A Mulher que Fazia Chover
1 Casal de Storybrooke
Notas iniciais
Minha decisão de ser advogada se tornou indiscutível quando descobri que minha mãe os detestava. Na época eu era uma adolescente desajeita; frustrada com a vida, após a morte do meu pai; sendo bombardeada em meio a um fogo cruzado de um divórcio; cuidando de uma mãe louca e ajudando a organizar o funeral do meu primeiro noivo, morto por uma bala perdida.
Minha mãe casou sei lá quantas vezes, mas teve só duas filhas: eu e Zelena. Zelena é minha meia-irmã mais velha, porém totalmente diferente de mim, principalmente na fisionomia. Ela tem cabelos ruivos, olhos claros e pele branca, muito parecida com seu pai. Eu, ao contrário, sou muito parecida com minha mãe, cabelos e olhos escuros.
Zelena tinha uma fissura em fazer tudo certo para chamar atenção de Cora, nossa mãe, mas não adiantava de nada, já que Cora Mills só tinha atenção pra ela mesma.
Cora sempre lamentou a morte de meu pai, dizendo tê-lo amado muito. Deve ser por isso que ela “apostou” no meu futuro promissor invés do de Zelena, e foi por causa dessa “escolha” que minha irmã passou a me odiar mortalmente.
Nossa família desmoronou de vez quando minha mãe pegou Gold, meu último padrasto apresentado para a família, e Zelena aos beijos no porão. Ela adotou a solução mais simples: expulsou os dois de casa sem um centavo no bolso.
Minha vida passou a ser mais difícil ainda por ter que encontrar um lado nesse divórcio complicado, deixando-me em meio de um fogo cruzado: de um lado o melhor padrasto que já tive, do outro a mãe estressada e depressiva.
A partir daí Cora fazia de tudo para eu ser uma filha e aluna exemplar. Seu modo autoritário me deixava enclausurada no meu próprio corpo, fazendo-me pensar em até fugir por medo.
E foi o que eu fiz, ao menos tentei fazer.
Eu e meu noivo, Daniel, concordamos em pegar algum dinheiro e se mandar daquela cidadezinha do Maine. Mas Cora soube e o plano furou. No outro dia, recebi a notícia de que meu noivo estava morto. Nunca mais desobedeci minha mãe novamente.
O ódio de Cora por advogados nasceu de um dia para o outro e sem nenhuma explicação, porém sempre achei que era por causa de Gold ser dono de uma das maiores – e melhores – firmas de advocacia dos Estados Unidos da América.
E é também o lugar onde eu trabalho.
Trabalho na Gold’s Advocacy desde que terminei a faculdade de direito, e pretendo ficar para sempre. Senti-me realizada quando meu padrasto me convidou para trabalhar na sua firma, em Nova York. Eu queria muito trabalhar, pois eu estava falida e minha mãe nem pensava em me ajudar na carreira de seus pesadelos. Então, era uma chance única de deixar aquela cidade de interior que guardava a meu passado, um passado que é muito além do que uma péssima mãe para me dar exemplo.
Advocacia hoje não é mais uma vingança pessoal, é a minha vida. Eu sou hoje uma das melhores advogadas, principalmente do direito civil, do País com apenas 35 anos de idade. Quase todas as empresas e órgãos de governo me querem para defendê-los nos tribunais. Sou conhecida nesse mundo como A Mulher que Faz Chover, um astro jovem e brilhante com o toque de Midas*.
- Bom dia, doutora Mills.
- Bom dia, Ariel.
Entrei na minha sala com Ariel em meu encalço. Seu aparecimento logo quando chego significa dia inteiro de trabalho. Ariel é secretária de Úrsula, uma das advogadas da empresa, sua área é de direito ambiental. Ariel está substituindo a minha secretária que se demitiu por... Bem... Eu sou um pouco exigente.
- Doutora Mills, desculpe-me por falar isso de novo. É que – Ariel gaguejava, como quase sempre fazia ao falar comigo. – Tenho muito trabalho e... não é que eu esteja reclamando, porém...
