço e lhe colocou o chapéu, escondendo seus cabelos dentro.
O francês então entregou uma pequena pasta de mão para o amigo loiro com suas joias ritualísticas dentro e os acompanhou até a porta, onde o chofer de Camus já os aguardava num Jaguar negro.
Antes de saírem, Camus colocou a mão sobre o ombro do amigo e lhe disse:
— Tenha cuidado.
— Eu terei. Não se preocupe. Nem sei como agradece-lo, Camus. — disse Shaka, olhando para o ruivo — Assim que tudo estiver mais calmo, ligo para você.
— Sim, Shaka. E me espere! Há anos non vou à sua casa. Logo vou aparecer por lá! Boa viagem aos dois. — disse o francês sorrindo para Mu e lhe acenando. Sabia que ele não entendia sua língua, mas um aceno de mão seria bem interpretado em qualquer época — Qualquer coisa me chame. E fique atento! Você sabe que sentem o cheiro de carne nova no pedaço de longe!
— Não me pegarão desprevenido novamente. Tenha cuidado você também. Estamos em épocas difíceis. Até breve. — disse Shaka, auxiliando Mu a entrar no carro e entrando logo em seguida.
— Au revoir, mon ami.
Camus passou o resto daquela noite enfurnado em sua biblioteca.
Dessa vez, sua pesquisa era feita consultando papiros e pergaminhos antiquíssimos. O traço da Besta que vira nos olhos do Nut o deixou deveras preocupado. Teria que entender aquilo, pois só assim poderia ajudar Shaka a adaptar Mu ao novo mundo, ou, se fosse o caso, ajuda-lo a exterminar sua descoberta.
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