- Ariel! – Gritei, jogando as pastas que eu tinha em mãos na mesa, e fazendo a pobre garota pular de susto. – Se quer falar algo, fale com convicção, certeza! Não tenho tempo pra adivinhar o que você quer dizer! – Sentei em minha cadeira de couro, frustrada por essa hora da manhã já ter problemas insignificantes pra resolver.
- Senhorita Mills, eu tenho o maior orgulho de trabalhar com a grandiosa Mills, mas é que...
- Já sei – Eu a cortei. – Você não pode mais trabalhar para as duas ao mesmo tempo? – Ela assentiu receosa. – Ainda essa semana encontrarei uma que lhe substitua, ok? Agora, entregue-me o que temos pra hoje.
- Bem, hoje tem o encontro com aquele casal do divórcio que são bem famosos, assinar uns documentos na prefeitura, encontro com o advogado da outra parte e o jantar á noite com...
- Regina, minha querida!
Gold entrou em minha sala como um furacão. Ele estava com seu famoso terno preto risca-giz e um enorme sorriso no rosto. Ele quer alguma coisa.
- Ariel, discutimos isso depois – Dirigir-me a Ariel, que prontamente saiu da sala. – Gold, o que o traz a essa hora da manhã a minha sala? – Referir-me a ele com um sorriso, que deve ter saído mais falso que os casacos da minha mãe.
- Preciso de um favor. – Agora Gold tirou o enorme sorriso por olhos implorantes.
- Gold, eu não quero mais mexes nenhum pauzinho pra você. Sabe o que aconteceu da ultima vez?! – Falei suspirando. Aquele lenga-lenga mais uma vez ia me deixar com enxaqueca.
- Não é nada disso – Ele disse, fazendo uma expressão de chocado. Fingido. – Belle me pediu um favor, entretanto não posso fazê-lo. Estou muito ocupado com o acorde de Cartel. Então, depois de mim, você é a única que confio para isso.
- Já parou pra pensar que essa garota pode estar te usando? E você traiu ela, Rumple, com Cruella! – Disse cética. Belle é sua secretária particular vinda da mesma cidade que nós e desde então ele diz ser “apaixonado” pela garota. Claro, nunca acreditei. Essa coisa de opostos se atraem ou amor à primeira vista não cola comigo. Gold é rico e famoso. Quem garante que essa garota gosta mesmo dele?
- Isso só foi uma vez! – Gold se defendeu. Ri irônica. Evidentemente uma vez.
Cruella é uma das advogadas que trabalha aqui. Pode-se considerar uma amiga minha, tanto quanto Úrsula. Sua especialidade é casos de divórcio e falência. Odeio admitir, ela é boa no que faz.
- Regina, por favor – Continuou ele. – Belle nunca me pede nada. E você vai querer quando contar! Um caso de Storybrooke!
Storybrooke. Aquele nome me dar arrepios. Há anos que não penso na minha cidade natal.
- De jeito nenhum! – Quase gritei.
- Regina!
- Você sabe muito bem o porquê!
- Você acha que eu gosto daquela cidade? Aquele fim de mundo? – Ele respirou fundo antes de continuar. – Querida, você é como uma filha pra mim. Eu fiz parte da sua criação. Por favor...
Aquela revelação realmente me chocou. Rumple eu sempre tivemos uma relação boa, mas não imaginava que era tão importante pra ele.
- Tudo bem – Disse por vencida. – Só espero que não seja alguém que eu conheça.
Após eu dizer, Gold ficou sério e desviou o olhar a parede, como um menino que aprontou.
- Quem é, Gold? – Perguntei desconfiada.
- Não sei. Conhecidos da Belle. – Ele disse ainda desviando o olhar.
- Gold, Gold, Gold – Fitei-o. – Espero que não esteja mentindo.
Ele só assentiu com a cabeça.
- Ok. Dê-me um sumário do caso para eu dar uma olhada. Amanhã eu lhe digo. – Terminei e me concentrei nos papéis em cima de minha mesa.
- É... Regina. – Gold chamou. – Digamos que eu quero que você veja esse caso antes.
- Antes quando? – Perguntei sem muito interesse.
- Tipo... Agora.
- O quê? Gold, eu estou atolada de tarefas pra fazer! Não posso cancelar meus compromissos só por causa de um dos seus caprichos! – Agora eu realmente gritei. Além de ter que lidar com alguém de Storybrooke, teria que cancelar compromissos importantes?!
- Eu não pude fazer nada! Só soube disso hoje e o casal já ta aí! — Gold tentou se explicar. – E não se preocupe com compromissos. Tenho certeza que vão adorar ver o chefe da firme no seu lugar.
- Rumple, não é uma boa ideia. Sua área é empresarial.
- Acha que eu não posso lidar com isso?
- Não coloque palavras na minha boca! Só estou dizendo que... Ah! Tanto faz! Isso tiraria um peso das minhas costas mesmo.
- Ótimo. Pegarei sua agenda com a secretária. Prefere que eu fale sobre o caso ou um manuscrito?
- Se esse casal já está aqui então é melhor você falar.
Gold começou a explicar. E a cada palavra sinto uma aura de sensacionalismo.
***
O Resumo desse caso é bem interessante e, melhor, podemos leva-lo ao tribunal e sair ganhando.
Um casal jovem paga um seguro de saúde há mais ou menos 5 anos. Nunca deixou de pagar, porém agora o pai de um dos dois precisa de um transplante de coração, o que está incluso na apólice do seguro-saúde. O problema é que consta na apólice esse transplante, mas a empresa não quer pagar. Gold disse que a Long Life — a empresa do seguro-saúde – mandou várias cartas, e com elas várias desculpas.
O casal não tem dinheiro. E, se a Long Life não pagar o transplante, o pai irá morrer em poucos meses.
Tenho raiva de seguros-saúde e já processei vários deles. Eles nunca apresentam todos os documentos necessários, o que quer dizer que tem mais fraudes do que já está sendo processada. Não imagina o quanto aqueles desgraçados roubam por cliente.
Só preciso dar uma olhada na apólice e alguns documentos. Tenho certeza que posso convencer qualquer júri. Isso vai ser fácil.
Um sorriso malicioso está estampado em meu rosto.
Porque eu vou foder essa empresa.
***
Fiz um rápido sumário com as ideias mais importantes sobre o caso. Mesmo já tendo participado de vários como esse, ainda sinto uma ansiedade. Enfrentar um tribunal não é pra qualquer um. Lembro a primeira vez que fui a um tribuna. A visão do juiz com seu manto negro me causou um arrepio até a espinha. Pedi licença e fui vomitar no banheiro.
Quando eu penso que é um casal da minha cidade natal da mais ansiedade ainda. Já consigo imaginar a dona da lanchonete. “Gina, como você cresceu garota! Iaí? Conte-me sobre os paqueras!”. Argh!
Antes de sair da minha sala, reparei-me mais uma vez no espelho. Vestido justo azul marino um palmo acima do joelho, blazer preto de linho, saltos scarpin mais ou menos seis centímetros preto. Ainda sinto que tem algo faltando. Sempre sinto isso. Minha mãe dizia que era por isso que não conseguia ir pra frente.
Olha onde eu estou, mãe.
Entro na sala de reuniões de costas, visto que minhas mãos estão ocupadas de milhares de documentos parecidos com o caso ou que Gold me deu. Já começo com o pé esquerdo. Péssimo, Regina Mills, Péssimo.
A partir do momento que eu me viro todos os papéis caem no chão.
- Regina...
- ... Você que vai nos ajudar?
Eu nem imaginava que depois desse episódio minha vida próspera e equilibrada ia dar um giro de 180°.
Notas finais
Gostaram? É a minha primeira fic longa e na primeira pessoa (eu sou péssima sendo narrador personagem). Tenham paciência, ok?
Gente, qualquer dúvida sobre o tema de Direito é só perguntar. Sei que tem muita gente que não entende esse labirinto infinito que é o estudo do Direito.
Um até breve?
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